{"id":7048,"date":"2023-07-04T14:04:09","date_gmt":"2023-07-04T14:04:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7048"},"modified":"2023-08-04T15:02:34","modified_gmt":"2023-08-04T15:02:34","slug":"toxicodependencia-evitar-o-regresso-aos-anos-80","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/07\/04\/toxicodependencia-evitar-o-regresso-aos-anos-80\/","title":{"rendered":"Toxicodepend\u00eancia. Evitar o regresso aos anos 80"},"content":{"rendered":"\n<p>Trabalha h\u00e1 seis anos na Quinta do Loureiro. Com presen\u00e7a ass\u00eddua no bairro onde foi realojada parte da popula\u00e7\u00e3o do Casal Ventoso, diz que o tr\u00e1fico e o consumo est\u00e3o a aumentar naquela zona de Lisboa. Esta psic\u00f3loga que n\u00e3o quis ser identificada explicou \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio que este crescimento acontece, sobretudo, desde a pandemia. \u201cCome\u00e7amos a assistir a fen\u00f3menos que viamos nos anos 80 e 90 com gente a permanecer na zona em tendas, algo que \u00e9 particularmente vis\u00edvel debaixo da passagem a\u00e9rea da Avenida de Ceuta\u201d, descreve. Segundo explica, a maioria \u00e9 portuguesa mas tamb\u00e9m h\u00e1 imigrantes. Para al\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, num bairro que viu a sua escola e piscina encerradas, o problema alarga-se numa realidade \u00e0 vista de todos. \u201cClaro que isto tamb\u00e9m tem impacto sobre a popula\u00e7\u00e3o que trabalha\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Consumo assistido&nbsp;na Quinta do Loureiro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Foi precisamente na Quinta do Loureiro que, h\u00e1 cerca de dois anos, abriu um centro de consumo assistido. \u00c9 onde trabalha Patr\u00edcia Belo. Esta enfermeira dedica-se \u00e0quilo a que chama \u201credu\u00e7\u00e3o de danos\u201d. Ou seja, a batalha que tem em m\u00e3os, em conjunto com outros funcion\u00e1rios, \u00e9 conseguir que os utentes deixem de consumir. \u201cMas quando isso n\u00e3o acontece, quando as pessoas v\u00e3o consumir na mesma, ent\u00e3o damos-lhes condi\u00e7\u00f5es que permitam minimizar os riscos do consumo. Quer isto dizer, ajudar as pessoas a consumir de forma mais asseptica, mais limpa, mais controlada\u201d, explica. \u00c0s vezes, Patr\u00edcia Belo precisa de negociar os consumos quando v\u00ea que algu\u00e9m consumiu demais mas, em \u00faltimo caso, entre as suas fun\u00e7\u00f5es est\u00e1 reverter casos de overdose.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os utentes, maioritariamente portugueses, h\u00e1 tamb\u00e9m imigrantes e at\u00e9 turistas. \u201cTemos alguma imigra\u00e7\u00e3o mas temos pessoas que est\u00e3o de passagem, eventualmente algumas pessoas que est\u00e3o a fazer turismo porque sabem que \u00e9 um s\u00edtio seguro e consomem ali\u201d, descreve. Patr\u00edcia Belo diz que s\u00e3o sobretudo homens e numa faixa et\u00e1ria que, segundo esta enfermeira, est\u00e3o entre os 35 e os 55 anos. O consumo de coca\u00edna e hero\u00edna, e tamb\u00e9m de crack, tem vindo a aumentar por causa da crise. \u201cH\u00e1 uma procura das drogas mais baratas. Temos quem consuma s\u00f3 coca\u00edna e as pessoas que consomem ambas para contrabalan\u00e7ar o efeito. No fundo, s\u00f3 conseguem encontrar o conforto consumindo as duas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esta enfermeira, a exist\u00eancia deste tipo de salas faz todo o sentido porque \u201ctem impacto na vida das pessoas\u201d. No caso deste espa\u00e7o na Quinta do Loureiro, o centro \u00e9 gerido pela associa\u00e7\u00e3o Ares do Pinhal, uma Institui\u00e7\u00e3o Particular de Solidariedade Social (IPSS) criada em 1986, com financiamento da c\u00e2mara de Lisboa e do Servi\u00e7o de Interven\u00e7\u00e3o nos Comportamentos Aditivos e nas Depend\u00eancias (SICAD). \u201cEste \u00e9 um lugar seguro, onde podem fazer os seus consumos\u201d, explica e d\u00e1 o exemplo da coca\u00edna, que pode provocar alucina\u00e7\u00f5es. \u201cIsto fragiliza a pessoa e havendo consumo na rua j\u00e1 houve casos em que