{"id":7473,"date":"2023-12-05T10:23:36","date_gmt":"2023-12-05T10:23:36","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7473"},"modified":"2023-12-05T10:23:37","modified_gmt":"2023-12-05T10:23:37","slug":"antigona-na-amazonia-a-luta-colectiva-na-arte-e-nao-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/05\/antigona-na-amazonia-a-luta-colectiva-na-arte-e-nao-so\/","title":{"rendered":"\u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d:\u00a0a luta colectiva na arte, e n\u00e3o s\u00f3&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>Em Abril de 1996, um protesto pac\u00edfico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) &#8211; colectivo social que, desde 1984, luta pela redistribui\u00e7\u00e3o de terras improdut\u00edveis para fins comunit\u00e1rios &#8211; termina com o assassinato, pela pol\u00edcia militar brasileira, de dezanove activistas. Este \u00e9 um dos motes de \u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d, do espect\u00e1culo encenado por Milo Rau, apresentado em Lisboa, no Festival Alkantara. Este \u201cteatro pol\u00edtico\u201d articula testemunhos de activistas e ind\u00edgenas com a encena\u00e7\u00e3o de um cl\u00e1ssico grego, a \u201cAnt\u00edgona\u201d, de S\u00f3focles. O resultado \u00e9 uma reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre um sistema que perpetua a desigualdade de direitos sociais e econ\u00f3micos, e ignora a diversidade individual e de cada povo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d \u00e9 um espect\u00e1culo colectivo em toda a sua concep\u00e7\u00e3o: os quatro int\u00e9rpretes em palco encenam momentos do referido massacre; em simult\u00e2neo, vemos, numa grande tela tripartida, imagens de elementos dos Sem-Terra a reencenar o mesmo acontecimento. Esta resson\u00e2ncia sublinha a trag\u00e9dia, e, por conseguinte, a permanente resist\u00eancia deste colectivo em prol dos povos ind\u00edgenas e do direito \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o equitativa da propriedade, contra a discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No texto de S\u00f3focles, na disputa pela propriedade, membros da mesma fam\u00edlia s\u00e3o os assassinos e os assassinados. Em \u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d, a luta pela propriedade \u00e9 comunit\u00e1ria, e nunca individual. Para o passado n\u00e3o cair no esquecimento; para sublinhar que a resist\u00eancia e a luta colectivas continuam. E, como numa trag\u00e9dia grega, existe um coro (composto por elementos do MST), que comenta ou observa o que acontece; temos um \u201cor\u00e1culo\u201d, que fala do que \u00e9 j\u00e1 inevit\u00e1vel (e talvez irrepar\u00e1vel), o filosofo ind\u00edgena Ailton Krenak, que adverte para um planeta Terra h\u00e1 muito tempo febril. Al\u00e9m disso, em palco, vai tamb\u00e9m sendo narrado o processo criativo que levou ao desenvolvimento de \u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d, desde a ideia at\u00e9 ao que estamos a assistir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O passado est\u00e1 sempre \u00e0 frente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como refere a certa altura do espect\u00e1culo o actor Arne De Tremerie, para os povos ind\u00edgenas, o passado est\u00e1 sempre \u00e0 frente. Trata-se de toda uma cosmologia, concep\u00e7\u00e3o cultural e imagin\u00e1rio colectivo que s\u00e3o invadidos por outra modalidade de sociedade e pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d, o passado est\u00e1 \u00e0 nossa frente, nas imagens da tela, e ao vivo no palco, para lembrar que a luta pelas liberdades e pela Liberdade, contra as injusti\u00e7as sociais, econ\u00f3micas, culturais e de g\u00e9nero s\u00e3o causas de hoje. Contra a normaliza\u00e7\u00e3o do conformismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A articula\u00e7\u00e3o com a representa\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a de S\u00f3focles salienta que a disputa desenfreada e ego\u00edsta pela riqueza individual contra uma ideia de comunidade, seja ela ligada \u00e0 fam\u00edlia, a um povo ou na\u00e7\u00e3o, pode levar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o do ser dotado de humanidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra \u00e9 um colectivo activo presente em 24 estados do Brasil, que pensa nessa ideia coral e comunit\u00e1ria, de luta pelo bem-estar do humano, sem esquecer a particularidade e singularidade de cada um dos seus membros e na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo natural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez tenhamos de continuar de reflectir sobre as quest\u00f5es que o Festival Alkantara e, em concreto, \u201cAnt\u00edgona na Amaz\u00f3nia\u201d nos recordam: At\u00e9 onde podemos ir? Qu\u00e3o pr\u00f3ximo podemos chegar? Com as nossas ac\u00e7\u00f5es, enquanto cidad\u00e3os e seres \u00fanicos. Com as nossas ac\u00e7\u00f5es, enquanto colectivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em Abril de 1996, um protesto pac\u00edfico do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) &#8211; colectivo social que, desde 1984, luta pela redistribui\u00e7\u00e3o de terras improdut\u00edveis para fins comunit\u00e1rios &#8211; termina com o assassinato, pela pol\u00edcia militar brasileira, de dezanove activistas. 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