{"id":6528,"date":"2022-12-05T17:57:14","date_gmt":"2022-12-05T17:57:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6528"},"modified":"2022-12-05T18:07:36","modified_gmt":"2022-12-05T18:07:36","slug":"ao-correr-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/12\/05\/ao-correr-da-memoria\/","title":{"rendered":"Ao correr\u00a0da mem\u00f3ria\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00e3o muitos e diversos os temas das conversas dos velhos que se re\u00fanem no Jardim do meu bairro. Quase todos eles v\u00eam do passado. Como muito bem se entende.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes o di\u00e1logo \u00e9 uma esp\u00e9cie de sabatina entre os dialogantes \u2013 sabem porque \u00e9 que este s\u00edtio se chama o Areeiro? Pois eu ainda me lembro dos areeiros que havia aqui perto e da forma como extra\u00eda areia com que constru\u00edram muitos pr\u00e9dios por essa Lisboa fora. Um homem punha-se em cima da barreira arenosa com uma comprida vara e c\u00e1 em baixo um outro homem, de picareta em punho, ia cavando uma pequena gruta que o l\u00e1 de cima com a sua vara ia desfazendo. Trabalho perigoso porque muitas vezes o de l\u00e1 de cima vinha parar c\u00e1 em baixo quando a areia sob os seus p\u00e9s se desboroava, e o c\u00e1 de baixo era subterrado pela areia que o l\u00e1 de cima fazia despender com a sua vara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um breve sil\u00eancio houve um outro velho que assumiu o protagonismo dizendo: \u2026 eu, disso n\u00e3o me lembro, mas lembro-me do \u201ccomboio de Chelas\u201d que por ser vagaroso se associava \u00e0 pregui\u00e7a (\u201cpareces o comboio de Chelas\u2026\u201d). Sabem porqu\u00ea? N\u00e3o? Pois digo-vos eu, porque de comboios sei eu. Trabalhei com eles quase toda a minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Acreditem ou n\u00e3o, o tro\u00e7o de caminho de ferro mais inclinado do pa\u00eds \u00e9 o que vai do apeadeiro do Bra\u00e7o de Prata, quase \u00e0 beira-rio, para depois subir por a\u00ed acima, vencer em ponte o vale de Chelas, passar por baixo do viaduto da Avenida de Roma e por cima da avenida da Rep\u00fablica at\u00e9 ao cocuruto de Entrecampos e depois descrer at\u00e9 Campolide e por a\u00ed fora at\u00e9 Alc\u00e2ntara-Mar, novamente \u00e0 beira-rio. Isto e mais o t\u00fanel do Rossio constitui uma not\u00e1vel obra de engenharia. Garanto-vos eu\u2026 bem me lembro do esfor\u00e7o que as locomotivas faziam, para arrancar no piadeiro do Areeiro, com as rodas a patinar nos carris e o comboio sem andar. Uma chiadeira dos dem\u00f3nios\u2026<\/p>\n\n\n\n<p>Disso tamb\u00e9m n\u00e3o me lembro, sou um pouco mais novo, disse outro conversante, mas lembro-me muito bem, tenho ainda nos olhos e nos ouvidos, a anima\u00e7\u00e3o que foi aqui no bairro o 1\u00ba de Maio de 1974, a Almirante Reis era um mar de gente, a cantar, dar vivas, com cartazes, bandeiras e faixas, na pra\u00e7a do Areeiro n\u00e3o cabia mais ningu\u00e9m, tudo a caminho do est\u00e1dio que fica bem perto daqui e onde foi uma grande festa.<\/p>\n\n\n\n<p>Serei, talvez, o mais novo entre todos n\u00f3s, adiantou um terceiro, vim para aqui uns poucos anos antes da Revolu\u00e7\u00e3o, lembro-me muito bem do PREC e lembro-me que aqui no Jardim tocava uma banda de jovens que se chamava o Soviete de Roma, por causa da avenida e do cinema que c\u00e1 havia\u2026 tocavam muito mal, era uma trapalhada de sons, mas eram muito animados e convictos. Um deles, hoje j\u00e1 homem feito e de cabelo branco, aparece na televis\u00e3o, \u00e9 um grande divulgador de valores sociais da m\u00fasica e m\u00fasico talentoso.<\/p>\n\n\n\n<p>O nosso bairro \u00e9 relativamente recente no crescimento de Lisboa \u2013 pensavam todos \u2013 mas j\u00e1 enche a mem\u00f3ria de todos n\u00f3s e j\u00e1 lhe cabem peda\u00e7os da hist\u00f3ria da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tem o nosso bairro uma grande virtude \u2013 disse um velho, tido por muito conhecedor entre os outros \u2013 foi planificado, ou seja, passou da prancheta dos urbanistas para o terreno sem grandes modifica\u00e7\u00f5es, como a Baixa ou as Avenidas Novas, e de acordo com o seu tempo, e por isso \u00e9 que aqui h\u00e1 jardins, escolas, Igrejas, piscinas. J\u00e1 houve muitos cinemas, livrarias, toda a esp\u00e9cie de com\u00e9rcio, edif\u00edcios p\u00fablicos onde trabalha muita gente, moradias e pr\u00e9dios de muitos andares\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o muitos e diversos os temas das conversas dos velhos que se re\u00fanem no Jardim do meu bairro. Quase todos eles v\u00eam do passado. Como muito bem se entende. Por vezes o di\u00e1logo \u00e9 uma esp\u00e9cie de sabatina entre os dialogantes \u2013 sabem porque \u00e9 que este s\u00edtio se chama o Areeiro? 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