{"id":7346,"date":"2023-11-08T21:57:15","date_gmt":"2023-11-08T21:57:15","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7346"},"modified":"2023-12-05T10:35:26","modified_gmt":"2023-12-05T10:35:26","slug":"flavio-almada-nao-vai-haver-deus-algum-tudo-depende-da-acao-organizada-e-consequente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/11\/08\/flavio-almada-nao-vai-haver-deus-algum-tudo-depende-da-acao-organizada-e-consequente\/","title":{"rendered":"Fl\u00e1vio Almada: &#8220;N\u00e3o vai haver deus algum, tudo depende da a\u00e7\u00e3o organizada e consequente&#8221;\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Atrav\u00e9s do trabalho pol\u00edtico que t\u00eam feito nos bairros, sentes que a situa\u00e7\u00e3o social&nbsp;est\u00e1 muito dif\u00edcil?<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 insuport\u00e1vel. N\u00e3o quero parecer alarmante mas como \u00e9 que tens um sal\u00e1rio e n\u00e3o consegues alugar um T2 na Amadora? Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso sublinhar que nestes territ\u00f3rios de que estamos a falar muitas vezes a \u00fanica face do Estado que existe \u00e9 a pol\u00edcia. Servi\u00e7os p\u00fablicos? \u00c9 preciso que haja fortalecimento, n\u00e3o s\u00f3 do financiamento mas de coisas concretas. A situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 dif\u00edcil para a maioria, mas a minoria l\u00e1 em cima est\u00e1 numa boa. O inferno est\u00e1 aqui para n\u00f3s, os trabalhadores. A situa\u00e7\u00e3o torna-se insuport\u00e1vel, em que quase te retiram o direito a sonhar. Pergunta a qualquer um que tenha 18 anos, com o m\u00ednimo de cabe\u00e7a, sobre o que estar\u00e1 a fazer daqui a cinco ou dez anos. V\u00e3o dizer que querem sair daqui ou que n\u00e3o sabem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porqu\u00ea um movimento dirigido&nbsp;especificamente para os bairros?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que isso acontece. Eu vim de um movimento, a Plataforma Gueto, que era direcionado para os bairros. Sempre houve movimentos direcionados para os bairros porque os bairros s\u00e3o a maioria mas n\u00e3o t\u00eam representa\u00e7\u00e3o em nada e \u00e9 necess\u00e1rio que haja sujeitos pol\u00edticos que ponham a periferia no centro. N\u00e3o s\u00f3 como geografia mas tamb\u00e9m nas rela\u00e7\u00f5es de poder e de explora\u00e7\u00e3o. E \u00e9 importante porque, por exemplo, tens pessoas com tr\u00eas ou quatro empregos. Em termos de transporte, \u00e9 s\u00f3 ver de manh\u00e3 a linha de Sintra ou mesmo partes da linha de Cascais e como as pessoas v\u00e3o amontoadas nos comboios. E, ao longo dos anos, com o neoliberalismo, houve cortes, cortes, cortes, at\u00e9 nas carruagens. Primeiro, o n\u00famero de comboios a passar foi reduzido, depois as carruagens foram reduzidas. As liga\u00e7\u00f5es entre os bairros e o centro da cidade, os hor\u00e1rios, funcionam mais ou menos como \u201cvais trabalhar, depois voltas, n\u00e3o tens direito ao lazer\u201d. Se queres ir ao centro ao domingo est\u00e1s tramado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E em termos de emprego, grande parte do pessoal trabalha na limpeza, a profiss\u00e3o em que \u00e9 mais f\u00e1cil de despedir. H\u00e1 a quest\u00e3o, por exemplo, da constru\u00e7\u00e3o civil e da restaura\u00e7\u00e3o. Os bairros passaram a ser dormit\u00f3rios que andam a servir o centro, n\u00e3o \u00e9? Servem o centro e depois chega a parte em que n\u00e3o t\u00eam sossego. Quando v\u00e3o de manh\u00e3 s\u00e3o revistados pela pol\u00edcia, t\u00eam que passar v\u00e1rias fronteiras para entrar dentro da cidade. Mas isso porque v\u00e3o trabalhar, agora para se divertirem n\u00e3o \u00e9 permitido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E depois, \u00e0 noite, tens a pol\u00edcia porque h\u00e1 a classifica\u00e7\u00e3o de Zonas Urbanas Sens\u00edveis, que quando a crise se agudiza o terrorismo da pol\u00edcia aumenta como forma at\u00e9 de ocupar a cabe\u00e7a da malta para n\u00e3o resistir e colocar uma cultura de medo e acantonamento. \u00c9 bom que a agenda [dos bairros] seja discutida a partir dos seus pr\u00f3prios termos, da sua pr\u00f3pria realidade e tamb\u00e9m com sujeitos que n\u00e3o s\u00f3, mas s\u00e3o em grande parte, desse contexto, e que habitam e vivem esse contexto. