{"id":6721,"date":"2023-03-14T17:24:14","date_gmt":"2023-03-14T17:24:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6721"},"modified":"2023-05-05T11:57:50","modified_gmt":"2023-05-05T11:57:50","slug":"a-habitacao-e-um-problema-silencioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/03\/14\/a-habitacao-e-um-problema-silencioso\/","title":{"rendered":"\u201cA habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema silencioso\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">Como cheg\u00e1mos a esta cidade em que a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 chutada para a periferia, substitu\u00edda por alojamento local e fundos imobili\u00e1rios?<\/p>\n\n\n\n<p>David Harvey, [ge\u00f3grafo e professor de antropologia da Universidade da Cidade de Nova Iorque] diz que a cidade \u00e9 o reflexo mais claro da luta de classes. Dependendo das pol\u00edticas p\u00fablicas e das formas de urbanizar, s\u00e3o mais extremadas ou menos extremadas. Em Lisboa, no Porto e em grande n\u00famero das cidades do pa\u00eds, entre 1987 e 2011, 75% do investimento p\u00fablico na \u00e1rea da habita\u00e7\u00e3o foi financiado com cr\u00e9dito banc\u00e1rio. Num processo de proprietariza\u00e7\u00e3o das casas.&nbsp; Durante estes 25 anos, o maior programa de realojamento foi o PER, que representou 3% deste valor. Com a liberaliza\u00e7\u00e3o das rendas, dependendo \u00fanica e exclusivamente do Banco Central Europeu, as taxas come\u00e7am a subir. A\u00ed as pessoas come\u00e7am a sentir que n\u00e3o s\u00e3o bem detentoras das suas casas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">S\u00e3o inquilinos da banca.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta estrutura de neg\u00f3cio fornecida pelo sistema foi muito simp\u00e1tica para a banca portuguesa que conseguiu criar o seu grande neg\u00f3cio, o cr\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E retomando o tema da cidade\u2026&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os processos de gentrifica\u00e7\u00e3o sempre existiram. Tenho para mim que Lisboa e Porto est\u00e3o a ser motivo de grande experimenta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pol\u00edticas p\u00fablicas j\u00e1 bastante agressivas de conten\u00e7\u00e3o deste processo, por exemplo em Barcelona, e durante uns tempos tamb\u00e9m em Madrid. Neste momento, olha-se para Portugal como um local de experimenta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Experimenta\u00e7\u00e3o como?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Fala-se muito do investimento estrangeiro, que cria press\u00e3o, pela maior capacidade econ\u00f3mica, e provoca uma press\u00e3o urban\u00edstica extrema, tamb\u00e9m sobre quem tem cr\u00e9dito imobili\u00e1rio. As pessoas sabem que devem 100 mil euros ao banco em Lisboa, e que a sua propriedade agora vale 300.000\u20ac. Se venderem saldam 100.000&nbsp;\u20ac, mas com 200.000&nbsp;\u20ac j\u00e1 n\u00e3o compram na cidade e t\u00eam de se afastar. \u00c9 um fator de press\u00e3o e de afastamento ao longo dos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E, o que \u00e9 que isso significa se n\u00e3o for travado?<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia do capital \u00e9 trabalhar entre per\u00edodos de grande subida e de grande baixa. \u00c9 necess\u00e1rio ao capital que haja uma grande baixa. A determinada altura estes centros v\u00e3o esvaziar-se, por estarem esvaziados de interesse. Ningu\u00e9m quer ir a uma Disneyl\u00e2ndia &#8211; uma Lisboa antiga a fingir que \u00e9 fado.&nbsp; A\u00ed o turismo deve tender a desaparecer. As redes de turismo viram-se para outros lados e n\u00f3s ficamos com a ru\u00edna. A\u00ed come\u00e7a a ser outra vez mais barato vir para os centros. S\u00e3o processos cl\u00e1ssicos. Sucedeu em S\u00e3o Francisco, nos EUA, os centros s\u00e3o vampirizados, produz-se mais-valia e, de repente, \u00e9 muito caro, muita gente vende em alta o que tinha, sai e o centro fica vazio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A op\u00e7\u00e3o dos anos 90 em Portugal \u2014 <em>quem quer habita\u00e7\u00e3o compre-a <\/em>\u2014 n\u00e3o resolveu o problema nem fez baixar os pre\u00e7os das habita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Falh\u00e1mos muito na habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Houve uma perspetiva ideol\u00f3gica de venda, at\u00e9 2015. A