{"id":7498,"date":"2023-12-06T15:51:19","date_gmt":"2023-12-06T15:51:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7498"},"modified":"2023-12-06T15:51:20","modified_gmt":"2023-12-06T15:51:20","slug":"maria-lamas-uma-mulher-do-seu-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/06\/maria-lamas-uma-mulher-do-seu-pais\/","title":{"rendered":"Maria Lamas: uma Mulher do seu Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"\n<p>Maria da Concei\u00e7\u00e3o Vassalo e Silva da Cunha Lamas, Maria Lamas, nasceu a 6 de Outubro de 1893 em Torres Novas, ou seja h\u00e1 130 anos. Maria Lamas, a escritora, a jornalista, a activista dos direitos das mulheres e da paz, a narradora de hist\u00f3rias, permanece um s\u00edmbolo cintilante na luta antifascista em Portugal e uma express\u00e3o incontorn\u00e1vel da resist\u00eancia e luta organizada das mulheres portuguesas pela sua emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Escreveu poesia, romances, contos infantojuvenis, cr\u00f3nicas, novelas, folhetins, reportagens e recens\u00f5es em publica\u00e7\u00f5es locais e sob diversos pseud\u00f3nimos, mas a atividade jornal\u00edstica foi o elemento marcante na sua trajet\u00f3ria. Nos anos 20 do s\u00e9culo XX, integrou a Ag\u00eancia Americana de Not\u00edcias com o apoio da jornalista e amiga Virg\u00ednia Quaresma, tornando-se numa das primeiras jornalistas profissionais em Portugal. No jornal <em>O S\u00e9culo<\/em>, destacou-se pelo trabalho desenvolvido no seman\u00e1rio <em>Modas &amp; Bordados<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es que envolviam Maria Lamas comprovaram os seus ideais de solidariedade e fraternidade, valores compartilhados por quem deseja uma sociedade mais justa. Em 1930 promoveu, neste jornal, o projecto da sua autoria e coordena\u00e7\u00e3o <em>Mulheres Portuguesas \u2014 Exposi\u00e7\u00e3o da obra feminina antiga e moderna de car\u00e1cter liter\u00e1rio art\u00edstico e cient\u00edfico<\/em>, que durante um m\u00eas deu visibilidade ao patrim\u00f3nio intelectual e criativo criado por mulheres no pa\u00eds (Fiadeiro, 2003). Sete anos mais tarde, enquanto diretora do suplemento, organizou a exposi\u00e7\u00e3o <em>Tapetes de Arraiolos executados pelas mulheres presas na cadeia das M\u00f3nicas<\/em>. A compreens\u00e3o muito atenuada acerca da condi\u00e7\u00e3o feminina e da sua debilidade em Portugal levou Maria Lamas a exigir \u00e0 directora da institui\u00e7\u00e3o, Dr.\u00aa Maria Arantes, que as reclusas visitassem a exposi\u00e7\u00e3o e fossem trazidas para o sal\u00e3o do jornal em t\u00e1xis fretados na ocasi\u00e3o da inaugura\u00e7\u00e3o (Fiadeiro, 2003). Esta a\u00e7\u00e3o concedeu-lhes uma experi\u00eancia \u00fanica. Assim, tornava-se evidente a preocupa\u00e7\u00e3o de Lamas em mediar uma viv\u00eancia que elevasse o esp\u00edrito, tanto destas mulheres em particular, quanto a n\u00f3s, quando nos envolvemos nestes epis\u00f3dios.<\/p>\n\n\n\n<p>O fim da II Guerra Mundial trouxe a maior vaga de esperan\u00e7a coletiva na Europa e no mundo sobre a queda do nazi-fascismo. Tal entusiasmo chegou at\u00e9 ao Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP) (1914-1947), a organiza\u00e7\u00e3o feminista portuguesa de maior longevidade na Hist\u00f3ria do S\u00e9culo XX e na qual integravam opositoras do Estado Novo. O f\u00f4lego que o Conselho teve sob a presid\u00eancia de Maria Lamas, entre 1946 e 1947, n\u00e3o pode dissociar-se da conjuga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para derrubar o regime fascista. Na sequ\u00eancia da forte influ\u00eancia do CNMP junto das mulheres, da crescente ades\u00e3o de novas s\u00f3cias, sobretudo dirigentes e militantes anti-regime, e o sucesso da <em>Exposi\u00e7\u00e3o de Livros Escritos por Mulheres de Todo o Mundo<\/em> (1947) na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, que