{"id":7341,"date":"2023-11-08T21:51:17","date_gmt":"2023-11-08T21:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7341"},"modified":"2023-12-05T10:34:28","modified_gmt":"2023-12-05T10:34:28","slug":"distribuicao-desigual-dos-rendimentos-esta-na-origem-da-pobreza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/11\/08\/distribuicao-desigual-dos-rendimentos-esta-na-origem-da-pobreza\/","title":{"rendered":"Distribui\u00e7\u00e3o desigual\u00a0dos rendimentos est\u00e1 na origem da pobreza"},"content":{"rendered":"\n<p>Lisboa amanhece de lavado depois de um dia passado a chuva. Depois de dar banho ao pai, de 89 anos, Alcina Louren\u00e7o aquece \u00e1gua e prepara-lhe o pequeno almo\u00e7o e a medica\u00e7\u00e3o quando \u00e9 surpreendida por fortes murros na porta. A pol\u00edcia avisa-a de que se n\u00e3o a abrir t\u00eam de a arrombar \u00e0 for\u00e7a. Do lado de fora, mais de uma dezena de homens fardados e um agente de execu\u00e7\u00e3o, segundo Alcina, que d\u00e1 10 minutos para abandonarem a casa. Do lado de dentro, uma vida inteira para despejar num piscar de olhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando A Voz do Oper\u00e1rio chega ao n\u00famero 34 da Rua de Arroios, esta mulher \u00e9 uma ilha de l\u00e1grimas rodeada de caixotes na entrada do pr\u00e9dio. Acaba de cruzar pela \u00faltima vez a porta da casa onde vivia desde os seis anos de idade. O pai, de cadeira de rodas, aguarda no apartamento de uma vizinha depois de ter sido posto no hall de entrada. De acordo com Alcina, n\u00e3o apareceu nenhum assistente social nem ningu\u00e9m da autarquia esta manh\u00e3 que pudesse garantir uma alternativa a esta fam\u00edlia. N\u00e3o sabe onde \u00e9 que v\u00e3o dormir esta noite.<\/p>\n\n\n\n<p>O despejo estava inicialmente marcado para 3 de outubro e foi cancelado devido \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de movimentos que se juntaram no local para impedir a interven\u00e7\u00e3o policial. \u201cAndei a pedir ajuda a associa\u00e7\u00f5es e mandei v\u00e1rias cartas ao senhorio mas n\u00e3o me respondeu. Hoje, veio o tribunal e disse-me que tinha de sair\u201d, afirma Alcina \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio. \u201c[H\u00e1 semanas], propuseram uma solu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o dava condi\u00e7\u00f5es ao meu pai e eu recusei\u201d, justifica.<\/p>\n\n\n\n<p>Alcina vivia com o pai e uma tia desde pequena. A familiar morreu h\u00e1 cinco anos e, como a casa estava arrendada no nome da tia, o propriet\u00e1rio decidiu despejar o resto da fam\u00edlia. Quando a pol\u00edcia lhe bateu \u00e0 porta, preparava-se para trabalhar. \u201cFa\u00e7o umas horas para poder sobreviver, al\u00e9m da reforma do meu marido e do meu pai\u201d. O propriet\u00e1rio pediu um aumento da renda e Alcina fez uma contraproposta explicando que tinha o marido doente. Segundo a pr\u00f3pria, nunca ter\u00e1 deixado de pagar o aluguer, mesmo com o contrato em nome da tia.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da rua, do Areeiro at\u00e9 ao Martim Moniz, sobretudo na Avenida Almirante Reis, multiplicam-se as tendas com pessoas sem abrigo, muitas vezes apenas com um saco-cama. Em julho, o P\u00fablico noticiava que os pedidos de despejo por parte de propriet\u00e1rios tinham aumentado 22,6% no primeiro semestre de 2023 face a igual per\u00edodo do ano anterior. Foram 1412 os requerimentos de procedimento especial de despejo que deram entrada no Balc\u00e3o Nacional de Arrendamento entre janeiro e junho deste ano. Em quatro anos, segundo o Expresso, o n\u00famero de sem abrigo cresceu 78%. S\u00e3o 10.773 pessoas a viver na rua face aos 6044 de 2018.