orienta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, apoiada pela Uni\u00e3o Europeia, proibiu o Estado de financiar a habita\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Falh\u00e1mos muito na habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Houve uma perspetiva ideol\u00f3gica de venda, at\u00e9 2015. A orienta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas, apoiada pela Uni\u00e3o Europeia, proibiu o Estado de financiar a habita\u00e7\u00e3o. A porta de abertura para o seu financiamento vem com o pacto de Amesterd\u00e3o \u2013 de que a habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos 12 temas. E voltamos a ter o financiamento da habita\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m da escassez de habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o dogmatismo neoliberal das pol\u00edticas p\u00fablicas atacou ferreamente a habita\u00e7\u00e3o privada de cariz n\u00e3o lucrativo &#8211; todo o sector cooperativo e dos mutualismos, cuja grande maioria passou para o mercado livre e passou a operar com e como todos os outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porqu\u00ea a aposta na pol\u00edtica de cr\u00e9dito?<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os partidos, no p\u00f3s-25 Abril, defenderam o cr\u00e9dito bonificado. \u00c9 criado, na primeira interven\u00e7\u00e3o do FMI em Portugal. Todos os partidos o defendem porque tem a ver com uma l\u00f3gica: todos os trabalhadores devem ter direito ao cr\u00e9dito, o que n\u00e3o aconteceu durante o fascismo. \u00c9 uma reivindica\u00e7\u00e3o do direito ao cr\u00e9dito e do direito \u00e0 propriedade. No entanto, mesmo quem tinha projetos cooperativos de propriedade colectiva, nos anos 80 e 90 foi incentivado a mudar para a l\u00f3gica individual, e para o mercado livre. Embora j\u00e1 n\u00e3o estejamos no \u00e2mbito do cr\u00e9dito bonificado, \u00e9 bom avaliar a pol\u00edtica. Quem teve cr\u00e9dito bonificado n\u00e3o devia ter podido vender no mercado livre, mas sim no mercado regulado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">As pessoas que venderam beneficiaram do neg\u00f3cio?<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte dos nossos fracos rendimentos est\u00e1 alavancada em opera\u00e7\u00f5es destas, com o imobili\u00e1rio. Isso fez com que se tapasse, de alguma forma, os nossos baix\u00edssimos rendimentos. As pessoas iam-se de alguma forma safando com estas opera\u00e7\u00f5es de venda e compra. Quando tentamos desenhar pol\u00edticas p\u00fablicas para as quest\u00f5es da propriedade privada, temos de ter consci\u00eancia de que h\u00e1 uma parte do rendimento, seja no alojamento local, seja na pr\u00f3pria venda, que \u00e9 um ativo de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o propriet\u00e1rios ricos. Tudo o que se faz no direito \u00e0 propriedade deve ser cir\u00fargico. Deve-se ir onde se deve ir: \u00e0s grandes estruturas da mais-valia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Tudo o que se faz no direito \u00e0 propriedade deve ser cir\u00fargico. Deve-se ir onde se deve ir: \u00e0s grandes estruturas da mais-valia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Os propriet\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o todos iguais?<\/p>\n\n\n\n<p>As associa\u00e7\u00f5es de propriet\u00e1rios fazem sempre este discurso terrorista: \u201cv\u00e3o tirar a casa do velhote, v\u00e3o tirar a casa do imigrante, vamos tirar todas as casas do mercado\u2026\u201d Deve intervir-se do ponto de vista cir\u00fargico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 admiss\u00edvel que um fundo imobili\u00e1rio compre um im\u00f3vel no centro de Lisboa ou Porto, despeje as pessoas e o mantenha vazio sabendo que daqui a cinco anos ele vai valer mais? Esse fundo imobili\u00e1rio tem num pr\u00e9dio, dez fogos e dois de com\u00e9rcio, o \u00fanico trabalho que faz \u00e9 uma malfeitoria ao edif\u00edcio. Quer esvazi\u00e1-lo para depois o vender mais caro. Um edif\u00edcio vazio vale mais que o edif\u00edcio com pessoas, mesmo que tenham rendas altas. H\u00e1 um estudo interessante da Saskia Sassen, urbanista da Universidade de Columbia, em torno desta quest\u00e3o: na cidade ultra-especulada, a propriedade vale mais se estiver vazia. O que vale mais \u00e9 o que se pode especular,&nbsp; que se pode projetar que valha, e n\u00e3o o valor real.