{"id":6849,"date":"2023-04-10T14:04:41","date_gmt":"2023-04-10T14:04:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6849"},"modified":"2023-04-10T14:04:41","modified_gmt":"2023-04-10T14:04:41","slug":"a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-foi-gerida-por-direcoes-eleitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/04\/10\/a-voz-do-operario-sob-a-ditadura-foi-gerida-por-direcoes-eleitas\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio sob a ditadura: foi gerida por dire\u00e7\u00f5es eleitas"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 um facto amplamente documentado, em diferentes fontes que s\u00e3o do dom\u00ednio p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>A come\u00e7ar pelas atas da assembleia geral, passando pela cole\u00e7\u00e3o do jornal A Voz do Oper\u00e1rio e por notici\u00e1rio publicado \u00e0 \u00e9poca noutros jornais, nomeadamente na imprensa di\u00e1ria de Lisboa.<\/p>\n\n\n\n<p>Falamos do facto de que, durante a ditadura, a sociedade A Voz do Oper\u00e1rio continuou a ser gerida por dire\u00e7\u00f5es eleitas pelos seus s\u00f3cios. \u00c0 semelhan\u00e7a de outras associa\u00e7\u00f5es devotadas ao ensino, como, por exemplo, os centros escolares republicanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes se elegeram conhecidos antifascistas. E v\u00e1rios deles foram presos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Raul Esteves dos Santos<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, chegou a acontecer a PIDE prender o presidente em fun\u00e7\u00f5es da dire\u00e7\u00e3o da sociedade A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi no dia 16 de Maio de 1947. Era Raul Esteves dos Santos [Arquivo da PIDE\/DGS,&nbsp;<em>Registo Geral de Presos<\/em>, Livro 88, n\u00ba17592].<\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, entre 1949 e 1953, o presidente da dire\u00e7\u00e3o foi Domingos Cruz. Um ex-preso pol\u00edtico que tinha estado deportado em Cabo Verde.<\/p>\n\n\n\n<p>E houve outros membros da dire\u00e7\u00e3o da A Voz do Oper\u00e1rio que foram presos pela PIDE, como J\u00falio Ferreira de Matos e Am\u00edlcar Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se percorrermos a composi\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios \u00f3rg\u00e3os eleitos desta coletividade, a lista torna-se mais extensa. S\u00f3 entre os presidentes da assembleia geral houve mais tr\u00eas presos pol\u00edticos antifascistas: J\u00falio Lu\u00eds, Alfredo Guisado e Alberto Monteiro. Este \u00faltimo foi mesmo um caso paradigm\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Alberto Monteiro<\/p>\n\n\n\n<p>Antigo dirigente do PCP e ex-secret\u00e1rio-geral da Uni\u00e3o de Sindicatos Oper\u00e1rios de Lisboa (no tempo da 1\u00aa Rep\u00fablica), Alberto Monteiro foi presidente da assembleia geral e do conselho fiscal da A Voz do Oper\u00e1rio nos anos quarenta. Depois de ter passado a d\u00e9cada de trinta a ser preso pol\u00edtico: em 1931, em 1934, em 1935 e 1937. Esteve ent\u00e3o encarcerado no Aljube, em Caxias, em Peniche e deportado em Timor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Muito dinheiro<\/p>\n\n\n\n<p>Parece estranho? Que a ditadura tenha tolerado assim A Voz do Oper\u00e1rio e outras associa\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas devotadas ao ensino?<\/p>\n\n\n\n<p>Para um regime que n\u00e3o queria investir na escola p\u00fablica, tais associa\u00e7\u00f5es tinham o seu lado conveniente. Poupavam muito dinheiro aos cofres do Estado, com as escolas que conseguiam manter.