{"id":7133,"date":"2023-08-04T13:47:50","date_gmt":"2023-08-04T13:47:50","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7133"},"modified":"2023-08-04T13:47:51","modified_gmt":"2023-08-04T13:47:51","slug":"nos-50-anos-da-escola-de-cinema-um-destaque-a-juventude-rebelde-de-uma-lisboa-universal-em-nuvem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/08\/04\/nos-50-anos-da-escola-de-cinema-um-destaque-a-juventude-rebelde-de-uma-lisboa-universal-em-nuvem\/","title":{"rendered":"Nos 50 anos da Escola de Cinema, um destaque: A juventude rebelde de uma Lisboa universal em \u201cNuvem\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Foram exibidos filmes feitos por alunos da primeira gera\u00e7\u00e3o que frequentou a Escola (ainda ligada ao Conservat\u00f3rio Nacional), a obras mais recentes, todas produzidas em contexto escolar. Foram ainda alvo de visionamento obras que professores emblem\u00e1ticos mostravam nas aulas, como o \u201cA Desaparecida\u201d, de John Ford, ou \u201cO Carteirista\u201d (1959), de Robert Bresson, que o cineasta Ant\u00f3nio Reis fazia quest\u00e3o de estudar com os seus discentes. Aconteceram debates sobre a Escola de Cinema, com a participa\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, realizadores e profissionais das v\u00e1rias \u00e1reas t\u00e9cnicas que a institui\u00e7\u00e3o fez nascer para o cinema portugu\u00eas desde 1973.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutro eixo da programa\u00e7\u00e3o estiveram as primeiras longas-metragens de alunos das primeiras gera\u00e7\u00f5es, feitas fora da Escola. Destas, destaca-se \u201cNuvem\u201d, filme muito pouco visto, conhecido e divulgado da cinematografia nacional, de 1991, realizador por Ana Lu\u00edsa Guimar\u00e3es, antiga aluna da Escola e professora da mesma ao longo de muitos anos. O que tem de especial esta obra? Em primeiro lugar, a forma \u00fanica como olha para Lisboa. Sem nunca dizer onde estamos, \u201cNuvem\u201d conduz-nos a lugares por onde pass\u00e1mos e circulamos, e que se transformaram ao longo destes idos anos. \u201cNuvem\u201d tra\u00e7a o retrato de jovens que, tamb\u00e9m por aqui &#8211; e parafraseando a frase inicial de \u201cOs Filhos da Noite\u201d (1948), primeiro filme de Nicholas Ray (que serviu de inspira\u00e7\u00e3o para a cineasta) &#8211; \u201cnunca foram propriamente introduzidos ao mundo em que vivemos\u201d. Porque quando se est\u00e1 a entrar na vida, tudo \u00e9 torrencial, e, nessa corrida, o m\u00ednimo gesto pode provocar uma morte e as suas consequ\u00eancias impar\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tom\u00e1s, o jovem torrencial do cinema portugu\u00eas<\/h2>\n\n\n\n<p>Tom\u00e1s (Afonso Melo) tenta lidar com uma exist\u00eancia desconjuntada, da\u00ed se unir e ser l\u00edder de um grupo que faz assaltos, em que cada um dos seus elementos tenta sobreviver numa cidade que parece n\u00e3o dar conta deles, at\u00e9 esse acontecimento tr\u00e1gico. Depois da persegui\u00e7\u00e3o nocturna (que nos leva para junto do Tejo, ao jardim de Santa Clara, ao Pante\u00e3o, e que se assemelha a uma coreografia, dada a forma como est\u00e1 magnificamente filmada), Tom\u00e1s e o grupo tentam continuar como se a vida pudesse ser vivida na corda bamba.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o jovem aproxima-se de Laura (Rosa Castro Andr\u00e9), a c\u00e2ndida empregada de restaurante. Laura pode t\u00ea-lo visto no \u00faltimo momento em que o amigo cai da ponte, e acus\u00e1-lo de um crime que n\u00e3o cometeu. Nunca no cinema portugu\u00eas vimos t\u00e3o doce rapariga, que nasce para a vida a partir do momento em que um rapaz a convida para comer um gelado e dan\u00e7ar no Dram\u00e1tico. Mas Tom\u00e1s s\u00f3 quer perceber se ela o pode incriminar; e Laura, sem saber, s\u00f3 se quer apaixonar, passear e ser feliz ao lado dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo se precipita. Tom\u00e1s \u00e9 o motor dessa precipita\u00e7\u00e3o por uma Lisboa veloz e que, simultaneamente, n\u00e3o consegue dar conta dos problemas que se abatem sobre estes ainda n\u00e3o-adultos, com problemas maiores que os adultos. S\u00e3o os mais velhos que os perseguem, s\u00e3o os mais velhos que j\u00e1 n\u00e3o conseguem viver ao ritmo alucinante e arriscado deles. S\u00e3o os mais velhos que tentam impedir a uni\u00e3o do par (j\u00e1 n\u00e3o se conseguem apaixonar tamb\u00e9m), e que provocam a trag\u00e9dia final, na noite do Cabo da Roca.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, Tom\u00e1s s\u00f3 queria ser amado e protegido. O mundo assustador em que um acidente provoca uma tempestade aconteceu, e, como uma avalanche, levou todas as possibilidades de ele perceber que, com Laura, podia ter vivido tudo de outra maneira. Sem lutas, sem fugas, sem facadas, sem casamento apressado, sem pens\u00f5es onde se esconderem na lua-de-mel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana Lu\u00edsa Guimar\u00e3es \u00e9 magn\u00edfica na direc\u00e7\u00e3o de actores. Nem uma falha nas interpreta\u00e7\u00f5es. Ana Lu\u00edsa Guimar\u00e3es planificou de forma audaciosa e milim\u00e9trica um filme que tem um ritmo impar\u00e1vel. Ana Lu\u00edsa Guimar\u00e3es pensou detalhadamente em cada espa\u00e7o para filmar uma Lisboa que vai desde Santa Apol\u00f3nia ao bairro do Alvito.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pergunta fica: por que \u00e9 que certas obras do cinema portugu\u00eas n\u00e3o s\u00e3o mais vistas, divulgadas e discutidas como \u201cNuvem\u201d? A prova de que existe uma certa intemporalidade na arte, mesmo quando uma cidade muda, quando o pr\u00f3prio modo de fazer cinema muda. Porque, em \u00faltima an\u00e1lise, o que conta \u00e9 a verdade das emo\u00e7\u00f5es de uma juventude em sobressalto. E isso, Ana Lu\u00edsa Guimar\u00e3es soube filmar.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Cinemateca Portuguesa dedicou parte da sua programa\u00e7\u00e3o de Julho \u00e0 Escola Superior de Teatro e Cinema, que comemora cinquenta anos de exist\u00eancia. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":7134,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7133"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7133"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7133\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7136,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7133\/revisions\/7136"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7134"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7133"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7133"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7133"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7133"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}