{"id":6506,"date":"2022-12-05T16:38:23","date_gmt":"2022-12-05T16:38:23","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6506"},"modified":"2023-01-05T15:58:38","modified_gmt":"2023-01-05T15:58:38","slug":"e-absurdo-falar-em-espiral-inflacionista-a-proposito-dos-salarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/12\/05\/e-absurdo-falar-em-espiral-inflacionista-a-proposito-dos-salarios\/","title":{"rendered":"\u00c9 \u201cabsurdo\u201d falar em\u00a0\u201cespiral inflacionista\u201d\u00a0a prop\u00f3sito dos sal\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Estamos a viver tempos de grande imprevisibilidade, tanto pol\u00edtica como econ\u00f3mica. Acha que esta guerra antecipa a decad\u00eancia econ\u00f3mica dos EUA e da UE ou isto \u00e9 simplesmente um mito?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o diria que antecipa, eu acho que ela sinaliza uma tens\u00e3o muito grande nos equil\u00edbrios internacionais porque pass\u00e1mos de uma situa\u00e7\u00e3o de um mundo bipolar para um mundo unipolar que parecia ter uma superpot\u00eancia absolutamente dominante e, neste momento, estamos a terminar o ano de 2022 com a China a afirmar-se como uma economia muit\u00edssimo robusta. A China j\u00e1 \u00e9 o principal exportador mundial, j\u00e1 est\u00e1 a caminhar rapidamente para igualar os EUA no que respeita a n\u00edveis de rendimentos m\u00e9dios da popula\u00e7\u00e3o, em termos de poder de compra. No final de 2022 a China j\u00e1 vai ter mais exporta\u00e7\u00f5es \u2013 n\u00e3o em termos gerais porque isso j\u00e1 tem mais exporta\u00e7\u00f5es do que os EUA e a Alemanha juntos h\u00e1 j\u00e1 muito tempo \u2013 mas, no final deste ano, a China, pela primeira vez, j\u00e1 vai ter mais exporta\u00e7\u00f5es em bens de alta tecnologia do que os EUA. E isto significa que a ideia de um poder dominante dos EUA como superpot\u00eancia destacada e \u00fanica est\u00e1, claramente, a ser posta em causa, j\u00e1 o vem sendo h\u00e1 muitos anos mas, neste momento, torna-se muito claro que essa realidade est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o r\u00e1pida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 cerca de um ano, afirmou numa&nbsp;entrevista ao P\u00fablico que a situa\u00e7\u00e3o que se vivia no pa\u00eds poderia dar azo a convuls\u00f5es pol\u00edticas e que havia um limite para aquilo&nbsp;que as popula\u00e7\u00f5es eram capazes de suportar. Hoje, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 pior. Que leitura faz do momento atual?<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que os riscos s\u00e3o muito \u00f3bvios. Os \u00faltimos dados que sa\u00edram sobre a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica mostram-nos que, por um lado, a evolu\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios reais \u00e9 francamente negativa, os sal\u00e1rios nominais est\u00e3o a crescer cerca de 4%, o que significa que em 2022, em m\u00e9dia, os trabalhadores portugueses v\u00e3o perder 5% do seu poder de compra. Um segundo dado que torna isto ainda mais preocupante \u00e9 percebermos que a infla\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1, de facto, a afetar todas as pessoas de igual forma. O aumento dos pre\u00e7os nos bens essenciais, nos bens alimentares n\u00e3o processados, \u00e9, segundo os n\u00fameros mais recentes, de 18%. E isto s\u00e3o aqueles bens que ningu\u00e9m pode deixar de consumir, significa que n\u00f3s estamos a ficar com segmentos muito importantes da popula\u00e7\u00e3o que est\u00e3o a enfrentar dificuldades reais. N\u00e3o \u00e9 simplesmente compararem-se com os outros e acharem que est\u00e3o menos bem, \u00e9 as pessoas passarem dificuldades s\u00e9rias, crescentes. O governo tem feito uma pol\u00edtica que, do ponto de vista simb\u00f3lico, procura transmitir a ideia de que \u201cn\u00e3o estamos a fazer muito mas estamos a fazer o que \u00e9 importante para n\u00e3o deixarmos os mais vulner\u00e1veis para tr\u00e1s\u201d, isso fez-se quer na pol\u00edtica social, quer na pol\u00edtica de sal\u00e1rio m\u00ednimo. Apesar da crise, houve uma preocupa\u00e7\u00e3o