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o, por exemplo, de experi\u00eancia, \u00e9 uma quest\u00e3o pol\u00edtica que tem uma agenda que facilita, que defende a maioria explorada e oprimida aqui da periferia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sentes que \u00e9 mais dif\u00edcil mobilizar os&nbsp;imigrantes e que a Vida Justa pode&nbsp;ajudar a criar uma pr\u00e1tica de luta para o&nbsp;futuro em torno deste setor da popula\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, eu acredito nisso porque \u00e9 muito dif\u00edcil quando est\u00e1s em condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade, tanto em termos jur\u00eddicos como materiais. Por exemplo, a malta tem longas horas de trabalho prec\u00e1rio. Pensas tr\u00eas vezes porque se n\u00e3o tiveres documenta\u00e7\u00e3o podes ser deportado, ou se a pol\u00edcia te der uma paulada como \u00e9 que te vais defender? Ent\u00e3o o Vida Justa nesse aspeto acaba por ancorar e criar um espa\u00e7o de luta e de pr\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que n\u00f3s pretendemos mesmo \u00e9 que a nossa malta perceba que ningu\u00e9m vai fazer nada sozinho e que a coisa \u00e9 mesmo coletiva, que coletivamente somos fortes. Essa onda do salve-se quem puder n\u00e3o \u00e9 nossa, n\u00e3o nos beneficia e a \u00fanica coisa que nos fortalece \u00e9 quando estamos unidos. A quest\u00e3o da unidade \u00e9 uma unidade na quest\u00e3o da pauta e na quest\u00e3o dos interesses. Interesses da malta explorada, da malta oprimida, racializada, brutalizada, sim \u2013 essa unidade, certo. \u00c9 \u00f3bvio que temos muito trabalho a fazer, precisamos que mais pessoas adiram, de uma forma mais consistente e sejam militantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E achas que a bestializa\u00e7\u00e3o do outro&nbsp;\u00e9 a pedra-chave para a manuten\u00e7\u00e3o de&nbsp;m\u00e3o-de-obra barata em Portugal?<\/p>\n\n\n\n<p>A criminaliza\u00e7\u00e3o e a bestializa\u00e7\u00e3o funcionam como forma de extrair a mais-valia e, ao mesmo tempo, pode ser usada como uma forma de baixar sal\u00e1rios numa desvaloriza\u00e7\u00e3o completa do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Os trabalhadores da periferia, no fundo, s\u00e3o quase todos os trabalhadores deste pa\u00eds, os que n\u00e3o usufruem de praticamente nada do que produzem. Sentem boa recetividade quando contactam quem trabalha?<\/p>\n\n\n\n<p>Identificam-se mas s\u00f3 identificar n\u00e3o \u00e9 suficiente, t\u00eam que participar. E essa quest\u00e3o de n\u00e3o usufruir\u2026 O que \u00e9 que fez a Europa ser aquilo que \u00e9? Se formos a ver, foi o terceiro mundo que construiu a Europa. O que \u00e9 que seria de Lyon, de Paris, de Liverpool, de Manchester, dos caminhos-de-ferro da Inglaterra sem escravatura? O que \u00e9 que seria de bancos como o Barclays, o que \u00e9 que seria da Chrysler, o que \u00e9 que seria mesmo da pr\u00f3pria Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a burguesia n\u00e3o teria arrog\u00e2ncia se n\u00e3o fosse a acumula\u00e7\u00e3o feita atrav\u00e9s da venda de escravos ligados ao Haiti. E mesmo quando milh\u00f5es de trabalhadores abandonaram os seus pa\u00edses durante a coloniza\u00e7\u00e3o para libertar a Europa do fascismo, a Europa nunca perdoou nem a R\u00fassia nem \u00c1frica por libert\u00e1-la do fascismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E essa quest\u00e3o dos trabalhadores aqui da periferia, numa escala maior estamos a ver isso. A malta constr\u00f3i hospitais em que n\u00e3o entra, constr\u00f3i casas em que n\u00e3o vai morar. \u00c9 s\u00f3 ver as rendas. \u00c9 uma forma de coloniza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. \u00c0 medida que a cidade se expande, empurra-se essa massa de trabalhadores para a periferia. Ent\u00e3o o que n\u00f3s devemos fazer n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contemplar, \u00e9 participar na organiza\u00e7\u00e3o do Vida Justa e militar para quebrar isso porque n\u00f3s s\u00f3 vamos conseguir isso atrav\u00e9s da luta. N\u00e3o vai haver deus algum, nenhum milagre, tudo depende da nossa a\u00e7\u00e3o organizada e consequente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Achas que a luta dignifica os trabalhadores da periferia?