{"id":6749,"date":"2023-03-15T12:17:17","date_gmt":"2023-03-15T12:17:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6749"},"modified":"2023-03-15T13:03:34","modified_gmt":"2023-03-15T13:03:34","slug":"o-teatro-da-rainha-em-lisboa-solidao-sofrimento-e-os-mecanismos-da-violencia-em-police-machine","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/03\/15\/o-teatro-da-rainha-em-lisboa-solidao-sofrimento-e-os-mecanismos-da-violencia-em-police-machine\/","title":{"rendered":"O Teatro da Rainha em Lisboa: solid\u00e3o, sofrimento e os mecanismos da viol\u00eancia em \u201cPolice Machine&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>O \u201cTeatro da Rainha\u201d, fundado em 1985, veio a Lisboa apresentar <em>Police Machine<\/em>, pe\u00e7a de Joseph Danan, escritor e professor na Sorbonne. Uma importante passagem pelo Teatro da Polit\u00e9cnica, que deu a ver o trabalho criativo desenvolvido por uma companhia teatral de outra cidade, neste caso as Caldas da Rainha.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos ainda a entrar na sala e a procurar o nosso lugar, quando somos \u201cinvadidos\u201d pelo som ensurdecedor de uma banda de m\u00fasica. \u00c0 nossa frente est\u00e1 um enorme ecr\u00e3, onde passam imagens numa montagem acelerada de raparigas que cantam de forma agressiva. <\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o v\u00e1rios os mosaicos que se seguem a um ritmo alucinante, tamb\u00e9m ele violento, que n\u00e3o nos deixa espa\u00e7o para pensar sobre o que estamos a ver e a viver. Ali\u00e1s, como a meio da pe\u00e7a nos adverte sob um c\u00edrculo de luz uma personagem de chicote e cartola (a lembrar um domador de le\u00f5es), estamos protegidos, no teatro, e podemos tomar tudo aquilo por um sonho profundo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u201c<em>Police Machine<\/em> \u00e9 um circo de feras, onde a viol\u00eancia e as agress\u00f5es s\u00e3o cont\u00ednuas.&#8221; <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><em>Police Machine<\/em> \u00e9 um circo de feras, onde a viol\u00eancia e as agress\u00f5es s\u00e3o cont\u00ednuas. Aqueles que amea\u00e7am, fazem e deixam as suas marcas nas almas e nos corpos de outros. Aqueles que s\u00e3o v\u00edtimas tornam-se ainda mais impiedosos. Talvez por isto a alucina\u00e7\u00e3o pare\u00e7a colectiva. Queremos acreditar que este \u00e9 um submundo ao qual, de facto, n\u00e3o pertencemos \u2013 apenas estamos a assistir. Mas esse \u201capenas\u201d \u2014 lugar do espectador \u2014 \u00e9 o bastante para nos elucidar que estas vidas, hist\u00f3rias, acasos, rela\u00e7\u00f5es e crimes acontecem aos nossos olhos, nos nossos dias, escondidos, desculpados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando a (i)mortalidade de Deus \u00e9 assassinada<\/h2>\n\n\n\n<p>Estamos num mundo sem amor e reden\u00e7\u00e3o. A sensa\u00e7\u00e3o que vamos construindo \u00e9 comprovada quando, na pen\u00faltima cena (aquela em que o ritmo desacelera e o tempo parece distender-se) aparece a um canto, sentado e com um charuto entre as m\u00e3os, Deus. Deus \u00e9 um velho de barbas em robe e chinelos. A Deus s\u00f3 perguntam se Ele est\u00e1 satisfeito com a sua obra. \u00c9 o que o rapaz que o v\u00ea faz. Deus n\u00e3o responde, ou melhor, ficamos com o sil\u00eancio de Deus. Atr\u00e1s dele, permanece a tela vermelha j\u00e1 h\u00e1 alguns epis\u00f3dios. N\u00e3o s\u00e3o imagens violentas como no in\u00edcio, n\u00e3o \u00e9 a noite de uma tela negra, nem \u00e9 a brancura da esperan\u00e7a num ecr\u00e3 branco. Este ecr\u00e3 devolve uma esp\u00e9cie de Inferno sobre a terra, t\u00e3o infernal como o de Dante. Na obra do escritor italiano, caminhamos pelo Inferno e Purgat\u00f3rio, sabendo que, se aguentarmos e continuarmos, chegamos ao Para\u00edso. Em <em>Police Machin<\/em>e, o rapaz sem esperan\u00e7a descreve \u00e0 divindade todos os crimes, viol\u00eancia e viola\u00e7\u00f5es a que assistiu, e depois d\u00e1-lhe um tiro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;Na escurid\u00e3o do palco ficamos com Deus morto.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na escurid\u00e3o do palco ficamos com Deus morto. E, neste caso, como acontece em a \u201cGaia Ci\u00eancia\u201d (de Nietzsche), n\u00e3o temos um louco na noite com a lanterna a anunciar \u00e0 todos que Deus est\u00e1 morto. Assistimos \u00e0 sua morte em directo. Deus \u00e9 s\u00f3 mais um, fatigado, sentado numa berma, sobrevivendo em vez de ser dono da sua vida e da sua alegria para viver.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A contagiosa m\u00e1quina da viol\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>A m\u00e1quina da pol\u00edcia \u00e9, na verdade, a m\u00e1quina do cont\u00e1gio: do sofrimento e da vingan\u00e7a. Porque profundamente s\u00f3s j\u00e1 est\u00e3o todas as personagens, e assim continuar\u00e3o. Estamos perante humanos, semi-humanos ou outros seres, resultado desse mundo sem transcendente ou ideologias, sem sa\u00edda e ou liberdade interior?<\/p>\n\n\n\n<p>Existe um momento em que as coisas podiam inverter-se: a prostituta n\u00e3o aceita os tr\u00eas euros do referido rapaz, deita-se no passeio, e deixa que ele se deite ao seu lado para juntos dormirem um pouco. A rapariga adormece com a m\u00e3o sobre o ombro do rapaz. Este \u00e9 \u00fanico gesto de afecto de toda a pe\u00e7a. Mas o rapaz n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o o percebe como se vinga daquela serenidade e ternura, roubando-lhe a mala. \u00c9 dentro da mala que est\u00e1 a arma que acaba com a (i)mortalidade de Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desta morte, na esquadra de pol\u00edcia tudo \u00e9 poss\u00edvel: a m\u00e1quina do mal pelo mal. E ficamos com a sensa\u00e7\u00e3o que pode at\u00e9 ser o centro e o ponto-de-partida de tudo&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p><em>Police Machine<\/em> \u00e9 um texto arrojado, que o Teatro da Rainha teve a coragem de trazer a palco, com a encena\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio dramaturgo, com interpreta\u00e7\u00f5es \u00e0 altura. Um naipe de actores onde vigora uma interessante orquestra\u00e7\u00e3o de idades e experi\u00eancias, provando que \u00e9 preciso que outras companhias e profissionais do espect\u00e1culo venham a Lisboa mostrar o seu trabalho e talentos (e que tal podia acontecer com mais frequ\u00eancia).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O \u201cTeatro da Rainha\u201d, fundado em 1985, veio a Lisboa apresentar Police Machine, pe\u00e7a de Joseph Danan, escritor e professor na Sorbonne. Uma importante passagem pelo Teatro da Polit\u00e9cnica, que deu a ver o trabalho criativo desenvolvido por uma companhia teatral de outra cidade, neste caso as Caldas da Rainha. 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