{"id":7208,"date":"2023-09-05T11:58:26","date_gmt":"2023-09-05T11:58:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7208"},"modified":"2023-10-10T11:31:43","modified_gmt":"2023-10-10T11:31:43","slug":"luis-varatojo-a-musica-nao-deve-ficar-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/09\/05\/luis-varatojo-a-musica-nao-deve-ficar-em-casa\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Varatojo: \u201cA m\u00fasica n\u00e3o deve ficar em casa\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Quando se olha para o seu percurso, \u00e9 dif\u00edcil associ\u00e1-lo a um g\u00e9nero musical espec\u00edfico. Gosta de navegar entre estilos e mistur\u00e1-los?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, para mim a m\u00fasica \u00e9 a m\u00fasica. Eu ou\u00e7o muita m\u00fasica, das mais variadas proced\u00eancias, desde desde o pop rock ao world music, gosto muito de reggae, jazz\u2026 Ou seja, se a m\u00fasica me diz alguma coisa e me interessa eu ou\u00e7o. Quando fizemos a Naifa, por exemplo, peguei na guitarra portuguesa sem saber tocar mas achei que aquilo me podia, exatamente por n\u00e3o saber tocar, abrir caminhos e fintar um bocado o h\u00e1bito de tocar com a guitarra el\u00e9ctrica. Podia proporcionar-me outro tipo de composi\u00e7\u00e3o, outro tipo de solu\u00e7\u00f5es e isso do meu ponto de vista aconteceu. Ali\u00e1s, os artistas de que gosto mais misturaram sempre muita coisa. Por exemplo, a minha banda preferida s\u00e3o os The Clash e eram uma banda exactamente ao contr\u00e1rio das bandas puramente punk. Eles n\u00e3o tiveram qualquer problema em meter no caldeir\u00e3o blues, reggae, funk e rock.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\"><br>Refere a influ\u00eancia dos The Clash,&nbsp;mesmo na funda\u00e7\u00e3o dos Peste &amp; Sida, e,&nbsp;em entrevistas que deu, falou tamb\u00e9m da m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o como refer\u00eancia. Olha para a m\u00fasica como uma ferramenta de transforma\u00e7\u00e3o social?<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente. Acaba por ser um lugar comum de que j\u00e1 muita gente falou. Isso acontece e n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 na m\u00fasica. Li hoje um artigo centrado no Guernica, o quadro do Picasso, e isto \u00e9 transversal a todas as artes. Podes estar a trabalhar s\u00f3 para o entretenimento mas tamb\u00e9m podes e deves trabalhar para al\u00e9m do entretenimento. Ou seja, quando as pessoas v\u00eaem um bailado, assistem a um concerto ou olham para um quadro, deve haver mais alguma coisa ali, deve haver uma mensagem, deve apelar \u00e0 consci\u00eancia do p\u00fablico e deve p\u00f4r as pessoas a pensar em mais alguma coisa e n\u00e3o ser um entretenimento fugaz que se esgota ali naquele segundo ou naquele minuto em que ouvimos isto ou vemos aquilo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E sente que Luta Livre \u00e9 o projeto em que participa em que isso se evidencia mais?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o acho que seja isso porque acho que isto tem a ver com as \u00e9pocas. H\u00e1 bocado, estavas a falar, por exemplo, dos Peste &amp; Sida e da influ\u00eancia que os The Clash tiveram. Os The Clash e os Xutos &amp; Pontap\u00e9s foram bandas que tiveram muita influ\u00eancia em aparecermos e fazermos aquele tipo de m\u00fasica. Os pr\u00f3prios Peste &amp; Sida naqueles primeiros discos experimentavam tudo. T\u00ednhamos m\u00fasica tradicional portuguesa, reggae, fomos buscar quadras populares, n\u00f3s fal\u00e1vamos em v\u00e1rias quest\u00f5es, v\u00e1rios problemas dali do final dos anos 80, e fal\u00e1vamos de determinada forma porque t\u00ednhamos aquela idade e porque a \u00e9poca era aquela.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora fa\u00e7o outra coisa porque estamos em 2023. Eu tenho mais anos de m\u00fasica e vejo as coisas de outra forma. Mas posso ir buscar o exemplo da Naifa quando fomos buscar poemas de poetas portugueses contempor\u00e2neos, pessoas que tinham a nossa idade nessa altura e h\u00e1 uma s\u00e9rie de assuntos que est\u00e3o espelhados nessas letras que tem a ver com a vida do dia a dia e com a forma como encaras a vida do dia a dia. Isso \u00e9 uma caracter\u00edstica muito forte da Naifa que naquela altura tamb\u00e9m fez muito sentido para n\u00f3s. Falar disso era do que est\u00e1vamos a precisar de falar, est\u00e1vamos a precisar de cantar em portugu\u00eas porque a m\u00fasica que se ouvia na r\u00e1dio era s\u00f3 em