{"id":7567,"date":"2024-01-09T12:06:28","date_gmt":"2024-01-09T12:06:28","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7567"},"modified":"2024-02-09T10:04:03","modified_gmt":"2024-02-09T10:04:03","slug":"esequibo-a-disputa-territorial-entre-a-venezuela-e-a-guiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/01\/09\/esequibo-a-disputa-territorial-entre-a-venezuela-e-a-guiana\/","title":{"rendered":"Esequibo, a disputa territorial entre a Venezuela e a Guiana"},"content":{"rendered":"\n<p>A Guiana com 214 969 km\u00b2, mais do dobro de Portugal, tem cerca de 760 mil habitantes, dos quais 200 mil vivem na capital Georgetown. Foi a \u00fanica col\u00f3nia brit\u00e2nica na Am\u00e9rica do Sul. O territ\u00f3rio em disputa corresponde \u00e0 regi\u00e3o do Esequibo, que deve o nome ao rio que atravessa o pa\u00eds. Os mapas oficiais da Venezuela incluem este territ\u00f3rio desde que existe enquanto pa\u00eds e o pleito remonta ao princ\u00edpio do s\u00e9culo XIX. A cartografia da coroa espanhola inclu\u00eda j\u00e1 o Esequibo na Venezuela. A geografia desta regi\u00e3o com 159 542 km\u00b2, e onde vivem 128 mil pessoas, est\u00e1 marcada por paisagens selv\u00e1ticas, enormes forma\u00e7\u00f5es rochosas e rios caudalosos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Espanha colonizou esta parte da Am\u00e9rica do Sul j\u00e1 viviam ali v\u00e1rias tribos aruaques. Afetados pelas doen\u00e7as trazidas da Europa pelos conquistadores e submetidos a um genoc\u00eddio, a trag\u00e9dia assolou as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias. Em 1777, o Imp\u00e9rio espanhol fundou a Capitania Geral da Venezuela, uma divis\u00e3o territorial que inclu\u00eda o Esequibo. Quando, em 1811, a Venezuela conquista a independ\u00eancia, essa regi\u00e3o mant\u00e9m-se dentro do novo pa\u00eds. Tr\u00eas anos depois, o Reino Unido adquiriu a Guiana atrav\u00e9s de um acordo com os Pa\u00edses Baixos. Esse territ\u00f3rio, com apenas 51.700 km\u00b2, n\u00e3o tinha as fronteiras ocidentais definidas. S\u00f3 29 anos mais tarde, em 1840, \u00e9 que Londres designa o explorador Robert Schomburgk para definir a fronteira que acabar\u00e1 por receber o seu nome num tra\u00e7ado que faz crescer a Guiana em mais 80 mil km\u00b2. \u00c9 no ano seguinte que a Venezuela denuncia uma incurs\u00e3o no seu territ\u00f3rio. Em 1886, h\u00e1 uma nova vers\u00e3o da Linha Schomburgk que inclui uma \u00e1rea ainda maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem poder fazer frente ao Imp\u00e9rio brit\u00e2nico, a Venezuela pede ajuda aos Estados Unidos que denunciam que a fronteira da Guiana tinha aumentado de \u201cforma misteriosa\u201d e recomendam que a disputa se resolva atrav\u00e9s de um tribunal internacional. Em 1899, esse \u00f3rg\u00e3o, em Paris, decidiu a favor do Reino Unido. Os ju\u00edzes eram brit\u00e2nicos, norte-americanos e o presidente do \u00f3rg\u00e3o era russo. Nenhum venezuelano participou nessa decis\u00e3o. Em 1899, Caracas protestou acusando a decis\u00e3o de estar viciada. J\u00e1 depois da Segunda Guerra Mundial, em 1949, \u00e9 tornado p\u00fablico um memorando do advogado norte-americano Severo Mallet-Prevost, que fez parte da defesa da Venezuela na senten\u00e7a arbitral de Paris, no qual alega que a senten\u00e7a foi um compromisso pol\u00edtico e que os ju\u00edzes n\u00e3o foram imparciais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a cria\u00e7\u00e3o da ONU, a Venezuela aproveita o processo de descoloniza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios pa\u00edses para denunciar a ocupa\u00e7\u00e3o da Guiana Esequiba. Em 1966, tr\u00eas meses antes de conceder a independ\u00eancia \u00e0 Guiana, o Reino Unido assina o Acordo de Genebra com a Venezuela, onde reconhece a reivindica\u00e7\u00e3o da Venezuela e procura encontrar solu\u00e7\u00f5es satisfat\u00f3rias para resolver o diferendo. Esse documento obriga as partes a chegar a um entendimento de forma acordada atrav\u00e9s da negocia\u00e7\u00e3o. A Guiana torna-se, entretanto, independente e Londres, como fez com muitas outras col\u00f3nias, incluindo a Palestina, abandona qualquer vontade de resolver o problema.