{"id":6756,"date":"2023-03-15T12:43:39","date_gmt":"2023-03-15T12:43:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6756"},"modified":"2023-04-10T13:37:58","modified_gmt":"2023-04-10T13:37:58","slug":"guerra-na-ucrania-quo-vadis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/03\/15\/guerra-na-ucrania-quo-vadis\/","title":{"rendered":"Guerra na Ucr\u00e2nia &#8211; Quo Vadis"},"content":{"rendered":"\n<p>A g\u00e9nese do conflito \u00e9, no entanto, anterior a estes acontecimentos. Remonta \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es de que enferma a cria\u00e7\u00e3o do Estado ucraniano, uma am\u00e1lgama de territ\u00f3rios e povos com hist\u00f3rias e culturas distintas, que as circunst\u00e2ncias geopol\u00edticas de duas guerras mundiais ditaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia dos acontecimentos da Pra\u00e7a Maidan, a R\u00fassia anexou a pen\u00ednsula da Crimeia e as popula\u00e7\u00f5es maioritariamente russ\u00f3fonas do Sul da Ucr\u00e2nia pegaram em armas, registando-se na regi\u00e3o do Donbass (Donetsk e Lugansk) confrontos armados entre grupos de nacionalistas. A media\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a, da Alemanha e da R\u00fassia permitiu alcan\u00e7ar um acordo de cessar-fogo, assinado em 24 de fevereiro de 2015 em Minsk, com um conjunto de cl\u00e1usulas de seguran\u00e7a destinadas a garantir a paz.<\/p>\n\n\n\n<p>A monitoriza\u00e7\u00e3o do Acordo de Minsk ficou a cargo de uma miss\u00e3o da OSCE [Organiza\u00e7\u00e3o para a Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o na Europa], com vista \u00e0 normaliza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o. No entanto, os sete anos que se seguiram saldaram-se pela n\u00e3o aplica\u00e7\u00e3o do acordo e pela continua\u00e7\u00e3o dos combates, causando mais de 35.000 feridos e 13.000 mortos, dos quais 3.000 civis, para al\u00e9m de mais de dois milh\u00f5es de refugiados e deslocados.<\/p>\n\n\n\n<p>O Acordo de Minsk, segundo declara\u00e7\u00f5es recentes de Merkel e Hollande, ent\u00e3o chanceler da Alemanha e presidente da Fran\u00e7a, teve como verdadeiro des\u00edgnio ganhar o tempo necess\u00e1rio para capacitar o ex\u00e9rcito ucraniano, com vista a serem retomados os combates. N\u00e3o foi apenas a Ucr\u00e2nia que se preparou para esta guerra. O lado russo, ap\u00f3s a interven\u00e7\u00e3o na Crimeia, intensificou o processo de transforma\u00e7\u00e3o das suas for\u00e7as armadas iniciado ap\u00f3s o conflito com a Ge\u00f3rgia em 2008, acelerando a moderniza\u00e7\u00e3o do seu aparelho militar, em particular no plano do armamento estrat\u00e9gico. De salientar que a R\u00fassia tomou a dianteira no desenvolvimento dos m\u00edsseis hipers\u00f3nicos e adquiriu a paridade no dom\u00ednio das armas de precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2021, o Kremlin enviou a Washington e \u00e0 NATO um documento com uma proposta de revis\u00e3o da ordem de seguran\u00e7a na Europa. Consubstancia, na realidade, um ultimato por parte de uma Federa\u00e7\u00e3o Russa mais assertiva e predisposta a desafiar a hegemonia norte-americana.<\/p>\n\n\n\n<p>A invas\u00e3o russa, justificada por este pa\u00eds como um ataque preventivo destinado a proteger as popula\u00e7\u00f5es do Donbass, assentou no pressuposto de que a Ucr\u00e2nia colapsaria, ou seria rapidamente vencida no campo de batalha. A primeira condi\u00e7\u00e3o foi contrariada pela vontade de resistir do ex\u00e9rcito ucraniano, obrigando os russos a concentrarem as opera\u00e7\u00f5es no Donbass, onde o terreno lhes \u00e9 mais favor\u00e1vel. A derrota militar do ex\u00e9rcito ucraniano tamb\u00e9m n\u00e3o se verificou como os russos previam, merc\u00ea do crescente apoio do ocidente nas v\u00e1rias dimens\u00f5es do conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse envolvimento \u00e9 hoje indesment\u00edvel, da log\u00edstica ao planeamento, da&nbsp;intelligence&nbsp;ao recurso \u00e0 constela\u00e7\u00e3o de sat\u00e9lites militares e civis para o comando e controlo das opera\u00e7\u00f5es, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e treino do ex\u00e9rcito, passando pela valida\u00e7\u00e3o dos objetivos e opera\u00e7\u00e3o de meios estrat\u00e9gicos. Acresce uma mir\u00edade de pessoal presente no teatro com estatuto de conselheiros,&nbsp;contractors, meros mercen\u00e1rios ou integrando unidades constitu\u00eddas que atuam no pa\u00eds de forma encoberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Um conflito \u00e9 um sistema complexo e adaptativo, um jogo de parada-resposta que implica sempre o ajustamento das formas como os beligerantes pretendem atingir os objetivos definidos pela pol\u00edtica, tendo em considera\u00e7\u00e3o os meios dispon\u00edveis. \u00c9 em torno da conjuga\u00e7\u00e3o destes tr\u00eas fatores (fins-formas-meios) que \u00e9 efetuado o desenho da estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o dos objetivos tem em conta a natureza dos interesses em disputa, condicionando o grau de empenhamento das partes e o n\u00edvel de esfor\u00e7o (sacrif\u00edcios) admiss\u00edvel na condu\u00e7\u00e3o do conflito, determinando assim a sua natureza. Assumir\u00e1 um car\u00e1ter limitado quando estiverem em disputa interesses importantes, ou a forma de conflito total quando os interesses em causa forem vitais.