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Erradicar a pobreza<\/h2>\n\n\n\n<p>No dia 17 de outubro, Dia Internacional da Erradica\u00e7\u00e3o da Pobreza, os n\u00fameros voltaram a ilustrar a trag\u00e9dia social que se vive no pa\u00eds. Em 2021, 1,7 milh\u00f5es de pessoas estavam em risco de pobreza, com rendimentos inferiores a 551 euros mensais. O relat\u00f3rio da Rede Europeia Anti-Pobreza decifrou os dados e mostrou que destes 53,8% s\u00e3o mulheres, 57.6% t\u00eam entre 18 e 64 anos e 55,8% fazem parte de agregados familiares com crian\u00e7as. \u00c9 ainda mais dram\u00e1tico quando se pensa que estes n\u00fameros dizem respeito a 2021 e n\u00e3o refletem ainda as consequ\u00eancias do brutal aumento do custo de vida. Destas 1,7 milh\u00f5es de pessoas, 47% est\u00e1 a trabalhar e recebe um sal\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fundado em 2014, v\u00e1rias figuras da sociedade encabe\u00e7aram o Movimento Erradicar a Pobreza (MEP) com o objetivo de rejeitar a pobreza e o empobrecimento do pa\u00eds, assim como as desigualdades sociais. De norte a sul, esta organiza\u00e7\u00e3o distribuiu um documento a denunciar a actual situa\u00e7\u00e3o social. Em parceria com outras organiza\u00e7\u00f5es sociais, esta estrutura tem vindo a trabalhar na sensibiliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para o drama da pobreza e para as suas causas.<\/p>\n\n\n\n<p>Deolinda Machado, antiga dirigente da CGTP-IN e atual presidente do Conselho de Opini\u00e3o da RTP, sublinhou \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio que o MEP continua a \u201calertar consci\u00eancias\u201d para que n\u00e3o se olhe com \u201cindiferen\u00e7a\u201d para a pobreza. \u201cComo dizia o Professor Bruto da Costa, n\u00e3o podemos consentir com a realidade em que vivemos e considerarmos aceit\u00e1vel. N\u00e3o podemos naturalizar nem ficar parados com o agravar das desigualdades sociais, por exemplo, na actualidade, na questao da habita\u00e7\u00e3o. A pobreza \u00e9 um problema de todos e n\u00e3o pode ser considerada uma fatalidade de quem n\u00e3o teve sorte na vida\u201d, destacou. Para Deolinda Machado, este \u00e9 um problema \u201ceminentemente pol\u00edtico\u201d e ter acesso \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade \u00e9 \u201cum direito humano\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Or\u00e7amento do Estado para 2024, esta representante do MEP considerou que o movimento tem chamado a aten\u00e7\u00e3o para as v\u00e1rias dimens\u00f5es da pobreza. \u201cA come\u00e7ar pela falta de melhoria dos sal\u00e1rios e pens\u00f5es. Se isto n\u00e3o for actualizado e se os custos com a habita\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o continuarem a aumentar, h\u00e1 aqui uma perda permanente. Os custos aumentam brutalmente e os acertos n\u00e3o correspondem. Vemos dois pesos e duas medidas. Procuramos que haja uma vida digna para todos. N\u00e3o acontece o mesmo com os bancos e grandes superficies. S\u00f3 no primeiro semestre de 2023, os bancos tiveram lucros de 11 milh\u00f5es por dia e isto \u00e9 inaceit\u00e1vel\u201d, considerou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entre v\u00e1rios exemplos de contradi\u00e7\u00f5es, apontou para o aumento de 50% nas taxas de manuten\u00e7\u00e3o das contas dos reformados, quando os bancos foram ajudados pelo Estado quando foi necess\u00e1rio: \u201cQuem ainda tiver uma poupan\u00e7a, esta n\u00e3o rende nada no banco mas se pedir empr\u00e9stimos paga um juro alto\u201d. Por outro lado, referiu que a pobreza n\u00e3o tem de ser heredit\u00e1ria e que a riqueza tem de ser redestribu\u00edda de forma digna para todos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Distribui\u00e7\u00e3o desigual na origem da pobreza<\/h2>\n\n\n\n<p>Para o economista Tiago Cunha, \u201ca riqueza criada no nosso pa\u00eds permitia que a maioria da popula\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds vivesse com melhores condi\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 assim que comenta os elevados \u00edndices de pobreza em Portugal. \u201cN\u00f3s temos mais de 200 mil milh\u00f5es de euros de riqueza criada no nosso pa\u00eds a cada ano. Aquilo que temos \u00e9 uma distribui\u00e7\u00e3o da riqueza desigual. Se formos ver os dados que dizem respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de rendimentos das fam\u00edlias e da pr\u00f3pria distribui\u00e7\u00e3o do rendimento que cada ano \u00e9 produzido, \u00e9 aqui que temos a primeira grande desigualdade\u201d, explica. Esta desigualdade, considera, coloca-se \u201centre a distribui\u00e7\u00e3o de riqueza entre os detentores do capital e os detentores da for\u00e7a de trabalho\u201d. Uma boa parte da riqueza que \u00e9 produzida no nosso pa\u00eds \u201cvai para o grande capital\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas mesmo entre as empresas h\u00e1 