{"id":7137,"date":"2023-08-04T13:51:14","date_gmt":"2023-08-04T13:51:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7137"},"modified":"2023-08-05T15:36:24","modified_gmt":"2023-08-05T15:36:24","slug":"o-operario-ernesto-da-silva-socialismo-republica-e-teatro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/08\/04\/o-operario-ernesto-da-silva-socialismo-republica-e-teatro\/","title":{"rendered":"O oper\u00e1rio Ernesto da Silva: socialismo, rep\u00fablica e teatro"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Na Lisboa da \u00e9poca, o seu funeral foi uma manifesta\u00e7\u00e3o popular consider\u00e1vel. Ter\u00e1 reunido entre seis a sete mil pessoas. Republicanos, socialistas e anarquistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Delega\u00e7\u00f5es de sindicatos, cooperativas e outras coletividades. A Voz do Oper\u00e1rio fez-se representar por&nbsp;<em>\u201ctodos os seus corpos gerentes\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos discursos coube a um futuro fundador do PCP, o ent\u00e3o oper\u00e1rio corticeiro Sebasti\u00e3o Eug\u00e9nio, de Almada. Disse ele que a morte de Ernesto representava&nbsp;<em>\u201cuma enorme perda para os que trabalham e seguem os mais avan\u00e7ados ideais\u201d<\/em>. E apelou a que fosse seguido o seu exemplo de&nbsp;<em>\u201chombridade, dedica\u00e7\u00e3o e energia\u201d<\/em>&nbsp;[\u00abO Mundo\u00bb, 27\/04\/1903, p\u00e1g. 2].<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sindicalista<\/h2>\n\n\n\n<p>Oper\u00e1rio tip\u00f3grafo e revisor, Ernesto da Silva foi um de v\u00e1rios&nbsp;militantes not\u00e1veis que brotaram da Imprensa Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedicou-se \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do seu setor profissional, no sindicato \u00abLiga das Artes Gr\u00e1ficas\u00bb. E na \u00abFedera\u00e7\u00e3o de Associa\u00e7\u00f5es de Classe\u00bb (remota antepassada da atual Uni\u00e3o de Sindicatos de Lisboa).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ainda um dos fundadores da central sindical \u00abConfedera\u00e7\u00e3o Nacional das Associa\u00e7\u00f5es de Classe\u00bb (em 1894).<\/p>\n\n\n\n<p>No campo pol\u00edtico, foi militante do antigo \u00abPartido Socialista Portugu\u00eas\u00bb, entre 1892 e 1897. E dele chegou a ser um dos principais dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos seus artigos na imprensa oper\u00e1ria e republicana, salientou-se pelos dotes de orador, em com\u00edcios do 1\u00ba de Maio e noutras assembleias populares.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Marxismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Ernesto foi, no seu tempo, um importante propagandista do socialismo em Portugal. E tornou-se um porta-voz do apoio oper\u00e1rio \u00e0 causa republicana.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era propriamente um marxista. A sua grande refer\u00eancia te\u00f3rica era um revolucion\u00e1rio da Comuna de Paris, chamado Benoit Malon.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, marcado pela derrota e repress\u00e3o que se abateu sobre a Comuna, Malon focou-se na defesa da liberdade e da Rep\u00fablica. Passou a tratar a revolu\u00e7\u00e3o social como um horizonte mais long\u00ednquo. E, no fundo, expressou uma das revis\u00f5es reformistas que marcaram a leitura do marxismo nos partidos oper\u00e1rios, no final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, Ernesto abra\u00e7ou a influ\u00eancia do \u201canarquismo intervencionista\u201d. Uma corrente revolucion\u00e1ria que se empenhou no derrube da monarquia, como via imediata de a\u00e7\u00e3o, uma etapa para o progresso da liberdade e posteriores avan\u00e7os sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante, Ernesto faz parte da hist\u00f3ria do marxismo em Portugal, com dois contributos relevantes: traduziu&nbsp;<em>O comunismo e a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica<\/em>, de Paul Lafargue; e foi um dos respons\u00e1veis por uma edi\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Socialismo ut\u00f3pico e socialismo cient\u00edfico<\/em>, de Friedrich Engels.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cTeatro social\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, muitos militantes oper\u00e1rios cultivaram express\u00f5es culturais como a poesia, o fado, e o teatro amador. Fizeram-no com intuitos recreativos e para divulgar ideias de justi\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Usando a arte&nbsp;<em>\u201cpara apoiar o desenvolvimento da consci\u00eancia humana e a melhoria do sistema social\u201d<\/em>, como referia o marxista russo Georgui Plekhanov.