{"id":7237,"date":"2023-09-12T20:01:31","date_gmt":"2023-09-12T20:01:31","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7237"},"modified":"2023-09-12T20:01:32","modified_gmt":"2023-09-12T20:01:32","slug":"calor-uma-questao-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/09\/12\/calor-uma-questao-de-classe\/","title":{"rendered":"Calor, uma quest\u00e3o de classe"},"content":{"rendered":"\n<p>O m\u00eas de julho de 2023 foi o mais quente alguma vez registado no planeta terra, depois de junho tamb\u00e9m ter batido recordes de calor &#8211; segundo o servi\u00e7o europeu Copernicus. Apesar de Portugal ter escapado a algumas ondas de calor do in\u00edcio do ver\u00e3o que atingiram quase toda a Europa, provocando graves danos e in\u00fameras mortes, estamos cada vez mais expostos aos efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para termos uma ideia, as vagas de calor que varreram a Europa no Ver\u00e3o de 2022 podem ter provocado mais de 61 mil mortes &#8211; de acordo com os n\u00fameros de uma an\u00e1lise epidemiol\u00f3gica publicada na Nature Medicine. Tudo indica que este ano o cen\u00e1rio ser\u00e1 bastante pior.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, at\u00e9 final do s\u00e9culo pode assistir-se a um aumento de 100 mil \u00f3bitos prematuros por ano na Europa associado ao calor, se as temperaturas m\u00e9dias globais subirem mais de 2\u00baC face \u00e0s da era pr\u00e9-industrial. Sendo a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel os idosos, as pessoas com doen\u00e7as cr\u00f3nicas, as gr\u00e1vidas, as crian\u00e7as, e as pessoas mais precarizadas expostas a trabalhos exteriores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2401 mortes provocadas pelo calor\u00a0em Portugal\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>No ano de 2022 foram registadas tr\u00eas ondas de calor entre 4 de julho e 7 de agosto, tendo causado a morte a 2401 pessoas em Portugal &#8211; ou seja, o 4\u00ba pa\u00eds da europa com maior taxa de mortalidade. Lisboa foi uma das 7 cidades europeias com mais alto \u00edndice de exposi\u00e7\u00e3o a elevadas temperaturas, juntamente com Madrid, Roma, N\u00e1poles, Barcelona, Nice e Marselha.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo um estudo feito para a \u00c1rea Metropolitana de Lisboa, o stress por calor pode vir a prolongar-se por 10 a 51 dias em meados deste s\u00e9culo e atingir tr\u00eas meses seguidos (91 dias seguidos) no per\u00edodo 2071-2100, com base no cen\u00e1rio mais grave de aquecimento global (RCP8.5)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tr\u00eas milh\u00f5es de portugueses vivem em\u00a0situa\u00e7\u00e3o de pobreza energ\u00e9tica\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>Segundo n\u00fameros do Minist\u00e9rio do Ambiente e da Ac\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica, cerca de 660 a 680 mil portugueses vivem situa\u00e7\u00f5es de pobreza energ\u00e9tica dram\u00e1tica, e \u201centre 1,1 a 2,3 milh\u00f5es de pessoas [vivem] em situa\u00e7\u00e3o de pobreza energ\u00e9tica moderada\u201d. Ou seja, entre 1,8 milh\u00f5es a tr\u00eas milh\u00f5es de portugueses n\u00e3o conseguem manter uma temperatura adequada nas suas casas (tanto no ver\u00e3o quanto no inverno). Se o crit\u00e9rio for o do peso da fatura de energia acima dos 10% dos rendimentos, ent\u00e3o falamos de um universo de 3 milh\u00f5es de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza energ\u00e9tica em Portugal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco se sabe sobre os efeitos da pobreza energ\u00e9tica ligada ao calor em Portugal. Os \u00fanicos dados s\u00e3o-nos fornecidos pelo&nbsp;<em>In-hale<\/em>&nbsp;&#8211; projeto piloto de monitoriza\u00e7\u00e3o do calor dentro da casa de popula\u00e7\u00e3o idosa em Lisboa. Segundo este programa, Portugal \u00e9 o segundo pior pa\u00eds da UE em termos de capacidade de as pessoas arrefecerem as suas casas &#8211; 38% dos portugueses vivem em casas que n\u00e3o s\u00e3o