{"id":6611,"date":"2023-01-05T16:21:52","date_gmt":"2023-01-05T16:21:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6611"},"modified":"2023-01-05T16:21:53","modified_gmt":"2023-01-05T16:21:53","slug":"carta-a-um-amigo-ausente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2023\/01\/05\/carta-a-um-amigo-ausente\/","title":{"rendered":"<strong>Carta a um amigo ausente\u2026<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p>O escriba destas cr\u00f3nicas recebeu como presente de Natal a obra de Ant\u00f3nio Mega Ferreira intitulada\u00a0<em>Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas<\/em>, onde o autor escreve que \u201cquando viro o retrovisor da mem\u00f3ria para o percurso da minha j\u00e1 longa vida, \u00e9 sob a forma de palavras que as diversas etapas, epis\u00f3dios ou afetos me aparecem. Muitas dessas palavras eram para mim correntes \u00e0 data dos sucessos que nomeiam e descrevem; mas, resgatadas hoje parecem-nos obsoletas, fora de uso, inutilizadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Li o livro, de fio a pavio, aproveitando a tranquilidade que normalmente o dia seguinte \u00e0 v\u00e9spera e \u00e0 consoada oferece e no dia 26 escrevi uma carta a Ant\u00f3nio Mega Ferreira em que, de forma canhestra em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua prosa, fazia refer\u00eancia afetiva a algumas palavras que ouvira na minha inf\u00e2ncia na nossa comum Mouraria. N\u00e3o pus a carta no correio, mas envio-lha agora desta maneira depois de no dia 27, logo de manh\u00e3, ter recebido a brutal not\u00edcia da sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Lisboa, 26 de Dezembro de 2022<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Caro Ant\u00f3nio Mega Ferreira,<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Cumpre o seu\u00a0Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas\u00a0aquilo que se pede \u00e0 literatura \u2013 sugerir no leitor emo\u00e7\u00f5es que tanto podem vir do passado como aquelas que logo ali surjam e que o autor e o leitor se enleiam e que da cabe\u00e7a destes brotem recorda\u00e7\u00f5es e se engendrem novas ideias. Foi o que ocorreu comigo \u2013 das profundezas da mem\u00f3ria vieram lembran\u00e7as e palavras que l\u00e1 estavam quedas h\u00e1 muito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Nado e criado na Mouraria tamb\u00e9m, mais de uma d\u00fazia de anos antes de si, filho da burguesia, fui por bamb\u00farrio colega na Escola da C\u00e2mara n\u00ba 44, no Largo do Caldas, de putos, filhos do proletariado e compincha tolerado na p\u00farria da Madalena. P\u00farria, ali\u00e1s, fracota. Este espevitar da mem\u00f3ria que o seu livro causou leva-me a passar das palavras que ouvia para as express\u00f5es que ouvia: \u2026\u00e9 pera ou manteiga? diziam os rapazes do bairro com a cabe\u00e7a metida no buraco que era a bilheteira do Sal\u00e3o Lisboa, mais conhecido por \u201co piolho\u201d, o cinema de\u00a0reprise\u00a0que havia junto do Arco do Marqu\u00eas do Alegrete \u2013 se de l\u00e1 viesse a resposta pera, eram \u201ccob\u00f3is\u201d, o Tomix e o seu cavalo Tony, iam; se fosse manteiga, a Greta Garbo, donzelas de olhos revirados e gal\u00e3s sedutores, iriam ou n\u00e3o, conforme.\u00a0<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Est\u00e1 prenhe a sua lista das palavras perdidas, mas aqui o desafio para uma esp\u00e9cie de sabatina. Sabe a origem da palavra bera, que hoje quase ningu\u00e9m usa mas que era frequente no meu tempo? Foi a minha m\u00e3e, que nasceu no princ\u00edpio do s\u00e9culo passado, que me disse. Andava ela pelos seus 25 anos e havia no Chiado uma loja, representante de uma f\u00e1brica de cristais e diamantes artificiais checoslovaca, de nome BERA, que encontrou uma engenhosa maneira de fazer propaganda dos seus produtos \u2013 espalhava falsos diamantes num tabuleiro forrado de veludo negro, dizendo que entre eles havia um verdadeiro e que mediante um pagamento qualquer cliente podia escolher um entre todos os outros, pensando ser aquele que escolhia o verdadeiro. Feita a escolha mostrava-o ao vendedor que, triunfante, dizia invariavelmente \u2013 esse \u00e9 BERA, mas em nada se distingue do verdadeiro que l\u00e1 est\u00e1 (estaria?) e assim bera tomou o significado com que hoje j\u00e1 figura nos dicion\u00e1rios de \u201ccoisa sem valor, falsa\u201d e tamb\u00e9m de \u201cindiv\u00edduo sem categoria, z\u00e9-ningu\u00e9m ou borra botas\u201d.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E por aqui me fico em mat\u00e9ria e que o seu saber ainda pode dar pano para mangas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Um abra\u00e7o de amizade e admira\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escriba destas cr\u00f3nicas recebeu como presente de Natal a obra de Ant\u00f3nio Mega Ferreira intitulada\u00a0Roteiro Afetivo de Palavras Perdidas, onde o autor escreve que \u201cquando viro o retrovisor da mem\u00f3ria para o percurso da minha j\u00e1 longa vida, \u00e9 sob a forma de palavras que as diversas etapas, epis\u00f3dios ou afetos me aparecem. 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