{"id":6888,"date":"2023-05-05T11:44:54","date_gmt":"2023-05-05T11:44:54","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6888"},"modified":"2023-06-05T11:03:31","modified_gmt":"2023-06-05T11:03:31","slug":"melhor-defendera-os-direitos-de-outros-aquele-que-possa-usufruir-desses-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/05\/05\/melhor-defendera-os-direitos-de-outros-aquele-que-possa-usufruir-desses-direitos\/","title":{"rendered":"\u201cMelhor defender\u00e1 os direitos de outros aquele que possa usufruir desses direitos\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Qual a import\u00e2ncia de os militares estarem organizados em associa\u00e7\u00f5es socioprofissionais, neste caso, a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Sargentos?<\/p>\n\n\n\n<p>Logo a seguir ao 25 de Abril, e muito por influ\u00eancia dos nossos camaradas da Marinha, que criaram, na altura, o Clube do Sargento da Armada, e do facto de eles viajarem para outros pa\u00edses, despertou ainda mais a necessidade de ter uma representa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas de \u00e2mbito sociocultural. A 1 de abril de 1989, reuniram-se mais de 4200 Sargentos, o que foi um aban\u00e3o na nossa sociedade, tendo como ordem de trabalhos dois pontos fundamentais: a quest\u00e3o remunerat\u00f3ria, que era um desastre, como \u00e9 hoje, e a necessidade de ter um estatuto e uma voz representativa. At\u00e9 1990, importa diz\u00ea-lo, apenas os Oficiais das For\u00e7as Armadas tinham estatuto profissional, os Sargentos e as Pra\u00e7as eram enrolados por centenas de normas avulso e n\u00e3o tinham um estatuto profissional. Criou-se a Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Sargentos para que os sargentos tenham uma voz. Durante anos, vivemos a fugir entre os pingos, com associa\u00e7\u00f5es deontol\u00f3gicas e socioculturais, com base no que a legisla\u00e7\u00e3o permitia. Depois de v\u00e1rias lutas e processos dif\u00edceis, em 2001, finalmente, a lei foi alterada para reconhecer o direito ao associativismo socioprofissional para os militares. \u00c9 uma lei importante mas, como diz um camarada nosso europeu, presidente da organiza\u00e7\u00e3o europeia de associa\u00e7\u00f5es e sindicatos militares, da qual tamb\u00e9m sou dirigente, \u201c\u00e9 um embrulho bonito mas vazio de conte\u00fado\u201d porque, efetivamente, sucessivos governos e chefes militares n\u00e3o respeitam minimamente aquela lei. Fazem uns simulacros de audi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma das al\u00edneas da lei, permite-lhes p\u00f4r no pre\u00e2mbulo da lei \u201cao abrigo da al\u00ednea b ou do n\u00famero 2 da lei org\u00e2nica tal, foram ouvidas as associa\u00e7\u00f5es militares\u201d mas, de facto, n\u00e3o h\u00e1 nenhum processo negocial s\u00e9rio. E isto porqu\u00ea? Quem \u00e9 que representa os militares na concerta\u00e7\u00e3o social? Ningu\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Portanto, a vossa associa\u00e7\u00e3o aspira a&nbsp;alargar o \u00e2mbito de representa\u00e7\u00e3o,&nbsp;negocia\u00e7\u00e3o, e se pode dizer, avan\u00e7ar&nbsp;para o trabalho sindical?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida e n\u00e3o temos que temer as palavras. Em Portugal, de h\u00e1 muitos anos para c\u00e1, criou-se, com objetivos, porque isto n\u00e3o \u00e9 inocente, a ideia de que h\u00e1 palavras que s\u00e3o perigos\u00edssimas, por exemplo, a palavra pol\u00edtica. Pol\u00edtica \u00e9 o que fazemos todos os dias, e \u00e9 o que eu tenho dito muitas vezes aos nossos camaradas: \u201cn\u00e3o tenhamos medo das palavras\u201d. Quando me dizem \u201cah, eu n\u00e3o me meto nisso que \u00e9 pol\u00edtica\u201d, n\u00e3o, a pol\u00edtica \u00e9 o que fazemos todos os dias. Houve uma vez um ministro que nos disse numa reuni\u00e3o que n\u00f3s est\u00e1vamos a fazer pol\u00edtica e eu disse-lhe: \u201cpois estamos, n\u00f3s estamos a fazer pol\u00edtica associativa que \u00e9 aquela para a qual fomos eleitos, o senhor estar\u00e1 a fazer pol\u00edtica partid\u00e1ria para a qual foi nomeado, \u00e9 completamente diferente\u201d. Ora, efetivamente, n\u00f3s queremos dar esse passo. H\u00e1 uma outra palavra que no nosso l\u00e9xico, em portugu\u00eas, tamb\u00e9m ganhou uma