{"id":7261,"date":"2023-10-10T10:30:02","date_gmt":"2023-10-10T10:30:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7261"},"modified":"2023-10-10T10:30:03","modified_gmt":"2023-10-10T10:30:03","slug":"a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-insubmissa-com-antonio-sergio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/10\/10\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-insubmissa-com-antonio-sergio\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: insubmissa com Ant\u00f3nio S\u00e9rgio"},"content":{"rendered":"\n<p>Passaram, em Setembro, os 140 anos do nascimento de um dos maiores pensadores portugueses: Ant\u00f3nio S\u00e9rgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sinal, um pensador anti-capitalista e destacado resistente antifascista.<\/p>\n\n\n\n<p>Sob a ditadura de Salazar, foi preso pol\u00edtico em 1933, 1935, 1948 e ainda em 1958 &#8211; na \u00faltima vez j\u00e1 tinha 75 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Esteve encarcerado no Aljube, no Limoeiro e na Penitenci\u00e1ria, em Lisboa. E ainda na pris\u00e3o de Caxias, em Oeiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1935, Salazar foi mesmo ao ponto de o expulsar de Portugal. Do que resultou que S\u00e9rgio estava exilado em Madrid, quando come\u00e7ou a guerra civil espanhola (em 1936).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ver bem e pensar melhor<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para evitar ser preso, Ant\u00f3nio S\u00e9rgio j\u00e1 tinha escolhido partir para um primeiro ex\u00edlio em 1927, ainda no in\u00edcio da ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p>E preso veio a ser, pouco depois de regressar, em julho de 1933.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois, em Outubro desse ano, foi um dos oradores na festa de abertura do ano letivo n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Falando para crian\u00e7as, n\u00e3o resistiu a procurar semear pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um relato, S\u00e9rgio <em>\u201cpede licen\u00e7a \u00e0 gente pequenina para lhes contar uma hist\u00f3ria: a hist\u00f3ria do Califa e os dois conselheiros\u201d<\/em>. E <em>\u201cpor algum tempo conseguiu interessar toda a assist\u00eancia\u201d<\/em>, terminando por <em>\u201cafirmar que, tal como no fundo moral da sua hist\u00f3ria, ainda melhor que ver as coisas \u00e9 pens\u00e1-las bem\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluiu convicto de que <em>\u201cnas escolas de A Voz do Oper\u00e1rio todos iriam aprender n\u00e3o s\u00f3 a ver bem as coisas mas tamb\u00e9m a pens\u00e1-las melhor\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E <em>\u201cfoi alvo de uma grande ova\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Falou a seguir o professor Manuel da Silva, que convidou a crian\u00e7ada a dar <em>\u201cuma nova ova\u00e7\u00e3o\u201d <\/em>a S\u00e9rgio, <em>\u201cpelo brilhantismo que imprimiu \u00e0 linda hist\u00f3ria dos conselheiros e do califa\u201d<\/em>. A assist\u00eancia <em>\u201ccorrespondeu delirantemente\u201d <\/em>[V.O., 11\/1933, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Dias depois, esta coletividade convidou Ant\u00f3nio S\u00e9rgio para ser o presidente do j\u00fari de um concurso para admiss\u00e3o de professores. O que ele aceitou e cumpriu.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Antero de Quental<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1942, A Voz do Oper\u00e1rio empenhou-se em comemorar o centen\u00e1rio do nascimento do poeta Antero de Quental. Importante pioneiro das ideias socialistas e do movimento oper\u00e1rio em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi certamente um desafio. Al\u00e9m da ditadura em Portugal, era quase toda a Europa continental que estava sob o jugo do nazi-fascismo. As tropas de Adolf Hitler ainda n\u00e3o tinham sido derrotadas pelo \u00abEx\u00e9rcito Vermelho\u00bb, na batalha de Estalingrado (URSS).<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele momento incerto, A Voz do Oper\u00e1rio contou com a colabora\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio, para criar uma exposi\u00e7\u00e3o sobre o socialista Antero de Quental.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve tamb\u00e9m palestra, v\u00e1rios artigos neste jornal, r\u00e9cita de poesia e m\u00fasica. Foram iniciativas constrangidas pelo contexto repressivo. Mas nas quais colaboraram outros intelectuais antifascistas, como Agostinho da Silva, Fernando Lopes Gra\u00e7a, Manuel Mendes e Manuela Porto.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Contra os \u00abbar\u00f5es\u00bb<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1954 foi o centen\u00e1rio da morte do escritor Almeida Garret. Um homem da revolu\u00e7\u00e3o liberal de 1820. De progresso do absolutismo para a monarquia constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma ef\u00e9meride que a ditadura estava procurando controlar num sentido conservador e conformista.