{"id":6858,"date":"2023-04-28T11:35:32","date_gmt":"2023-04-28T11:35:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6858"},"modified":"2023-04-28T11:39:31","modified_gmt":"2023-04-28T11:39:31","slug":"no-mes-do-trabalhador-a-classe-operaria-vai-para-o-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/04\/28\/no-mes-do-trabalhador-a-classe-operaria-vai-para-o-paraiso\/","title":{"rendered":"No m\u00eas do trabalhador, \u201cA Classe oper\u00e1ria vai para o para\u00edso\u201d&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O homem confundido com a m\u00e1quina<\/h2>\n\n\n\n<p>Lul\u00f9 Massa (Gian Maria Volont\u00e8): trabalhador numa f\u00e1brica em que, como os outros, se confunde com uma m\u00e1quina. Os seus movimentos repetitivos e acelerados lembram \u201cOs Tempos Modernos\u201d (1936), de Chaplin. Mas, em \u201cA Classe Oper\u00e1ria vai para o Para\u00edso\u201d, realizado por Elio Petri, estamos no in\u00edcio dos 70, em It\u00e1lia. Lul\u00f9 Massa, no come\u00e7o do filme, est\u00e1 pouco consciente da sua situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se importando de ser comparado \u00e0 m\u00e1quina e \u00e0 quantidade de pe\u00e7as que produz por hora. Em casa, a tens\u00e3o continua: vive com o enteado e uma mulher com quem tem pouca ou nenhuma intimidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este homem &#8211; que podia ser qualquer oper\u00e1rio fabril de qualquer parte do mundo &#8211; est\u00e1 exausto. \u00c9 um homem sem sonhos e perspectivas, al\u00e9m de estar na f\u00e1brica durante oito horas e ser o mais produtivo que conseguir &#8211; isso equivale a mais liras (antiga moeda italiana), dinheiro esse n\u00e3o corresponde a mais bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque Massa n\u00e3o \u00e9 um n\u00famero nem um aut\u00f3mato, ao acelerar o processo mecanicista de produ\u00e7\u00e3o, tem uma falha, e fica sem um dedo. O desassossego aumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A revolta j\u00e1 andava no ar, no exterior, no descontentamento dos outros colegas. A revolta j\u00e1 tinha feito \u201cenlouquecer\u201d o antigo agitador das \u00e1guas na f\u00e1brica. Lul\u00f9 Massa visita-o num manic\u00f3mio, onde se mistura com outros que deliram (ou est\u00e3o apenas l\u00facidos da sua condi\u00e7\u00e3o&#8230;), caminham e permanecem sentados num espa\u00e7o min\u00fasculo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;A sociedade torna o indiv\u00edduo numa m\u00e1quina, ao ponto de duplamente o alienar atrav\u00e9s da insanidade psiqui\u00e1trica, deslocando-o do perverso sistema capitalista para uma margem de ningu\u00e9m.&nbsp;&#8221;&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>A sociedade torna o indiv\u00edduo numa m\u00e1quina, ao ponto de duplamente o alienar atrav\u00e9s da insanidade psiqui\u00e1trica, deslocando-o do perverso sistema capitalista para uma margem de ningu\u00e9m.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A luta de uma classe e de um homem s\u00f3<\/h2>\n\n\n\n<p>O protagonista n\u00e3o tem filtro, faz o que quer e diz o que pensa. A partir do acidente, o seu car\u00e1cter e a sua revolta intensificam-se. A eles se agregam as greves e manifesta\u00e7\u00f5es dos restantes trabalhadores, apoiados por sindicatos. Na f\u00e1brica, Lul\u00f9 Massa \u00e9 controlado por um rapaz de bata branca, que o adverte para a redu\u00e7\u00e3o da produtividade. O supervisor at\u00e9 o quer desculpar, mas Massa diz que est\u00e1 a fazer de prop\u00f3sito: mais pe\u00e7as para ter mais dinheiro, para qu\u00ea?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No meio do turbilh\u00e3o, \u00e9 despedido; no meio do turbilh\u00e3o, visita a ex-mulher e o filho (que parece gostar menos dele que Arturo, o enteado). No meio do turbilh\u00e3o, a companheira sai de casa. Lul\u00f9 Massa fica sozinho; algo quebra no seu interior: a esperan\u00e7a de que as coisas possam melhorar. E, por ter batido no fundo, nada mais tem al\u00e9m da luta, mesmo que esta lhe pare\u00e7a, a certa altura, solit\u00e1ria. \u201cA causa \u00e9 por todos e n\u00e3o por um homem s\u00f3.