{"id":7357,"date":"2023-11-08T22:07:54","date_gmt":"2023-11-08T22:07:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7357"},"modified":"2023-12-05T10:40:29","modified_gmt":"2023-12-05T10:40:29","slug":"a-violencia-sexual-com-base-em-imagens-e-os-impactos-da-pornografia-na-juventude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/11\/08\/a-violencia-sexual-com-base-em-imagens-e-os-impactos-da-pornografia-na-juventude\/","title":{"rendered":"A viol\u00eancia sexual com base\u00a0em imagens e os impactos\u00a0da pornografia na juventude"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<em>Pornografia de vingan\u00e7a<\/em>\u201d n\u00e3o \u00e9 o termo justo para este fen\u00f3meno. Trata-se de viol\u00eancia sexual com recurso \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de imagens, da\u00ed as te\u00f3ricas feministas terem cunhado a express\u00e3o \u201cviol\u00eancia sexual com base em imagens\u201d (VSBI). Em ingl\u00eas \u201c<em>image based sexual abuse<\/em>\u201d. Chamar pornografia a uma express\u00e3o de viol\u00eancia sexual, que incide particularmente sobre mulheres e raparigas, \u00e9 n\u00e3o assumir a componente de viol\u00eancia envolvida, mas remet\u00ea-la para o dom\u00ednio do entretenimento sexual, maioritariamente masculino. Por outro lado, \u00e9 aceitar que qualquer express\u00e3o de car\u00e1cter \u00edntimo, de sexualidade ou de nudez \u00e9 pornogr\u00e1fica, j\u00e1 que a quest\u00e3o do consentimento ou de uma suposta liberdade para \u201cfazer pornografia\u201d nem sequer \u00e9 equacionada. Deduziremos ent\u00e3o que nudez \u00e9 sexo, sexo \u00e9 pornografia, pornografia \u00e9 tudo o que se relacione com esta dimens\u00e3o de intimidade e de sexualidade. Mas pornografia \u00e9 muito mais do que isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Existem vis\u00f5es diferentes sobre o que \u00e9 a pornografia, mas h\u00e1 uma caracter\u00edstica que as une: a pornografia \u00e9 uma ind\u00fastria que gera lucro atrav\u00e9s da comercializa\u00e7\u00e3o de imagens cujo prop\u00f3sito \u00e9 a excita\u00e7\u00e3o sexual do utilizador. A vis\u00e3o da qual partilhamos \u00e9 de que a pornografia n\u00e3o \u00e9 uma mera ind\u00fastria \u201csem v\u00edtimas\u201d, uma simples express\u00e3o comercial de actos sexuais gravados. \u00c9 sim uma ind\u00fastira multimilion\u00e1ria que assenta na explora\u00e7\u00e3o e na promo\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia para com mulheres e raparigas, indo muito al\u00e9m de qualquer express\u00e3o de gratifica\u00e7\u00e3o sexual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A generalidade da pornografia assenta na reprodu\u00e7\u00e3o de actos sexuais, cuja din\u00e2mica remete diretamente para a humilha\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o das mulheres e para o desejo de domina\u00e7\u00e3o masculina. Sem este tipo de conte\u00fado, muito dele j\u00e1 no \u00e2mbito da criminalidade, a pornografia n\u00e3o seria a ind\u00fastria lucrativa que \u00e9. A ind\u00fastria pornogr\u00e1fica n\u00e3o se limita a comercializar imagens de sexo, mas sim imagens de viol\u00eancia sexual para com mulheres, que \u00e9 glamorizada e erotizada. Por isso, refor\u00e7amos a import\u00e2ncia de diferenciar conceitos e de n\u00e3o ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de caracterizar algo sexual logo como pornografia. At\u00e9 porque n\u00e3o fiz\u00e9mos ainda enquanto sociedade uma reflex\u00e3o conjunta e s\u00e9ria sobre esta ind\u00fastria e a sua influ\u00eancia. Conformamo-nos com a sua exist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o poderemos tamb\u00e9m chamar \u201cvingan\u00e7a\u201d ao fen\u00f3meno da VSBI? Porque vingan\u00e7a \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o mais ou menos leg\u00edtima a uma injusti\u00e7a ou a algo percepcionado como tal. O que sabemos sobre os agressores que partilham este tipo de conte\u00fado \u00edntimo \u00e9 que n\u00e3o o fazem, na sua grande maioria, por revanchismo, mas sim porque podem obter recompensas materiais \u2013 extors\u00e3o \u2013 ou imateriais \u2013 afirma\u00e7\u00e3o de masculinidade e de perten\u00e7a \u00e0&nbsp;<em>fratria<\/em>&nbsp;( a \u201ccomunidade dos irm\u00e3os\u201d). Muitos deles nem conhecem pessoalmente as v\u00edtimas. A sociedade da&nbsp;<em>fratria<\/em>&nbsp;implica