{"id":6804,"date":"2023-04-10T13:01:00","date_gmt":"2023-04-10T13:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6804"},"modified":"2023-05-05T12:00:08","modified_gmt":"2023-05-05T12:00:08","slug":"a-escola-onde-o-tamanho-do-pe-nao-determina-a-passada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/04\/10\/a-escola-onde-o-tamanho-do-pe-nao-determina-a-passada\/","title":{"rendered":"A escola onde o tamanho do p\u00e9\u00a0n\u00e3o determina a passada"},"content":{"rendered":"\n<p>Mais uns dias e t\u00ednhamos presenciado a solenidade da inaugura\u00e7\u00e3o de uma biblioteca na escola d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio do Laranjeiro, mesmo ao lado da secretaria. E, a biblioteca \u00e9 como uma semente que se lan\u00e7a na terra f\u00e9rtil, s\u00f3 se pode esperar bons resultados. E, por falar em sementes, esta escola, encaixada entre pr\u00e9dios de um bairro do Laranjeiro, parece uma porta para uma outra dimens\u00e3o. N\u00e3o nos prendamos com considera\u00e7\u00f5es da f\u00edsica para explicar esta outra dimens\u00e3o, porque ela explica-se facilmente, neste caso, claro.<\/p>\n\n\n\n<p>Vejamos como, apesar do espa\u00e7o ex\u00edguo de uma sala, dois metros quadrados apenas, podemos colocar um conjunto de livros, cada um com alguns cent\u00edmetros quadrados. At\u00e9 agora n\u00e3o sa\u00edmos das tr\u00eas dimens\u00f5es, mas quando abrimos a curiosidade pela leitura abrimos essa porta para uma quarta dimens\u00e3o, o tempo. Essoutra dimens\u00e3o, quebra ampulhetas, acelera ou retarda o tic-tac dos rel\u00f3gios, substituindo todo aquele mecanismo de cordas e rodas dentadas pelo prazeroso momento da leitura que nos abre agora uma outra dimens\u00e3o, mais uma, que nos permite vaguear pelo mundo, sem limites de espa\u00e7o, a n\u00e3o ser o da nossa pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o, potenciada pelos cen\u00e1rios, hist\u00f3rias, enredos e personagens sugeridos. Ora, a\u00ed est\u00e1, como num quarto com dois metros quadrados a pequenada pode viajar.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideremos ent\u00e3o que a biblioteca, que abriu uns dias depois da nossa visita, \u00e9 apenas um dos muitos portais com que nos fomos cruzando nesta visita guiada pela educadora Olga, sempre muito bem assessorada por um par de alunos, de que o Ivan, a Maria, a Matilde a Catarina e o Samuel s\u00e3o apenas alguns bons representantes desta popula\u00e7\u00e3o infantil bem treinada nessas viagens pelos portais que a equipa docente, n\u00e3o docente e demais comunidade educativa lhes vai abrindo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uns dias antes da nossa visita, a m\u00e3e da jovem Zafia, a Faiza, da Associa\u00e7\u00e3o Casa \u00c1rabe, alimentou a curiosidade da equipa docente. Sim, porque a curiosidade \u00e9 sempre diretamente proporcional ao saber. E, assim, perante uma comunidade cada vez mais multicultural, talvez n\u00e3o seja pior lan\u00e7ar, tamb\u00e9m aqui, a tal semente desta vez da interculturalidade. E assim foi, a Faiza l\u00e1 foi explicar um pouco dos h\u00e1bitos desta cultura cada vez mais presente entre esta comunidade educativa. A curiosidade \u00e9 o apetite, o conhecimento n\u00e3o pesa e a conversa \u00e9 como as cerejas. Para al\u00e9m do conhecimento sobre as raz\u00f5es dos h\u00e1bitos culturais desta comunidade, seja a parte gastron\u00f3mica, religiosa e outras, a curiosidade deslizou para a l\u00edngua e sobretudo para a escrita. E assim, alguns dos participantes deste encontro ficaram a saber tamb\u00e9m como escreviam em \u00e1rabe o seu nome. A escola d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio abria mais esse portal da interculturalidade que elimina a barreira mais terr\u00edvel gerada pela ignor\u00e2ncia e o medo da diferen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos ao&nbsp;<em>hall<\/em>&nbsp;de entrada, onde largas e luminosas janelas substituem a opacidade da parede, e por l\u00e1 continuam a Maria, a Catarina, o Samuel, a Matilde e o Ivan de nariz esborrachado no vidro tentando explicar a origem de um espantalho com o nome de \u201cPalha\u00e7o Sem Cuecas\u201d. Ao lado do Palha\u00e7o Sem Cuecas, assim \u00e9 conhecido pelos petizes, cresce a couve portuguesa, as alfaces, as ervas arom\u00e1ticas e, num cantinho, a batata-doce. O debate entre o Samuel e o Ivan prende-se com o autor do nome dado ao espantalho e, a\u00ed, as opini\u00f5es divergem: &#8211; Fui eu! N\u00e3o, fui eu! Esta paternidade \u00e9 irrelevante &#8211; explica a professora Olga, pondo um ponto final no diferendo e centrando a discuss\u00e3o na paternidade da horta. Ora, a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas, o consenso \u00e9 total e ambos repetem o nome de In\u00eas em un\u00edssono. A In\u00eas faz apoio domicili\u00e1rio, outro dos bra\u00e7os com que esta escola envolve aquela comunidade. S\u00f3 que a In\u00eas traz consigo a cultura, muito provavelmente, adquirida noutras paragens e, concluem os pequenos, percebe de hortas como ningu\u00e9m. Quando, como e o que deve plantar. N\u00e3o \u00e9 coisa de menor import\u00e2ncia e ganha assim a autoridade, n\u00e3o a que resulta de uma qualquer hierarquia, n\u00e3o a adquirida em palestras e workshops de lideran\u00e7a. N\u00e3o, trata-se t\u00e3o s\u00f3 do respeito pela hierarquia do saber.