\u201d \u201cE como?\u201d, pergunta Massa ao sindicalista, que tenta ter um momento de descanso numa escola em convuls\u00e3o pol\u00edtica. \u201cComida arranja-se sempre\u201d, responde-lhe o outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Massa quer trabalhar, sente-se infeliz e frustrado. Em desespero, leva uma jovem colega \u00e0s instala\u00e7\u00f5es abandonadas da f\u00e1brica de tintas onde trabalhou anos antes. Esta era a rapariga que o fazia produzir mais, pensava nela, vangloriava-se; mas agora tudo corre de forma atabalhoada dentro do carro, sem erotismo ou amor. As desilus\u00f5es acumuladas parecem deix\u00e1-lo \u00e0 beira da insanidade (ou da consciencializa\u00e7\u00e3o). Enche a casa de estudantes e outros clandestinos perseguidos; visita com frequ\u00eancia o ex-colega que est\u00e1 internado, confundindo-se com aqueles que, agora no manic\u00f3mio, foram trabalhadores: guardas, oper\u00e1rios, carteiros, derrotados pela m\u00e1quina que torna pessoas em animais doentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A resist\u00eancia da classe oper\u00e1ria e o \u201cpara\u00edso\u201d de mais direitos<\/h2>\n\n\n\n<p>Para onde podem ir os trabalhadores sem luta? O filme de Elio Petri sublinha que a resist\u00eancia activa conquista a liberdade e os direitos; mesmo sem serem necess\u00e1rias atitudes extremistas e radicais (como, a certa altura, os sindicalistas argumentam). A luta da classe oper\u00e1ria e as greves fazem recuar o patronado na decis\u00e3o de despedir Matta, e mudam os crit\u00e9rios de pagamento dos sal\u00e1rios.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;O filme de Elio Petri sublinha que a resist\u00eancia activa conquista a liberdade e os direitos.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aqui, terceira parte do filme, Lul\u00f9 Massa est\u00e1 j\u00e1 no limiar do equil\u00edbrio: fechado em casa, entre objectos in\u00fateis, que s\u00e3o apenas reflexo de um mundo consumista e capitalista, faz a reconvers\u00e3o de cada um dele em liras e horas de trabalho despendidos para os comprar. Em \u00faltima an\u00e1lise, o sistema vive da sua pr\u00f3pria pervers\u00e3o para crescer, obrigando os cidad\u00e3os mais desprotegidos a trabalhar para gastar o sal\u00e1rio em bens n\u00e3o-essenciais.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Classe Oper\u00e1ria vai para o Para\u00edso\u201d \u00e9 uma met\u00e1fora. Os que mais se sacrificam e menos sonhos e f\u00e9 t\u00eam de melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vida, s\u00e3o aqueles a quem est\u00e1 j\u00e1 &#8211; por direito e quest\u00e3o de justi\u00e7a social e moral &#8211; reservado o lugar do para\u00edso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Classe Oper\u00e1ria vai para o Para\u00edso\u201d \u00e9 a forma directa e justa que Petri encontra para concluir que a resist\u00eancia, o n\u00e3o-conformismo, a luta por mais direitos e melhores condi\u00e7\u00f5es laborais, econ\u00f3micas, sociais e pessoais ter\u00e3o com resultado um para\u00edso. Mesmo que o \u201cpara\u00edso\u201d seja o direito a dizer: <em>Basta! O povo \u00e9 quem mais ordena.<\/em> O direito a ter voz activa perante o patronato. A poder dizer que n\u00e3o se produz mais dos que o desej\u00e1vel para uma jornada de trabalho. A classe oper\u00e1ria teve e continua a ter palavras de ordem e ac\u00e7\u00f5es fundamentais a manifestar. Direitos a reivindicar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00eas do 1\u00ba de Maio, m\u00eas do Trabalhador, \u00e9 crucial lembrar um dos filmes que traz para o centro da narrativa a luta de um homem e a luta de todos os oper\u00e1rios contra a aliena\u00e7\u00e3o. Por um trabalho e uma sociedade mais humanas e igualit\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lul\u00f9 Massa (Gian Maria Volont\u00e8): trabalhador numa f\u00e1brica em que, como os outros, se confunde com uma m\u00e1quina. Os seus movimentos repetitivos e acelerados lembram \u201cOs Tempos Modernos\u201d (1936), de Chaplin. 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