carga, infelizmente, muito negativa que \u00e9 o sindicato, o sindicalismo. Quando fui alvo de v\u00e1rios processos disciplinares e castigos por ser dirigente associativo, \u00e0s vezes aproximava-me de camaradas meus e diziam \u201colha, l\u00e1 vem o sindicalista\u201d, como se isso fosse uma ofensa ou algo pejorativo e eu at\u00e9 lhes dizia \u201cn\u00e3o se acanhem, para mim at\u00e9 \u00e9 uma honra; se ser sindicalista \u00e9 cuidar dos vossos e dos meus direitos, ent\u00e3o at\u00e9 agrade\u00e7o que mo chamem\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porque \u00e9 que os governos t\u00eam medo que os militares se envolvam em sindicatos?<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o querem ver militares com a consci\u00eancia de serem cidad\u00e3os a tempo inteiro, de corpo inteiro. Repare, quais s\u00e3o os pilares do sindicalismo? O direito de representa\u00e7\u00e3o jur\u00eddica dos seus associados, que n\u00f3s \u2013 associa\u00e7\u00e3o socioprofissional \u2013 n\u00e3o temos. Se quisermos apoiar um camarada nosso num processo judicial, a \u00fanica coisa que podemos fazer \u00e9 facultar-lhe o contacto de um advogado com quem temos um protocolo e ter da\u00ed alguma facilidade. E, por outro lado, a negocia\u00e7\u00e3o coletiva em sede de concerta\u00e7\u00e3o social com v\u00ednculo, que n\u00e3o temos. Nem n\u00f3s nem nenhum militar porque, como lhe dizia, os chefes militares nem sequer est\u00e3o representados na concerta\u00e7\u00e3o social. E, no limite, o direito \u00e0 greve que, convenhamos, numas For\u00e7as Armadas em tempo operacional, de paz, que n\u00e3o faz sentido nenhum, temos essa consci\u00eancia, mas h\u00e1 muitos pa\u00edses europeus que o t\u00eam. E alguns deles, de modo pr\u00f3prio, abdicaram desse direito e t\u00eam a consci\u00eancia plena do que \u00e9 o exerc\u00edcio em tempo de paz e o exerc\u00edcio em tempo de guerra. Portanto, essa consci\u00eancia elevada dos militares, que os militares t\u00eam que ter da sua condi\u00e7\u00e3o, da sua miss\u00e3o, assusta aqueles que n\u00e3o os querem ver como cidad\u00e3os a tempo inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E quais s\u00e3o as principais reivindica\u00e7\u00f5es&nbsp;dos militares?<\/p>\n\n\n\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Sargentos, durante muitos anos, procurou n\u00e3o abordar as quest\u00f5es salariais para que n\u00e3o se confundisse com a ideia de que apenas nos mov\u00edamos por quest\u00f5es de dinheiro. Isto porque militares e dinheiro \u00e9 preciso tratar com muito cuidado para que n\u00e3o se crie a ideia de que se trata de mercenarismo. Porque vir desempenhar esta fun\u00e7\u00e3o apenas com o fito do dinheiro que se vai ganhar n\u00e3o \u00e9 servir o pa\u00eds nas For\u00e7as Armadas, isso \u00e9 ser-se mercen\u00e1rio, e para isso n\u00e3o estamos c\u00e1. Ora, perante esta preocupa\u00e7\u00e3o, durante muito tempo, abord\u00e1vamos as quest\u00f5es salariais sempre com muito cuidado, sempre pondo a t\u00f3nica muito maior nas quest\u00f5es do desempenho socioprofissional, as condi\u00e7\u00f5es laborais, as condi\u00e7\u00f5es assistenciais, as condi\u00e7\u00f5es sociais. Infelizmente, desde h\u00e1 13 anos para c\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 revisto o regime remunerat\u00f3rio aplicado aos militares e a vida n\u00e3o parou, o agravamento das condi\u00e7\u00f5es de vida, tudo isso tem vindo a ter a degrada\u00e7\u00e3o que n\u00f3s sabemos. Ora, \u00e9 a altura de haver a coragem pol\u00edtica de fazer esta discuss\u00e3o, at\u00e9 para combater aquele drama que estamos a viver, nunca tivemos um n\u00famero t\u00e3o baixo de militares como atualmente. E enquanto n\u00e3o houver a coragem pol\u00edtica para assumir que \u00e9 tempo de rever a tabela remunerat\u00f3ria dos militares para lhe dar mais atratividade, para permitir maior recrutamento e reten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vamos conseguir inverter isto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro dos aspetos \u00e9 a necessidade da revis\u00e3o dos estatutos militares para que deixem de ser cidad\u00e3os menores e passem a ser cidad\u00e3os inteiros, integrados nesta sociedade, com as exig\u00eancias e responsabilidades inerentes \u00e0 condi\u00e7\u00e3o