{"id":6943,"date":"2023-06-05T10:17:26","date_gmt":"2023-06-05T10:17:26","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6943"},"modified":"2023-06-20T08:57:13","modified_gmt":"2023-06-20T08:57:13","slug":"a-omissao-da-familia-coleman-sobrevivencia-alegria-ou-o-fim-da-uniao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/06\/05\/a-omissao-da-familia-coleman-sobrevivencia-alegria-ou-o-fim-da-uniao\/","title":{"rendered":"A Omiss\u00e3o da Fam\u00edlia Coleman: sobreviv\u00eancia, alegria ou o fim da uni\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Omiss\u00e3o da Fam\u00edlia Coleman: sobreviv\u00eancia, alegria ou o fim da uni\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>O primeiro impacto \u00e9 o cen\u00e1rio. Uma enorme estrutura de andaimes trabalha a verticalidade espacial: no r\u00e9s-do-ch\u00e3o est\u00e1 a cozinha, em cima a casa de banho e no topo a divis\u00e3o onde Gabriela (N\u00eddia Roque) costura. \u00c0 esquerda do palco, uma divis\u00e3o escura indica a porta, cuja campainha n\u00e3o funciona, mas um espanta-esp\u00edritos d\u00e1 a entrada das personagens em cena. Os sof\u00e1s em primeiro plano completam a casa, que, pela arquitectura, ajuda a caracterizar o modo de funcionamento de quem a habita.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Da fam\u00edlia Coleman fazem parte a av\u00f3 (Ant\u00f3nia Terrinha), a m\u00e3e (Ana Castro) e quatro filhos. Gabriela e Damien (Nuno Gon\u00e7alo Rodrigues); M\u00e1rio (Vicente Wallenstein) e Ver\u00f3nica (Raquel Montenegro). Esta \u00faltima \u00e9 a \u00fanica que n\u00e3o vive na casa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os peculiares Coleman<\/h2>\n\n\n\n<p>Entramos de rompante na rotina familiar: um discurso de humor negro sobre corpos e mortes; Damien est\u00e1 mal-disposto (algo lhe aconteceu na noite anterior); Gabriela sai para ir lavar roupa fora de casa, a m\u00e1quina de lavar avariou. Leva a sua roupa, as meias de M\u00e1rio e a roupa da av\u00f3. A m\u00e3e perde-se \u00e0 procura das suas pe\u00e7as sujas, e a filha parte. M\u00e1rio parece uma crian\u00e7a: esconde os f\u00f3sforos que a m\u00e3e precisa; a m\u00e3e parece uma crian\u00e7a: senta-se e esquece-se de que ia preparar o pequeno-almo\u00e7o. Falam de Ver\u00f3nica, que tem vida pr\u00f3pria, marido e dois filhos. \u00c9 a figura de quem todos precisam, por quest\u00f5es econ\u00f3micas, e com quem t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o distante e de venera\u00e7\u00e3o. Existe um fosso entre Ver\u00f3nica e a restante fam\u00edlia. Os Coleman sobrevivem no seu peculiar ecossistema dom\u00e9stico. Ver\u00f3nica n\u00e3o se quer misturar, nunca deu a conhecer filhos e marido \u00e0 fam\u00edlia de origem. Tudo o que diz e o modo como que faz o que tem a fazer pelos outros revelam que tem vergonha das origens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A dramaturgia \u00e9 complexa, as movimenta\u00e7\u00f5es das personagens constantes. Ver\u00f3nica apenas mostra afecto pela av\u00f3, a quem d\u00e1 dinheiro; dinheiro esse que \u00e9 depois repartido entre todos. Damien \u00e9 o mais amb\u00edguo, mas o seu comportamento indicia que vive entre roubos e alguma depend\u00eancia. \u00c9 o mais revoltado, sobretudo contra a arrog\u00e2ncia de Ver\u00f3nica. Oferece um rel\u00f3gio de ouro \u00e0 av\u00f3, que acaba por ter de levar no final, quando foge.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os pequenos conflitos se agudizam, reparamos na av\u00f3 sentada, a olhar para o tecto. A m\u00e3e imita-a, mas no tecto n\u00e3o est\u00e1 nada. A av\u00f3 teve um ataque: perante a emerg\u00eancia, atordoados, arrumam o que podem para levar a av\u00f3 na ambul\u00e2ncia, que a m\u00e3e pede que seja grande, para nela caberem todos&#8230;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O que acima de tudo os caracteriza, dentro dessa vida no fio da navalha, \u00e9 a uni\u00e3o. Assim acreditamos quando termina a primeira parte, e as luzes v\u00e3o diminuindo enquanto cantam os parab\u00e9ns \u00e0 av\u00f3 (depois de referirem a data de nascimento ao telefone perceberam que era o anivers\u00e1rio dela).