<\/p>\n\n\n\n<p>A luta d\u00e1 dignidade, a luta d\u00e1 vida, sem luta n\u00e3o h\u00e1 vida. Mesmo em termos do f\u00edsico. Todo o corpo est\u00e1 em movimento. Ent\u00e3o, o facto de estares na luta d\u00e1-te uma autoestima no sentido de te colocares numa posi\u00e7\u00e3o em que acabas por ser v\u00edtima mas n\u00e3o te pores numa posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima. A luta \u00e9 o \u00fanico que h\u00e1 para dar orgulho em ser trabalhador. \u201cEu sou trabalhador com orgulho, vivo do meu trabalho, eu n\u00e3o sou um explorador, um patr\u00e3o, eu sou um trabalhador\u201d. Por exemplo, os [Black] Panters conseguiram dar autoestima, aquela popula\u00e7\u00e3o tinha orgulho em ser Panter. E n\u00f3s vamos ser obrigados a lutar sen\u00e3o n\u00e3o conseguimos viver aqui com este sal\u00e1rio, com esta renda. Ou lutamos por melhores condi\u00e7\u00f5es, ou morremos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Lutar \u00e9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia. E \u00e9 uma quest\u00e3o tamb\u00e9m de dignidade e de participar na hist\u00f3ria, n\u00e3o ser mero espectador, ficar a ver as coisas a acontecer. A \u00fanica forma que h\u00e1 \u00e9 organizar, participar na luta e agir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Temos um governo que se diz de esquerda com maioria absoluta que promove&nbsp;pol\u00edticas de direita. Como \u00e9 que olhas&nbsp;para esta contradi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 como um lobo com pele de cordeiro. Vamos ver o que \u00e9 que o Partido Socialista fez aqui na Amadora? O Partido Socialista aqui na Amadora era quem expulsava as pessoas e deixava-as sem casa. Onde \u00e9 que a gente j\u00e1 viu um Partido Socialista fazer uma coisa dessas, mandar as pessoas voltar para a sua terra? H\u00e1 quanto tempo \u00e9 que o governo anda a falar de mais habita\u00e7\u00e3o? Uma parte das comunidades foi completamente dizimada, ao servi\u00e7o de quem? Eu acredito no povo, na massa trabalhadora, na for\u00e7a popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Essa \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para evitar o crescimento exponencial da extrema-direita?<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00fanica forma de combater a extrema-direita n\u00e3o \u00e9 discutir, \u00e9 criar medidas concretas para a resolu\u00e7\u00e3o de problemas materiais. N\u00e3o h\u00e1 que ter debate com esses gajos. Mas se o Partido Socialista quisesse mesmo combater a extrema-direita as medidas seriam concretas em termos materiais de dar condi\u00e7\u00f5es dignas \u00e0s pessoas que trabalham porque as pessoas n\u00e3o est\u00e3o a pedir esmola, as pessoas est\u00e3o a pedir que lhes devolvam aquilo que lhes pertence porque quem produz a riqueza somos n\u00f3s, somos n\u00f3s que trabalhamos. Estamos a pedir uma coisa que \u00e9 nossa, n\u00e3o estamos a pedir por favor. Basicamente \u00e9 com medidas concretas em termos de sal\u00e1rio que se resolvem muitos problemas. Casas para viver, casas para morar, a quest\u00e3o do aquecimento das casas, a quest\u00e3o das pens\u00f5es\u2026 A quest\u00e3o do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, a quest\u00e3o dos transportes, a quest\u00e3o da cultura. E o fracasso do vazio program\u00e1tico, aqui em termos de resolu\u00e7\u00e3o de problemas concretos, \u00e9 que pavimenta o caminho para a extrema-direita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">De que forma \u00e9 que se pode aspirar,&nbsp;neste caso em Portugal, a um pa\u00eds mais&nbsp;democr\u00e1tico em que todas estas realidades, toda esta periferia subrepresentada, tenha direito a um futuro?<\/p>\n\n\n\n<p>Da forma como este sistema est\u00e1 montado, tem que cair. Tinha que haver uma reestrutura\u00e7\u00e3o total at\u00e9 em termos da forma como se participa na pol\u00edtica, de como se fazem as coisas. Tinham de passar a ser de baixo para cima, n\u00e3o de cima para baixo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vive na Cova da Moura e \u00e9 um dos membros do Vida Justa, movimento que agita os bairros na luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Depois da manifesta\u00e7\u00e3o que percorreu as ruas de Lisboa at\u00e9 \u00e0 Assembleia da Rep\u00fablica, Fl\u00e1vio Almada recorda que \u00e9 a luta que d\u00e1 dignidade a quem trabalha e que o combate \u00e0 extrema-direita se faz com medidas concretas que resolvam os problemas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7348,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7346"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7346"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7346\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7486,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7346\/revisions\/7486"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7346"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}