ingl\u00eas, est\u00e1vamos a precisar de mexer no fado porque toda a gente tinha medo de mexer no fado. Agora, quando comecei a escrever as coisas para a Luta Livre, talvez em 2019 e no fim de 2018, foram esses assuntos que me fizeram mexer, arrancar para o est\u00fadio e come\u00e7ar a fazer can\u00e7\u00f5es. Era necess\u00e1rio falar sobre as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, sobre o trabalho prec\u00e1rio, e utilizar uma linguagem a\u00ed propositadamente o mais expl\u00edcita poss\u00edvel, evitando muito as met\u00e1foras, evitando se calhar a poesia porque as coisas t\u00eam de ser ditas de uma forma crua. Talvez por isso este seja o meu projecto mais directo e mais expl\u00edcito mas tem s\u00f3 a ver com o contexto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Algo que surpreende quando se vai ao&nbsp;Estado espanhol ou a It\u00e1lia \u00e9 que h\u00e1 uma cena musical alternativa com cr\u00edtica social muito forte. Isso n\u00e3o acontece em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda h\u00e1 pouco est\u00e1vamos a falar dos Peste &amp; Sida. Naquela altura, nos anos 80, para al\u00e9m dessas refer\u00eancias de que fal\u00e1vamos h\u00e1 bocado, ouv\u00edamos muita m\u00fasica que vinha do Pais Basco: La Polla Records, Kortatu, Negu Gorriak e outras bandas como os Tijuana in Blue. De repente, descobrimos isso e \u00edamos mandando vir discos e cassetes. Isso estava presente na nossa m\u00fasica. Havia realmente esse colectivo de m\u00fasicos, sobretudo, no Pa\u00eds Basco, que era o que conhec\u00edamos, que falava de coisas importantes que tinham uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Eu acho que tinha muito a ver tamb\u00e9m com o facto de serem empurrados pela quest\u00e3o da autodetermina\u00e7\u00e3o e da independ\u00eancia. Isso fazia com que houvesse ali uma uni\u00e3o \u00e0 volta de um tema. N\u00f3s temos aquela sensa\u00e7\u00e3o, e eu acho que \u00e9 real, por aquilo que eu conhe\u00e7o, que os espanh\u00f3is s\u00e3o mais aguerridos do que os portugueses. Acho que vivemos de outra forma e acho que isso tamb\u00e9m explica um pouco. N\u00f3s temos o fado e eles t\u00eam o flamenco e o flamenco \u00e9 muito mais agitado que o fado. Eu acho que tem a ver com a nossa identidade. Houve alturas em que se calhar, se falarmos ali dos anos 70, antes do 25 de Abril e naquele per\u00edodo logo a seguir, Zeca Afonso, S\u00e9rgio Godinho, Z\u00e9 M\u00e1rio Branco, Fausto, Vitorino, Samuel e outros faziam esse conjunto. No fundo, eram esse grupo que tinha lutas comuns e objetivos comuns. Era um movimento inorg\u00e2nico mas um movimento porque n\u00f3s viv\u00edamos sob uma ditadura com censura e isso fez com que a malta se organizasse e no fundo olhasse para o lado e n\u00e3o agisse sozinho, agisse em grupo, em colectivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu acho que o portugu\u00eas reage nessas alturas, quando est\u00e1 muito, muito apertado. Estou a lembrar-me daquela grande manifesta\u00e7\u00e3o quando lev\u00e1mos c\u00e1 com a troika, do 15 de Setembro, que teve um milh\u00e3o de pessoas nas ruas de Lisboa. De resto, vivemos um bocado numa esp\u00e9cie de banho maria que \u00e9 o que est\u00e1 a acontecer agora, muito ajudado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelo entretenimento vazio que leva a uma aliena\u00e7\u00e3o, a dizer-nos que n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer, que o melhor \u00e9 divertirmo-nos um bocado e beber uns copos. Que n\u00e3o vale a pena estarmos a pensar em quest\u00f5es importantes porque o sistema \u00e9 este, est\u00e1 feito assim e outro melhor n\u00e3o h\u00e1. Isso, obviamente, tem reflexo na m\u00fasica porque n\u00f3s m\u00fasicos somos pessoas e cidad\u00e3os iguais aos outros e n\u00e3o se sente esse \u00edmpeto, essa vontade de se fazer alguma coisa em conjunto para tentar comunicar, para tentar que alguma coisa mude.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Uma das suas can\u00e7\u00f5es foi usada pelo&nbsp;movimento Os Mesmos de Sempre a Pagar para promover uma manifesta\u00e7\u00e3o. Acha&nbsp;importante que os movimentos sociais se sintam identificados com aquilo que faz?