{"id":7571,"date":"2024-01-09T12:12:03","date_gmt":"2024-01-09T12:12:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7571"},"modified":"2024-01-09T12:12:04","modified_gmt":"2024-01-09T12:12:04","slug":"viagem-ao-sol-o-pais-sombrio-que-salazar-maquilhava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/01\/09\/viagem-ao-sol-o-pais-sombrio-que-salazar-maquilhava\/","title":{"rendered":"\u201cViagem ao sol\u201d:\u00a0o pa\u00eds sombrio\u00a0que Salazar maquilhava"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cViagem ao Sol\u201d \u00e9 composto por imagens de arquivo in\u00e9ditas (fotografias e filmes dom\u00e9sticos), sobre as quais vamos escutando v\u00e1rias vozes. Trata-se de testemunhos daqueles que, em idade precoce, sa\u00edram da \u00c1ustria, para viver temporariamente no nosso pa\u00eds. Esta \u00e9 uma polifonia sem necessidade de mostrar os rostos do presente. Tudo ganha for\u00e7a dram\u00e1tica na articula\u00e7\u00e3o entre as imagens do passado e o exerc\u00edcio de mem\u00f3ria que fazem agora em adultos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O pa\u00eds maquilhado que Salazar criou<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio de \u201cViagem ao Sol\u201d, sobre imagens de destrui\u00e7\u00e3o surgem relatos das consequ\u00eancias da guerra na \u00c1ustria: a fome, os inc\u00eandios, e o medo que os adultos passavam para os mais pequenos. Uma testemunha refere que era um mundo sem cor: vestiam-se de escuro, tudo era negro; s\u00f3 viu cores quando chegou a Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estas crian\u00e7as vinham convalescer da fraqueza para um pa\u00eds com sol, ameno e distante das feridas da guerra. Mas as guerras viviam-se noutros moldes por c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pais de acolhimento n\u00e3o as deixavam contactar com os criados; n\u00e3o lhes era permitido brincar com crian\u00e7as pobres e analfabetas. A maioria delas, passou da luta pela sobreviv\u00eancia no pa\u00eds de origem, para um conforto social e econ\u00f3mico que escamoteava a realidade em quase todos os portugueses viviam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Igreja e Estado estavam unidos nesta miss\u00e3o de \u201cmaquilhagem\u201d, atrav\u00e9s da caridade.\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>Por exemplo, na viagem de vinda por mar, as crian\u00e7as eram obrigadas a fazer uma prociss\u00e3o de velas, enquanto rezavam. Um dos apan\u00e1gios salazaristas era a adora\u00e7\u00e3o a F\u00e1tima e \u00e0 religi\u00e3o cat\u00f3lica. S\u00e3o v\u00e1rias as fotografias de crian\u00e7as agarradas a ter\u00e7os e b\u00edblias, e at\u00e9 vestidas de anjo. Vemos o Santu\u00e1rio da Cova de Iria nos anos 40 do s\u00e9culo XX, enquanto escutamos uma testemunha a falar da sua revolta contra as apari\u00e7\u00f5es. Se Nossa Senhora apareceu, por que \u00e9 que n\u00e3o ensinou os pastores a ler e a escrever, e lhes pediu antes para rezar?, pergunta, em tom de desabafo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na folha de sala que acompanhou a ante-estreia do filme, na Cinemateca Portuguesa, os realizadores escrevem:&nbsp;<em>\u201cHabitualmente, colocadas \u00e0 margem da hist\u00f3ria e na margem das imagens hist\u00f3ricas, o olhar das crian\u00e7as \u00e9, no entanto, poderoso e revelador. O que viram estas crian\u00e7as? Como viveram o per\u00edodo de p\u00f3s-conflito? Que nos diz esta experi\u00eancia acerca dos dias de hoje?\u201d<\/em>S\u00e3o importantes os lastros que \u201cViagem ao Sol\u201d deixa no espectador. Como \u00e9 que hoje falamos sobre os traumas da guerra para as crian\u00e7as que a viveram(vivem)? E, em rela\u00e7\u00e3o a Portugal, que consequ\u00eancias pessoais e colectivas teve o trauma de vivermos quase meio s\u00e9culo sob um regime opressor?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contra o esquecimento dos valores\u00a0da igualdade e liberdade<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Estas pessoas guardam, maioritariamente, boas mem\u00f3rias dos tempos em que estiveram no nosso pa\u00eds. Apesar da sua tenra idade, percebiam que havia uma forte e injusta estratifica\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, e que viviam protegidas pela riqueza e ostenta\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias de acolhimento, todas elas coniventes com a ditadura. Uma mulher conta como Salazar enviava todos os anos uma caixa de ananases para a sua fam\u00edlia, e de como tinha de o visitar sempre que voltava a Portugal, ou partia para a \u00c1ustria. Outro testemunho lembra que as criadas n\u00e3o tinham descanso e raramente iam a casa; essa menina ensinou a cozinheira analfabeta a escrever o seu nome (na \u00c1ustria, conta, toda a gente sabia ler e escrever). Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o era analfabeta. N\u00e3o existia qualquer tipo de protec\u00e7\u00e3o social; muitas crian\u00e7as eram obrigadas a trabalhar, para ajudar no sustento familiar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cViagem ao Sol\u201d destaca-se pelo registo da mem\u00f3ria como patrim\u00f3nio imaterial e heran\u00e7a futura para as gera\u00e7\u00f5es mais novas. Para que a igualdade de direitos, a liberdade de express\u00e3o, e a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida do povo n\u00e3o ca\u00edam no esquecimento com o passar dos anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O filme de Ansgar Schaefer e Susana de Sousa Dias, \u201cViagem ao Sol\u201d, recentemente estreado nos cinemas nacionais, aprofunda um acontecimento pouco conhecido da Hist\u00f3ria Contempor\u00e2nea: o acolhimento de milhares de crian\u00e7as em Portugal, ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7572,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7571"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7571"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7571\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7574,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7571\/revisions\/7574"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7571"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7571"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7571"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7571"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}