{"id":7384,"date":"2023-11-08T22:33:42","date_gmt":"2023-11-08T22:33:42","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7384"},"modified":"2023-12-05T10:37:51","modified_gmt":"2023-12-05T10:37:51","slug":"olhar-a-situacao-na-palestina-alem-da-nevoa-da-propaganda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/11\/08\/olhar-a-situacao-na-palestina-alem-da-nevoa-da-propaganda\/","title":{"rendered":"Olhar a situa\u00e7\u00e3o na Palestina al\u00e9m da n\u00e9voa da propaganda"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00e3o 75 longos anos de negocia\u00e7\u00f5es infrut\u00edferas, acordos assinados mas nunca cumpridos e resolu\u00e7\u00f5es da ONU violadas vezes sem conta. Desde 1967, o povo palestiniano convive diariamente com veda\u00e7\u00f5es, muros,&nbsp;<em>checkpoints&nbsp;<\/em>e opera\u00e7\u00f5es militares. Milhares foram mortos pelas for\u00e7as da ocupa\u00e7\u00e3o e mais de 800 mil passaram pelas suas pris\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A continua\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de colonatos, a ret\u00f3rica do governo e da extrema-direita que se agrava de dia para dia, os crescentes ataques armados de colonos na Cisjord\u00e2nia, as cada vez mais frequentes incurs\u00f5es \u00e0 Mesquita de Al-Aqsa, v\u00eam transformando a Palestina num barril de p\u00f3lvora. O que aconteceu a 7 de Outubro \u00e9 o resultado da bomba-rel\u00f3gio instalada pelas for\u00e7as sionistas radicais, encabe\u00e7adas por Netanyahu, no pr\u00f3prio jardim.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 n\u00e3o se esperava que a bomba detonasse na Faixa de Gaza, uma pris\u00e3o a c\u00e9u aberto onde 2,2 milh\u00f5es de pessoas vivem sitiadas h\u00e1 16 anos. Nem que os palestinianos conseguissem atacar e tomar tantos postos fronteiri\u00e7os, bases militares e territ\u00f3rio, nem que Israel demorasse tanto a recuperar o controlo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Resist\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Resumir a resist\u00eancia palestiniana ao Hamas pretende retirar toda a complexidade \u00e0 realidade palestiniana e criar bases para a legitima\u00e7\u00e3o das ac\u00e7\u00f5es genocidas de Israel em Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da preponder\u00e2ncia do Hamas e da Jihad Isl\u00e2mica na opera\u00e7\u00e3o Inunda\u00e7\u00e3o de Al Aqsa, iniciada a 7 de Outubro, tamb\u00e9m nela participam desde o in\u00edcio os bra\u00e7os armados de outras duas organiza\u00e7\u00f5es seculares palestinianas. V\u00e1rios outros grupos, na Faixa de Gaza e na Cisjord\u00e2nia, apoiam a opera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">B\u00e1rbaros e Brutais?<\/h2>\n\n\n\n<p>Algo muito vincado \u00e9 a atroz brutalidade dos ataques. Nos meios de comunica\u00e7\u00e3o israelitas, encontramos elementos que permitem olhar al\u00e9m da propaganda.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo nos primeiros dias, o Canal 12 (israelita) transmite uma entrevista com Rutam, cuja casa foi invadida por combatentes palestinianos. Ao adverti-los de que s\u00f3 ela e os seus dois filhos est\u00e3o em casa, um dos combatentes responde-lhe: \u201cN\u00e3o se preocupe, somos mu\u00e7ulmanos, n\u00e3o vos vamos fazer mal\u201d. Um dos palestinianos at\u00e9 pergunta se pode comer uma banana. O entrevistador fica estupefacto por nenhum incidente se destacar.<\/p>\n\n\n\n<p>Este relato encontra eco nas declara\u00e7\u00f5es de Yocheved Lifshitz, israelita, 85 anos, libertada pelo Hamas depois de mais de duas semanas como ref\u00e9m. \u201c[Quando cheg\u00e1mos a Gaza], disseram-nos que acreditam no Cor\u00e3o e que n\u00e3o nos fariam mal. Disseram que nos tratariam da mesma forma que tratam os seus.\u201d Conta o \u201cinferno por que passou\u201d durante o ataque ao kibbutz onde vive e a viagem para Gaza, mas sublinha que os seus captores foram simp\u00e1ticos, cuidaram dos ref\u00e9ns, medicaram e trataram os feridos e mantiveram o espa\u00e7o muito limpo. \u201cCom\u00edamos o mesmo que eles comiam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Numa entrevista para a r\u00e1dio p\u00fablica israelita Haboker Hazeh, uma sobrevivente dos combates no Kibbutz Be\u2019eri partilha a sua experi\u00eancia. Yasmin Porat relata como os combatentes palestinianos trataram os ref\u00e9ns \u201cde forma humana\u201d, e como uma dezena de ref\u00e9ns foi morta por fogo cruzado. De quem, das for\u00e7as israelitas? \u201cSem d\u00favida\u201d, responde Yasmin. Tanques israelitas at\u00e9 dispararam contra a casa onde os combatentes palestinianos e os ref\u00e9ns se encontravam. S\u00f3 Yasmin e outra mulher sobreviveram.