{"id":7077,"date":"2023-07-20T09:51:15","date_gmt":"2023-07-20T09:51:15","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7077"},"modified":"2023-07-20T09:51:15","modified_gmt":"2023-07-20T09:51:15","slug":"dont-stop-me-now-a-cidade-liquida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/07\/20\/dont-stop-me-now-a-cidade-liquida\/","title":{"rendered":"Don\u2019t STOP me now (A cidade l\u00edquida)"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cA \u2018Cidade L\u00edquida\u2019 \u00e9 uma cidade onde a cultura e a anima\u00e7\u00e3o ajudam a derrubar fronteiras e barreiras. \u00c9 uma cidade onde tudo pode acontecer. \u00c9 a cidade da irrever\u00eancia e do desassossego. A cultura expande-se e derrama-se sobre os territ\u00f3rios e a popula\u00e7\u00e3o, dissolvendo preconceitos e lugares-comuns. Toda a gente \u00e9 convocada para a grande aventura da cidade.\u201d Foi assim que Paulo Cunha e Silva, o ent\u00e3o vereador da cultura da CMP que viria a classificar o CCSTOP como um dos \u201cecossistemas culturais mais interessantes\u201d da cidade, redefiniu o conceito de \u201ccidade l\u00edquida\u201d. Mais evidente que a apropria\u00e7\u00e3o (e desconstru\u00e7\u00e3o) do conceito de Bauman, ficou claramente vis\u00edvel que a cultura seria instrumentalizada enquanto ferramenta de divers\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o e \u201cexpans\u00e3o\u201d (passe a express\u00e3o) do novo desenho e des\u00edgnio de cidade-marca que ent\u00e3o se come\u00e7ava a esbo\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>Dez anos passados, torna-se bastante curioso que a cidade que se materializou se aproxime cada vez mais do conceito original de Bauman, no qual a cidade l\u00edquida representa um novo est\u00e1gio da modernidade, onde o comunit\u00e1rio e o cient\u00edfico d\u00e3o lugar ao individual, ao ef\u00e9mero, ao veloz, ao mercantil e a uma esp\u00e9cie de vazio onde nada se consegue agarrar e onde tudo, inevitavelmente nos escapa. \u00c9 a cidade (e a sociedade) desumana e fria do consumo desenfreado, do espet\u00e1culo, volvida produto, tornada marca. Interessante constatar que a verea\u00e7\u00e3o da cultura, ap\u00f3s a partida inesperada de Paulo Cunha e Silva, tenha sido assumida pelo pr\u00f3prio presidente da C\u00e2mara do Porto, quase como um des\u00edgnio pessoal e individual, a bandeira e o produto da sua marca, da \u201csua\u201d cidade l\u00edquida. \u00c9 nesta cidade \u2013 a \u201cagora\u201d (mais uma vez, passe a express\u00e3o) cidade-cen\u00e1rio de gui\u00e3o que se vai cumprindo, a cidade-montra de produto que se vai vendendo \u2013 que se vai varrendo o p\u00f3, muitas vezes violenta e abruptamente, da outra velha cidade, da outra cultura, daquela a que ainda pertencem rel\u00edquias, cada vez mais raras e valiosas, como o STOP, os seus m\u00fasicos e as suas cria\u00e7\u00f5es para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>O processo do STOP \u00e9 longo, intrincado e complexo e s\u00e3o in\u00fameras e in\u00fameros os atores e protagonistas num espa\u00e7o que carece, indubitavelmente, de interven\u00e7\u00e3o e medidas, mas sobre o qual recai um fado que se revela cada vez mais incontorn\u00e1vel sobre os des\u00edgnios de uma cidade progressivamente mais l\u00edquida. O STOP est\u00e1 hoje no lugar errado \u00e0 hora errada. Encontra-se na linha da frente da onda implac\u00e1vel e devastadora da doutrina de choque que \u00e9 o modus operandi destas novas cidades paulatinamente mais mercantilizadas e que padecem, por ordem das for\u00e7as, sob uma enorme press\u00e3o imobili\u00e1ria e especulativa. A cidade l\u00edquida \u00e9 feita de autoritarismos disfar\u00e7ados e os seus m\u00fasculos, que j\u00e1 n\u00e3o cabem nas pr\u00f3prias fardas, servem para higienizar o territ\u00f3rio, expulsando, esganando e engasgando em pancada e colis\u00e3o quem a si ousa resistir. Esta cidade quanto mais espa\u00e7o ocupa, mais vazia se torna. Na cidade l\u00edquida o \u00fanico \u201cdesassossego e aventura\u201d \u00e9 o da liquida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de in\u00fameras propostas colocadas pela oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao executivo para que, de forma cont\u00ednua e programada se fosse reconstruindo um espa\u00e7o que alberga para cima de trezentas trabalhadoras e trabalhadores das artes e da m\u00fasica, depois dos in\u00fameros servi\u00e7os prestados por estes a eventos culturais promovidos pelo pr\u00f3prio executivo, a resposta dada \u00e9 da maior viol\u00eancia imagin\u00e1vel. \u00c9, est\u00e1 claro, o culminar de anos de obsoletismo programado, onde uma melodia se foi compondo entre a narrativa de um executivo camar\u00e1rio ultra liberal que se vai mascarando de cosmopolitismo, entre associa\u00e7\u00f5es que se revelam umas mais l\u00edquidas do que outras, entre propriet\u00e1rios an\u00f3nimos-at\u00e9-ver e administra\u00e7\u00f5es que servem as ondas destas novas mar\u00e9s, para que na coda da m\u00fasica se deixe cair uma bomba com o objetivo claro que desse impacto j\u00e1 quase ningu\u00e9m se levante. Na receita do choque, do dividir para conquistar, depois do mal feito, quem larga a bomba aparece sempre depois de a atirar e, enquanto o p\u00f3 n\u00e3o assenta, oferece um tratado de paz, num exerc\u00edcio repleto de \u201csolu\u00e7\u00f5es\u201d ou \u201creflex\u00f5es\u201d, nada inocente e sempre executado em pele de cordeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso da maior import\u00e2ncia que quem est\u00e1 envolvido neste processo, os m\u00fasicos evidentemente, assim como quem pretende sobreviver aos mecanismos destas novas cidades \u2013 outros agentes, resistentes, novas e velhas gera\u00e7\u00f5es \u2013 se organize, exija e volte a ocupar aquilo que (ainda) \u00e9 seu. Que haja a consci\u00eancia da necessidade de agarrar em conjunto a nossa cidade, a nossa cultura e aquilo que \u00e9 p\u00fablico. Pelo menos empunhar e segurar o que ainda se encontra em estado s\u00f3lido, para que n\u00e3o nos escape tudo, como um l\u00edquido, pelo meio dos dedos das m\u00e3os.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA \u2018Cidade L\u00edquida\u2019 \u00e9 uma cidade onde a cultura e a anima\u00e7\u00e3o ajudam a derrubar fronteiras e barreiras. \u00c9 uma cidade onde tudo pode acontecer. \u00c9 a cidade da irrever\u00eancia e do desassossego. A cultura expande-se e derrama-se sobre os territ\u00f3rios e a popula\u00e7\u00e3o, dissolvendo preconceitos e lugares-comuns. Toda a gente \u00e9 convocada para a &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/07\/20\/dont-stop-me-now-a-cidade-liquida\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Don\u2019t STOP me now (A cidade l\u00edquida)<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":98,"featured_media":7079,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[195],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7077"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/98"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7077"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7077\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7080,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7077\/revisions\/7080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7079"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7077"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7077"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7077"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7077"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}