pretendia valorizar e enaltecer as mulheres no dom\u00ednio intelectual, o governo ordenou o seu encerramento em 1947. O desfecho da \u00faltima organiza\u00e7\u00e3o feminista que persistia desde a I Rep\u00fablica e o despedimento de Lamas da dire\u00e7\u00e3o do <em>Modas e Bordados <\/em>foram entendidos por si como um gesto de repres\u00e1lia do regime e um momento crucial de reflex\u00e3o sobre a categoria normativa e excludente das mulheres em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Afastada do <em>O S\u00e9culo<\/em> e na condi\u00e7\u00e3o de rec\u00e9m-desempregada, Lamas lan\u00e7ou-se na concretiza\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de ideias que teria alimentado tempos antes, dando azo a um projeto que desembocou na composi\u00e7\u00e3o do livro <em>As Mulheres do Meu Pa\u00eds <\/em>(1948-50), o seu magn\u00edfico canto do cisne do jornalismo e, simultaneamente, o seu grande desafio profissional e pessoal, uma obra de grande f\u00f4lego e m\u00e9rito, um cl\u00e1ssico (Fiadeiro, 2003).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre paisagens e aldeias do pa\u00eds, durante dois anos recolheu anota\u00e7\u00f5es e registos fotogr\u00e1ficos da geografia f\u00edsica e humana que questionaram a viabilidade da representa\u00e7\u00e3o e o papel subalterno das mulheres que o regime salazarista produziu e circunscreveu. O resultado foi uma das mais extensas, detalhadas e emblem\u00e1ticas reportagens sobre a realidade das mulheres trabalhadoras portuguesas e um ve\u00edculo datado para a constru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia pol\u00edtica, num per\u00edodo em que lhes eram negados todos os direitos. Em <em>As Mulheres do Meu Pa\u00eds,<\/em> considerado por si pr\u00f3pria como o seu livro mais importante de todos (Cid, 1976), Maria Lamas afirmava uma chamada \u00e0 responsabilidade individual e coletiva e \u00e0 apreens\u00e3o imaginativa de possibilidades, cujas personagens principais, as mulheres portuguesas, foram tra\u00e7adas \u00e0 dimens\u00e3o de sujeitos da hist\u00f3ria de um pa\u00eds submetido \u00e0 censura, ao controlo do pensamento, ao obscurantismo, \u00e0 pobreza e \u00e0 viol\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se para o Estado Novo a \u201cmulher\u201d tinha um papel social predeterminado sustentado pela procria\u00e7\u00e3o e responsabilidade da gest\u00e3o do espa\u00e7o dom\u00e9stico, a observa\u00e7\u00e3o direta das particularidades do <em>status<\/em> matrimonial e da presen\u00e7a no mercado de trabalho denunciaram-nas como condi\u00e7\u00f5es culturais generalizadas na base do seu miserabilismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As imagens reveladas na obra perturbam o bin\u00f3mio homem-mulher, trabalho-vida dom\u00e9stica e obriga\u00e7\u00f5es femininas-masculinas. Fisicamente vis\u00edveis, publicamente invis\u00edveis, as mulheres fotografadas trabalhavam em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias e muitas vezes insalubres. \u201cTodas as mulheres do povo se parecem umas com as outras, vivam onde viverem\u201d (Lamas, 1950, p. 204). Condenadas pela lei e convic\u00e7\u00f5es dominantes, \u201ctrabalhavam conforme as tarefas de cada \u00e9poca, pariam, aleitavam, estavam sempre \u00e0 frente de todos os protestos, se pressentissem a amea\u00e7a de um agravamento nas condi\u00e7\u00f5es, t\u00e3o prec\u00e1rias, do seu viver\u201d (<em>Ibidem<\/em>, p. 26).