{"id":7101,"date":"2023-08-04T12:53:55","date_gmt":"2023-08-04T12:53:55","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7101"},"modified":"2023-09-05T12:03:11","modified_gmt":"2023-09-05T12:03:11","slug":"nahel-merzouk-morrer-para-ter-um-nome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/08\/04\/nahel-merzouk-morrer-para-ter-um-nome\/","title":{"rendered":"Nahel Merzouk: morrer para ter um nome"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria de Nahel podia ser a de centenas de milhares de jovens descendentes de imigrantes oriundos do Magrebe, povos colonizados pela Fran\u00e7a que veem na metr\u00f3pole uma oportunidade para ter uma vida. N\u00e3o raras vezes, n\u00e3o \u00e9 uma vida melhor, \u00e9 s\u00f3 mesmo uma vida, por pior que seja. Fran\u00e7a tem um aproblema de racismo estrutural, como a esmagadora maioria dos pa\u00edses ocidentais, agravado por pol\u00edticas de segrega\u00e7\u00e3o das comunidades imigrantes nos tristemente c\u00e9lebres&nbsp;<em>banlieue<\/em>&nbsp;das grandes cidades, como Paris ou Marselha. A introdu\u00e7\u00e3o crescente de medidas securit\u00e1rias por parte dos diversos presidentes, que transformaram o estado de exce\u00e7\u00e3o numa exce\u00e7\u00e3o permanente para agradar ao discurso ultra securit\u00e1rio das extremas-direitas de Le Pen ou Zemmour, acabou por contribuir, em larga medida, para um sentimento de impunidade entre as for\u00e7as de seguran\u00e7a. Desde o in\u00edcio de 2022, a pol\u00edcia francesa matou 15 pessoas em opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O fim do policiamento <strong>de proximidade<\/strong><br><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Implementado em 1998, o policiamento de proximidade acabou em 2003 com Nicolas Sarkozy, ent\u00e3o ministro do Interior. Foi implementado para tentar responder aos constantes abusos policiais perante negros e imigrantes, ao longos dos anos 90, mas tem tr\u00eas problemas que a generalidade do poder pol\u00edtico n\u00e3o est\u00e1 disposta a abra\u00e7ar: precisa de efetivo dedicado, de um investimento substancial nos profissionais e equipamentos de car\u00e1ter n\u00e3o repressivo e os resultados s\u00e3o de m\u00e9dio e longo prazo. H\u00e1 dois tipos de interven\u00e7\u00e3o policial, que se caracterizam por preventiva ou repressiva. Uma quest\u00e3o meramente exemplificativa que os profissionais da pol\u00edcia muitas vezes colocam \u00e9 a seguinte: a boa pol\u00edcia \u00e9 aquela que multa pouco porque est\u00e1 na rua e dissuade, ou a que permite a prevarica\u00e7\u00e3o para atuar depois? O policiamento de proximidade \u00e9, em tra\u00e7os muito gerais, um programa de preven\u00e7\u00e3o da criminalidade, feito em articula\u00e7\u00e3o com organiza\u00e7\u00f5es e poderes locais. Com os atentados terroristas que aconteceram nos EUA e os que se lhe seguiram na Europa, chegaram os estados de exce\u00e7\u00e3o, j\u00e1 referidos, que foram vendidos como a nova normalidade a que t\u00ednhamos de nos habituar. Passou a ser normal ver os corpos de elite das for\u00e7as de seguran\u00e7a no espa\u00e7o p\u00fablico, fortemente armados, em toda a Europa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A viol\u00eancia dos n\u00fameros<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No caso franc\u00eas, sem o policiamento de proximidade, o \u00fanico contacto que as comunidades mais desfavorecidas e ostracizadas t\u00eam com o Estado \u00e9 atrav\u00e9s da pol\u00edcia em contexto de repress\u00e3o. Estamos a falar de comunidades gigantescas de pessoas marginalizadas que, dizem as estat\u00edsticas, se forem negros, t\u00eam seis vezes mais probabilidade de serem parados em opera\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito e revistas do que um branco. Se for \u00e1rabe, a probabilidade sobe para oito. Um em cada cinco cidad\u00e3os franceses filhos de imigrantes sente-se discriminado pela sociedade em geral. Em 2022, a taxa de desemprego em Fran\u00e7a era de 7,7% para os nascidos em Fran\u00e7a, 12% para os imigrantes e 17% para os imigrantes que chegaram ao pa\u00eds nos \u00faltimos dez anos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Viol\u00eancia e resist\u00eancia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Sendo