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto chegou a ser admitido no pr\u00f3prio jornal oficioso da ditadura &#8211; o&nbsp;<em>Di\u00e1rio da Manh\u00e3<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>O argumento era que n\u00e3o havia recursos financeiros para o Estado&nbsp;<em>\u201cabrir o n\u00famero de escolas suficiente para todas as crian\u00e7as em idade escolar\u201d<\/em>. Al\u00e9m disso, defendia que&nbsp;<em>\u201ch\u00e1 servi\u00e7os, sobretudo os da assist\u00eancia escolar, que melhor confiados ficam \u00e0 iniciativa particular do que ao Estado\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Pelo que dava as&nbsp;<em>\u201cboas vindas\u201d<\/em>&nbsp;a&nbsp;<em>\u201dtodas as agremia\u00e7\u00f5es particulares que se dedicam \u00e0 instru\u00e7\u00e3o ou a fins de assist\u00eancia escolar\u201d<\/em>. E destacava mesmo o exemplo da&nbsp;<em>\u201cbenem\u00e9rita institui\u00e7\u00e3o\u201d<\/em>&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio [<em>Di\u00e1rio da Manh\u00e3<\/em>, 11\/09\/1931, p.1].<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 de estranhar. Na altura, A Voz do Oper\u00e1rio tinha uma popula\u00e7\u00e3o escolar anual superior a tr\u00eas mil alunos (do 1\u00ba ciclo). Poupava muito dinheiro ao Estado&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Amea\u00e7a de encerramento<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi uma toler\u00e2ncia pac\u00edfica. Desde logo pelos dirigentes associativos que foram presos pol\u00edticos. Mas al\u00e9m disso, a ditadura imp\u00f4s a coletividades como a Voz do Oper\u00e1rio uma s\u00e9rie de constrangimentos ao n\u00edvel do conte\u00fado e dos m\u00e9todos de ensino. Sob a amea\u00e7a de encerramento.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00abEstatuto do Ensino Particular\u00bb, a partir de 1931, estabelecia (no seu artigo 5\u00ba) que era&nbsp;<em>\u201crigorosamente proibido o ensino de doutrinas contr\u00e1rias \u00e0 independ\u00eancia e integridade da P\u00e1tria, ao respeito pelas tradi\u00e7\u00f5es nacionais portuguesas, \u00e0 seguran\u00e7a do Estado e \u00e0 moral social\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>E com esse enunciado t\u00e3o abrangente, determinava que&nbsp;<em>\u201cos estabelecimentos em que seja praticada contraven\u00e7\u00e3o das disposi\u00e7\u00f5es deste artigo ser\u00e3o encerrados\u201d<\/em>&nbsp;[<em>Di\u00e1rio do Governo<\/em>&nbsp;(1\u00aa s\u00e9rie), de 11 de Dezembro de 1931, p.2688; e de 18 de julho de 1933, p.1397].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Escolas encerradas<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi apenas uma amea\u00e7a. Houve algumas escolas associativas que foram mesmo extintas, como aconteceu \u00e0 \u00abUniversidade Livre de Lisboa\u00bb e \u00e0 \u00abAssocia\u00e7\u00e3o do Registo Civil e Livre Pensamento\u00bb, ambas em 1937.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem esquecer o movimento sindical livre que a ditadura dissolveu no final de 1933.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos dos antigos sindicatos mantinham escolas nas suas sedes. Ali\u00e1s, entre as escolas da A Voz do Oper\u00e1rio nessa altura, uma funcionava no sindicato dos metal\u00fargicos e outra no sindicato dos oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">25 de Abril<\/p>\n\n\n\n<p>Antes da ditadura decretar o seu \u00abEstatuto do Ensino Particular\u00bb, A Voz do Oper\u00e1rio tinha encetado uma reforma de moderniza\u00e7\u00e3o escolar. Contratou \u00e0 \u00e9poca prestigiados pedagogos de ideias avan\u00e7adas, entre os quais j\u00e1 se falava de \u201cescola moderna\u201d. Alguns deles tamb\u00e9m foram presos pol\u00edticos, como os professores Adolfo Lima e Sim\u00f5es Raposo Junior.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa moderniza\u00e7\u00e3o foi abafada. E s\u00f3 viria a ser levada \u00e0 pr\u00e1tica na A Voz do Oper\u00e1rio depois da ditadura ser derrubada, no dia 25 de abril de 1974\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 um facto amplamente documentado, em diferentes fontes que s\u00e3o do dom\u00ednio p\u00fablico. A come\u00e7ar pelas atas da assembleia geral, passando pela cole\u00e7\u00e3o do jornal A Voz do Oper\u00e1rio e por notici\u00e1rio publicado \u00e0 \u00e9poca noutros jornais, nomeadamente na imprensa di\u00e1ria de Lisboa. 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