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, a couve portuguesa est\u00e1 quase pronta para a panela e, n\u00e3o fora a cozinha estar em momento de mudan\u00e7as e de obras, que v\u00e3o transformar a velha numa moderna cozinha, a tronchuda teria j\u00e1 guardado um cantinho da panela e outro na barriga da pequenada, 130 mais dos 25 docentes e demais funcion\u00e1rios. Mas uma horta \u00e9 mais do que isso para as crian\u00e7as d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio do Laranjeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Saltemos agora para outro daqueles portais de que fal\u00e1mos. Numa dos espa\u00e7os do&nbsp;<em>hall<\/em>, \u00e0 esquerda, em frente \u00e0 secretaria, h\u00e1 uma pequena e organizada exposi\u00e7\u00e3o de roupa. Apesar da variedade de cores e de tamanhos a roupa est\u00e1 arrumada, diria at\u00e9, devidamente organizada. Quisemos saber do que se trata. Olga explica-nos. H\u00e1 ali, um mercado livre de roupa. Talvez mercado seja uma palavra indevidamente aplicada porque aquela n\u00e3o \u00e9 mercantiliz\u00e1vel. Aquela comunidade educativa deixa ali roupa que deixou de servir a si e aos seus, levanta o que ali estiver que lhes seja \u00fatil. A coisa \u00e9 organizada todos os dias. Ora neste local de troca, ao contr\u00e1rio do mercado tradicional, n\u00e3o h\u00e1 quem compre e quem venda, n\u00e3o h\u00e1 moeda na troca, apenas a utilidade da roupa para quem dela necessite e ou deixa de necessitar. E esta ideia encerra v\u00e1rios conceitos de uma sociedade democr\u00e1tica e verdadeiramente sustent\u00e1vel, que combate de uma forma direta a velha e cada vez mais desigual sociedade de consumo que divide, mesmo em tenra idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os espa\u00e7os exteriores com \u00e1rvores, equipamentos de lazer rodeiam as salas interligadas atrav\u00e9s destes espa\u00e7os. A manh\u00e3 luminosa convida a que as crian\u00e7as troquem a sala pelo espa\u00e7o exterior. E, a brincadeira, como diz o professor Carlos Neto, \u00e9 um bom sinal porque \u201csignifica ser ativo, deslocar o corpo, mexer nos objetos, estabelecer a rela\u00e7\u00e3o com a natureza\u201d promovendo o \u201cdesenvolvimento sensorial, percetivo, motor, cognitivo, social e emocional\u201d. Ora que aula esta pode ser desperdi\u00e7ada? O que revelam as crian\u00e7as da creche da Escola d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio do Laranjeiro \u00e9 essa maturidade. A bola \u00e9 chutada ou lan\u00e7ada \u00e0 m\u00e3o num jogo que p\u00f5e \u00e0 prova qualidades no desempenho de compet\u00eancias motoras que nos espantam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado, na sala do ber\u00e7\u00e1rio, os petizes gatinham, alguns j\u00e1 ensaiam os primeiros passos. N\u00e3o tarda, confessa a educadora, alguns dos mi\u00fados est\u00e3o prontos para transitar para o patamar seguinte. Ao contr\u00e1rio de outras escolas, as portas est\u00e3o sempre franqueadas aos pais e crian\u00e7as que \u00e0s vezes acompanham as brincadeiras dos filhos no espa\u00e7o exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Os muros deste mundo onde a pequenada se vai ausentando da realidade para mais tarde a compreender melhor, n\u00e3o s\u00e3o verdadeiramente intranspon\u00edveis, garante-nos Olga, a Coordenadora T\u00e9cnica Pedag\u00f3gica deste espa\u00e7o educativo. Depois adas aulas os espa\u00e7os exteriores n\u00e3o se fecham \u00e0 comunidade e isso \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de a servir.<\/p>\n\n\n\n<p>Pela consulta dos mapas afixados na parede do hall ficamos a saber que esta semana \u00e9 a equipa vermelha respons\u00e1vel pelas tarefas, a \u00faltima das quais, mas n\u00e3o a menos importante, \u00e9 a responsabilidade de ajudar a resolver problemas. Mas todas as outras equipas, a azul e a verde, t\u00eam a sua semana destinada. Mais ao lado, um outro gr\u00e1fico revela uma estat\u00edstica com base do tamanho dos p\u00e9s dos pequenos da sala 1. Ficamos a saber que o p\u00e9 mais pequeno \u00e9 o do Rodrigo, que cal\u00e7a um 23, e que o p\u00e9 maior \u00e9 o da Elisianne, que cal\u00e7a um 33,5. Mas, a maioria cal\u00e7a o 26 e o 27. Ora a\u00ed est\u00e1 uma escola onde o tamanho do p\u00e9 n\u00e3o determina a passada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Laranjeiro h\u00e1 uma escola de portais para outra dimens\u00e3o e onde a cultura n\u00e3o divide, antes enriquece toda a comunidade educativa.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":6805,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6804"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6804"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6804\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6920,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6804\/revisions\/6920"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6805"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6804"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6804"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6804"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6804"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}