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>Na cidade ultra-especulada, a propriedade vale mais se estiver vazia. O que vale mais \u00e9 o que se pode especular,&nbsp; que se pode projetar que valha, e n\u00e3o o valor real.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como \u00e9 que o respeito pelo direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o pode modificar a cidade?<\/p>\n\n\n\n<p>No desenho das estruturas aut\u00e1rquicas temos quase sempre o vereador da habita\u00e7\u00e3o, que acumula com as \u00e1reas sociais, e o vereador do urbanismo que acumula com o espa\u00e7o p\u00fablico. Tem de se come\u00e7ar a perceber que a grande forma de produ\u00e7\u00e3o da cidade est\u00e1 nas quest\u00f5es da habita\u00e7\u00e3o. A habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica era sobretudo assistencialista, e o urbanismo era o grande centro do dinheiro. Habita\u00e7\u00e3o e urbanismo t\u00eam de ser cosidos para n\u00e3o entrar no loop valoriza\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o, valoriza\u00e7\u00e3o, deprecia\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o, venda em alta, o susto provocado pela baixa, e queda muito grande. Funciona exatamente como a bolsa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Essa din\u00e2mica de mercado n\u00e3o resolve o problema da habita\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem sai do centro tamb\u00e9m provoca a gentrifica\u00e7\u00e3o do s\u00edtio para onde vai. Chega \u00e0 periferia com os 200.000&nbsp;\u20ac e faz subir os pre\u00e7os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica. H\u00e1 que construir habita\u00e7\u00e3o p\u00fablica, construir habita\u00e7\u00e3o para renda acess\u00edvel. Construir os 26 mil fogos e mais, vai ter de se continuar a construir depois de 2026. H\u00e1 que come\u00e7ar a construir com uma ideia de retirar habita\u00e7\u00e3o privada do mercado, ou seja, regular o mercado. A habita\u00e7\u00e3o com apoios p\u00fablicos, com taxas de cr\u00e9dito aceit\u00e1veis, para cooperativa, para o setor mutualista, que consigam-se encaixar nas pol\u00edticas p\u00fablicas de produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o especulativa, e que consigam, tamb\u00e9m eles, criar um mercado. Fala-se muitas vezes de 40% da habita\u00e7\u00e3o social que existe em Amesterd\u00e3o, por exemplo, ou Zurique, que \u00e9 sobretudo da \u00e1rea cooperativa. \u00c9 habita\u00e7\u00e3o privada. N\u00e3o \u00e9 p\u00fablica, \u00e9 habita\u00e7\u00e3o com apoios p\u00fablicos e est\u00e1 totalmente impedida de entrar no mercado livre. Portanto, presta uma fun\u00e7\u00e3o social importante. O que for ou tiver financiamento p\u00fablico, na \u00e1rea das cooperativas das IPSS, o que seja, n\u00e3o deve sair do mercado regulado. E as pol\u00edticas de habita\u00e7\u00e3o s\u00e3o sempre de m\u00e9dio e longo alcance. Nunca se conseguem resolver a curto prazo &#8211; essas s\u00e3o zonas de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Ter\u00e1 de existir habita\u00e7\u00e3o suficiente para cobrir a car\u00eancia de habita\u00e7\u00e3o e a habita\u00e7\u00e3o em p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 foram entregues as estrat\u00e9gias locais de habita\u00e7\u00e3o de 230 munic\u00edpios. Faltar\u00e3o umas 80. Dos dados destes 230, sabemos que h\u00e1 80 mil fam\u00edlias a viverem em condi\u00e7\u00f5es indignas. Sejam 100 mil, no pa\u00eds todos. Tamb\u00e9m sabemos que temos umas 600.000 casas em situa\u00e7\u00e3o de car\u00eancia e emerg\u00eancia extrema. Segundo os censos, temos 723 mil casas vazias. N\u00e3o sabemos bem onde est\u00e3o, mas sabemos que destas 48 mil s\u00e3o em Lisboa. Ou seja, Lisboa tem 15 por cento das suas casas vazias.&nbsp; Carnide \u00e9 a freguesia com menos casas vazias, Santa Clara a segunda. Com mais casas vazias \u00e9 Arroios, 3890, depois Miseric\u00f3rdia, Penha de Fran\u00e7a e Estrela, 25% das casas vazias est\u00e1 no centro da procura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Arroios \u00e9 uma zona que temos a sensa\u00e7\u00e3o de estar sobrelotada.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente Arroios ser\u00e1 a freguesia do pa\u00eds com mais casas vazias e onde h\u00e1 maior procura. Um im\u00f3vel vazio em Arroios valoriza-se imenso. Isto pode ter a ver com coisas conjunturais: parte significativa dos muitos pr\u00e9dios em Arroios eram detidos pela fidelidade. Houve um processo de venda aos fundos imobili\u00e1rios que os esvaziaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o divide os partidos portugueses. A direita acha que o direito de propriedade \u00e9 inatac\u00e1vel e a esquerda defende que o direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o se lhe sobrep\u00f5e.