{"id":7524,"date":"2024-01-09T11:08:48","date_gmt":"2024-01-09T11:08:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7524"},"modified":"2024-01-18T09:44:30","modified_gmt":"2024-01-18T09:44:30","slug":"90-anos-da-greve-de-18-de-janeiro-uma-revolta-antifascista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2024\/01\/09\/90-anos-da-greve-de-18-de-janeiro-uma-revolta-antifascista\/","title":{"rendered":"90 anos da greve de 18 de janeiro: uma revolta antifascista"},"content":{"rendered":"\n<p>Salazar teve medo, naquela noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi para o quartel do ex\u00e9rcito que funcionava onde hoje est\u00e1 a Universidade Nova de Lisboa, em Campolide. E s\u00f3 de l\u00e1 saiu \u00e0s 9 da manh\u00e3.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele e quase todos os seus ministros.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto segundo as informa\u00e7\u00f5es veiculadas pelo pr\u00f3prio regime [Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 19\/01\/1934, p.2].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Armas<\/h2>\n\n\n\n<p>Para a cidade de Lisboa, foi uma noite de ministros no quartel e tropas na rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cPassavam poucos minutos da meia noite\u201d<\/em>, j\u00e1&nbsp;<em>\u201cfor\u00e7as de Pol\u00edcia come\u00e7avam a concentrar-se nas esquadras\u201d<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>\u201cguardas tomaram as embocaduras do Rossio. As imedia\u00e7\u00f5es do Governo Civil foram por igual ocupadas\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez,&nbsp;<em>\u201cos espect\u00e1culos teatrais, ainda a funcionar, terminaram apressadamente, por ordem da pol\u00edcia\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a&nbsp;<em>\u201ccaf\u00e9s, restaurantes, casas de pasto, clubs e outros recintos de divers\u00f5es foram intimados a encerrar\u201d \u00e0 1 da manh\u00e3.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>No hist\u00f3rico Caf\u00e9 Nicola, no Rossio,&nbsp;<em>\u201centraram alguns guardas da PSP, armados de carabinas, que, juntamente\u201d<\/em>&nbsp;com agentes da \u00abPIDE\u00bb,&nbsp;<em>\u201crevistaram todos os fregueses\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m entraram em a\u00e7\u00e3o&nbsp;<em>\u201cdestacamentos do Ex\u00e9rcito e da Marinha\u201d<\/em>, com&nbsp;<em>\u201crigorosa vigil\u00e2ncia em torno dos quart\u00e9is\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos bairros considerados como&nbsp;<em>\u201ccentros oper\u00e1rios\u201d<\/em>&nbsp;foram colocadas sentinelas a cavalo e&nbsp;<em>\u201cpostos com metralhadoras\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas movimenta\u00e7\u00f5es ter\u00e3o sido&nbsp;<em>\u201csobretudo not\u00f3rias nas imedia\u00e7\u00f5es das f\u00e1bricas [&#8230;] das esta\u00e7\u00f5es dos \u00abel\u00e9ctricos\u00bb e dos caminhos de ferro\u201d<\/em>. Mas&nbsp;<em>\u201ctamb\u00e9m esteve rigorosamente vigiado o Secretariado da Propaganda<\/em>&nbsp;<em>e a sede da Pol\u00edcia de Vigil\u00e2ncia e Defesa do Estado\u201d<\/em>&nbsp;[D.N., 19\/01\/1934, p.2].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Hitler<\/h2>\n\n\n\n<p>Salazar estava a dar um passo fulcral na transforma\u00e7\u00e3o da ditadura militar num regime de tipo fascista: a dissolu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos antigos sindicatos livres.<\/p>\n\n\n\n<p>Adolf Hitler tinha feito o mesmo na Alemanha, uns meses antes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Salazar ia substitu\u00ed-los pelos chamados \u201csindicatos nacionais\u201d, controlados pelo governo. Seguindo nesta mat\u00e9ria o modelo fascista italiano que tinha sido estabelecido por Mussolini, em 1927, com a \u201cCarta del Lavoro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Divis\u00f5es<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo dados oficiais, apenas 7% dos antigos sindicatos aceitaram submeter-se \u00e0 \u2018nova ordem\u2019 [Boletim do Instituto Nacional do Trabalho e da Previd\u00eancia, 16\/04\/1934, p.2].<\/p>\n\n\n\n<p>E nessa minoria h\u00e1 que distinguir os que, longe de apoiar a ditadura, apenas buscavam manter uma a\u00e7\u00e3o coletiva na legalidade. Foi o caso, por exemplo, dos oper\u00e1rios tabaqueiros de Lisboa, que estavam num processo negocial sobre pens\u00f5es de reforma.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, naquela noite, e depois durante o dia &#8211; 18 de Janeiro de 1934, a ditadura n\u00e3o teve dificuldade em sufocar uma tentativa de greve geral.