militar, at\u00e9 mesmo com as limita\u00e7\u00f5es e restri\u00e7\u00f5es que a Constitui\u00e7\u00e3o prev\u00ea. Mas, contudo, h\u00e1 quem confunda restri\u00e7\u00f5es com proibi\u00e7\u00f5es, e aqui \u00e9 que bate o ponto. Porque, repare, n\u00f3s somos chamados para ir para todo o mundo, defender direitos, defender direitos humanos, defender popula\u00e7\u00f5es, onde quer que seja. Melhor defender\u00e1 os direitos de outros aqueles que possam usufruir desses direitos porque v\u00e3o com uma consci\u00eancia completamente diferente. Quando isso n\u00e3o acontece, depois assistimos a coisas como Abu Ghraib ou Haiti e outras viola\u00e7\u00f5es. Porque um militar mal formado, em termos de cidadania, digo eu, mas que tem na m\u00e3o os meios letais, vai abusar daqueles que s\u00e3o mais fracos. Um militar bem formado, em termos dos direitos de cidadania, vai levar aos outros, com maior for\u00e7a, a necessidade de respeitar esses mesmos princ\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Falava dessa linha t\u00e9nue entre aquilo que \u00e9 a quest\u00e3o do dinheiro, o mercenarismo. De que forma \u00e9 que a profissionaliza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas, e at\u00e9 o fim do Servi\u00e7o Militar Obrigat\u00f3rio (SMO) afetou esse seu receio?<\/p>\n\n\n\n<p>Afetou grandemente porque, repare, perdeu-se a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 vir fazer um servi\u00e7o ao pa\u00eds e aos portugueses. O SMO, e n\u00e3o aqueles disparates que depois se fizeram de quatro meses e coisas do g\u00e9nero, carecia de ser todo ele revisto, sem d\u00favida. \u00c9 bom que se diga, porque as popula\u00e7\u00f5es continuam enganadas, o SMO n\u00e3o acabou, est\u00e1 suspenso, podendo ser retomado se as necessidades se verificarem, e \u00e9 isto que est\u00e1 na lei do servi\u00e7o militar. Contudo, n\u00e3o \u00e9 isto que \u00e9 passado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o e, se um dia formos for\u00e7ados a retom\u00e1-lo, h\u00e1 uma convuls\u00e3o social porque ningu\u00e9m vai perceber. E isto \u00e9 responsabilidade de sucessivos governos que t\u00eam passado esta mentira \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Agora, perdeu-se a no\u00e7\u00e3o de fazer um servi\u00e7o ao pa\u00eds. E eu digo isto muitas vezes \u201ceu estou c\u00e1 para servir, contudo, sem me servir\u201d porque depois criam-se aqui estas diferen\u00e7as. Com o fim do SMO perdeu-se essa no\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o e, por outro lado, a erradamente chamada profissionaliza\u00e7\u00e3o, que eu considero ofensivo para as gera\u00e7\u00f5es de militares que profissionalmente desempenharam as suas fun\u00e7\u00f5es. Chamar profissionaliza\u00e7\u00e3o agora \u00e9 tratar mal todos aqueles que h\u00e1 s\u00e9culos servem Portugal mas enfim, isto \u00e9 um problema meu. Por outro lado, contrariando o que muita gente vai dizendo, vir para as For\u00e7as Armadas ou servir nas For\u00e7as Armadas n\u00e3o \u00e9 uma boa op\u00e7\u00e3o de emprego porque isto n\u00e3o \u00e9 um emprego, isto \u00e9 um servi\u00e7o. Servir Portugal nas For\u00e7as Armadas n\u00e3o \u00e9 ter um bom emprego, \u00e9 um servi\u00e7o que nem todos os cidad\u00e3os poder\u00e3o desempenhar ao pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E isso n\u00e3o \u00e9 um perigo tendo em conta o&nbsp;cen\u00e1rio internacional que vivemos?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida. Repare, esta quest\u00e3o do desinvestimento nas For\u00e7as Armadas, desinvestimento, cortes brutais or\u00e7amentais e em pessoal, n\u00e3o \u00e9 um exclusivo portugu\u00eas. Embora muita gente queira dizer \u201cah os sucessivos governos portugueses \u00e9 que\u2026\u201d, n\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, isto fez parte de um diret\u00f3rio, ap\u00f3s a queda do muro de Berlim, houve a ideia de que n\u00e3o era necess\u00e1rio mais investimento nas For\u00e7as Armadas porque isto agora vai ficar tudo em paz, s\u00f3 h\u00e1 um bloco e este bloco tomar\u00e1 conta de todos n\u00f3s, acabou o perigo e etc. E infelizmente n\u00e3o \u00e9 assim. E muitos pa\u00edses europeus tamb\u00e9m, e n\u00e3o s\u00f3, produziram este desinvestimento e estes cortes nas For\u00e7as Armadas e, de repente, \u00e9 o que estamos a ver, andam uns a correr atr\u00e1s dos outros com ex\u00e9rcitos, ou seja, For\u00e7as Armadas absolutamente mal equipadas, com mecanismos obsoletos, com falta de recursos humanos. Depois, de que \u00e9 que adianta haver quem forne\u00e7a os equipamentos mais sofisticados, se n\u00e3o tivermos recursos humanos preparados, motivados para os operar? Portanto, isto n\u00e3o foi inocente e n\u00e3o \u00e9 exclusivo portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E o epis\u00f3dio do navio Mondego \u00e9 um exemplo disso?