foram roubados ou v\u00edtimas de viol\u00eancia. Para al\u00e9m disso, \u00e9 um lugar onde podem aprender sempre no sentido de o fazerem de forma segura e n\u00e3o no sentido de consumirem mais. N\u00f3s n\u00e3o queremos que as pessoas consumam. Isto n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o que s\u00f3 tenha sala de consumo. Temos um espa\u00e7o para alimenta\u00e7\u00e3o, um caf\u00e9 onde distribuimos alimentos doados, temos um s\u00edtio onde podem tomar banho, onde podem aceder a um computador e aceder a livros. Portanto, isto \u00e9 um s\u00edtio onde as pessoas passam horas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando mostram vontade de deixar de consumir ou quando est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo, a equipa deste centro, que tem uma sala de fumo e outra injet\u00e1vel, encaminha os utentes para outras estruturas que os possam apoiar nesse sentido. \u201cTudo isto faz sentido a n\u00edvel de redu\u00e7\u00e3o dos riscos, a n\u00edvel das quest\u00f5es psicol\u00f3gicas e emocionais associadas. N\u00f3s estamos ali tamb\u00e9m para falar com os utentes. S\u00f3 o facto de n\u00e3o partilharem seringas e de n\u00e3o partilharem bocais quando v\u00e3o fumar fez com que a incid\u00eancia de doen\u00e7as como o HIV, a hepatite C e a hepatite B, por exemplo, tivesse descido muito nos \u00faltimos anos\u201d. Patr\u00edcia Belo refere-se ao programa de troca de seringas que contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o de infe\u00e7\u00f5es associadas ao consumo de drogas. Ainda assim, a enfermeira considera que devia haver mais recursos e, sobretudo, mais salas espalhadas pelo pa\u00eds. Com a turbul\u00eancia pol\u00edtica em todo o continente, confessa que tem receio que futuros governos possam desistir, em Portugal, de apostar neste programa que foi pioneiro na Europa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Relat\u00f3rio europeu alerta&nbsp;para o aumento do consumo&nbsp;de opi\u00e1ceos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A can\u00e1bis continua a ser a droga il\u00edcita mais consumida na Europa e a coca\u00edna, por sua vez, o estimulante a que os consumidores mais recorrem. Mas a subida do consumo de opi\u00e1ceos, como a hero\u00edna, est\u00e1 a preocupar as autoridades. O uso deste tipo de droga estava a descer desde o fim do s\u00e9culo passado e volta \u00e0s ruas com mais for\u00e7a do que nos \u00faltimos anos. Esta e outras conclus\u00f5es aparecem no \u201cRelat\u00f3rio Europeu sobre Drogas 2023: Tend\u00eancias e Evolu\u00e7\u00f5es\u201d, do Observat\u00f3rio Europeu das Drogas e da Toxicodepend\u00eancia (EMCDDA, na sigla em Ingl\u00eas) lan\u00e7ado esta sexta-feira a meio de junho, em Bruxelas, que destaca uma \u201cmaior diversidade na oferta e no consumo de drogas\u201d.<br>O mesmo relat\u00f3rio revela que em sete pa\u00edses europeus a hero\u00edna foi respons\u00e1vel pelas mortes de um quarto a um ter\u00e7o do total de overdoses. Em Portugal, esse valor chega aos 37%.<\/p>\n\n\n\n<p>Em declara\u00e7\u00f5es \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, Jo\u00e3o Goul\u00e3o, diretor-geral do SICAD, explica que Portugal tem de enfrentar rapidamente este fen\u00f3meno para evitar um regresso ao passado. O tamb\u00e9m antigo presidente do Observat\u00f3rio Europeu das Drogas e da Toxicodepend\u00eancia diz que h\u00e1 \u201calguma altera\u00e7\u00e3o\u201d no tipo de subst\u00e2ncias mais consumidas e nos objetivos com que s\u00e3o consumidas. \u201cH\u00e1 subst\u00e2ncias que est\u00e3o mais associadas ao prazer ou ao lazer, em ambientes de divers\u00e3o, e outras que t\u00eam a ver com a tentativa de al\u00edvio do stress, da depress\u00e3o em alguns casos. Ou at\u00e9 no \u00e2mbito profissional\u201d, descreve. Para Jo\u00e3o Goul\u00e3o o consumo e o tipo de drogas est\u00e1 associado aos \u201cciclos que a sociedade vai vivendo\u201d. E aponta \u201ca sucess\u00e3o de per\u00edodos dif\u00edceis\u201d como uma causa. \u201cDurante o per\u00edodo da interven\u00e7\u00e3o da troika, da d\u00edvida