{"id":7193,"date":"2023-09-05T11:37:05","date_gmt":"2023-09-05T11:37:05","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7193"},"modified":"2023-09-08T14:40:07","modified_gmt":"2023-09-08T14:40:07","slug":"a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-teatro-com-rogerio-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/09\/05\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-teatro-com-rogerio-paulo\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: teatro com Rog\u00e9rio Paulo"},"content":{"rendered":"\n<p>Aquele 3 de janeiro de 1960 tornou-se um dia especial para a resist\u00eancia \u00e0 ditadura de Salazar.<\/p>\n\n\n\n<p>Deu-se a c\u00e9lebre fuga de Peniche, por \u00c1lvaro Cunhal e outros quadros do PCP que tinham sido presos pela PIDE. Alguns deles h\u00e1 longos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi o ator Rog\u00e9rio Paulo quem do exterior deu o sinal de partida. \u00c0 hora combinada, passou em frente da pris\u00e3o, conduzindo um carro com a bagageira aberta. Parou ali o carro, para a fechar. E seguiu viagem. Assim os fugitivos souberam que estava tudo pronto.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois nesse mesmo dia ele esteve n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, dando uma confer\u00eancia sobre teatro.<\/p>\n\n\n\n<p>No livro de visitas, deixou este registo:&nbsp;<em>\u201cFoi com a mais viva emo\u00e7\u00e3o e alegria que estive hoje na \u00abVoz do Oper\u00e1rio\u00bb. H\u00e1 muitos anos que me habituei a estimar a agremia\u00e7\u00e3o e s\u00f3 me resta agradecer a honra que me deram.\u201d Rog\u00e9rio Paulo, 3\/1\/960.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 mais tarde seria preso pela PIDE. Mas naquela altura j\u00e1 era um conhecido antifascista.<\/p>\n\n\n\n<p>Tinha colabora\u00e7\u00e3o na revista Seara Nova. E dera a cara pela oposi\u00e7\u00e3o, numas elei\u00e7\u00f5es falsificadas que a ditadura encenou em 1957. Al\u00e9m de ser militante do PCP, clandestinamente.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Anton Tchekhov<\/h2>\n\n\n\n<p>Rog\u00e9rio Paulo encenou a primeira pe\u00e7a que o \u00abTeatro da Voz do Oper\u00e1rio\u00bb estreou, em junho de 1960. Era um original de uma participante no grupo, Maria Teresa Rita.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa experi\u00eancia partiram para um dos maiores dramaturgos a n\u00edvel mundial, o russo Anton Tchekhov. E dele representaram \u00abA Boda\u00bb, em janeiro de 1961.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois meses depois, realizou-se n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio uma \u201cnoite de teatro de Tchekhov\u201d. Das Caldas da Rainha veio o \u00abConjunto C\u00e9nico Caldense\u00bb, que p\u00f4s em cena as pe\u00e7as \u00abO Urso\u00bb e \u00abOs malef\u00edcios do tabaco\u00bb. Enquanto a \u2018equipa da casa\u2019 voltou a apresentar \u00abA Boda\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir ao 25 de Abril, Rog\u00e9rio recordou o seu trabalho como encenador de Tchekov n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Explicou que,&nbsp;<em>\u201cdurante o fascismo, nos anos quarenta e cinquenta, os que, entre n\u00f3s, buscavam transmitir atrav\u00e9s do teatro o seu desespero, a sua esperan\u00e7a e a sua \u00e2nsia de vencer a \u00abmediocridade ambiente\u00bb, encontraram em Tchekov o autor que lhes servia\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>A seu ver,&nbsp;<em>\u201cn\u00e3o era muito diferente o Portugal dessa \u00e9poca da R\u00fassia dos finais do s\u00e9culo XIX\u201d<\/em>, que Tchekhov havia retratado:&nbsp;<em>\u201cpaz podre dos cemit\u00e9rios, resigna\u00e7\u00e3o em muitos, comodismo noutros tantos e uma enorme esperan\u00e7a em muitos que acreditavam e colaboravam com os clandestinos da \u00abnoite fria\u00bb\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele contexto, Tchekov&nbsp;<em>\u201csurgiu como o autor