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a pontinha do iceberg de tudo isto. Tenho mantido contacto com estes camaradas e houve uma decis\u00e3o de n\u00e3o comentar publicamente este caso, at\u00e9 para evitar quaisquer outros quaisquer tipo de ju\u00edzos, mas aqueles homens n\u00e3o tomaram aquela atitude s\u00f3 porque lhes apeteceu fazer uma birra. Isto decorre de desinvestimento, de h\u00e1 largos anos, nos equipamentos e aquele meio particularmente estava a sofrer situa\u00e7\u00f5es muito graves dia ap\u00f3s dia. Infelizmente, desde h\u00e1 muitos anos para c\u00e1, com esta partidariza\u00e7\u00e3o, com esta influ\u00eancia pol\u00edtico-partid\u00e1ria das chefias militares, os medos de incomodar para cima foram sendo cada vez mais frequentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">N\u00e3o \u00e9 contradit\u00f3rio que haja essa&nbsp;politiza\u00e7\u00e3o, partidariza\u00e7\u00e3o das chefias&nbsp;militares mas depois n\u00e3o deixem os&nbsp;restantes militares participar ativamente?<\/p>\n\n\n\n<p>Obviamente, \u00e9 um contrassenso e isto foi obra de sucessivos governos. Quando, na altura do ministro Fernando Nogueira, aquelas altera\u00e7\u00f5es todas foram feitas, foi um dos principais motores para a destrui\u00e7\u00e3o, descarateriza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas. Quando os chefes militares deixaram de ser propostos depois dos seus pares proporem tr\u00eas nomes ao poder pol\u00edtico e sem d\u00favida que a \u00faltima palavra competiria sempre ao poder pol\u00edtico. Mas aquele dos tr\u00eas que fosse escolhido tinha sempre o respaldo dos seus camaradas. Ora, quando isto acabou e os generais e almirantes com condi\u00e7\u00f5es passaram a ir todos ao casting, a uma reuni\u00e3o com o senhor ministro, e o poder pol\u00edtico prop\u00f5e, ou o Presidente da Rep\u00fablica, o nome que entende querer, isto tornou os nossos chefes militares menos chefes militares e mais comiss\u00e1rios pol\u00edticos, porque est\u00e3o ali numa nomea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para desempenhar aquilo que os pol\u00edticos querem que desempenhe. Porque um homem nomeado nestas condi\u00e7\u00f5es tem muito menos condi\u00e7\u00e3o para dizer \u201cn\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">N\u00e3o \u00e9 um perigo para a democracia?<\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida. E os nossos governantes que, sucessivamente, defenderam e praticaram isto sabem-no muito bem. E, mais do que um perigo para a democracia, \u00e9 a menoriza\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os militares. Ora, um cidad\u00e3o, um militar por ser militar n\u00e3o \u00e9 menos cidad\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, porque, antes de ser militar, j\u00e1 era cidad\u00e3o. Ningu\u00e9m nasce militar e, quando se assume esta miss\u00e3o de servir Portugal como militar, a sua condi\u00e7\u00e3o de cidadania deve ser respeitada ainda mais porque assume outras condi\u00e7\u00f5es que a maioria dos cidad\u00e3os n\u00e3o assume. Ora, n\u00e3o se compreende exatamente esse contrassenso, essa tentativa de menoriza\u00e7\u00e3o dos militares, querendo quase torn\u00e1-los ac\u00e9falos. Ali\u00e1s, um dos absurdos que existia nos estatutos militares, que s\u00f3 foi alterado agora em 2018, depois de muitas lutas que trav\u00e1mos, era, no caso dos deveres, estar l\u00e1 inclu\u00eddo o dever de isen\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 a coisa mais est\u00fapida e absurda em termos dos deveres de isen\u00e7\u00e3o porque o ato mais pol\u00edtico que todos n\u00f3s temos \u00e9 o ato de votar. Ora, a Constitui\u00e7\u00e3o determina votar, para al\u00e9m