diferen\u00e7as, explica: \u201cN\u00f3s temos n\u00edveis de concentra\u00e7\u00e3o de lucros no nosso pa\u00eds que fazem com que 1035 empresas absorvam 41% dos lucros gerados por todas as sociedades n\u00e3o financeiras no pa\u00eds. Isto s\u00e3o n\u00edveis de acumula\u00e7\u00e3o gigantescos\u201d. Para Tiago Cunha, s\u00e3o as empresas estrat\u00e9gicas como a EDP, a REN, a GALP, mas tamb\u00e9m do setor da grande distribui\u00e7\u00e3o. O objectivo, diz, \u00e9 minimizar o mais poss\u00edvel os sal\u00e1rios e maximizar o lucro para distribuir mais mais dividendos. Sobre o Or\u00e7amento do Estado para 2024, entende que as medidas que o governo tem tomado s\u00e3o pontuais e de car\u00e1cter assistencialista e que o documento acentua essa din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p>O economista recordou o efeito nulo do IVA zero que diz ter servido para garantir mais lucros para as empresas que absorveram a redu\u00e7\u00e3o deste imposto. Agora, o governo vai recuar na medida e vai direcionar os apoios para as camadas mais desfavorecidas. \u201cIsto \u00e0 primeira vista colhe grande simpatia porque o IVA beneficiaria todos e agora v\u00e3o direcionar aquela receita que se tinha perdido para apoiar as fam\u00edlias mas estas medidas como outras pontuais n\u00e3o resolvem necessidades permanentes\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra das raz\u00f5es que faz deste um pa\u00eds f\u00e9rtil para a pobreza \u00e9 o facto de haver baixos sal\u00e1rios. \u201cUm em cada dez trabalhadores empobrece a trabalhar. O aumento geral e significativo dos sal\u00e1rios para todos os trabalhadores \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental\u201d, recorda. Para Tiago Cunha, o desenvolvimento do pa\u00eds em todas as suas dimens\u00f5es \u00e9 importante e o sal\u00e1rio \u00e9 um factor que importa. \u201cN\u00e3o s\u00f3 porque os sal\u00e1rios garantem a dinamiza\u00e7\u00e3o da procura e garantem \u00e0 maioria das empresas escoamento dos seus produtos, mas tamb\u00e9m porque permite que todos os que queiram viver e trabalhar no nosso pa\u00eds o possam fazer e n\u00e3o emigrar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A perda do poder de compra dos trabalhadores da Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica, exemplifica, tem efeito tamb\u00e9m sobre toda a sociedade. \u201cS\u00e3o servi\u00e7os p\u00fablicos carentes de for\u00e7a de trabalho para garantir a sua atividade e a sua actividade \u00e9 garantir direitos: direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, direito \u00e0 sa\u00fade, direito \u00e0 seguran\u00e7a social. H\u00e1 quem aproveite este ataque a estes direitos porque v\u00eaem nestes direitos uma fonte de neg\u00f3cio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Com os estudos a indicarem uma subida dos gastos das fam\u00edlias em alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o e transportes, Tiago Cunha considera que boa parte das fam\u00edlias \u201ctem um garrote \u00e0 volta do pesco\u00e7o\u201d. E isto acontece em anos com crescimento recorde da riqueza produzida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 cerca de 1,7 milh\u00f5es de pessoas em risco de pobreza em Portugal. Destes, 47% trabalha e recebe um sal\u00e1rio. S\u00e3o n\u00fameros avassaladores quando as pessoas sem abrigo crescem 78% em compara\u00e7\u00e3o com 2018. Um aut\u00eantico barril de p\u00f3lvora num pa\u00eds em que as profundas desigualdades sociais se manifestam, sobretudo, devido \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o desigual da riqueza.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7344,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7341"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7341"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7341\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7484,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7341\/revisions\/7484"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7344"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7341"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7341"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7341"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7341"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}