a viol\u00eancia o \u00fanico ponto de contacto entre o Estado e as camadas mais pobres e marginalizadas, \u00e9 aqui que surge o confronto entre os oprimidos e os opressores. A pol\u00edcia \u00e9 a \u00fanica face vis\u00edvel do Estado, nos arredores de Paris, fruto de uma pol\u00edtica urbana e habitacional que criou guetos gigantescos para manter fora das avenidas parisienses os menos desej\u00e1veis. A juntar a isto, uma pol\u00edcia cada vez mais transformada numa correia de transmiss\u00e3o das extremas-direitas, de que Ravina Shamdasani, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para as Migra\u00e7\u00f5es, deu nota, no dia 30 de junho, apelando ao governo franc\u00eas para levar a cabo um combate eficaz ao racismo e discrimina\u00e7\u00e3o que est\u00e3o profundamente enraizados na pol\u00edcia francesa. O caldo para a tempestade perfeita est\u00e1 criado e nem \u00e9 preciso citar Brecht. A viol\u00eancia dos protestos pela morte de Nahel Merzouk \u00e9 menor do que a viol\u00eancia exercida pelo Estado sobre estas camadas, a menos que o neoliberalismo nos tenha feito t\u00e3o cegos que consideramos uma morte menos grave do que montras partidas e carros destru\u00eddos. Mas h\u00e1 um sen\u00e3o ineg\u00e1vel nos protestos desencadeados pelo assassinato do jovem Nahel. \u00c9 desorganizada e sem uma plataforma agregadora que lhe d\u00ea uma voz consistente de reivindica\u00e7\u00e3o para l\u00e1 dos protestos violentos. Sem isso, a opress\u00e3o ser\u00e1 sempre cada vez maior e mais intensa e a resposta continuar\u00e1 a ser a revolta espor\u00e1dica e o regresso aos&nbsp;<em>banlieue<\/em>. A falta de participa\u00e7\u00e3o no jogo eleitoral burgu\u00eas, enquanto este resistir, sem organiza\u00e7\u00e3o, seja em movimentos sociais seja num partido pol\u00edtico, \u00e9 o que mais interessa aos detentores do poder. Passar\u00e3o sempre por arruaceiros violentos, mesmo que quem for honesto veja ali uma leg\u00edtima manifesta\u00e7\u00e3o de descontentamento. Por\u00e9m, sabemos que a honestidade n\u00e3o \u00e9 o forte das elites que controlam o poder. \u00c9 necess\u00e1rio fazer o jogo deles at\u00e9 o tabuleiro ser nosso.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Tempo e dinheiro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As zonas mais afetadas pela viol\u00eancia policial s\u00e3o as mais pobres. Aquelas que, conforme demonstrado, est\u00e3o abaixo da m\u00e9dia em todos os indicadores que dizem respeito \u00e0 qualidade de vida e integra\u00e7\u00e3o. Sem uma reforma profunda da forma de encarar estas comunidades, a tens\u00e3o continuar\u00e1 a subir, de parte a parte. S\u00e3o aqueles de quem ningu\u00e9m quer saber. S\u00e3o os mais pobres dos mais pobres e os mais marginalizados dos marginalizados. S\u00e3o os sem-nome, de quem ningu\u00e9m quer saber at\u00e9 que se fazem ouvir atrav\u00e9s da \u00fanica maneira que o Estado lhes coloca \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o: a viol\u00eancia. S\u00e3o pessoas sem identidade e perten\u00e7a a coisa alguma, vistas como uma massa uniforme, caracterizadas pela direita e extrema-direita como gente sem rosto. Nahel Merzouk s\u00f3 ganhou um nome porque morreu, de outro modo, era s\u00f3 mais um.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nahel Merzouk era de ascend\u00eancia marroquina e argelina e foi morto com um tiro \u00e0 queima-roupa pela pol\u00edcia francesa, em Nanterre, um sub\u00farbio de Paris, a 27 de junho de 2023. <\/p>\n","protected":false},"author":70,"featured_media":7102,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[166],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7101"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/70"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7101"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7101\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7222,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7101\/revisions\/7222"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7101"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7101"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7101"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7101"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}