{"id":7040,"date":"2023-07-04T13:52:26","date_gmt":"2023-07-04T13:52:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=7040"},"modified":"2023-07-04T13:52:27","modified_gmt":"2023-07-04T13:52:27","slug":"conversa-de-insonias-no-lavradio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/07\/04\/conversa-de-insonias-no-lavradio\/","title":{"rendered":"Conversa de ins\u00f3nias no Lavradio"},"content":{"rendered":"\n<p>Chegados ao Lavradio, o sol cobre a manh\u00e3 de luz intensa e contorna o casario que ora cresce dois ou tr\u00eas pisos, abrindo peda\u00e7os de sombra, ora baixa ao n\u00edvel t\u00e9rreo, devassando todos os cantos sem tr\u00e9guas no clar\u00e3o do dia. Algumas casas lembram a sua origem rural e uma ou outra, caiada a branco, de amarelo nas ombreiras das portas e janelas, mais o rodap\u00e9, como se se assumissem alentejanas. E \u00e9 assim tamb\u00e9m na Rua C\u00e2ndido Manuel Pereira, o Candinho, como era conhecido essa figura do Lavradio, mais propriamente na Sociedade Filarm\u00f3nica Agr\u00edcola Lavradiense, da qual foi s\u00f3cio n\u00famero um. Ora, a escola d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio fica mesmo ao fundo desta comprida rua que, de t\u00e3o extensa, quase une o Lavradio ao Barreiro, num exagero provocado pela can\u00edcula.<\/p>\n\n\n\n<p>Eis como, ultrapassada essa imensa rua, chegamos ao nosso destino. A rua alarga num g\u00e9nero de pra\u00e7a das boas-vindas. De um lado o mercado e do outro a fachada da escola, pintada e decorada de fresco. A letras garrafais l\u00ea-se: A Voz do Oper\u00e1rio, Espa\u00e7o Educativo do Lavradio, creche, pr\u00e9-escolar. Mas num pequeno letreiro refere a hist\u00f3ria do edif\u00edcio, antes designado a escola do Barquinho, mas que h\u00e1 dez anos navega com a Voz do Oper\u00e1rio. E navega muito bem diga-se, sempre muito acarinhada pela popula\u00e7\u00e3o deste porto. Ainda recentemente, tendo a escola decidido pintar a fachada e, conv\u00e9m lembrar a todos, sobretudo ao mais incautos, que as decis\u00f5es nesta escola s\u00e3o sempre tomadas democraticamente. Quero dizer ent\u00e3o que s\u00e3o sempre discutidas por toda a comunidade escolar. N\u00e3o \u00e9 bem como eleger uma junta de freguesia, ou uma autarquia, cujos eleitos, uma vez recolhido o voto da maioria dos eleitores, ganham a legitimidade para decidir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, n\u00e3o! Com as devidas dist\u00e2ncias, do universo eleitoral ao alcance das decis\u00f5es, aqui a legitimidade \u00e9 renovada a cada decis\u00e3o que envolva a comunidade. Mas regressemos \u00e0 soberana e democr\u00e1tica decis\u00e3o de pintar a fachada da escola. Foram feitas inscri\u00e7\u00f5es de quem decidiu integrar a equipa de pintores: alunos, professores, auxiliares, pais, av\u00f3s, familiares, tutores, toda a comunidade escolar tinha a possibilidade de aderir, ou n\u00e3o, h\u00e1 sempre essa prorrogativa democr\u00e1tica. S\u00f3 que, no dia da pintura, os vizinhos n\u00e3o resistiram ao apelo, e quem ali passava, zarpava da trincha e a\u00ed vai. Ora, como lembra a diretora de equipamento Ana Sofia, nesse dia a pequenada, os pais, os professores, auxiliares participavam na pintura, assumindo a obra como des\u00edgnio coletivo e, quando assim \u00e9, ningu\u00e9m resiste, \u201cat\u00e9 os vizinhos que aqui ali passavam juntavam-se \u00e0 festa\u201d. Ora aqui est\u00e1 como a escola, que acolhe 130 alunos do ber\u00e7\u00e1rio ao pr\u00e9-escolar, vai muito para al\u00e9m dos limites murados, com muitas portas e janelas escancaradas \u00e0 comunidade que a rodeia. N\u00e3o raras vezes a pequenada atravessa a rua em dire\u00e7\u00e3o ao mercado municipal numa visita de estudo aos br\u00f3colos, couve, pera e ma\u00e7\u00e3, distinguindo a fruta dos legumes, a carne do peixe porque o saber n\u00e3o vem s\u00f3 do sabor.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos l\u00e1 ent\u00e3o abrir o port\u00e3o da escola, desta vez n\u00e3o para a pequenada sair em visita de estudo, mas para fazermos n\u00f3s a dita reportagem. Curioso, anotamos logo \u00e0 entrada, esta escola tem mais espa\u00e7o exterior que interior, mais espa\u00e7os abertos que salas fechadas e com a curiosidade de as salas que existem desembocarem todos num recreio ou, se quisermos, como repetidas vezes refere o pedagogo e catedr\u00e1tico Carlos Neto, numa sala ao ar livre na aula da brincadeira. E como tamb\u00e9m diz, a brincadeira \u00e9 a melhor sala de aula, porque \u201cn\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um promotor do desenvolvimento sensorial, percetivo, motor e cognitivo, social e emocional, \u00e9 tamb\u00e9m um construtor simb\u00f3lico.