{"id":7374,"date":"2023-11-08T22:26:45","date_gmt":"2023-11-08T22:26:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7374"},"modified":"2023-11-08T22:27:35","modified_gmt":"2023-11-08T22:27:35","slug":"nagorno-karabakh-um-genocidio-anunciado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/11\/08\/nagorno-karabakh-um-genocidio-anunciado\/","title":{"rendered":"Nagorno-Karabakh, um genoc\u00eddio anunciado"},"content":{"rendered":"\n<p>Sendo hoje evidente que genoc\u00eddios e limpezas \u00e9tnicas s\u00f3 s\u00e3o conden\u00e1veis e fazem manchetes se praticadas por inimigos do mundo \u201cdemocr\u00e1tico e livre\u201d, urge falar desta guerra com um desfecho \u00edmpar na hist\u00f3ria recente, que s\u00f3 n\u00e3o foi mais macabro porque o povo arm\u00e9nio aprendeu a reconhecer um genoc\u00eddio que est\u00e1 ao virar da esquina.<\/p>\n\n\n\n<p>O Genoc\u00eddio Arm\u00e9nio \u00e0s m\u00e3os do Imp\u00e9rio Otomano (1914-1917) \u00e9 marcado por deporta\u00e7\u00f5es e massacres e culmina com as marchas da morte pelo deserto s\u00edrio. Ao todo, foram mortos mais de 1 milh\u00e3o de arm\u00e9nios, atirados de penhascos, v\u00edtimas de doen\u00e7a ou trabalhos for\u00e7ados, \u00e0 sede e \u00e0 fome. E os massacres prosseguem, n\u00e3o s\u00f3 no Imp\u00e9rio Otomano mas tamb\u00e9m em NK, uma regi\u00e3o com 90% de popula\u00e7\u00e3o arm\u00e9nia rodeada por territ\u00f3rio azeri.<\/p>\n\n\n\n<p>A sucess\u00e3o de massacres interrompe-se com a incorpora\u00e7\u00e3o do C\u00e1ucaso na URSS em 1923. Mas, ao serem desenhadas as fronteiras da Arm\u00e9nia e do Azerbaij\u00e3o, NK \u00e9 deixado sob o controlo do Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1988, reacendem-se as tens\u00f5es \u00e9tnicas que a URSS mantivera adormecidas. A aspira\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de NK a uma unifica\u00e7\u00e3o com a Arm\u00e9nia \u00e9 mal recebida no Azerbaij\u00e3o. Entre 1988 e 1990, tr\u00eas cidades azeris s\u00e3o palco de pogroms contra a minoria arm\u00e9nia. Azeris pilham e incendeiam casas, violam, mutilam e queimam pessoas vivas. Quase toda a popula\u00e7\u00e3o arm\u00e9nia abandona o Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As autoridades locais convocam, em 1991, um referendo sobre a independ\u00eancia de NK. Apesar do boicote pela popula\u00e7\u00e3o azeri, 99.98% dos 82% de votantes escolhem a independ\u00eancia. O Azerbaij\u00e3o n\u00e3o a reconhece.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra aberta estala em 1992 e termina em 1994, com as for\u00e7as arm\u00e9nias a controlar a maioria de NK e v\u00e1rios munic\u00edpios azeris adjacentes. Acorda-se um cessar-fogo, mas n\u00e3o \u00e9 assinado um acordo de paz \u2013 a independ\u00eancia de NK n\u00e3o \u00e9 reconhecida, e o Azerbaij\u00e3o n\u00e3o recupera os munic\u00edpios perdidos. Torna-se um conflito congelado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Abutres<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde o colapso da URSS, as pot\u00eancias ocidentais cultivam la\u00e7os econ\u00f3micos e militares com este territ\u00f3rio rico em petr\u00f3leo, g\u00e1s e outros recursos, banhado pelo Mar C\u00e1spio e com uma posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica \u00fanica, ao fazer fronteira com a R\u00fassia e o Ir\u00e3o. Entre 1994 e 2020, EUA, Inglaterra, Fran\u00e7a, Turquia, Ucr\u00e2nia, R\u00fassia e Israel vendem armas ao Azerbaij\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Arm\u00e9nia, com menos recursos e uma posi\u00e7\u00e3o geoestrat\u00e9gica menos interessante, perde terreno face \u00e0 progressiva moderniza\u00e7\u00e3o e aumento das capacidades militares das for\u00e7as azeris. A R\u00fassia \u00e9 a sua principal fonte de armamento.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O princ\u00edpio do fim<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2020, o Azerbaij\u00e3o lan\u00e7a uma ofensiva militar para recuperar os munic\u00edpios ocupados pelas for\u00e7as arm\u00e9nias em 1993. Com os azeris, combatem mercen\u00e1rios vindos da guerra na S\u00edria. O uso de drones israelitas inflige pesadas baixas do lado arm\u00e9nio, atingindo pontos de concentra\u00e7\u00e3o de tropas antes de estas chegarem \u00e0 frente de batalha. Num m\u00eas, o Azerbaij\u00e3o captura v\u00e1rios munic\u00edpios azeris nas m\u00e3os dos arm\u00e9nios e territ\u00f3rios no sul de NK.