<\/p>\n\n\n\n<p>A obra <em>As Mulheres do Meu Pa\u00eds <\/em>n\u00e3o se desassocia da excepcionalidade intelectual da sua autora. Foi atrav\u00e9s do desejo an\u00e1logo de inverter as perspectivas tradicionalistas e revelar a presen\u00e7a real das mulheres na hist\u00f3ria quotidiana, que Maria Lamas sustentou a sua luta. N\u00e3o se trata da experi\u00eancia da Mulher, mas uma experi\u00eancia inculcada na solidariedade entre mulheres. \u201cA defesa dos seus interesses, leva-as a unirem-se, instintivamente, tornando-as solid\u00e1rias em muitas opini\u00f5es e em tudo quanto se relacione com o trabalho coletivo. Embora desinteressadas da vida associativa, v\u00e3o compreendendo o significado da camaradagem\u201d. (<em>Ibidem<\/em>, p. 202). As mulheres s\u00e3o representadas dentro de uma ideia de realidade e crueza, sem fantasias sociais e fora do c\u00e2none que representa a super feminiliza\u00e7\u00e3o do corpo j\u00e1 visto anteriormente. Um corpo feminino defendido sob o pretexto da fragilidade e do biologismo (usando como justificativa a maternidade) entra em choque com os corpos das mulheres representadas no livro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mulher de a\u00e7\u00e3o e um exemplo de participa\u00e7\u00e3o, Lamas desenvolveu durante a sua vida uma intensa atividade contra o fascismo e pela defesa da paz. Em 1938, aceitou a presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o Feminina para a Paz (1935-1952). Assinou as listas para a funda\u00e7\u00e3o do Movimento de Unidade Democr\u00e1tica (MUD) em 1945, no qual ocupou cargos de direc\u00e7\u00e3o. A sua actividade prestigiosa estende-se internacionalmente, tendo participado no congresso fundador da Federa\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica Internacional das Mulheres (FIDM) em Paris, em 1946, ao lado da cientista francesa, feminista e membro do Partido Comunista Franc\u00eas, Eug\u00e9nie Cotton, e em v\u00e1rios Congressos Mundiais da Paz. Pertenceu \u00e0 comiss\u00e3o central do Movimento Nacional Democr\u00e1tico (MND), formado em 1949 numa sess\u00e3o na Voz do Oper\u00e1rio, e teve um papel ativo na candidatura de Jos\u00e9 Norton de Matos \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, nesse mesmo ano. Tais a\u00e7\u00f5es originariam persegui\u00e7\u00f5es pela PIDE e encarceramentos na pris\u00e3o de Caxias em 1949, 1950-1951 e 1953. Partiu para o ex\u00edlio, por duas vezes, em Paris, o mais longo durou de junho de 1962 a dezembro de 1969.<\/p>\n\n\n\n<p>De regresso a Portugal em 1969, viveu a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos na primeira pessoa. Numa conversa com a poeta Maria da Gra\u00e7a Varella Cid (1933-1995), Maria Lamas partilhou que \u201cse a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril n\u00e3o tivesse trazido mais nada de \u00fatil, trouxe, pelo menos, em especial \u00e0 mulher, a consci\u00eancia de si pr\u00f3pria e, simultaneamente das suas frustra\u00e7\u00f5es. E ter consci\u00eancia das suas frustra\u00e7\u00f5es \u00e9 j\u00e1 um princ\u00edpio de luta\u201d (Cid, 1976). Ap\u00f3s 1974 tornou-se a presidente honor\u00e1ria do Movimento Democr\u00e1tico de Mulheres (MDM).<\/p>\n\n\n\n<p>Maria Lamas \u00e9 um expoente na luta pela causa feminina em Portugal at\u00e9 aos dias de hoje. Ao longo de sua vida combateu um regime duro que levou o pa\u00eds \u00e0 extrema pobreza, mas principalmente combateu os ideais fascistas t\u00e3o recorrentes na Europa do s\u00e9culo XX. A sua filia\u00e7\u00e3o no Partido Comunista Portugu\u00eas a seguir ao 25 de Abril de 1974 \u00e9 fruto de uma equival\u00eancia de ideais, surgidos na senda da luta por uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria, onde a luta coletiva mostra-se como a \u00fanica forma poss\u00edvel de atingir mudan\u00e7as sociais relevantes.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritora, jornalista, ativista dos direitos das mulheres e da paz e narradora de hist\u00f3rias, permanece um s\u00edmbolo na luta antifascista em Portugal e uma express\u00e3o incontorn\u00e1vel da resist\u00eancia e luta organizada das mulheres portuguesas pela sua emancipa\u00e7\u00e3o. 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