{"id":7506,"date":"2023-12-12T23:04:52","date_gmt":"2023-12-12T23:04:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7506"},"modified":"2023-12-12T23:04:53","modified_gmt":"2023-12-12T23:04:53","slug":"remedio-a-loucura-ou-a-luta-pela-sanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/12\/remedio-a-loucura-ou-a-luta-pela-sanidade\/","title":{"rendered":"\u201cRem\u00e9dio\u201d: a loucura ou a luta pela sanidade?\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Vale a pena ir ver \u201cRem\u00e9dio\u201d no Teatro da Polit\u00e9cnica. \u201cRem\u00e9dio\u201d pe\u00e7a de Enda Walsh, dramaturgo irland\u00eas nascido em 1967, que os Artistas Unidos, pela encena\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Sim\u00f5es, voltam a traz a palco. \u00c9 num turbilh\u00e3o de acontecimentos que somos lan\u00e7ados depois de vermos John Kane, interpretado por R\u00faben Gomes, entrar num sal\u00e3o. Bal\u00f5es a completar a Parab\u00e9ns, uma mesa com os restos do que foi uma festa. John, de pijama, percorre o espa\u00e7o, e dirige-se a um canto, onde se senta, numa cabine, a escutar uma voz que lhe pergunta como se sente. John demora a responder. Est\u00e1 nervoso. Entra apressada, Mary (papel que coube \u00cdris Runa, \u00e0 bailarina de forma\u00e7\u00e3o) ou melhor, o \u201cVelho\u201d, m\u00e1scara que a rapariga ainda traz de outro trabalho. Faz exerc\u00edcios, p\u00f5e m\u00fasica, prepara-se para o que se vai seguir. Entra tamb\u00e9m a lagosta, o fato que traja a outra Mary (Maria Jorge), que tamb\u00e9m vem de outro trabalho, uma festa infantil. As duas n\u00e3o se conhecem, mas t\u00eam uma miss\u00e3o que envolve John, que ainda n\u00e3o \u00e9 clara para quem v\u00ea estas figuras ins\u00f3litas em palco. De facto, Mary 1 e Mary 2 s\u00e3o tamb\u00e9m actrizes na pe\u00e7a. Entram tamb\u00e9m um baterista que acompanha tudo o que se segue. Mary lagosta faz perguntas a John, este tamb\u00e9m lhe pergunta pelos seus sonhos. Mary improvisa: inventa e interpreta esse sonho que teve com um unic\u00f3rnio. Mary ajuda-a nessa representa\u00e7\u00e3o, a m\u00fasica d\u00e1 o ritmo. John observa, imp\u00e1vido. At\u00e9 que assume o lugar em frente ao microfone, e come\u00e7a a ler o que escreveu sobre si. Escutamos e vemos v\u00e1rios epis\u00f3dios da sua vida, que arrancam no nascimento. Momentos de com\u00e9dia que as Mary v\u00e3o interpretando, mudando vertiginosamente de figurino.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Vai sendo percept\u00edvel que John est\u00e1 num hospital, perguntam-lhe as vozes e Mary Lagosta: E por que \u00e9 que veio para aqui? Quem \u00e9 que teve a ideia de vir para aqui? John n\u00e3o sabe h\u00e1 quanto tempo ali est\u00e1, \u00e9 dif\u00edcil responder \u00e0s raz\u00f5es. Foram os pais, o m\u00e9dico da cidade. Pelos relatos da sua biografia, por aquilo que John vai trazendo tamb\u00e9m \u00e0 consci\u00eancia conclu\u00edmos que foi violentado por outro mi\u00fados, que os pais o negligenciaram, e que houve em tempo Valerie. A rapariga, que conheceu no hospital, era aquela que via perto do muro, com quem estabeleceu amizade, por quem se apaixonou. Valerie \u00e9 a esperan\u00e7a num mundo fora do horizonte limitado daquela institui\u00e7\u00e3o. Nem isso lhe foi permitido. Liam, o guarda, violenta-a. Com o desaparecimento de Valerie fecha-se uma cortina na vida de John, que sente culpa, ang\u00fastia, vazio, e todo o turbilh\u00e3o de sentimentos e mem\u00f3rias traum\u00e1ticas se confundem: \u201cComo \u00e9 escura a noite l\u00e1 fora\u201d, confessa. Por que \u00e9 que est\u00e1 ali? Conseguimos concluir os motivos que levaram outros a protelar aquele internamento. E qual a miss\u00e3o das duas actrizes: fazer com que a reactiva\u00e7\u00e3o dos momentos de trauma provoquem algum reconhecimento em John. Ser\u00e1 isso rem\u00e9dio para os al\u00edvios do sofrimento e da ansiedade que as perdas e abandonos sucessivos causaram no jovem? A vertigem de tudo o que em quase duas horas acontece: as m\u00e1scaras, o acompanhamento da bateria, os adere\u00e7os que conta as v\u00e1rias mini-hist\u00f3rias com as representa\u00e7\u00f5es peculiares, as personalidades das actrizes quando est\u00e3o a representar ara John e n\u00e3o s\u00f3 tudo nos cria uma ambiente intimista, onde o c\u00f3mico e a ironia seve para sublinhar a delicadeza da situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica: a loucura \u00e9 apenas uma consequ\u00eancia dos outros loucos. A loucura est\u00e1 dentro e fora de um hospital. A loucura \u00e9 o rem\u00e9dio para a outra loucura. Ou apenas o teatro como aprofundamento das emo\u00e7\u00f5es e do lugar da dor &#8211; e a interpreta\u00e7\u00e3o soberba de tr\u00eas actores (e os ritmos do baterista Pedro Domingos). John diz: \u201cEu n\u00e3o sou bem como as outras pessoas.\u201d, e acrescenta: \u201cAs pessoas n\u00e3o gostam de mim porque eu n\u00e3o sou bem como elas.\u201d A sua (a)normalidade resulta da loucura dos outros. Talvez os l\u00facidos sejam ele: internado, a lagosta e a rapariga que entra como se de um velho se tratasse. Porque brincam \u00e0 consci\u00eancia desse passado traum\u00e1tico, \u00e0 frente dos olhos e do futuro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vale a pena ir ver \u201cRem\u00e9dio\u201d no Teatro da Polit\u00e9cnica. \u201cRem\u00e9dio\u201d pe\u00e7a de Enda Walsh, dramaturgo irland\u00eas nascido em 1967, que os Artistas Unidos, pela encena\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Sim\u00f5es, voltam a traz a palco. \u00c9 num turbilh\u00e3o de acontecimentos que somos lan\u00e7ados depois de vermos John Kane, interpretado por R\u00faben Gomes, entrar num sal\u00e3o. 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