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, creio que ningu\u00e9m tender\u00e1 a mexer no direito \u00e0 habita\u00e7\u00e3o. \u00c9 consensual que \u00e9 um problema. O negacionismo j\u00e1 \u00e9 muito residual. Tirando de algumas pessoas, de alguns partidos como o Chega.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como v\u00ea as medidas do Plano de Habita\u00e7\u00e3o proposto pelo governo?<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda estamos para perceber as medidas anunciadas pelo governo. Se for para mobilizar fogos devolutos e vazios para arrendamento, s\u00e3o boas medidas. Se for para regular os aumentos de renda para novos contratos e, finalmente, encontrarmos uma solu\u00e7\u00e3o para contrariar o mercado ultra especulativo de arrendamento, s\u00e3o boas solu\u00e7\u00f5es. Se for para agilizar o processo de licenciamento e tornar os procedimentos administrativos mais c\u00e9leres, s\u00e3o boas medidas. Se for para fazer borlas fiscais, licenciamentos, a todos aqueles que j\u00e1 beneficiaram com o alojamento local e agora querem entrar no mercado especulativo, \u00e9 uma m\u00e1 medida. Se for para falar nos devolutos e depois nada concretizar e nada fazer, \u00e9 uma m\u00e1 medida. Se for para encontrar formas de isen\u00e7\u00e3o para os fundos imobili\u00e1rios, para depois os fundos poderem arrendar por valores astron\u00f3micos casas ao Estado, \u00e9 uma m\u00e1 medida. H\u00e1 que saber onde queremos ir buscar estes fogos e onde queremos intervir. E h\u00e1 que saber quem anda a especular e a ganhar muito dinheiro com isto. Portanto, tudo vai depender daquilo que forem os diplomas legais, mas tamb\u00e9m a operacionaliza\u00e7\u00e3o de cada uma destas medidas, operacionaliza\u00e7\u00e3o de cada um destes programas pol\u00edticos. Porque a quest\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica, ou seja, n\u00e3o vamos poder agradar a gregos e a troianos. Neste momento o governo tem de escolher: ou est\u00e1 do lado de quem est\u00e1 a sofrer todos os aumentos, todos os problemas relativamente \u00e0 falta de casas, ou est\u00e1 do lado de quem anda, andou e continuar\u00e1 a andar a especular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E \u00e0 direita?<\/p>\n\n\n\n<p>O PSD apresenta uma solu\u00e7\u00e3o que aponta para mais constru\u00e7\u00e3o nos terrenos rurais e n\u00e3o urbanizados. Por exemplo, em Lisboa, se calhar em Monsanto seria um desses s\u00edtios. Tamb\u00e9m para o resto do territ\u00f3rio. Julgo que a estrutura da proposta que o presidente do PSD apresenta tem a ver com a maior densifica\u00e7\u00e3o, altura e constru\u00e7\u00e3o nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E quanto \u00e0 resposta p\u00fablica?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>\u00c9 muito importante criar movimento de contesta\u00e7\u00e3o e de alerta para muitas pessoas que n\u00e3o t\u00eam voz, cujos problemas n\u00e3o chegam aos programas da comunica\u00e7\u00e3o social, e que est\u00e3o com graves car\u00eancias. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Tem de haver uma resposta efetiva das pessoas. Refor\u00e7o muito isto. \u00c9 muito importante criar movimento de contesta\u00e7\u00e3o e de alerta para muitas pessoas que n\u00e3o t\u00eam voz, cujos problemas n\u00e3o chegam aos programas da comunica\u00e7\u00e3o social, e que est\u00e3o com graves car\u00eancias. Este problema da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema muito silencioso. Por outro lado, \u00e9 preciso come\u00e7ar cada um de n\u00f3s a gerar alternativas. E n\u00e3o \u00e9 cada um para seu lado. Uma constru\u00e7\u00e3o de resposta de esquerda tem a ver com sairmos da nossa individualiza\u00e7\u00e3o do problema do nosso agregado, para tentarmo-nos safar, e come\u00e7ar a construir respostas comuns. E para isso o Estado tamb\u00e9m tem de estar a apoiar. N\u00e3o de nariz empinado, como juiz a avaliar. Tem de estar ao lado das pessoas, ajudar a criar solu\u00e7\u00f5es. Foi assim que foram criadas as cooperativas, muitas das solu\u00e7\u00f5es das previd\u00eancias. Mesmo