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1969, um levantamento ind\u00edgena tenta criar um governo pr\u00f3prio e \u00e9 derrotado pelas for\u00e7as armadas da Guiana. Os rebeldes pedem ajuda \u00e0 Venezuela que se abst\u00e9m de intervir na regi\u00e3o. Na \u00e9poca, Georgetown acusou Caracas de estar por tr\u00e1s da insurrei\u00e7\u00e3o. De 1964 a 1985, o progressista Forbes Burnham, em diferentes cargos, esteve \u00e0 frente da Guiana, levando o pa\u00eds para o Movimento dos N\u00e3o Alinhados. \u00c9 neste per\u00edodo que Fidel Castro anuncia que defende a integridade territorial da Guiana, incluindo o Esequibo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das d\u00e9cadas, houve v\u00e1rias negocia\u00e7\u00f5es entre a Venezuela e a Guiana sem que se tenha chegado a algum acordo. Em 2004, Hugo Ch\u00e1vez, ent\u00e3o presidente da Venezuela, visitou Georgetown e n\u00e3o se op\u00f4s \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de infraestruturas no Esequibo, desde que isso beneficiasse a popula\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, a petrol\u00edfera norte-americana Exxon anunciou a descoberta de petr\u00f3leo em \u00e1guas da Guiana Esequiba. Com o apoio de Washington, a Guiana muda de comportamento. Decide de forma unilateral levar a disputa territorial ao Tribunal Internacional de Justi\u00e7a (TIJ) para que reconhe\u00e7a a decis\u00e3o viciada de 1899. Caracas argumentou que o TIJ n\u00e3o tem jurisdi\u00e7\u00e3o e que foi escolhido de forma unilateral por Georgetown. Em 2016, a Exxon anuncia a descoberia de novas reservas de petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a Venezuela, \u00e9 o Acordo de Genebra, de 1966, que est\u00e1 vigente e que obriga as partes a negociar. O TIJ anunciou que tinha compet\u00eancia para julgar o caso e rejeitou os argumentos de Caracas. Nesse sentido, em novembro, a Venezuela celebrou um referendo para perguntar aos venezuelanos sobre qual devia ser o destino do Esequibo. A esmagadora maioria defendeu que aquele territ\u00f3rio \u00e9 venezuelano. Figuras importantes da oposi\u00e7\u00e3o, incluindo Juan Guaid\u00f3 e Henrique Capriles, apoiaram a pretens\u00e3o de reclamar o territ\u00f3rio do Esequibo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, gra\u00e7as aos ganhos com o petr\u00f3leo, o crescimento do PIB na Guiana tem sido espectacular: 62,3% em 2022, 38,4% em 2023 e 26,6% este ano. Em 1966, quando assinou o Acordo de Genebra com a Venezuela, a Guiana exportava sobretudo arroz e a\u00e7\u00facar. Hoje, produz 390 mil barris de crude por dia, quando em 2019 produzia somente mil. Neste momento, prev\u00ea-se que as reservas da Guiana tenham tanto petr\u00f3leo como o Brasil inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da Ucr\u00e2nia \u00e0 Palestina, tenta-se apagar o contexto hist\u00f3rico para que se pense que tudo come\u00e7ou a partir da data que mais interessa a um dos lados. Independentemente do \u00e2ngulo com que se aborde a tens\u00e3o entre a Venezuela e a Guiana, a crise pol\u00edtica entre os dois pa\u00edses n\u00e3o come\u00e7ou este ano e n\u00e3o \u00e9 apenas responsabilidade de Caracas e Georgetown. \u00c9, sobretudo, consequ\u00eancia do colonialismo europeu.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7568,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7567"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7567"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7567\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7677,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7567\/revisions\/7677"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7568"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7567"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7567"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7567"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7567"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}