{"id":7441,"date":"2023-12-05T00:58:19","date_gmt":"2023-12-05T00:58:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7441"},"modified":"2024-01-09T12:30:37","modified_gmt":"2024-01-09T12:30:37","slug":"manuel-gusmao-a-esperanca-que-nao-fica-a-espera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/12\/05\/manuel-gusmao-a-esperanca-que-nao-fica-a-espera\/","title":{"rendered":"Manuel Gusm\u00e3o, a esperan\u00e7a que n\u00e3o fica \u00e0 espera"},"content":{"rendered":"\n<p>O seu legado \u00e9 inestim\u00e1vel: na produ\u00e7\u00e3o intelectual, na poesia e na ensa\u00edstica, na doc\u00eancia que deixa uma profunda marca na forma de pensar de gera\u00e7\u00f5es (um \u201c<em>ma\u00eetre \u00e0 penser<\/em>\u201d). No excepcional quadro pol\u00edtico que foi, intelectual militante de todas as lutas do Portugal de Abril. No marxista sem falhas, cuja leitura de Marx e Engels emprestava nova actualidade \u00e0 reflex\u00e3o dos cl\u00e1ssicos. No poeta com sensibilidade de agitador da \u201cesperan\u00e7a que n\u00e3o fica \u00e0 espera\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No quadro pol\u00edtico que, talvez como nenhum outro, conceptualizou as quest\u00f5es da cultura e da arte como \u00e1reas centrais do combate democr\u00e1tico. Da cultura e da arte entregues e enraizadas na classe oper\u00e1ria e no povo, n\u00e3o couto reservado de elites.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi esse o tema da sua interven\u00e7\u00e3o quando, em 2015, a Voz do Oper\u00e1rio o homenageou. Intitulou a sua interven\u00e7\u00e3o \u201cA Voz de Um Oper\u00e1rio\u201d, e desenvolveu nela um dos seus temas favoritos, partindo da afirma\u00e7\u00e3o de Marx de que&nbsp;<em>\u201cA forma\u00e7\u00e3o dos 5 sentidos \u00e9 um trabalho de toda a hist\u00f3ria do mundo at\u00e9 hoje\u201d<\/em>&nbsp;ou seja, do papel da arte na configura\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o da humanidade dos humanos. Texto bel\u00edssimo, como tudo o que escrevia, que conclui com a an\u00e1lise de um poema, da tal Voz de Um Oper\u00e1rio. \u00c9 especialmente significativo que essa voz escolhida fosse uma voz po\u00e9tica. E que essa voz fosse a de um dos mais destacados quadros oper\u00e1rios da resist\u00eancia antifascista e do Portugal de Abril, o comunista Ant\u00f3nio Dias Louren\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se que os comunistas, na tradi\u00e7\u00e3o leninista, definem os funcion\u00e1rios pol\u00edticos como \u201crevolucion\u00e1rios profissionais\u201d. Manuel Gusm\u00e3o ter\u00e1 dito certa vez que n\u00e3o era sen\u00e3o \u201crevolucion\u00e1rio amador\u201d. Mais uma vez, falava o poeta. Movia-o o amor \u00e0 causa da revolu\u00e7\u00e3o, assente num profundo entendimento de que essa causa mobiliza em cada verdadeiro revolucion\u00e1rio tudo o que potencialmente ter\u00e1 de melhor em intelig\u00eancia, coragem no pensar e no agir, conhecimento incessantemente aprofundado, organiza\u00e7\u00e3o, fraternidade humana.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Discurso de Manuel Gusm\u00e3o&nbsp;durante a homenagem d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio em mar\u00e7o de 2015<\/h2>\n\n\n\n<p><strong>\u201c<\/strong>Na sua \u00faltima edi\u00e7\u00e3o,&nbsp;<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>&nbsp;traz um artigo meu, intitulado \u00abcomo as artes nos fazem humanos\u00bb. \u00c9 a esse artigo e a alguns problemas que ele suscita que quero voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia da escrita-e-da-leitura da poesia mostram, no seu fazer-se, que n\u00f3s somos tamb\u00e9m isso mesmo:&nbsp;<em>\u00abcorpos hist\u00f3ricos singulares, percorridos por uma \u201cescrita emaranhada\u201d; uma voz escrita, inscrita e excrita &#8211; \u201ctatuagem e palimpsesto\u201d; em alguma medida<\/em>,&nbsp;<em>somos feitos e desfeitos pelo \u00abpoie\u00edn\u00bb [pelo fazer das artes]; pela poesia [&#8230;]; pelo romance em que procuramos os nossos poss\u00edveis; pelas cenas de teatro onde corpos e vozes ardem \u00e0 nossa vista; pelos filmes que nos correm no sangue; pela m\u00fasica que nos sopra os ventos nas \u00e1rvores do c\u00e9rebro; pelas pinturas que nos constroem o olhar capaz de folhear o vis\u00edvel; pelas fotografias em que fic\u00e1mos para sempre (junto) de uma rocha batida pelas ondas; pelas esculturas em que tacteamos o desabamento e o voo do mundo; por essa dan\u00e7a que nos desenha no ar, enquanto voamos vagarosamente \u00e0 beira do vulc\u00e3o; pelas palavras que um dia nos disseram ou n\u00e3o disseram, por tudo aquilo que escolhemos ou nos