\u201d Na verdade, crian\u00e7as que n\u00e3o brincam n\u00e3o t\u00eam inf\u00e2ncia e tantas que por aqui andaram em tempos, sem tempo nem espa\u00e7o na f\u00e1brica, no campo, para brincar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora chegados aqui, estamos n\u00f3s em mais uma escola, e n\u00e3o s\u00e3o muitas, em que o esplendor n\u00e3o est\u00e1 na grandeza das suas instala\u00e7\u00f5es, embora n\u00e3o lhe falte espa\u00e7o, mas sim no uso que lhe \u00e9 dado. A pr\u00f3xima utopia, que a escola tem muitas, \u00e9 a horta e uma cozinha para que as crian\u00e7as lidem com essa magia de transformar legumes, peixe e carne numa saborosa refei\u00e7\u00e3o. E ambos v\u00e3o acabar por nascer porque, como diz o narrador Saramago no Ano da Morte de Ricardo Reis, \u201cs\u00f3 a noite \u00e9 l\u00facida e o sono vence-a\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>A curiosidade como ferramenta<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma magia que espalha o danado bichinho da curiosidade que vai agu\u00e7ando o engenho. A inquieta\u00e7\u00e3o \u00e9 como um m\u00fasculo exercitado e que tem efeitos devastadores na in\u00e9rcia de algum ensino. Nesta escola a solu\u00e7\u00e3o do problema nunca \u00e9 um mero resultado. Os alunos e os professores n\u00e3o s\u00e3o obrigados a pensar, s\u00e3o estimulados a aprender a pensar e a comunidade participa. \u201cOs pais participam sempre. \u00c0s vezes trazem-nos assuntos, objetos, situa\u00e7\u00f5es, temas suscitados em casa pelos seus filhos\u201d. E, se o assunto envolveu o petiz \u201cvai desencadear a curiosidade dos demais\u201d, revela-nos Daniela, educadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E at\u00e9 as velhas rotinas da escola s\u00e3o desafiantes confessa-nos Telma. \u201cNa manh\u00e3 de segunda definem as tarefas da semana, as coletivas e individuais, e \u00e0 sexta fazem o balan\u00e7o cr\u00edtico\u201d. A autoavalia\u00e7\u00e3o que os torna capazes de se conhecerem a si pr\u00f3prios. H\u00e1 uma responsabilidade partilhada: O David e a Margarida distribuem o refor\u00e7o da manh\u00e3; Tom\u00e1s e Naima s\u00e3o meteorologistas, registam o tempo; acertar a data no quadro, para que todos saibam a quantas andam, \u00e9 tarefa da Alicia e do Lu\u00eds, enquanto a M\u00f3nica e o Louren\u00e7o ajudam os colegas a marcar a presen\u00e7a. Em suma, todos t\u00eam responsabilidade no bom funcionamento da escola, n\u00e3o para que as rotinas lhes retirem tempo de brincadeira, mas, pelo contr\u00e1rio, para que todos tenham mais tempo de brincadeira.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Aqui, a ins\u00f3nia persiste o momento de lucidez\u00a0<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O almo\u00e7o j\u00e1 l\u00e1 vai. Os mais pequenos seguem sonolentos para os colch\u00f5es reivindicando uma reconfortante sesta, mas h\u00e1, porque h\u00e1 sempre, quem resista. Um grupo de mi\u00fados re\u00fane-se em c\u00edrculo numa sala. Numa das pontas a auxiliar estica a conversa e, para que todos se ou\u00e7am, segura um tema livre dando a espa\u00e7o para que todos falem sem atropelos. \u00c9 uma modera\u00e7\u00e3o, mas tem a particularidade de ser uma conversa sem muros, como se corressem todos em campo aberto. Os assuntos tocam ora conflitos entre eles, ora apenas curiosas considera\u00e7\u00f5es sobre o comportamento dos adultos que mais os intrigam ou at\u00e9 mesmo constata\u00e7\u00f5es. E a todos a auxiliar d\u00e1 resposta, ou, suscita a reflex\u00e3o coletiva. A todos, C\u00e9lia leva a s\u00e9rio. Todos s\u00e3o escutados com aten\u00e7\u00e3o. Os mi\u00fados do pr\u00e9-escolar (4, 5 e 6 anos) v\u00e3o desinibindo, v\u00e3o aprendendo a ouvir os outros que o escutam tamb\u00e9m com aten\u00e7\u00e3o. O tempo ali n\u00e3o \u00e9 cronometrado, \u00e9 ritmado pela maior ou menor desenvoltura. O esfor\u00e7o para se exprimir \u00e9 um truque de C\u00e9lia que os obriga a rebuscar palavras que conhecem, mas que precisam de consolidar no seu bornal de palavras. N\u00e3o h\u00e1, ao que parece, pressa no tempo de reuni\u00e3o ela de repente desfaz-se como uma curiosidade que se satisfez e voltam todos ao tempo de brincar, ou melhor, a outro brincar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Deixamos aqui um aviso a quantos passam no exterior desta Escola d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio do Lavradio e n\u00e3o se apercebem do que ali acontece todos os dias. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma escola, \u00e9 a vida de uma comunidade que felizmente cresce feliz e que ser\u00e1 c\u00edvica e culturalmente muito mais saud\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma Escola de petizes no Lavradio que a brincar constr\u00f3i o seu futuro.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":7041,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7040"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7040"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7043,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7040\/revisions\/7043"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/7041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7040"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=7040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}