confortavelmente frescas e 98% n\u00e3o t\u00eam ar condicionado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Calor, um indicador de classe<\/h2>\n\n\n\n<p>O calor \u00e9 um claro indicador de pobreza. Uma fam\u00edlia da classe trabalhadora que mora num apartamento pequeno, mal isolado, com poucas \u00e1reas verdes e com menos condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas para manter ventoinhas &#8211; n\u00e3o tem as mesmas condi\u00e7\u00f5es para se proteger das altas temperaturas da mesma forma que quem tenha uma casa climatizada com jardim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Madrid, por exemplo, tem-se estudado o fator classe na maneira como cada um sofre com o calor. Segundo uma investiga\u00e7\u00e3o da Universidade Polit\u00e9cnica de Madrid (UPM) sobre o impacto do calor nos bairros da capital do Estado Espanhol, descobriu-se que as diferen\u00e7as de temperatura entre as zonas mais humildes (como Puente de Vallecas, Usera ou Carabanchel) e as mais ricas podem chegar a ultrapassar os 8\u00baC. Isto deve-se a factores como: a aus\u00eancia de \u00e1reas verdes, a qualidade das edifica\u00e7\u00f5es, a exist\u00eancia de tr\u00e2nsito e o poder de compra.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O urbanismo hostil\u00a0<\/h2>\n\n\n\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de Madrid est\u00e1 cada vez mais preocupada com o sucessivo abate de \u00e1rvores e o crescimento do chamado urbanismo hostil &#8211; conjunto de t\u00e9cnicas que tenta impossibilitar a vida nas ruas, que substitui espa\u00e7os p\u00fablicos por espa\u00e7os comerciais ou \u201cpseudo p\u00fablicos\u201d e incentiva a divis\u00e3o social atrav\u00e9s da arquitectura. Esta pol\u00edtica \u00e9 seguida pelo atual executivo conservador desta cidade &#8211; cuja recente reforma de algumas pra\u00e7as deram origem \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o por cimento e bet\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto faz com que em certas partes da cidade se criem ilhas t\u00e9rmicas onde o calor \u00e9 insuport\u00e1vel. H\u00e1 zonas da capital espanhola que n\u00e3o baixam dos 30\u00b0C, e onde \u00e9 quase imposs\u00edvel refrescar-se sem ter de entrar num s\u00edtio de consumo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os parques e jardins &#8211; s\u00edtios onde ainda \u00e9 poss\u00edvel fugir das temperaturas mais altas &#8211; t\u00eam vindo a fechar na hora do calor. Ao mesmo tempo, proibiu-se a celebra\u00e7\u00e3o de anivers\u00e1rios em parques da cidade e as for\u00e7as de seguran\u00e7a atuam contra o \u00f3cio ao ar-livre. Esta medida acaba por empurrar a classe trabalhadora para s\u00edtios climatizados de consumo. Quem n\u00e3o tem dinheiro, n\u00e3o consegue fugir ao calor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00eas de julho de 2023 foi o mais quente alguma vez registado no planeta terra, depois de junho tamb\u00e9m ter batido recordes de calor &#8211; segundo o servi\u00e7o europeu Copernicus. Apesar de Portugal ter escapado a algumas ondas de calor do in\u00edcio do ver\u00e3o que atingiram quase toda a Europa, provocando graves danos e &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/09\/12\/calor-uma-questao-de-classe\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Calor, uma quest\u00e3o de classe<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":99,"featured_media":7238,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[196],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7237"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/99"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7237"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7237\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7242,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7237\/revisions\/7242"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7238"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7237"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}