escolheu; ou por aquela \u201clettera amorosa\u201d que lemos e relemos e contudo n\u00e3o chegou a ser escrita, nem enviada. (&#8230;)\u00bb<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O que pretendo neste fragmento de um ensaio de h\u00e1 alguns anos \u00e9 basicamente dizer de uma certa maneira algo de que estou profundamente convencido e que me parece importante para acertar no que considero ser a cultura art\u00edstica ou a natureza e o papel espec\u00edfico das artes no sistema aberto da cultura nas sociedades humanas. Aproximando-me de outra forma do que pretendo, direi, no fundamental, que gostaria de argumentar uma ideia de Marx, que encontro nos&nbsp;<em>Manuscritos econ\u00f3mico<\/em>&#8211;<em>filos\u00f3ficos<\/em>&nbsp;de 1844:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA forma\u00e7\u00e3o dos 5 sentidos \u00e9 um trabalho de toda a hist\u00f3ria do mundo at\u00e9 hoje\u201d&nbsp;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Interessa-me al\u00e9m do mais o modo como posso operacionalizar nas lutas presentes algumas indica\u00e7\u00f5es de Marx nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostaria de deixar claro desde j\u00e1 que se as artes s\u00e3o um polo fundamental em torno do qual se estabelecem as v\u00e1rias culturas art\u00edsticas, isso n\u00e3o significa que arte e cultura art\u00edstica sejam rigorosamente sin\u00f3nimos. Para que haja arte&nbsp;tem que haver um n\u00facleo de inven\u00e7\u00e3o ou descoberta, enquanto a cultura art\u00edstica \u00e9 sobretudo absor\u00e7\u00e3o de efeitos produzidos pela obra, pedagogia do gosto, generaliza\u00e7\u00e3o do coment\u00e1rio, da divulga\u00e7\u00e3o e da massifica\u00e7\u00e3o das maneiras de lidar com as obras. Assim, a arte, mesmo se integra todo um saber acumulado e uma regula\u00e7\u00e3o tradicional, mesmo se implica uma componente de mem\u00f3ria, \u00e9 tendencialmente governada pela inova\u00e7\u00e3o ou pela inven\u00e7\u00e3o. A ideia \u00e9 a de que as artes modelam ou modulam o nosso aparelho perceptivo e os nossos sistemas de valores e de pr\u00e1ticas e isso acontece atrav\u00e9s da objectiva\u00e7\u00e3o dessas nossas faculdades subjectivas, que se desenvolvem ou pelo contr\u00e1rio se embotam consoante a frequ\u00eancia e intensidade da sua exposi\u00e7\u00e3o ou do seu conv\u00edvio com esses objectos que s\u00e3o obras de arte.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, o legado do pensamento de Marx&nbsp;vir\u00e1 a integrar e mesmo a desenvolver aqueles movimentos da investiga\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea que ao longo do s\u00e9culo XX destacaram a import\u00e2ncia das conex\u00f5es e retroac\u00e7\u00f5es entre a produ\u00e7\u00e3o e a recep\u00e7\u00e3o art\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta, neste caso, recordar uma famosa passagem da \u201cintrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d de 1857, em que Marx escreve:<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201co objecto de arte &#8211; tal como qualquer outro produto \u2013 cria um p\u00fablico capaz de compreender a arte e de apreciar a beleza. Portanto a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o cria somente um objecto para o sujeito mas tamb\u00e9m um sujeito para o objecto.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o formula\u00e7\u00f5es como esta que nos t\u00eam levado a defender que a democratiza\u00e7\u00e3o da cultura n\u00e3o \u00e9 tanto a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 frui\u00e7\u00e3o cultural mas sim um processo de democratiza\u00e7\u00e3o estrategicamente orientado por um objectivo principal, &#8211; que \u00e9 a democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cria\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>A democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 frui\u00e7\u00e3o tem um papel muito importante, mas apenas um papel e um valor instrumentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma passagem dos&nbsp;<em>manuscritos econ\u00f3mico-filos\u00f3ficos,&nbsp;<\/em>Marx escreve \u2013 a&nbsp;<em>m\u00fasica desperta o sentido musical do homem, tal como para o ouvido n\u00e3o musical a mais bela m\u00fasica n\u00e3o tem nenhum sentido, n\u00e3o \u00e9 nenhum objecto, porque o meu objecto s\u00f3 pode ser a confirma\u00e7\u00e3o de uma das minhas for\u00e7as essenciais, portanto s\u00f3 pode ser para mim assim como a minha for\u00e7a essencial \u00e9 para si como capacidade subjectiva, porque o sentido de um objecto para mim (s\u00f3 tem sentido para um sentido correspondente a ele) vai precisamente