{"id":6680,"date":"2023-03-14T15:55:24","date_gmt":"2023-03-14T15:55:24","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6680"},"modified":"2023-03-14T15:55:24","modified_gmt":"2023-03-14T15:55:24","slug":"os-80-anos-de-aniki-bobo-a-infancia-como-lugar-do-terror-culpa-desejo-e-coragem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/03\/14\/os-80-anos-de-aniki-bobo-a-infancia-como-lugar-do-terror-culpa-desejo-e-coragem\/","title":{"rendered":"Os 80 anos de \u201cANIKI BOB\u00d3\u201d: a inf\u00e2ncia como lugar do terror, culpa, desejo e coragem"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os 80 anos de \u201cANIKI BOB\u00d3\u201d: a inf\u00e2ncia como lugar do terror, culpa, desejo e coragem<\/h2>\n\n\n\n<p>A 11 de Janeiro assinalaram-se os oitenta anos da estreia no Porto de \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201d, primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira. O filme tinha estreado em Lisboa tr\u00eas semanas antes, mas o marco seria a projec\u00e7\u00e3o na cidade que lhe serviu de suporte para falar sobre os meninos da foz do Douro &#8211; que transversalmente eram tamb\u00e9m as crian\u00e7as que na \u00e9poca brincavam nas margens do Tejo, algumas com situa\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAniki-B\u00f3b\u00f3\u201d \u00e9 uma adapta\u00e7\u00e3o livre de um conto de Rodrigues de Freitas, \u201cOs Meninos Milion\u00e1rios\u201d, e tem como centro narrativo um grupo de crian\u00e7as portuenses. Por tr\u00e1s da rebeldia e brincadeiras pr\u00f3prias da idade, Manoel de Oliveira dramatiza, atrav\u00e9s destes mi\u00fados, emo\u00e7\u00f5es do mundo adulto. Aniki-B\u00f3b\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um filme sobre crian\u00e7as e para crian\u00e7as, mas sobre adultos no estado de crian\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Carlitos est\u00e1 apaixonado por Teresinha, esta est\u00e1 de olho nele e em Eduardinho; a rapariga parece ter uma perversidade e sentido do desejo inocentes. Nesta entrada da vida e no amor, ambos os rapazes rivalizam pela rapariga, que parece gostar do jogo de sedu\u00e7\u00e3o. Eduardo mostra-lhe os m\u00fasculos como fazem os homens grandes. Por seu turno, Carlitos rouba a boneca que Teresinha venerou na montra da loja.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os adultos parecem legados para segundo plano. S\u00f3 vemos a m\u00e3e de Carlitos no come\u00e7o do filme, ralhando com o filho. Por\u00e9m eles est\u00e3o l\u00e1, ligados \u00e0 austeridade: o professor \u00e9 duro e castigador, o dono da loja mesquinho e injusto. Mas mesmo estes comportamentos mudam na terceira parte, quando professor e dono da loja ganham outra postura face aos mi\u00fados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A cidade, o medo e a noite das crian\u00e7as<\/h2>\n\n\n\n<p>O Porto era j\u00e1 a \u201ccidade cinematogr\u00e1fica\u201d de Manoel de Oliveira. Interessava-lhe que a hist\u00f3ria destas crian\u00e7as fosse atravessada pelo quotidiano das gentes da foz do Douro, pessoas que habitavam uma cidade diferente daquela que hoje conhecemos. Al\u00e9m dos mi\u00fados que se atiram ao rio e constroem papagaios com folhas de papel vegetal, vemos homens a cantar nas ruas, mulheres \u00e0 janela com trajes da altura, peixeiras a circular. Manoel de Oliveira n\u00e3o torna as aventuras destes petizes encantat\u00f3rias. \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201d fala sobre a consci\u00eancia do bem e do mal, sobre o desejo, a culpa, o medo, tamb\u00e9m as dificuldades econ\u00f3micas de mi\u00fados que andam \u00e0 noite sozinhos pelas ruas. Temas que sobressaem com o roubo da boneca, para a qual nem Carlitos nem o melhor amigo tinham dinheiro para a comprar. Numa noite, Carlitos sobe ao telhado para a levar \u00e0 rapariga; \u00e9 tamb\u00e9m durante as brincadeiras nocturnas com os outros rapazes que se sente acusado de ser ladr\u00e3o. O realizador revela esse mau estar interior da crian\u00e7a atrav\u00e9s do jogo entre luz e sombras e do percurso labir\u00edntico que o protagonista faz pelas ruelas vazias da cidade. Ningu\u00e9m o acusa, mas o peso que sente est\u00e1 no seu olhar aterrador que o rival Eduardinho lhe diz que ser\u00e1 ladr\u00e3o. O realizador referiu que procurou <em>\u201csugerir o medo da noite e do desconhecido, a atrac\u00e7\u00e3o da vida que palpita em todas as coisas \u00e0 nossa volta, contrastando com a monotonia do que \u00e9 fechado, limitado por paredes, pela for\u00e7a ou pelas conven\u00e7\u00f5es. (\u201cCine-Clube do Porto\u201d, Dezembro de 1954)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A culpa e o tormento de Carlitos s\u00e3o agudizados por um pesadelo, e pela consequente tentativa fuga num barco de marinheiros. Nunca at\u00e9 ent\u00e3o o Cinema Portugu\u00eas falara da inf\u00e2ncia como um lugar desconhecido e assustador, em que os actos, mesmo os mais inocentes, podem ter consequ\u00eancias irrevers\u00edveis.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201d, Manoel de Oliveira experimenta a luz de forma expressionista, recorre a v\u00e1rios movimentos de c\u00e2mara, uma montagem ritmada e \u00e0 superposi\u00e7\u00e3o de imagens; sem deixar de ter representa\u00e7\u00f5es naturalistas e humoradas, jogos de linguagem e trocadilhos, aproximando-se, desse modo, do cinema dos anos 40. Estamos perante um cineasta em busca do seu estilo, diferente daquele que posteriormente conhecemos. No entanto, o tema dos \u201camores frustrados\u201d motivo central na sua filmografia come\u00e7a aqui a ser esbo\u00e7ado com toda a destreza e poesia.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Disse ainda Oliveira sobre o filme:<em> \u201cQuando muito em Aniki-B\u00f3b\u00f3, intencionalmente, mas muito ao de leve, pretendi sugerir uma mensagem de amor e compreens\u00e3o ao semelhante, como advert\u00eancia a uma sociedade que luta e se desespera em injusti\u00e7as.\u201d<\/em> <em>(\u201cCine-Clube do Porto\u201d, Dezembro de 1954)<\/em> Uma obra filmada durante a II Guerra Mundial, de uma grande profundidade tem\u00e1tica, que nos faz descobrir o \u201cPorto da minha Inf\u00e2ncia\u201d (que o cineasta realizou\/aprofundou\u00a0 anos mais tarde) como uma f\u00e1bula, em que o medo e o terror jogam mano-a-mano com a fantasia e a coragem.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A 11 de Janeiro assinalaram-se os oitenta anos da estreia no Porto de \u201cAniki B\u00f3b\u00f3\u201d, primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira. 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