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 super importante. Eu nunca deixarei de fazer aquilo que me vai na cabe\u00e7a quer isso tenha reflexo ou n\u00e3o no p\u00fablico. Isso \u00e9 um primeiro ponto. Depois se essas can\u00e7\u00f5es tiverem outra proje\u00e7\u00e3o e se servirem realmente algu\u00e9m, se servirem \u00e0s lutas, ent\u00e3o \u00f3timo. Elas est\u00e3o a cumprir exatamente essa fun\u00e7\u00e3o, est\u00e3o a cumprir o seu destino. Foi para isso que nasceram e a\u00ed, quando me pediram se podiam usar a m\u00fasica, p\u00e1, meus amigos, nem precisavam de ter pedido, essa m\u00fasica \u00e9 mesmo para usar. Obviamente que aquilo que est\u00e1 impl\u00edcito nesse movimento tem tudo a ver com esta m\u00fasica e esta m\u00fasica tem tudo a ver com isto. N\u00f3s estamos todos a sofrer as mesmas consequ\u00eancias do aumento da presta\u00e7\u00e3o, do brutal aumento dos pre\u00e7os, do aumento dos combust\u00edveis. Portanto, isto \u00e9 geral, e quando eu escrevo n\u00e3o \u00e9 para essa can\u00e7\u00e3o ficar em casa, \u00e9 para ela sair para a rua e fazer o servi\u00e7o que tem a fazer. Fiquei, obviamente, satisfeito com isso e, inclusive, fui \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o aqui em Lisboa, distribu\u00edmos panfletos com a letra da m\u00fasica porque a m\u00fasica estava a tocar no carro de som. Assim, a malta ficou a saber e se quisesse acompanhar a cantar tamb\u00e9m podia. Ou seja, fiz quest\u00e3o de me envolver em todo o processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\"><br>Acaba de participar na Festa do Avante.&nbsp;Tem algum significado?<\/p>\n\n\n\n<p>Significa muito. Eu estava aqui a fazer contas de cabe\u00e7a e j\u00e1 toquei umas 16 ou 17 vezes na Festa. E j\u00e1 l\u00e1 fui muito mais vezes como espetador e h\u00e1 muitos anos tamb\u00e9m l\u00e1 trabalhei, tamb\u00e9m ajudei a mont\u00e1-la. Vou l\u00e1 desde mi\u00fado. Fui \u00e0 primeira Festa do Avante na FIL, ainda muito mi\u00fado com os meus pais, tenho uma ideia da confus\u00e3o que foi e daquilo que se passou l\u00e1. Acho que \u00e9 um ambiente \u00f3timo onde as pessoas est\u00e3o lado a lado e se tratam por iguais e esse ambiente sente-se mesmo para quem vai l\u00e1 pela primeira vez. Depois. h\u00e1 uma consci\u00eancia, diria pol\u00edtica mesmo, n\u00e3o s\u00f3 nas pessoas afetas ao PCP e que v\u00e3o \u00e0 Festa, mas nas pessoas que n\u00e3o s\u00e3o afetas ao PCP mas que de alguma forma sintonizam com aquilo que se passa l\u00e1 e com a ideologia que est\u00e1 patente. Ainda por cima, porque o primeiro concerto de sempre, a primeira vez que pusemos um p\u00e9 em cima de um palco para apresentar este repert\u00f3rio, foi na Festa de 2020, no ano da pandemia, um ano absolutamente dif\u00edcil, dif\u00edcil para quem construiu a festa, para quem l\u00e1 foi tocar. Foi um ano mesmo de luta e isso ainda trouxe mais significado a esta segunda apresenta\u00e7\u00e3o. Estar a debitar este repert\u00f3rio, a falar destas coisas, a cantar estes refr\u00f5es em frente a uma plateia que realmente est\u00e1 sintonizada com essas quest\u00f5es e que n\u00e3o est\u00e1 ali s\u00f3 pelo entretenimento puro acho que sobe bastante a fasquia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E em rela\u00e7\u00e3o aos seus projetos, o que pensa fazer no futuro?<\/p>\n\n\n\n<p>Eu fa\u00e7o aquilo que a situa\u00e7ao vai pedindo. N\u00e3o sou situacionista, n\u00e3o \u00e9 bem isso, eu venho para o est\u00fadio basicamente todos os dias, \u00e0s vezes at\u00e9 ao fim de semana, e acontece sempre alguma coisa, acabo sempre por produzir alguma coisa, um beat, uma melodia. Estou sempre a construir e a gravar, e aquilo que vai aparecendo depois vou trabalhando e, se gosto, transforma-se num disco, transforma-se num projeto. Quando saiu este disco, em mar\u00e7o, continuei com esse meu ritmo de trabalho, recomecei a fazer coisas que se enquadram dentro da ideia da Luta Livre. Acho que ainda tenho aqui muita coisa para dizer e h\u00e1 muita m\u00fasica que quero fazer dentro deste registo e para j\u00e1 \u00e9 isso que tenho em projeto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fez parte dos Peste &#038; Sida, Linha da Frente, Naifa e encabe\u00e7a o projeto Luta Livre. Com a curadoria art\u00edstica do Festival do Maio,\u00a0Lu\u00eds Varatojo produz v\u00e1rios espet\u00e1culos e faz aquilo que sempre gostou de fazer: experimentar e misturar diferentes g\u00e9neros musicais.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7209,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7208"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7208"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7294,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7208\/revisions\/7294"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7208"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}