t\u00e3o longe quanto vai o meu sentido, pelo que os sentidos do homem social s\u00e3o outros sentidos que n\u00e3o os do n\u00e3o-social; somente pela riqueza objectivamente desdobrada da ess\u00eancia humana \u00e9 em parte produzida, em parte desenvolvida, a riqueza da sensibilidade humana subjectiva \u2013 um ouvido musical, um olho para a beleza da forma, somente em suma sentidos capazes de frui\u00e7\u00e3o humana, que se confirmam como for\u00e7as essenciais humanas. Pois n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os 5 sentidos, mas tamb\u00e9m os chamados sentidos espirituais, os sentidos pr\u00e1ticos (vontade, amor, etc.), numa palavra, o sentido humano, a humanidade dos sentidos, apenas adv\u00e9m pela exist\u00eancia do seu objecto, pela Natureza humanizada.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A minha experi\u00eancia como professor tal como a dos meus colegas com quem regularmente discutia tem-me confirmado na recusa da exist\u00eancia de impossibilidades reais numa dada rela\u00e7\u00e3o entre um humano e uma obra de arte.<\/p>\n\n\n\n<p>As dificuldades, por vezes inultrapass\u00e1veis s\u00e3o imput\u00e1veis a raz\u00f5es econ\u00f3micas, sociais, pol\u00edticas e culturais. Essas raz\u00f5es s\u00e3o consequ\u00eancias de um sistema de injusti\u00e7a generalizada que \u00e9 o da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem.<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio, que faz 132 anos, \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es criada pelo movimento oper\u00e1rio em Portugal, no \u00faltimo quartel do s\u00e9c. XIX e tendo j\u00e1 dado provas de uma larga continuidade hist\u00f3rica. Entre as suas esferas de ac\u00e7\u00e3o destacam-se as escolas e o jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Agrade\u00e7o por isso que o presidente da sua dire\u00e7\u00e3o, Manuel Figueiredo, tenha usado para justificar esta homenagem as seguintes palavras:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em>\u201cA Voz do Oper\u00e1rio assinala o percurso e a obra de um homem, com uma vida dedicada \u00e0 cultura e ao mesmo tempo sempre associada \u00e0 causa dos trabalhadores e \u00e0 sua luta por um mundo novo.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para completar o meu agradecimento permitam-me que me valha de um \u00faltimo recurso. Que exponha como exemplo breve um tipo de actividade que est\u00e1 sempre na base da minha profiss\u00e3o; ler o poema de um outro como forma de acolhimento e de di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Balada do fumo negro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu te sa\u00fado, \u00f3 fumo negro das f\u00e1bricas<\/p>\n\n\n\n<p>Eu te sa\u00fado!<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed onde maculas o azul<\/p>\n\n\n\n<p>Onde rolas ao sabor da ventania,<br>H\u00e1 homens que o carv\u00e3o tingiu de negro<\/p>\n\n\n\n<p>Homens verdes, brancos, amarelos<\/p>\n\n\n\n<p>Homens cor do cimento e da ferrugem,<br>Homens sem ra\u00e7a!<br>Homens sem cor!<br>Eu te sa\u00fado, \u00f3 fumo negro das f\u00e1bricas!<br>Tu que \u00e9s negro res\u00edduo<br>Desse estupendo cadinho<br>Onde se fundem trag\u00e9dias.<br>Eu te sa\u00fado, \u00f3 fumo negro das f\u00e1bricas!<br>Nessa ra\u00e7a de homens que n\u00e3o t\u00eam ra\u00e7a,<br>Nessa ra\u00e7a de homens que n\u00e3o t\u00eam cor.<br>Eu te sa\u00fado<\/p>\n\n\n\n<p>Pelos rostos banhados de suor,<\/p>\n\n\n\n<p>Verdes, brancos, amarelos,<br>Cor do cimento e da ferrugem<br>Que o carv\u00e3o risca de negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Cinco notas apenas, esbo\u00e7ando uma leitura do poema.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeira nota:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os 21 versos que se seguem, ritmados, uns aos outros, dispensam os intervalos de branco que convencionalmente marcam a fronteira entre as estrofes e confiando com raz\u00e3o que a marca\u00e7\u00e3o pelo branco seria redundante.<\/p>\n\n\n\n<p>Segunda nota:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O poema joga com gestos e procedimentos de tr\u00eas tradi\u00e7\u00f5es: uma \u00e9 a que encontramos presente em qualquer civiliza\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, e a que chamarei paralelismo; A outra tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 a da balada e poder\u00e1 vir do romantismo; A terceira tradi\u00e7\u00e3o \u00e9, por estranho que possa parecer, a tradi\u00e7\u00e3o modernista, que vem do primeiro quartel do s\u00e9c. XX tem em Portugal o seu nome emblema, que \u00e9 o de Fernando Pessoa \/ \u00c1lvaro de Campos.