ideal, n\u00e3o s\u00f3 pela for\u00e7a da sua tem\u00e1tica como pela possibilidade de o apresentarmos\u201d<\/em>. \u00c9 que&nbsp;<em>\u201ca censura fascista n\u00e3o se atrevia a proibi-lo como fazia com obras de autores portugueses\u201d<\/em>. Pois&nbsp;<em>\u201cparecia mal e (que diabo!) tinha morrido em 1904, treze anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique, era representado em todo o mundo\u201d<\/em>. E&nbsp;<em>\u201cn\u00e3o constava que tivesse pertencido a nenhuma organiza\u00e7\u00e3o comunista\u2026\u201d<\/em>&nbsp;[\u00abNot\u00edcias da Amadora\u00bb, 23\/02\/1980, p\u00e1g. 8].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Confer\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Quanto \u00e0 confer\u00eancia de Rog\u00e9rio Paulo, no dia da fuga de Peniche, o tema foi a \u00abActualidade e perspectivas do teatro em Portugal\u201d.&nbsp;Ter\u00e1 come\u00e7ado por saudar&nbsp;<em>\u201cas virtudes dos teatros amadores imprescind\u00edveis para a concretiza\u00e7\u00e3o de uma cultura popular aut\u00eantica e duradoura\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Observando, depois, a hist\u00f3ria dos p\u00fablicos de teatro atrav\u00e9s das \u00e9pocas, tra\u00e7ou a seguinte evolu\u00e7\u00e3o:&nbsp;<em>\u201cEsses p\u00fablicos s\u00e3o logicamente, em primeiro lugar, as classes dominantes, porquanto a produ\u00e7\u00e3o teatral acompanha o p\u00fablico a que se destina. Durante muito tempo trabalhou-se para a aristocracia, fustigando os falsos aristocratas, procurando corrigir os rid\u00edculos mas sem nunca tocar no que de essencial constituia a ordem social estabelecida.\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>E continuou:&nbsp;<em>\u201cMais tarde, com o advento da burguesia, o Teatro come\u00e7ou a ser orientado no sentido da classe dominante. No final do s\u00e9culo XVIII a classe progressiva era a burguesia. E os autores burgueses surgiram. Alguns foram extraordin\u00e1rios, sobretudo os primeiros, caso de Carlo Goldoni.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas com o decorrer dos tempos, o teatro burgu\u00eas atrasou-se, ficando limitado aos estreitos limites das ambi\u00e7\u00f5es burguesas\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a derrota do nazi-fascismo na 2\u00aa Guerra Mundial,\u00a0<em>\u201co Povo surgiu como a classe triunfante. E todo o teatro atual, realmente digno de nota, deve ser, e \u00e9, um Teatro Popular. Isto \u00e9, um Teatro destinado a elevar o Povo, a consciencializ\u00e1-lo. Um Teatro que o possa servir e n\u00e3o um teatro que o afaste ou rebaixe\u201d<\/em>\u00a0[\u00abRep\u00fablica\u00bb, 03\/01\/1960, p\u00e1g. 2].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Receio da ditadura\u2026.<\/h2>\n\n\n\n<p>A dire\u00e7\u00e3o da sociedade A Voz do Oper\u00e1rio reuniu-se dois dias depois. Segundo a respectiva ata, o ent\u00e3o tesoureiro, Jorge Valente,&nbsp;<em>\u201ccongratulou-se pela maneira brilhante como decorreu a palestra que o actor Rog\u00e9rio Paulo veio realizar [&#8230;] na nossa institui\u00e7\u00e3o, cuja assist\u00eancia foi numerosa esgotando o sal\u00e3o da biblioteca\u201d<\/em>&nbsp;[Ata n\u00ba1, de 1960].<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tamb\u00e9m falou em formas de prevenir poss\u00edveis problemas com as autoridades da ditadura, em futuros eventos do g\u00e9nero.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, j\u00e1 tinha acontecido antes, uma iniciativa cultural d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio ser proibida no pr\u00f3prio dia\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele 3 de janeiro de 1960 tornou-se um dia especial para a resist\u00eancia \u00e0 ditadura de Salazar. Deu-se a c\u00e9lebre fuga de Peniche, por \u00c1lvaro Cunhal e outros quadros do PCP que tinham sido presos pela PIDE. Alguns deles h\u00e1 longos anos. 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