{"id":7477,"date":"2023-12-05T10:29:21","date_gmt":"2023-12-05T10:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7477"},"modified":"2023-12-05T10:33:13","modified_gmt":"2023-12-05T10:33:13","slug":"custodio-braz-pacheco-antes-de-a-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/05\/custodio-braz-pacheco-antes-de-a-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"Cust\u00f3dio Braz Pacheco, antes de A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>Ele \u00e9 um s\u00edmbolo dos trabalhadores que, em 1879, fundaram este jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi o seu primeiro redator e depois o primeiro presidente da assembleia geral da sociedade A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, antes disso, ele j\u00e1 tinha um longo percurso militante. O qual \u00e9 ilustrativo dos prim\u00f3rdios do movimento oper\u00e1rio e sindical, em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Monarquia<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1863, aos 34 anos de idade, Cust\u00f3dio foi um dos fundadores da \u00abUni\u00e3o Fraternal dos Oper\u00e1rios da Fabrica\u00e7\u00e3o de Tabacos\u00bb. E assumiu a sua lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma organiza\u00e7\u00e3o h\u00edbrida, mutualista e sindical, no seio da qual viria a nascer A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu nome, Cust\u00f3dio subscreveu uma sauda\u00e7\u00e3o de coletividades de Lisboa ao jovem rei D. Lu\u00eds, pelo nascimento do seu primeiro filho &#8211; o futuro rei D. Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi uma iniciativa promovida pelo \u00abCentro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>No ano seguinte, e como presidente de uma comiss\u00e3o de trabalhadores da ind\u00fastria tabaqueira de Lisboa, Cust\u00f3dio enviou uma peti\u00e7\u00e3o ao parlamento, reivindicando medidas protecionistas para defender o setor da concorr\u00eancia estrangeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses prim\u00f3rdios, foi um percurso assim, buscando melhorar a vida da classe trabalhadora, mas sem questionar a sua condi\u00e7\u00e3o de classe subordinada, na hierarquia social.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Autonomia<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1870, o tom j\u00e1 come\u00e7ava a ser diferente. Cust\u00f3dio foi um dos respons\u00e1veis de uma peti\u00e7\u00e3o de protesto contra atropelos \u00e0 autonomia das organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores. As que existiam \u00e0 \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 21 anos depois \u00e9 que a primeira lei sindical portuguesa viria reconhecer e separar o papel pr\u00f3prio dos sindicatos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s associa\u00e7\u00f5es mutualistas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que aconteceu em 1870 foi que as autoridades pretenderam apertar o controle administrativo e financeiro sobre a organiza\u00e7\u00e3o coletiva de trabalhadores, equiparando as suas associa\u00e7\u00f5es a institui\u00e7\u00f5es de caridade. O que tamb\u00e9m lhes traria custos acrescidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A peti\u00e7\u00e3o subscrita por Cust\u00f3dio defendia que tais associa\u00e7\u00f5es eram diferentes, pois iam&nbsp;<em>\u201cal\u00e9m do aux\u00edlio fraternal, na doen\u00e7a e invalidez, aos seus associados\u201d<\/em>, e tamb\u00e9m cuidavam dos&nbsp;<em>\u201cinteresses intelectuais e materiais\u201d<\/em>, promoviam o&nbsp;<em>\u201censinamento de seus filhos\u201d<\/em>, protegiam as suas vi\u00favas,&nbsp;<em>\u201ce tudo isto por iniciativa, recursos e vigil\u00e2ncia pr\u00f3prios, e sem nenhum car\u00e1ter de esmola\u201d<\/em>&nbsp;[Di\u00e1rio do Governo, 17\/04\/1871, p.498].<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da \u00abUni\u00e3o Fraternal dos Oper\u00e1rios da Fabrica\u00e7\u00e3o de Tabacos\u00bb, os estatutos definiam que poderia&nbsp;<em>\u201cigualmente ocupar-se de assuntos que tenham por fim concorrer para o melhoramento desta classe, exceptuando-se assuntos religiosos e pol\u00edticos\u201d<\/em>&nbsp;[D.G., 22\/12\/1868, p.2958].