<\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o modernista \u00e9 a mais inesperada num jovem poeta, e \u00e9 aqui praticada com uma grande desenvoltura porque o autor ter\u00e1 compreendido que o modernismo criava regras para n\u00e3o as cumprir e para com essas regras substituir as da poesia mais convencional.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que o poema est\u00e1 cheio de retomadas e varia\u00e7\u00f5es de formas, express\u00f5es ou palavras id\u00eanticas por vezes encadeadas em dois versos que se repetem.<\/p>\n\n\n\n<p>Simplesmente, algumas dessas repeti\u00e7\u00f5es s\u00e3o apenas parciais \u2013 \u201chomens sem ra\u00e7a\u201d\/ \u201chomens sem cor\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00abNesta ra\u00e7a de homens que n\u00e3o t\u00eam ra\u00e7a,&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta ra\u00e7a de homens que n\u00e3o t\u00eam cor.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira nota:<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s destes jogos de palavras o autor vai tecendo entretanto o que parece ser um enigma po\u00e9tico e construindo com essas disson\u00e2ncias, entre aquilo que \u00e9 repetido, focos de contradi\u00e7\u00e3o ou de tens\u00e3o entre as palavras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista das a\u00e7\u00f5es h\u00e1 tr\u00eas verbos fundamentais e todos eles traduzem graus diferentes de transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tingir fundir riscar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><em>H\u00e1 homens que o carv\u00e3o tingiu de negro\/\/<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Tu que \u00e9s o negro res\u00edduo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Desse estupendo cadinho<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Onde se fundem trag\u00e9dias.\/\/<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Que o carv\u00e3o risca de negro!\/\/<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Como se liga este processo de transforma\u00e7\u00e3o, que faz do cora\u00e7\u00e3o do poema os versos de 11 a 15, com a tentativa de cromatismo que o poema, por um lado, joga e, por outro lado, nega?<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a gente percebe que estes homens verdes, amarelos e brancos s\u00e3o os oper\u00e1rios. Mas essa sua condi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o que os torna em parte como representantes de uma cor ou de uma ra\u00e7a e desse paralelismo entre ra\u00e7a e cor da pele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quarta nota:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 que existe uma rela\u00e7\u00e3o figural entre&nbsp;<em>f\u00e1bricas&nbsp;<\/em>e<em>&nbsp;cadinho?&nbsp;<\/em>\u00c9 uma hip\u00f3tese a trabalhar, porque \u00e9 no cadinho que se processa a maior transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Quinta nota:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se os oper\u00e1rios conhecem na f\u00e1brica um processo de transforma\u00e7\u00e3o pelo qual o negro do carv\u00e3o tinge e risca as outras cores e se do cadinho se eleva esse negro res\u00edduo que fica da fus\u00e3o entre min\u00e9rios ou metais, ent\u00e3o os oper\u00e1rios s\u00e3o tamb\u00e9m transformados e integram um colectivo que nega ra\u00e7as e transforma as cores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este poema publicado em 1939 no&nbsp;<em>Mensageiro do Ribatejo<\/em>&nbsp;foi escrito por um jovem serralheiro mec\u00e2nico de 24 anos chamado Ant\u00f3nio Dias Louren\u00e7o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poeta, ensa\u00edsta, professor universit\u00e1rio, comunista e s\u00f3cio honor\u00e1rio d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Manuel Gusm\u00e3o faleceu no dia 9 de novembro.<\/p>\n","protected":false},"author":110,"featured_media":7442,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[207],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7441"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/110"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7441"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7441\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7584,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7441\/revisions\/7584"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7441"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7441"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7441"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7441"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}