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra \u00e9 curta mas brutal. Ambas as partes cometem crimes de guerra. Contudo, como afirma o Instituto para o Estudo dos Direitos Humanos da Universidade de Columbia, \u201cos danos colaterais dos azeris\u201d n\u00e3o se comparam com \u201ca pol\u00edtica de atrocidades, como mutila\u00e7\u00f5es e decapita\u00e7\u00f5es, cometidas por for\u00e7as azeris e seus&nbsp;<em>proxies<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os azeris a 15km da capital, Stepanakert, precipita-se um acordo de cessar-fogo mediado pela R\u00fassia. As for\u00e7as arm\u00e9nias acordam retirar-se dos munic\u00edpios azeris que controlam. For\u00e7as de manuten\u00e7\u00e3o de paz russas monitorizar\u00e3o a linha de contacto e o corredor de Lachin, \u00fanica liga\u00e7\u00e3o terrestre entre NK e a Arm\u00e9nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segue-se uma relativa acalmia at\u00e9 Dezembro de 2022, quando \u201cactivistas\u201d azeris bloqueiam o corredor de Lachin, alegando protestar contra a actividade mineira em NK. A manobra, apoiada pelo governo, \u00e9 vista como uma utiliza\u00e7\u00e3o de civis para imp\u00f4r um bloqueio ao territ\u00f3rio. \u00c9 cortado o fornecimento de g\u00e1s a NK. O bloqueio arrasta-se, nunca sendo totalmente levantado, e o ex\u00e9rcito azeri estabelece um posto de controlo no corredor de Lachin, em viola\u00e7\u00e3o dos acordos de 2020.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O fim de Nagorno-Karabakh<\/h2>\n\n\n\n<p>A 19 de Setembro deste ano, as for\u00e7as armadas do Azerbaij\u00e3o lan\u00e7am a derradeira ofensiva sobre NK. Em 24 horas, as for\u00e7as do Azerbaij\u00e3o bombardeiam as for\u00e7as de NK ao largo da linha de contacto, avan\u00e7ando no territ\u00f3rio e tomando pontos estrat\u00e9gicos. Stepanakert \u00e9 alvo de bombardeamentos indiscriminados.<\/p>\n\n\n\n<p>O Azerbaij\u00e3o exige a dissolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as militares e paramilitares arm\u00e9nias da Rep\u00fablica de Artsakh, a entrega de armas e equipamentos militares e a integra\u00e7\u00e3o de NK na Rep\u00fablica do Azerbaij\u00e3o. As for\u00e7as de Artsakh, incapazes de travar o avan\u00e7o azeri, capitulam.<\/p>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de NK percebe o que isso significa \u2013 o fim. \u00c0 dissolu\u00e7\u00e3o das for\u00e7as arm\u00e9nias e entrega das armas, uma coisa se seguir\u00e1: um novo genoc\u00eddio.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazem-se \u00e0 estrada, rumo \u00e0 Arm\u00e9nia. Numa semana, mais de 100 mil arm\u00e9nios cruzam a fronteira.<\/p>\n\n\n\n<p>O Corredor de Lachin est\u00e1, finalmente, aberto. Desta vez, para partir e nunca mais voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201ccomunidade internacional\u201d observa em sil\u00eancio. N\u00e3o h\u00e1 condena\u00e7\u00f5es \u2013 o Azerbaij\u00e3o \u00e9 um \u201cparceiro de confian\u00e7a\u201d e o seu g\u00e1s necess\u00e1rio. A ONU, quando chega, s\u00f3 encontra cidades vazias. Os&nbsp;<em>media&nbsp;<\/em>calam. A desloca\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de toda uma popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma nota de rodap\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s s\u00e9culos de presen\u00e7a arm\u00e9nia em Nagorno-Karabakh, a 15 de Outubro, Ilham Aliyev, presidente do Azerbaij\u00e3o, hasteia a bandeira azeri numa Stepanakert deserta, capital da agora defunta Rep\u00fablica de Artsakh. Do outro lado, h\u00e1 100 mil arm\u00e9nios sem terra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Setembro de 2023 ficar\u00e1 marcado como mais um momento negro da hist\u00f3ria do povo arm\u00e9nio. A Rep\u00fablica de Artsakh, proclamada no territ\u00f3rio conhecido como Nagorno-Karabakh (NK), deixou de existir ap\u00f3s a \u00faltima ofensiva militar do Azerbaij\u00e3o, que p\u00f4s em fuga as 120 mil pessoas que ali viviam.<\/p>\n","protected":false},"author":106,"featured_media":7375,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[203],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/106"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7374"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7379,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7374\/revisions\/7379"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7375"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7374"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}