{"id":7465,"date":"2023-12-05T01:19:21","date_gmt":"2023-12-05T01:19:21","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7465"},"modified":"2024-01-09T12:35:11","modified_gmt":"2024-01-09T12:35:11","slug":"horarios-as-angustias-no-inicio-de-cada-ano-letivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/05\/horarios-as-angustias-no-inicio-de-cada-ano-letivo\/","title":{"rendered":"Hor\u00e1rios: as ang\u00fastias no in\u00edcio de cada ano letivo"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 muito que vivemos controlados pelo rel\u00f3gio, pelos calend\u00e1rios. Toda a nossa actividade humana decorre num contexto temporal e espacial, dimens\u00f5es essas que, segundo Kant, e n\u00e3o querendo filosofar muito sobre o assunto, sendo categorias vazias, se tornam \u201ccontextos\u201d para a nossa ordena\u00e7\u00e3o da realidade, para a nossa configura\u00e7\u00e3o do mundo, para a constru\u00e7\u00e3o da nossa vida em sociedade. Como professora e como m\u00e3e, cada ano que passa \u00e9 um desafio e uma luta para encontrar equil\u00edbrio temporal e espacial na concilia\u00e7\u00e3o entre os hor\u00e1rios impostos e uma vida familiar saud\u00e1vel e dedicada ao crescimento de um filho, enquanto somos fundamentais para o seu desenvolvimento e refer\u00eancias na sua constru\u00e7\u00e3o da personalidade e vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas vamos a factos. De acordo com dados da Eurostat relativos a 2022, os trabalhadores portugueses t\u00eam uma carga hor\u00e1ria m\u00e9dia de 39,5 horas por semana, acima da m\u00e9dia europeia, 37,1 horas\/semana, registando ainda uma das percentagens mais altas de trabalhadores por conta de outrem a trabalharem mais de 40 horas por semana, 9,4% que corresponde a 442 mil pessoas com um hor\u00e1rio semanal de trabalho a rondar as 49 horas. Contudo, este panorama de sobrecarga hor\u00e1ria laboral n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de enorme produtividade, bem pelo contr\u00e1rio. Portugal aparece como o sexto pa\u00eds com os \u00edndices produtivos mais baixos da UE, numa lista encabe\u00e7ada pela Irlanda, que apresenta um n\u00edvel de produtividade 3 vezes superior ao nosso e onde se trabalha menos 3 horas por semana, ou os Pa\u00edses Baixos, com uma m\u00e9dia de 30,4 horas de trabalho por semana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, no que respeita \u00e0 carga hor\u00e1ria lectiva, no \u00faltimo estudo publicado pelo Conselho Nacional de Educa\u00e7\u00e3o, em 2014, conclui-se que em Portugal as crian\u00e7as do 1\u00ba e 2\u00ba ciclos, entre os 6 e os 11 anos, t\u00eam 822 horas lectivas obrigat\u00f3rias por ano, cerca de 25 horas por semana, mais do que a m\u00e9dia dos pa\u00edses da OCDE, que totalizam 799 horas\/ano. Al\u00e9m destas horas obrigat\u00f3rias no curr\u00edculo escolar, a Escola P\u00fablica assumiu, desde 2006, a chamada \u201cEscola a tempo inteiro\u201d com a introdu\u00e7\u00e3o das \u00c1reas de Enriquecimento Curricular (AECs) no 1\u00ba Ciclo que, como o pr\u00f3prio nome indica, serviriam como complemento educativo, facultativo, e tamb\u00e9m para manter as crian\u00e7as ocupadas no espa\u00e7o escolar, pelo menos, 8 horas por dia. A Escola P\u00fablica assume, assim, a responsabilidade pela educa\u00e7\u00e3o global das crian\u00e7as, quer curricular quer extracurricular, e o papel de ajudar as fam\u00edlias a manterem os seus filhos em seguran\u00e7a enquanto t\u00eam de trabalhar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos trazer a discuss\u00e3o muitas quest\u00f5es que estes n\u00fameros e pol\u00edticas levantam, desde logo se se trata de uma resposta eficaz a uma necessidade social de apoio econ\u00f3mico \u00e0s fam\u00edlias que n\u00e3o t\u00eam como pagar actividades extracurriculares de enriquecimento art\u00edstico ou desportivo, numa tentativa de democratiza\u00e7\u00e3o e de igualdade de oportunidades; ou se servir\u00e1 de ajuda em termos log\u00edsticos de acolhimento e protec\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as at\u00e9 aos 10 anos durante um hor\u00e1rio alargado, quando \u00e9 dif\u00edcil conciliar hor\u00e1rios de trabalho devido \u00e0 natureza dos mesmos; ou ainda, se contribui para a forma\u00e7\u00e3o e emprego de mais pessoas, sejam professores, auxiliares, ajudantes, supervisores, nos espa\u00e7os educativos. Mas vou cingir-me ao que me trouxe aqui: o crescimento e desenvolvimento saud\u00e1veis dos nossos filhos, em todas as suas vertentes de amplia\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias motoras, sociais e emocionais, onde o papel da fam\u00edlia \u00e9 fundamental para o desenvolvimento e protec\u00e7\u00e3o psicossocial, para a cria\u00e7\u00e3o de um sentimento de identidade e de perten\u00e7a, de acomoda\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o de valores e de uma cultura. Mas tudo isto s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel se houver tempo. E espa\u00e7o. Tempo e espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o, de partilha, de brincadeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A t\u00edtulo de exemplo, como professora numa escola de ensino art\u00edstico especializado de m\u00fasica, uma actividade com curr\u00edculos oficiais pr\u00f3prios, mas extracurricular, deparo-me todos os anos com situa\u00e7\u00f5es incontorn\u00e1veis e, a meu ver, absurdas e angustiantes, como ter alunos at\u00e9 aos 10 anos com aulas a terminarem pelas 19 ou 20 horas. E por duas raz\u00f5es: ou porque os pais n\u00e3o conseguem sair dos trabalhos para os irem buscar \u00e0 escola regular mais cedo, ou porque os pr\u00f3prios alunos n\u00e3o conseguem sair antes das 16h30. Ano ap\u00f3s ano, esse tempo e esse espa\u00e7o de comunica\u00e7\u00e3o, de partilha e de brincadeira s\u00e3o contados ao minuto, no dia-a-dia destas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa altura em que in\u00fameros estudos nos demonstram o que realmente contribui para um crescimento feliz e saud\u00e1vel das crian\u00e7as, para uma sociedade com qualidade de vida e equilibrada, numa altura em que in\u00fameros especialistas na \u00e1rea da educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, sociologia nos v\u00eam alertar para a import\u00e2ncia do tempo em fam\u00edlia para um desenvolvimento social e emocional saud\u00e1veis, e a import\u00e2ncia do tempo livre para podermos escolher o que fazer, a que brincar, ou simplesmente para nos entediarmos, as pol\u00edticas laborais, sociais e educativas parecem n\u00e3o ouvir, n\u00e3o ler, n\u00e3o ver que estamos a ir por um caminho perigoso e de desregula\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, das emo\u00e7\u00f5es e de uma vis\u00e3o saud\u00e1vel da vida em sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 urgente discutir um novo modelo de organiza\u00e7\u00e3o social do tempo. \u00c9 fundamental podermos construir o nosso tempo e o nosso espa\u00e7o equilibrando os v\u00e1rios par\u00e2metros, escolar, laboral e familiar, e n\u00e3o cingi-los a contextos fechados, sedent\u00e1rios e superprotegidos. \u00c9 important\u00edssimo voltar a ter os nossos filhos a brincar com os amigos na rua, na floresta, nos jardins, fomentando a diversidade, as experi\u00eancias e os riscos, as situa\u00e7\u00f5es imprevis\u00edveis, a autonomia. O crescimento e as aprendizagens devem acontecer em diferentes espa\u00e7os, com diferentes grupos sociais, com din\u00e2micas pr\u00f3prias e em constante evolu\u00e7\u00e3o, procura e descoberta. E sempre que poss\u00edvel, com a fam\u00edlia que temos e com as que escolhemos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre a jornada escolar dos nossos filhos e a nossa jornada de trabalho contamos os minutos do tempo passado em fam\u00edlia.<\/p>\n","protected":false},"author":101,"featured_media":7466,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[106],"tags":[],"coauthors":[198],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/101"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7465"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7592,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7465\/revisions\/7592"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7466"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7465"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}