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos limites impostos pela censura, A Voz do Oper\u00e1rio marcou um tom insubmisso, com um artigo de Ant\u00f3nio S\u00e9rgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7a por referir que Garrett era acusado de incoer\u00eancia por ter aceite um t\u00edtulo de nobreza, depois do que escrevera contra os \u00abbar\u00f5es\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e9rgio considera essa acusa\u00e7\u00e3o como <em>\u201cinteiramente absurda\u201d<\/em>, e como <em>\u201cmais uma prova de quanto os homens tendem a pensar sobre as palavras e n\u00e3o sobre as ideias que essas mesmas palavras representam\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Explica que pelo voc\u00e1bulo \u00abbar\u00f5es\u00bb, Garrett n\u00e3o se referia ao antigo t\u00edtulo da nobreza medieval mas sim aos <em>\u201cagiotas novos-ricos, e, em geral, os membros da oligarquia que dominava a sociedade do seu tempo\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Alude \u00e0 exist\u00eancia de classes sociais antag\u00f3nicas, num mundo composto pela <em>\u201cminoria de \u00abbar\u00f5es\u00bb que vampiricamente o exploravam, e de uma maioria que era a das v\u00edtimas desses tais: a dos desafortunados\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E aponta que, <em>\u201capesar da forma pitoresca, borboleante e brincalhona com que fala Garret dos senhores \u00abbar\u00f5es\u00bb nas suas \u00abViagens da minha terra\u00bb, eram os \u00abbar\u00f5es\u00bb uma preocupa\u00e7\u00e3o ser\u00edissima &#8211; e a mais importante &#8211; no pensamento social do nosso escritor\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque <em>\u201catacando os \u00abbar\u00f5es\u00bb, ele criticava, de facto, a pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o industrial burguesa, e embrenhava-se no mais perigoso, no mais profundo, dos problemas da sociedade do s\u00e9culo XIX\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que, <em>\u201cpelo que toca \u00e0 solu\u00e7\u00e3o de tal problema (que era para ele de gravidade m\u00e1xima) n\u00e3o podemos aceitar, os homens de hoje, a que Almeida Garrett preconizava: o paternalismo\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas S\u00e9rgio conclui que <em>\u201cdevemos agradecer-lhe, sem d\u00favida alguma, que medisse a sua import\u00e2ncia naquele tempo, que apontasse os abismos para que os \u00abbar\u00f5es\u00bb nos levavam, e que se empenhasse em opor aos seus malef\u00edcios o ideal humano da fraternidade\u201d <\/em>[V.O., 12\/1954, p.1].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Legado<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Quando Ant\u00f3nio S\u00e9rgio faleceu, A Voz do Oper\u00e1rio recordou que <em>\u201cnele sempre a nossa Sociedade encontrou um amigo devotado e um cooperador valioso\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E voltou a publicar aquele seu artigo, <em>\u201ccomo homenagem ao Homem cuja a\u00e7\u00e3o continua pela li\u00e7\u00e3o permanente e fecunda da obra que legou\u201d <\/em>[V.O., 05\/1969, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das ideias socialistas, na obra de S\u00e9rgio \u00e9 de salientar o olhar cr\u00edtico que lan\u00e7ou \u00e0 hist\u00f3ria de Portugal. Pelo realce \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es de classe e \u00e0 influ\u00eancia da estrutura econ\u00f3mica e social; e pelo questionamento do \u2018imp\u00e9rio\u2019 colonial como fator de subdesenvolvimento da economia portuguesa, somado \u00e0 inquisi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica e \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o a mouros e judeus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passaram, em Setembro, os 140 anos do nascimento de um dos maiores pensadores portugueses: Ant\u00f3nio S\u00e9rgio. Por sinal, um pensador anti-capitalista e destacado resistente antifascista. Sob a ditadura de Salazar, foi preso pol\u00edtico em 1933, 1935, 1948 e ainda em 1958 &#8211; na \u00faltima vez j\u00e1 tinha 75 anos de idade. Esteve encarcerado no Aljube, &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/10\/10\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-insubmissa-com-antonio-sergio\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: insubmissa com Ant\u00f3nio S\u00e9rgio<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7262,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7261"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7261"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7264,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7261\/revisions\/7264"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7262"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7261"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}