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Fraternidade Oper\u00e1ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1872, Jos\u00e9 Fontana fundou em Lisboa a \u00abAssocia\u00e7\u00e3o Fraternidade Oper\u00e1ria\u00bb. Era j\u00e1 um prot\u00f3tipo de central sindical e veio abrir um novo cap\u00edtulo das lutas laborais em Portugal, com uma primeira onda de greves em diferentes setores profissionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um testemunho coevo, Cust\u00f3dio&nbsp;<em>\u201cocupava ent\u00e3o o lugar de mestre de uma oficina e por isso n\u00e3o tomou parte activa nesse movimento\u201d<\/em>. Mas a&nbsp;<em>\u201cclasse\u201d<\/em>&nbsp;dos oper\u00e1rios tabaqueiros, que tinha sido&nbsp;<em>\u201cmais educada no princ\u00edpio associativo, por influ\u00eancia\u201d<\/em>&nbsp;dele, foi das que&nbsp;<em>\u201cmais actividade mostraram\u201d<\/em>&nbsp;[A Voz do Oper\u00e1rio, 31\/03\/1889, p.2].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Emancipa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Fontana impulsionou tamb\u00e9m as cooperativas, como outra vertente de organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, em 1876, Braz Pacheco foi um dos fundadores de uma cooperativa chamada \u00abEmancipa\u00e7\u00e3o Oper\u00e1ria\u00bb &#8211; um nome significativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era um projecto com os horizontes de reunir for\u00e7as e fundos para&nbsp;<em>\u201cfazer opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito, empreender todo e qualquer neg\u00f3cio legal, criar estabelecimentos de produ\u00e7\u00e3o e consumo, estabelecer gabinetes de leitura e escolas para os s\u00f3cios e seus filhos\u201d<\/em>[D.G., 26\/04\/1876, p.764].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Rep\u00fablica<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1878, Cust\u00f3dio interveio noutro campo de a\u00e7\u00e3o, ao apoiar uma primeira campanha eleitoral republicana, para o parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem o convidou foi um antigo oper\u00e1rio da Imprensa Nacional, Paulo da Fonseca. Este contaria que se tratou de&nbsp;<em>\u201cuma candidatura experimental, uma afirma\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica\u201c<\/em>. E que procurou Cust\u00f3dio, para obter&nbsp;<em>\u201co seu aux\u00edlio em prol daquela tentativa eleitoral\u201d<\/em>, porque este oper\u00e1rio era tido como&nbsp;<em>\u201cum paladino da democracia\u201d<\/em>, que j\u00e1 tinha prestado servi\u00e7os&nbsp;<em>\u201cassaz importantes\u201d<\/em>, quer&nbsp;<em>\u201cno campo da associa\u00e7\u00e3o, como no campo pol\u00edtico\u201d<\/em>&nbsp;[A Vit\u00f3ria da Rep\u00fablica, 1890, p.147].<\/p>\n\n\n\n<p>O candidato a deputado foi o professor Te\u00f3filo Braga. Era um democrata e focou-se no progresso das liberdades c\u00edvicas (de express\u00e3o, reuni\u00e3o e associa\u00e7\u00e3o). Mas tamb\u00e9m era um cr\u00edtico do socialismo e a n\u00edvel laboral avan\u00e7ou apenas uma vaga proposta de&nbsp;<em>\u201cregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho das mulheres e crian\u00e7as\u201d<\/em>&nbsp;[Te\u00f3filo Braga (1880),&nbsp;<em>Hist\u00f3ria das ideias republicanas em Portugal<\/em>, pp.223\/4].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Voz do Oper\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1879, como fundador de A Voz do Oper\u00e1rio, Cust\u00f3dio Braz Pacheco contribuiu para um avan\u00e7o na afirma\u00e7\u00e3o da autonomia e dos interesses pr\u00f3prios da classe trabalhadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Este jornal rapidamente evoluiu em termos ideol\u00f3gicos. E em 1886 j\u00e1 estava a publicar um documento primacial na cr\u00edtica do capitalismo: o&nbsp;<em>Manifesto Comunista<\/em>&nbsp;de Marx e Engels.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte, aos 55 anos de idade, n\u00e3o permitiu que Cust\u00f3dio tivesse tempo para acompanhar essa evolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ainda deu o seu contributo, pois neste jornal j\u00e1 expressou uma cr\u00edtica ao desfasamento de classe dos l\u00edderes republicanos.<\/p>\n\n\n\n<p>E hoje, 140 anos depois da sua morte, o caminho que A Voz do Oper\u00e1rio prossegue, \u00e9 o caminho que ele e os demais fundadores abriram.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este 5 de Dezembro, faz 140 anos que faleceu o oper\u00e1rio Cust\u00f3dio Braz Pacheco, um dos fundadores do jornal A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7478,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7477"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7477"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7477\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7483,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7477\/revisions\/7483"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7477"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}