{"id":6844,"date":"2023-04-10T13:56:40","date_gmt":"2023-04-10T13:56:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6844"},"modified":"2023-04-10T13:56:41","modified_gmt":"2023-04-10T13:56:41","slug":"o-corredor-o-rapaz-que-corre-grita-e-sonha-a-caminho-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/04\/10\/o-corredor-o-rapaz-que-corre-grita-e-sonha-a-caminho-da-liberdade\/","title":{"rendered":"\u201cO Corredor\u201d: o rapaz que corre, grita e sonha a caminho da liberdade"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cO Corredor\u201d, de 1984, volta a convocar um desses mi\u00fados. A sua vida \u00e9 solit\u00e1ria, mas cheia de esperan\u00e7a. Os adultos parecem j\u00e1 demasiado abatidos pelas dificuldades de um mundo duro e implac\u00e1vel. O filme do realizador Amir Naderi integrou o longo ciclo de cinema que a Cinemateca dedicou ao cinema do Ir\u00e3o, consolidando autores como Kiarostami, Jafar Panahi e Asghar Farhadi e revelando nomes e obras de cineastas menos conhecidos, que aprofundam o olhar acutilante, cr\u00edtico sobre a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa de \u201cO Corredor\u201d, com pequenas varia\u00e7\u00f5es, podia ser transportada para um pa\u00eds que tivemos, sobretudo antes da revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Amiro, o protagonista, \u00e9 \u00f3rf\u00e3o e toma conta de si mesmo. Desconhecemos a sua idade; \u00e9 um entre tantos rapazes que foram abandonados ou sa\u00edram de casa, e que, como ele, tentam sobreviver numa localidade portu\u00e1ria, onde existe uma pequena base a\u00e9rea. Se a fam\u00edlia n\u00e3o conseguiu proteger mi\u00fados como Amiro, o Estado tamb\u00e9m n\u00e3o o fez.<\/p>\n\n\n\n<p>Amiro nunca desiste. Existe em si um lado de fantasia, alegria e sonho que lhe permite afirmar-se perante as dificuldades da vida, nunca se rendendo \u00e0 sobreviv\u00eancia como exist\u00eancia humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Amiro grita quando o filme come\u00e7a: \u201clevem-me!\u201d; corre e nunca se cansa de correr, mesmo quando as suas for\u00e7as s\u00e3o m\u00ednimas. Do outro lado, est\u00e1 um oceano de possibilidades; do outro lado est\u00e3o (na horizontalidade do plano) tantos navios que o podiam levar para outro lugar. Amiro quer mais do que aquilo que \u00e9 o quotidiano: v\u00ea os pequenos aeroplanos que sobrevoam o c\u00e9u, e passa a observ\u00e1-los e gasta o dinheiro que tem em revistas sobre avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa das vezes em que vai comprar revistas percebe que ler \u00e9 importante. \u201cOs rapazes da tua idade j\u00e1 sabem todos ler\u201d, diz-lhe o dono do quiosque. Amiro responde que comprar as revistas por causa das imagens. Mas n\u00e3o se esquece do que ouviu&#8230; decide ir aprender a ler.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua luta \u00e9 tamb\u00e9m uma revolta interior inconformada: Amiro vai para as rochas e grita. Grita contra o que lhe falta:&nbsp;<em>Eu tenho de ler, eu tenho de aprender<\/em>. Rasga as revistas que lhe custam muito dinheiro, e que \u00e9 resultado dos v\u00e1rios esfor\u00e7os e esquemas de trabalho que Amiro inventa ao longo dos seus dias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Portugal: Os \u201cmi\u00fados\u201d que deixavam de ser crian\u00e7as antes do 25 de Abril<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quantos mi\u00fados em Portugal n\u00e3o tinham tamb\u00e9m de lutar pela sobreviv\u00eancia, antes do 25 de Abril? Crian\u00e7as que cedo foram trabalhar, crian\u00e7as que deixar de brincar nas ruas e ir \u00e0 escola para ajudar em casa, ou apenas para se ajudarem a si mesmas&#8230; N\u00e3o foi assim h\u00e1 tanto tempo que Portugal foi um pa\u00eds com um n\u00edvel elevado de analfabetos e com um baixo n\u00edvel de literacia. Estudar, aprender, tempo para brincar era um luxo. Se existiram conquistas em Abril elas est\u00e3o \u00e0 vista &#8211; apesar de tanto termos ainda por que lutar e caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p>A este prop\u00f3sito basta recordar, por exemplo, a luta das pessoas espelhadas em obras como as de Alves Redol. Ou, como (sobre)viviam as pessoas em \u201cLevantados do Ch\u00e3o\u201d, de Jos\u00e9 Saramago.<\/p>\n\n\n\n<p>As desigualdades e injusti\u00e7as sociais e econ\u00f3micas, a falta de acesso \u00e0 cultura e outros bens continua. O 25 de Abril de 1974 veio lembrar que estamos todos debaixo do mesmo c\u00e9u, todos a viver de bra\u00e7os estendidos \u00e0 Humanidade. Ou pelo menos assim devia ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO Corredor\u201d, de 1984, volta a convocar um desses mi\u00fados. A sua vida \u00e9 solit\u00e1ria, mas cheia de esperan\u00e7a. Os adultos parecem j\u00e1 demasiado abatidos pelas dificuldades de um mundo duro e implac\u00e1vel. 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