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram ami\u00fade indiv\u00edduos com uma instru\u00e7\u00e3o escolar rudimentar. Alguns s\u00f3 se alfabetizaram j\u00e1 em adultos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o seu amigo Mayer Gar\u00e7\u00e3o, a Ernesto da Silva faltava-lhe&nbsp;<em>\u201ceduca\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria\u201d<\/em>, mas ele&nbsp;<em>\u201ccorajosamente se dedicou a possu\u00ed-la. As horas em que descansava, ou do seu trabalho [&#8230;] ou do movimento associativo, dedicava-as \u00e0 cultura est\u00e9tica do seu esp\u00edrito\u201d<\/em>. E&nbsp;<em>\u201clia com avidez\u201d<\/em>&nbsp;[\u00ab<em>A Capital\u00bb<\/em>, 24\/05\/1914, p\u00e1g. 2].<\/p>\n\n\n\n<p>Assim se afirmou como autor de um \u2018teatro de interven\u00e7\u00e3o\u2019, ou \u201cteatro social\u201d, como lhe chamava.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00abO Capital\u00bb<\/h2>\n\n\n\n<p>Ernesto lan\u00e7ou-se como dramaturgo em 1895, com a pe\u00e7a&nbsp;<em>O Capital<\/em>. Na qual aborda condi\u00e7\u00f5es de trabalho e lutas oper\u00e1rias numa grande f\u00e1brica de tecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Teve certo sucesso em Lisboa e no Rio de Janeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois, entre outras, estreou no 1\u00ba de Maio de 1900 a pe\u00e7a&nbsp;<em>Nova Aurora<\/em>. Uma hist\u00f3ria que termina com este brado:&nbsp;<em>\u201cTrabalhadores, erguei a voz potente em hinos de esperan\u00e7a; poetas, trabalhai novos poemas de revolta; pintores, lan\u00e7ai \u00e0 tela o sofrimento para acordar o povo\u201d&nbsp;<\/em>[\u00ab<em>A Obra\u00bb<\/em>, 06\/01\/1901, p\u00e1g. 2].<\/p>\n\n\n\n<p>Sinal do seu prest\u00edgio popular na cidade de Lisboa, existiu em Alfama um grupo de teatro amador que escolheu chamar-se \u00abGrupo Dram\u00e1tico Ernesto da Silva\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Alc\u00e2ntara houve o \u00abC\u00edrio Civil Ernesto da Silva\u00bb, uma associa\u00e7\u00e3o excursionista, de cariz anti-clerical.<\/p>\n\n\n\n<p>E, antes da ditadura, foi dado o seu nome a uma rua de Benfica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Voz do Oper\u00e1rio<\/h2>\n\n\n\n<p>Ernesto era s\u00f3cio d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. E v\u00e1rias vezes a sua voz aqui foi escutada.<\/p>\n\n\n\n<p>Discursou, por exemplo, na festa de entrega dos pr\u00e9mios escolares de 1902. Ao lado de figuras como a feminista Angelina Vidal e os republicanos Magalh\u00e3es Lima e Heliodoro Salgado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um evento que teve lugar na Sociedade de Geografia:&nbsp;<em>onde \u201ca vasta sala \u00abPortugal\u00bb [&#8230;] regurgitava de crian\u00e7as. Por detr\u00e1s delas, nas galerias, e no sal\u00e3o, ao fundo das coxias, aglomeravam-se os poucos convidados que puderam entrar. Apesar da grande lota\u00e7\u00e3o da sala, n\u00e3o cabiam mais\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Na altura, A Voz do Oper\u00e1rio j\u00e1 conseguia proporcionar instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria a cerca de 2.600 alunos. E Ernesto enalteceu esse feito como&nbsp;<em>\u201cum monumento erguido pelo proletariado portugu\u00eas\u201d<\/em>&nbsp;[\u00abO Mundo\u00bb, 27\/10\/1902, p\u00e1gs. 1-2].<\/p>\n\n\n\n<p>No seio desta coletividade, ele bateu-se pela solu\u00e7\u00e3o de um problema que s\u00f3 seria plenamente resolvido depois do 25 de Abril: a igualdade de direitos entre s\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p>No tempo dele, s\u00f3 uma minoria &#8211; os oper\u00e1rios tabaqueiros &#8211; \u00e9 que podiam ser s\u00f3cios efetivos, com direito de voto e de elei\u00e7\u00e3o para os \u00f3rg\u00e3os sociais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi uma vida breve que terminou naquele dia, 25 de Abril de 1903, nas oficinas da Imprensa Nacional. Ernesto da Silva tinha 35 anos de idade.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":7138,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7137"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7140,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7137\/revisions\/7140"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7138"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7137"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7137"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7137"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7137"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}