durante o Estado Novo houve este entendimento de que grupos de classe profissional se podiam organizar e para sua auto-defesa, quando n\u00e3o havia seguran\u00e7a social, poderiam construir e, entre pares, dar uma resposta habitacional e de seguran\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Esses modelos foram desaparecendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram. E foram todos para o mercado livre. Agora t\u00eam de ser tomados e isso depende de n\u00f3s para al\u00e9m dos ciclos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 a quest\u00e3o da periferia. Popula\u00e7\u00f5es com muitas dificuldades, para as quais muitas vezes as solu\u00e7\u00f5es de habita\u00e7\u00e3o dita guetizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos s\u00f3 tratar o tema da habita\u00e7\u00e3o no quadro da democracia. Tivemos um grande movimento que durou muito pouco tempo. Foi o das opera\u00e7\u00f5es SAAL, quando, a seguir ao 25 de Abril, se come\u00e7aram a construir respostas com as popula\u00e7\u00f5es, e em grande articula\u00e7\u00e3o com o Estado, representado por t\u00e9cnicos no terreno. A ideia era ajudar as pessoas organizadas em movimentos, associa\u00e7\u00f5es de moradores e cooperativas. Nunca se iniciava um processo sem os moradores estarem organizados. Ganhavam capacidade de protesto, mas tamb\u00e9m forma jur\u00eddica e responsabilidade. Essa foi a primeira op\u00e7\u00e3o. Isso derivou depois, nos anos 80, em muitos dos movimentos cooperativos. O SAAL morreu, s\u00f3 durou um ano e meio. Mas \u00e9 um programa muito marcante a n\u00edvel nacional e internacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Muito pouco tempo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi destru\u00eddo pelo 25 de Novembro e perseguido. \u00c9 preciso dizer isto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Que respostas houve entretanto?<\/p>\n\n\n\n<p>Depois tivemos outra opera\u00e7\u00e3o, j\u00e1 desenhada no per\u00edodo do cavaquismo:&nbsp; o PER. Foi o in\u00edcio das PPP [parcerias p\u00fablico-privadas].&nbsp; A articula\u00e7\u00e3o era feita entre o Estado, o empreiteiro e as construtoras. Numa l\u00f3gica tripartida: uma parte para habita\u00e7\u00e3o social, outra condicionada, outra para especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria. Muitas vezes a habita\u00e7\u00e3o dita social ficava atr\u00e1s.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como?<\/p>\n\n\n\n<p>Ficava sempre nas partes piores, com os piores espa\u00e7os p\u00fablicos e resultou neste engarrafamento das pessoas. As pol\u00edticas eram muito tratadas entre os munic\u00edpios e os empreiteiros e s\u00e3o muito poucos os bons exemplos de projetos interessantes do governo do Estado, e s\u00e3o muitos os casos de bairros que criaram um problema com que estamos a tentar lidar. S\u00e3o bairros onde, por exemplo, os espa\u00e7os do habitat, o espa\u00e7o p\u00fablico, s\u00e3o tremendamente desastrosos. Ficam longe dos equipamentos p\u00fablicos, longe de tudo, longe das cidades, longe da urbanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem a ver com um esquema de fazer cidade, empurrar as pessoas para as periferias. \u00c9 preciso avaliar o que se est\u00e1 a fazer agora. Para mim \u00e9 particularmente importante o entendimento da Lei de Bases da Habita\u00e7\u00e3o, que foi um avan\u00e7o hist\u00f3rico, que define que a casa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquilo que est\u00e1 para dentro da porta da rua. S\u00e3o tamb\u00e9m os espa\u00e7os coletivos e p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Espa\u00e7os importantes&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso faz parte do habitar. Deve produzir-se habita\u00e7\u00e3o para se produzir cidade. Acho que temos condi\u00e7\u00f5es para fazer coisas novas. Mas receio que estejamos muito na filosofia PER. \u00c9 preciso fazer, fazer, fazer, e h\u00e1 pouco cuidado com o que se faz.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O arquiteto Tiago Mota Saraiva alerta para a tend\u00eancia de se sofrer silenciosamente com a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o quando o que se exige \u00e9 \u201csairmos da nossa individualiza\u00e7\u00e3o do problema, do nosso agregado e come\u00e7ar a construir respostas comuns\u201d. E avisa o governo: \u201cTem de escolher! 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