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da uni\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o: o que \u00e9 uma fam\u00edlia?<\/h2>\n\n\n\n<p>Na segunda parte, a dramaturgia e o espa\u00e7o s\u00e3o outros. A narrativa daquelas vidas mudou. O lado direito do palco passa a ser o centro. Um quarto de hospital, cuja limpeza e a brancura se diferenciam da cor, objectos e arquitectura da casa Coleman. A av\u00f3 est\u00e1 na cama, Veronica trata dela. Existe calor e afectos nestes Coleman: sentimo-lo quando entram de rompante, e ali se instalam. Sem g\u00e1s em casa, arranjam a solu\u00e7\u00e3o de, \u00e0s escondidas, tomarem banho no quarto. Os Coleman encontram maneiras surpreendentes e criativas para lidar com as adversidades quotidianas. Estes s\u00e3o os Coleman. Ver\u00f3nica nada pode fazer contra o caos familiar; est\u00e1 consciente do seu afastamento e do gesto deliberado de ter a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Quando, finalmente, vai dar a conhecer os filhos \u00e0 av\u00f3, a confus\u00e3o aumenta: todos querem conhecer as crian\u00e7as; a m\u00e3e fere M\u00e1rio sem querer; a av\u00f3 tem de fazer mais exames; descobre-se que M\u00e1rio est\u00e1 gravemente doente. Este encadeado dram\u00e1tico \u00e9 consequ\u00eancia da instabilidade dos Coleman.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por desespero, a m\u00e3e faz chantagem com Ver\u00f3nica para ir viver com ela. Por desespero, Damien desaparece levando a carteira de Ver\u00f3nica e o dinheiro que Gabriela e o motorista (H\u00e9lder Br\u00e1z) desta lhe d\u00e3o. \u00c9 por amor desesperado e sincero que estes se juntam, e Gabriela vai viver para casa dele. A av\u00f3 morre. Era ela que unia a fam\u00edlia. Em casa, M\u00e1rio espera que os outros apare\u00e7am; n\u00e3o sabe que est\u00e1 doente. Ningu\u00e9m vem: destinos opostos dissolveram a periclitante estrutura familiar dos Coleman. Afinal o que os unia era t\u00e9nue. M\u00e1rio acende um f\u00f3sforo da caixa que escondera. Ficamos com ele e com a projec\u00e7\u00e3o da sombra da av\u00f3 na janela da entrada. Qual a omiss\u00e3o dos Coleman? Provavelmente, a capacidade para lidar com um mundo assustador, que d\u00e1 pouco espa\u00e7o aos que vivem de esquemas, na margem e que t\u00eam ainda um cora\u00e7\u00e3o. A m\u00e1quina \u00e9 impar\u00e1vel. Apesar das perdas, \u00e9 preciso continuar&#8230; mas como ser equilibrado e funcional?<\/p>\n\n\n\n<p>Restam as \u00faltimas notas. Para os actores: sem eles seria imposs\u00edvel assistir a esta corrente dramat\u00fargica; uma equilibrada orquestra\u00e7\u00e3o de idades e experi\u00eancias; representa\u00e7\u00f5es de excel\u00eancia. Para a constru\u00e7\u00e3o e montagem de um cen\u00e1rio pormenorizado, inventivo e engenhoso (a cargo de Francisco Silva). E uma maravilhosa encena\u00e7\u00e3o, como nos tem vindo a habituar Pedro Carraca.\u00a0\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre 27 de Abril e 27 de Maio, os Artistas Unidos levaram a palco \u201cA Omiss\u00e3o da Fam\u00edlia Coleman\u201d, pe\u00e7a do dramaturgo argentino Claudio Tolcachir, escrita em 2005.  <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6944,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6943"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6943"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6943\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7030,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6943\/revisions\/7030"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6944"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6943"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6943"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6943"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6943"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}