{"id":6667,"date":"2023-03-14T15:33:01","date_gmt":"2023-03-14T15:33:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6667"},"modified":"2023-03-14T16:51:40","modified_gmt":"2023-03-14T16:51:40","slug":"o-alfarrabista-de-ponta-delgada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/03\/14\/o-alfarrabista-de-ponta-delgada\/","title":{"rendered":"O Alfarrabista de Ponta Delgada"},"content":{"rendered":"\n<p>Francisco Duarte Mangas \u00e9 um poeta da natureza, de voz singular pela qual a capacidade metaf\u00f3rica se enla\u00e7a sem rebuscamentos sint\u00e1cticos, brota dessa pur\u00edssima fonte das palavras exactas com a naturalidade do respirar. \u00c1rvores, p\u00e1ssaros, rios, gatos, o casario das aldeias perdidas nos montes, os rebanhos em transum\u00e2ncia, o olhar melanc\u00f3lico dos que teimam em cultivar as leiras da subsist\u00eancia, as foices, os arados, os caminhos das terras frias de entre Douro e Minho. Um esteta das alvuras, do que na natureza tem ch\u00e3o, ra\u00edzes, astros.<\/p>\n\n\n\n<p>Poeta que convive, para al\u00e9m desse universo tel\u00farico, com outras realidades, outra escrita, outro modo mais amplo de ver o mundo. Autor de v\u00e1rios romances not\u00e1veis, contos e narrativas, dos quais saliento&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Link, Jacarand\u00e1, A Cidade das Livrarias Mortas&nbsp;<\/em>e&nbsp;<em>Pavese no Caf\u00e9 Ceuta,&nbsp;<\/em>textos que nos remetem, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Di\u00e1rio de Link<\/em>, para o seu Porto de afectos, de trabalho, de lutas e, por vezes, de desencanto.<\/p>\n\n\n\n<p>Falemos do mais recente livro de Mangas,&nbsp;<em>O Alfarrabista de Ponta Delgada.&nbsp;<\/em>O autor deixa os seus percursos ficcionais por terras do Norte do Pa\u00eds e fixa o seu olhar d\u00factil na paisagem, nas flores, \u00e1rvores e frutos da bela ilha de S. Miguel, em finais do s\u00e9culo XIX, tempo em que em Lisboa&nbsp;<em>a Gera\u00e7\u00e3o de 70,&nbsp;<\/em>iniciava as Confer\u00eancias do Casino, que queria mudar o modo como o pa\u00eds olhava as suas feridas sociais. Ao contr\u00e1rio de Antero de Quental, que afirmava&nbsp;<em>Poder andar por todos os caminhos\/indiferente ao bem e \u00e0s falsidades\/Confundindo chacais e passarinhos,&nbsp;<\/em>Duarte Mangas olha e v\u00ea na luxuriante paisagem sinais perturbadores da aparente placidez da ilha; v\u00ea que no jardim e nas terras da grande casa senhorial \u00abtrabalham algumas crian\u00e7as. Dessa situa\u00e7\u00e3o faz gala de sambenito o feitor. Ou seja, vangloria-se da m\u00e1 a\u00e7\u00e3o que pratica. Rende mais o trabalho de duas crian\u00e7as do que o trabalho de um velho, e fica em conta, diz ele.[\u2026] O melhor rem\u00e9dio para quebrar as tenta\u00e7\u00f5es, a da pregui\u00e7a e a da gula, \u00e9 for\u00e7a-los a manter a enxada em constante movimento.\u00bb Mas n\u00e3o s\u00f3 a usura de um tempo quase feudal invade este duplo olhar sobre a realidade da ilha maior do arquip\u00e9lago. Embora se diga nesta narrativa de trabalhadores e amos, a mat\u00e9ria fulcral remete para a natureza e para os diversos modos como o homem, ao longo dos s\u00e9culos, para o bem e para o mal, a tem habitado e transformado. Trata-se de um discurso original\u00edssimo, contado a duas vozes, com mais de um s\u00e9culo de dist\u00e2ncia entre ambas, tendo por base um livro sobre bot\u00e2nica de um tal George Brown, \u00abum poeta da paisagem, um ut\u00f3pico que levantou do ch\u00e3o parte dos seus sonhos.\u00bb&nbsp;<em>O Alfarrabista de Ponta Delgada, edi\u00e7\u00e3o Caminho das Palavras\/2022.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Alfarrabista de Ponta Delgada, de Francisco Duarte Manga<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":6668,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6667"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6667"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6712,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6667\/revisions\/6712"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6668"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6667"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}