soberana, houve uma degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de um n\u00famero significativo dos nossos concidad\u00e3os, depois a seguir vem a pandemia e agora v\u00eam estas dificuldades relacionadas, sobretudo, com a infla\u00e7\u00e3o e com o aumento dos encargos com empr\u00e9stimos e isto leva as pessoas a procurarem uma automedica\u00e7\u00e3o para aliviar o sofrimento a que est\u00e3o sujeitas\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, recorda que a resposta do Estado alcan\u00e7ou \u201cprogressos muito significativos\u201d aquando da epidemia relacionada com uso da heroina nos anos 80 e 90. \u201cA\u00ed houve um investimento s\u00e9rio e continuado por parte do Estado. D\u00e1 a ideia de que a partir de determinada altura os respons\u00e1veis pol\u00edticos ficaram convencidos de que o fen\u00f3meno estava contido, estava controlado, e aos poucos foram deixando de prestar grande aten\u00e7\u00e3o a esta \u00e1rea. E, no fundo, os servi\u00e7os acabaram por ter de usar a sua capacidade de lidar com o fen\u00f3meno com todas as suas vari\u00e1veis ao longo do tempo. Por um lado, n\u00f3s t\u00ednhamos um servi\u00e7o com uma capacidade de pensar as pol\u00edticas e de as executar no terreno e que foi extinto em 2012, por outro lado, temos vindo assistir a uma sa\u00edda progressiva de profissionais dedicados a estas \u00e1reas seja por reforma ou por outros motivos e n\u00e3o tem havido a capacidade de os substituir ou de atrair novos\u201d, afirma. Por isso, defende que estamos a viver um per\u00edodo em que h\u00e1 \u201calguma dificuldade\u201d em lidar com este \u201crecrudescimento na sua vertente mais ligada a fen\u00f3menos de marginalidade e exclus\u00e3o e pobreza\u201d. Para Jo\u00e3o Goul\u00e3o, o momento para evitar um regresso aos anos 80 \u00e9 agora. \u201cSe nao atuarmos, se n\u00e3o refor\u00e7armos os servi\u00e7os, sim, corremos esse risco\u201d, confirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para evitar esse cen\u00e1rio, o diretor-geral do SICAD explica que h\u00e1 uma equipa a trabalhar na reconstitui\u00e7\u00e3o de um servi\u00e7o p\u00fablico \u201ccom a capacidade de executar as pol\u00edticas no terreno\u201d e assegura que este foi um compromisso assumido pelo atual governo e pelo minist\u00e9rio da Sa\u00fade. At\u00e9 ao final de 2023, esse servi\u00e7o deve estar \u201creconstitu\u00eddo\u201d e ser\u00e1 \u201cindispens\u00e1vel pensar nos recursos humanos necess\u00e1rios dedicados a esta mat\u00e9ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Questionado sobre que impacto pode ter o retrato romantizado do consumo e do tr\u00e1fico na televis\u00e3o e no cinema, a prop\u00f3sito da s\u00e9rie Rabo de Peixe, Jo\u00e3o Goul\u00e3o explica que \u00e9 \u201cum risco atribuir algum glamour num meio que \u00e9 t\u00e3o caraterizado pela pobreza e esquecimento\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal foi pioneiro no combate \u00e0 toxicodepend\u00eancia com programas de descriminaliza\u00e7\u00e3o e reabilita\u00e7\u00e3o dos consumidores de drogas il\u00edcitas. O programa de troca de seringas e o consumo assistido permitiram um decr\u00e9scimo importante nas infe\u00e7\u00f5es relacionadas com o uso destas subst\u00e2ncias. Contudo, o relat\u00f3rio anual do Observat\u00f3rio Europeu das Drogas e da Toxicodepend\u00eancia aponta para um aumento do consumo de opi\u00e1ceos e Jo\u00e3o Goul\u00e3o, diretor-geral do SICAD, alerta para a necessidade de se impedir uma nova epidemia como aquela que marcou as d\u00e9cadas de 80 e 90 em Portugal e noutros pa\u00edses.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":7049,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7048"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7048"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7048\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7163,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7048\/revisions\/7163"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7048"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}