de um direito, \u00e9 um dever c\u00edvico. Se n\u00f3s militares jur\u00e1mos cumprir e fazer cumprir as leis e guardar a Constitui\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que podemos p\u00f4r em n\u00f3s uma condi\u00e7\u00e3o que leva a n\u00e3o respeitar um dever da Constitui\u00e7\u00e3o? E apresent\u00e1mos isto \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional de Elei\u00e7\u00f5es, aos chefes militares\u2026 que era um absurdo porque eu, ao ir votar, corro o risco de estar a incumprir o dever de isen\u00e7\u00e3o pol\u00edtica porque votar \u00e9 o ato mais pol\u00edtico que temos. Ent\u00e3o isto foi alterado e agora consta \u201cdever de isen\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-partid\u00e1ria nos termos da Constitui\u00e7\u00e3o\u201d, at\u00e9 a\u00ed tudo bem, por\u00e9m, se isto foi alterado nos estatutos militares e \u00e9 bem verdade, desde 2018, continua a vigorar no Regulamento de Disciplina Militar que \u00e9 aquele que nos pune. E porque \u00e9 que continua a vigorar naquele regulamento? N\u00e3o \u00e9 por acaso, n\u00e3o foi um esquecimento depois de alterarem o estatuto. \u00c9 porque aquela ferramenta imp\u00f5e o medo entre os militares. E militares com medo ser\u00e3o qualquer coisa menos militares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Temos vindo a assistir a uma radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds e na Europa, em geral, com o crescimento de populismos e da extrema-direita, e at\u00e9 para tentativas de alterar a nossa Constitui\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que os militares olham para isto?<\/p>\n\n\n\n<p>Com muita preocupa\u00e7\u00e3o, muita, muita preocupa\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, temos feito alguns debates internos porque est\u00e1 em curso a oitava revis\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o e o que \u00e9 um facto \u00e9 que, apesar das sete revis\u00f5es, a Constitui\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 uma Constitui\u00e7\u00e3o de Abril, uma Constitui\u00e7\u00e3o que defende os princ\u00edpios e os valores de melhores condi\u00e7\u00f5es para as popula\u00e7\u00f5es, para o povo portugu\u00eas, e foi essa Constitui\u00e7\u00e3o que n\u00f3s jur\u00e1mos. Agora, se a Constitui\u00e7\u00e3o se vai desvirtuando, a miss\u00e3o dos militares fica cada vez mais dif\u00edcil porque quando se confundem conceitos como seguran\u00e7a e defesa estamos a dar passos ao contr\u00e1rio naquilo que s\u00e3o os campos t\u00e3o claros que a Constitui\u00e7\u00e3o ainda define. Ali\u00e1s, eu nunca percebi muito bem o contrassenso que continua a ser o incumprimento do artigo 7.\u00ba da nossa Constitui\u00e7\u00e3o. Fala no fim dos blocos militares e n\u00f3s continuamos a integrar um bloco militar, h\u00e1 aqui qualquer coisa que n\u00e3o bate muito certo em termos constitucionais. Os nossos presidentes, os nossos chefes militares e os nossos pol\u00edticos juram a Constitui\u00e7\u00e3o e fazem t\u00e1bua rasa desse artigo e isso \u00e9 preocupante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de uma longa travessia pelo reconhecimento do associativismo socioprofissional no \u00e2mbito militar, n\u00e3o esconde que o objetivo da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Sargentos \u00e9 ter direito \u00e0 atividade sindical e representar os seus associados na luta por mais direitos. Ant\u00f3nio Lima Coelho \u00e9 o presidente desta organiza\u00e7\u00e3o e alerta para o efeito perverso da partidariza\u00e7\u00e3o das chefias militares.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6890,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6888"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6888"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6888\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6976,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6888\/revisions\/6976"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6890"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6888"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6888"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6888"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6888"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}