<\/p>\n\n\n\n<p>A classe trabalhadora estava desmobilizada e n\u00e3o aderiu, com excep\u00e7\u00e3o de alguns focos, como Almada, Barreiro e Marinha Grande.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolta partiu de um movimento sindical que j\u00e1 estava muito enfraquecido e dividido. As diferentes correntes envolvidas (anarquistas, comunistas, socialistas e \u201caut\u00f3nomos\u201d) n\u00e3o conseguiram concretizar uma estrat\u00e9gia comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a \u00abPIDE\u00bb antecipou-se. E travou a prepara\u00e7\u00e3o da greve ao prender v\u00e1rios dos seus principais organizadores, como Ac\u00e1cio Tom\u00e1s de Aquino, Jos\u00e9 Francisco e M\u00e1rio Castelhano (dirigentes da CGT).<\/p>\n\n\n\n<p>Ao todo, segundo contabilizou a historiadora F\u00e1tima Patriarca, cerca de 700 pessoas foram presas em liga\u00e7\u00e3o com esta tentativa de greve. E algumas delas j\u00e1 n\u00e3o sa\u00edram com vida das m\u00e3os da \u00abPIDE\u00bb &#8211; como foi o caso de M\u00e1rio Castelhano.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fascismo<\/h2>\n\n\n\n<p>O 18 de Janeiro tornou-se um marco na hist\u00f3ria da resist\u00eancia ao fascismo em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>E corresponde ao quadro te\u00f3rico tra\u00e7ado pelo marxista austr\u00edaco Otto Bauer. Este salientava que o triunfo do fascismo ocorre depois de a classe trabalhadora j\u00e1 estar \u201cenfraquecida e for\u00e7ada \u00e0 defensiva\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Bauer, a ditadura fascista tem o objetivo de \u201cdestruir\u201d os sindicatos e o \u201cpoder pol\u00edtico\u201d dos trabalhadores, num contexto de crise econ\u00f3mica. Como forma de impedir a sua resist\u00eancia a medidas que incidam o custo da crise sobre os trabalhadores, para proteger os lucros da burguesia [Beetham (1984),&nbsp;<em>Marxists in face of fascism<\/em>, pp.294\/5].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Voz do Oper\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio n\u00e3o passou inc\u00f3lume por estes acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde logo pelas liga\u00e7\u00f5es pessoais: o sindicalista M\u00e1rio Castelhano era marido de uma professora desta coletividade. E entre os presos pol\u00edticos do 18 de Janeiro esteve o sindicalista J\u00falio Lu\u00eds, que at\u00e9 poucos meses antes, tinha sido o presidente da assembleia geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o testemunho de Manuel Rijo, dirigente da CGT, a sede de A Voz do Oper\u00e1rio foi um ponto de distribui\u00e7\u00e3o de propaganda \u00e0 greve geral [Aquino&nbsp;<em>et al.<\/em>&nbsp;(1984),&nbsp;<em>O 18 de janeiro de 1934 e alguns antecedentes<\/em>, p.126].<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 que contar tamb\u00e9m as tr\u00eas escolas de A Voz do Oper\u00e1rio que foram encerradas pela ditadura porque funcionavam nas sedes de sindicatos dissolvidos: dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil e dos metal\u00fargicos, em Lisboa; e dos tanoeiros, em Almada.<\/p>\n\n\n\n<p>E n\u00e3o devem ser esquecidas as duas mudan\u00e7as que a \u201cDire\u00e7\u00e3o dos Servi\u00e7os de Censura\u201d ent\u00e3o imp\u00f4s no cabe\u00e7alho deste jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio nasceu no seio de um sindicato de oper\u00e1rios da ind\u00fastria de tabaco, para dar voz \u00e0s suas lutas. E desde o primeiro n\u00famero, em 1879, que se apresentava como \u201c\u00f3rg\u00e3o dos manipuladores de tabaco\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1907, fora acrescentado \u201ce do operariado em geral\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois a partir de 1934 teve que ficar n\u00edtida a separa\u00e7\u00e3o entre A Voz do Oper\u00e1rio e qualquer sindicato, mesmo \u201cnacional\u201d. Este jornal passou ent\u00e3o a s\u00f3 poder dizer que tinha sido \u201cfundado pelos manipuladores de tabaco\u201d. E foi ainda identificado como \u201c\u00f3rg\u00e3o privativo\u201d da sociedade A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salazar teve medo, naquela noite. Foi para o quartel do ex\u00e9rcito que funcionava onde hoje est\u00e1 a Universidade Nova de Lisboa, em Campolide. E s\u00f3 de l\u00e1 saiu \u00e0s 9 da manh\u00e3. Ele e quase todos os seus ministros. Isto segundo as informa\u00e7\u00f5es veiculadas pelo pr\u00f3prio regime [Di\u00e1rio de Not\u00edcias, 19\/01\/1934, p.2]. 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