necessariamente a domina\u00e7\u00e3o e\/ou a total exclus\u00e3o das mulheres. A ind\u00fastria da pornografia tem um papel central na constru\u00e7\u00e3o de la\u00e7os entre homens ao refor\u00e7ar o papel de subordina\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Actualmente, uma parte dos e das jovens come\u00e7a a consumir pornografia por volta dos 11 anos, que se vai intensificando \u00e0 medida que crescem e t\u00eam acesso facilitado a conte\u00fados digitais. \u00c9 nesta camada jovem que o fen\u00f3meno da viol\u00eancia sexual com base em imagens impera, n\u00e3o estando as escolas preparadas para abordar o fen\u00f3meno, e que visa sobretudo raparigas, at\u00e9 porque socialmente a sexualidade feminina continua a ser alvo de reprova\u00e7\u00e3o quando n\u00e3o condicente com alguns crit\u00e9rios socialmente definidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A par disto, os e as jovens, cujo conhecimento sobre sexualidade \u00e9 adquirido, em grande parte, atrav\u00e9s da ind\u00fastria pornogr\u00e1fica (muito antes at\u00e9 de iniciarem a sua vida sexual), reproduzem na intimidade aquilo que consideram ser uma viv\u00eancia desej\u00e1vel e expect\u00e1vel das rela\u00e7\u00f5es sexuais imbu\u00eddas de viol\u00eancia masculina e que legitimam e normalizam a humilha\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o das mulheres, relegando-as \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de seres desprovidos de desejo pr\u00f3prio e somente de destinat\u00e1rias e serventes do desejo de outr\u00e9m. No nosso contacto com jovens, o que tem ficado claro \u00e9 que rapazes e raparigas acreditam que a sexualidade cumpre diferentes fun\u00e7\u00f5es para elas e eles, e que raparigas jovens consentem em actos abusivos ou mesmo violentos porque \u00e9 assim que deve ser, \u00e9 a ordem natural.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento hist\u00f3rico em que nos encontramos, n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel ver na proibi\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 pornografia uma solu\u00e7\u00e3o para a sua crescente influ\u00eancia negativa entre a popula\u00e7\u00e3o jovem, mas \u00e9 poss\u00edvel contextualizar e deslegitim\u00e1-la. Para isso, a Educa\u00e7\u00e3o Sexual nas escolas tem de abandonar a perspectiva biom\u00e9dica e centrar-se nas rela\u00e7\u00f5es de poder entre os sexos e na viv\u00eancia saud\u00e1vel dos afectos e da sexualidade que privilegie a autodetermina\u00e7\u00e3o, o prazer m\u00fatuo, o consentimento e a n\u00e3o instrumentaliza\u00e7\u00e3o de outr\u00e9m para gratifica\u00e7\u00e3o sexual. Isto implica falar abertamente de sexo e de prazer com os e as jovens, colocar de lado os tabus relativamente a algumas pr\u00e1ticas sexuais, n\u00e3o implicando necessariamente a sua normaliza\u00e7\u00e3o, e garantir que as rela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o percepcionadas como uma componente natural da vida humana e que, para al\u00e9m do mais, a elevam e edificam.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos, temos vindo a falar sobre o fen\u00f3meno da \u201cpornografia de vingan\u00e7a\u201d, particularmente entre a popula\u00e7\u00e3o jovem, que consiste sobretudo na partilha online n\u00e3o consentida de conte\u00fados \u00edntimos, tipicamente de car\u00e1cter sexualizado. Contudo, n\u00e3o conseguiremos entender o alcance deste fen\u00f3meno se n\u00e3o pararmos para reflectir de forma cr\u00edtica sobre os impactos da pornografia na constru\u00e7\u00e3o da sexualidade na juventude. A exist\u00eancia deste fen\u00f3meno depende, em grande parte, do conformismo para com a ind\u00fastria pornogr\u00e1fica.<\/p>\n","protected":false},"author":105,"featured_media":7358,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[202],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7357"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/105"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7357"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7357\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7494,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7357\/revisions\/7494"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7358"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7357"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}