<\/p>\n\n\n\n<p>Os combates neste kibbutz, tomado durante 18 horas por combatentes do Hamas e da FDLP, ficaram conhecidos como \u201cmassacre de Be\u2019eri\u201d. Segundo os&nbsp;<em>media<\/em>, morreram mais de 100 civis, incluindo mulheres e crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V\u00edtimas civis<\/h2>\n\n\n\n<p>Entre 7 e 23 de Outubro, foram mortas em Israel 1400 pessoas, israelitas e estrangeiras. Entre elas, 308 membros das FDI, 10 membros do Shin Bet e 58 pol\u00edcias. Sabe-se que colonos armados foram dos primeiros a confrontar os combatentes palestinianos que avan\u00e7avam de Gaza, registando-se baixas dos dois lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Das restantes 1024 v\u00edtimas mortais, n\u00e3o sabemos quantas eram colonos armados mortos em combate nem quantas foram mortas pelas for\u00e7as israelitas. A apresenta\u00e7\u00e3o unidimensional destas mortes como civis chacinados \u201cpelos terroristas do Hamas\u201d lan\u00e7a as bases para equiparar a ofensiva palestiniana de 7 de Outubro ao Holocausto ou ao Estado Isl\u00e2mico.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Puni\u00e7\u00e3o colectiva e genoc\u00eddio<\/h2>\n\n\n\n<p>S\u00f3 tal narrativa desumanizante dos palestinianos pode abrir caminho \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o, na opini\u00e3o p\u00fablica ocidental, da morte de pelo menos 8000 palestinianos e m tr\u00eas semanas, sobretudo civis, v\u00edtimas de bombardeamentos israelitas indiscriminados que destru\u00edram bairros e atingiram hospitais, escolas da ONU, padarias, mesquitas e uma das mais antigas igrejas do mundo. Entre as v\u00edtimas mortais da ocupa\u00e7\u00e3o contam-se pelo menos 3342 crian\u00e7as, 2062 mulheres, 110 m\u00e9dicos, 59 trabalhadores da UNRWA e 35 jornalistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Israel imp\u00f4s um bloqueio \u00e0 entrada de electricidade, combust\u00edvel, \u00e1gua, material m\u00e9dico e comida em Gaza. A \u201cabertura\u201d do posto fronteiri\u00e7o de Rafah, ap\u00f3s 2 semanas de cerco total, \u00e9 aned\u00f3tica, com nem 20 cami\u00f5es de ajuda humanit\u00e1ria por dia a cruzar a fronteira, quando antes desta \u00faltima escalada eram 400 cami\u00f5es di\u00e1rios. Em direito internacional, chama-se a isto puni\u00e7\u00e3o colectiva, e \u00e9 terminantemente proibido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Direito a resistir<\/h2>\n\n\n\n<p>A resist\u00eancia e a luta armada contra uma ocupa\u00e7\u00e3o colonial \u00e9 reconhecida pelo direito internacional e est\u00e1 expressamente consagrada. O&nbsp;<a href=\"https:\/\/ihl-databases.icrc.org\/en\/ihl-treaties\/api-1977\/article-1?activeTab=undefined\">Protocolo Adicional I<\/a>&nbsp;(1977) \u00e0 Conven\u00e7\u00e3o de Genebra estabelece que as guerras de liberta\u00e7\u00e3o s\u00e3o um \u201cexerc\u00edcio do direito \u00e0 autodetermina\u00e7\u00e3o\u201d. Em 1982, a resolu\u00e7\u00e3o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.un.org\/documents\/ga\/res\/37\/a37r043.htm\">37\/43<\/a>&nbsp;da AG da ONU reafirmou \u201ca legitimidade da luta de um povo pela independ\u00eancia, integridade territorial, unidade nacional e liberta\u00e7\u00e3o de uma domina\u00e7\u00e3o colonial ou estrangeira por todos os meios dispon\u00edveis, incluindo a luta armada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e1scara do Ocidente cai quando o mundo observa os l\u00edderes europeus a reiterar o apoio a Israel e ao \u201cseu direito a defender-se\u201d. O movimento de porta-avi\u00f5es norte-americanos para o mediterr\u00e2neo aproxima ainda mais a regi\u00e3o, e o mundo, de uma guerra de larga escala.<\/p>\n\n\n\n<p>A coloca\u00e7\u00e3o do poder ocupante como v\u00edtima, e a legitima\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sobre a popula\u00e7\u00e3o de Gaza como simples acto \u201cde defesa\u201d, \u00e9 muito perigosa. As constantes quest\u00f5es sobre a condena\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do Hamas, ou qualquer grupo da resist\u00eancia palestiniana, \u00e9 uma falsa quest\u00e3o, pois p\u00f5e o foco na viol\u00eancia do rio que tudo arrasta, e esquece a viol\u00eancia das margens que o oprimem.<\/p>\n\n\n\n<p>Um genoc\u00eddio est\u00e1 em curso e os governos ocidentais cerram fileiras para defender o apartheid e a ocupa\u00e7\u00e3o israelitas. J\u00e1 as ruas dizem que os povos da Europa pensam bem diferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ocidente tenta controlar a narrativa, a solidariedade com a Palestina \u00e9 reprimida e ilegalizada na Europa, os media simples instrumentos da propaganda. O jornalismo n\u00e3o devia dar voz \u00e0 narrativa do poder ocupante, mas desmontar as mentiras que procuram legitimar um regime de apartheid.<\/p>\n","protected":false},"author":106,"featured_media":7385,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[203],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7384"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/106"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7384"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7384\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7490,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7384\/revisions\/7490"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7385"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7384"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7384"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7384"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7384"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}