<\/p>\n\n\n\n<p>O conflito em apre\u00e7o consubstancia interesses desta natureza para a Ucr\u00e2nia, empenhada no restabelecimento da soberania no seu territ\u00f3rio. Para a Federa\u00e7\u00e3o Russa, iniciou-se como um conflito limitado, centrado em pressupostos pol\u00edticos que a evolu\u00e7\u00e3o dos acontecimentos demonstrou estarem errados, nomeadamente quanto ao grau de interfer\u00eancia do ocidente no curso das opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>O ocidente, protagonizado pelo eixo EUA-NATO-EU, tem vindo a garantir um apoio crescente \u00e0 Ucr\u00e2nia. Obedece ao um racional dif\u00edcil de descodificar, assente no objetivo declarado de infringir uma derrota estrat\u00e9gica \u00e0 R\u00fassia e no princ\u00edpio de que a solu\u00e7\u00e3o do conflito dever\u00e1 assentar na via militar, declarando o apoio incondicional \u00e0 Ucr\u00e2nia durante o tempo que for necess\u00e1rio. Quando a derrota estrat\u00e9gica tem indexada uma mudan\u00e7a de regime, vem \u00e0 mem\u00f3ria um cen\u00e1rio de recidiva do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo em conta que o opositor \u00e9 uma pot\u00eancia nuclear, que disp\u00f5e de um dos ex\u00e9rcitos mais poderosos e que nas outras frentes do conflito (diplom\u00e1tica, econ\u00f3mica, informacional) n\u00e3o aparenta estar a ser derrotado, \u00e9 leg\u00edtimo perguntar se \u00e9 expect\u00e1vel que venha a s\u00ea-lo militarmente, quando o diferencial de potencial estrat\u00e9gico pende inequivocamente em favor dos russos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os acontecimentos no terreno, de que a carnificina dos combates em Bakhmut \u00e9 exemplo, coloca-nos perante o dilema de saber at\u00e9 onde o ocidente admite que o conflito possa escalar? Qual \u00e9 o plano B se os russos destru\u00edrem o ex\u00e9rcito ucraniano na contraofensiva da pr\u00f3xima primavera, \u00e0 semelhan\u00e7a do que fizeram aos dois anteriores que o ocidente armou, equipou e treinou? Que entendimento tem o ocidente sobre este conflito para estar a ser considerado pelos russos como uma amea\u00e7a existencial, justificativa do recurso a armas nucleares como, ali\u00e1s, t\u00eam reiteradamente avisado? O que \u00e9 preciso para que o ocidente comece a levar a s\u00e9rio Vladimir Putin?<\/p>\n\n\n\n<p>E a quest\u00e3o de 1 milh\u00e3o de d\u00f3lares \u00e9 saber se vai ou n\u00e3o haver tropas da NATO na Ucr\u00e2nia. E qual a posi\u00e7\u00e3o do governo portugu\u00eas quando, ao abrigo da solidariedade transatl\u00e2ntica, nos vierem pedir para enviar soldados portugueses para combater e morrer na Ucr\u00e2nia. Tendo em considera\u00e7\u00e3o que neste conflito j\u00e1 todas as partes \u201cpassaram o Rubic\u00e3o\u201d, talvez seja este o momento de exigirmos aos decisores pol\u00edticos que nos elucidem sobre a natureza dos interesses do nosso pa\u00eds nesta guerra. At\u00e9 porque pode ser a \u00faltima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Completou-se, em 24 de fevereiro, um ano sobre a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia, abrindo um novo cap\u00edtulo num conflito iniciado oito anos antes, na sequ\u00eancia dos acontecimentos da Pra\u00e7a Maidan, que levaram \u00e0 deposi\u00e7\u00e3o do presidente Yanukovich e ao colapso do poder pol\u00edtico em Kiev. <\/p>\n","protected":false},"author":93,"featured_media":6758,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[190],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6756"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/93"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6756"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6756\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6831,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6756\/revisions\/6831"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6758"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6756"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}