em garantir que o sal\u00e1rio m\u00ednimo continuasse a aumentar a um ritmo bastante mais acelerado que a m\u00e9dia dos sal\u00e1rios. A verdade \u00e9 que isto n\u00e3o \u00e9 suficiente para fazer face \u00e0 situa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estamos a viver e, portanto, \u00e9 muito dif\u00edcil numa situa\u00e7\u00e3o destas, ainda para mais quando ela surge na sequ\u00eancia de uma pandemia, que isto n\u00e3o d\u00ea azo a n\u00edveis crescentes de insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Apesar dessa evolu\u00e7\u00e3o salarial, ainda&nbsp;assim, a maioria sindicatos exigiu&nbsp; aumentos mais consider\u00e1veis e houve quem defendesse que uma subida geral&nbsp;dos sal\u00e1rios podia levar a uma espiral&nbsp;inflacionista. Isto \u00e9 mesmo assim?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 bastante absurdo falar em espiral inflacionista. A espiral inflacionista \u00e9 uma coisa que existe e que est\u00e1 estudada, e que consiste numa situa\u00e7\u00e3o em que a tentativa de manter o poder de compra dos sal\u00e1rios face a aumentos generalizados de pre\u00e7os, ou seja, face a certos n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o, faz com que se perpetue a infla\u00e7\u00e3o. Se eu perspetivo que venha a haver um aumento de pre\u00e7os de 10% e aumento todos os sal\u00e1rios em 10% significa que, de certeza, ou com grande probabilidade, vai mesmo haver um aumento de 10% na infla\u00e7\u00e3o e isso significa que, em termos do poder de compra dos trabalhadores, fica na mesma, n\u00e3o se ganhou nada com isso. Agora, isto \u00e9 mais verdade em certas situa\u00e7\u00f5es do que noutras. \u00c9 mais verdade, nomeadamente, quando as economias est\u00e3o num momento de grande crescimento econ\u00f3mico, em que qualquer aumento do poder de compra se reflete no aumento da procura, e o aumento da procura se reflete no aumento dos pre\u00e7os, decorrente desse aumento de procura. E tende a acontecer, tamb\u00e9m, numa situa\u00e7\u00e3o em que o grosso do processo de infla\u00e7\u00e3o decorre do poder de compra das popula\u00e7\u00f5es e n\u00e3o de outros fatores. Ora, o que n\u00f3s estamos a assistir \u00e9 a um aumento da infla\u00e7\u00e3o que \u00e9 muito superior ao aumento dos sal\u00e1rios, o que significa que aumentos superiores dos sal\u00e1rios ao que estamos a assistir seriam, ainda assim, insuficientes para cobrir a infla\u00e7\u00e3o e, portanto, dificilmente seriam eles pr\u00f3prios motivos para que houvesse o tal impacto sobre o aumento dos pre\u00e7os. Mas, acima de tudo, em que a din\u00e2mica fundamental que est\u00e1 por detr\u00e1s do aumento dos pre\u00e7os n\u00e3o tem a ver com a din\u00e2mica de procura das economias, tem a ver com o aumento dos pre\u00e7os energ\u00e9ticos e em parte tamb\u00e9m dos pre\u00e7os dos bens alimentares, portanto, n\u00e3o h\u00e1 motivo para, no contexto portugu\u00eas, esperarmos que haja mais infla\u00e7\u00e3o agora de repente porque os sal\u00e1rios s\u00e3o aumentados a n\u00edveis superiores \u00e0queles que est\u00e3o a ser atualmente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E o que se poderia fazer de diferente para evitar que os sal\u00e1rios caiam?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitas coisas que se podem fazer, algumas que t\u00eam mais impacto do que outras, algumas s\u00e3o mais dif\u00edceis de implementar do que outras. Ao contr\u00e1rio do que neste momento se tornou numa esp\u00e9cie de consenso na bolha medi\u00e1tica, eu n\u00e3o vejo que possamos pura e simplesmente excluir o controlo de pre\u00e7os sobre determinado tipo de bens e servi\u00e7os. O controlo de pre\u00e7os faz muito sentido numa economia planificada, faz muito pouco sentido quando n\u00f3s esperamos que sejam os mecanismos de pre\u00e7os a determinarem a afeta\u00e7\u00e3o dos recursos. E, portanto, estarmos a p\u00f4r controlos de pre\u00e7os generalizados \u00e9 retirarmos ao sistema de pre\u00e7os essa capacidade que tem de ir orientando a aloca\u00e7\u00e3o de recursos. Agora, isso n\u00e3o significa que qualquer controlo de pre\u00e7os seja sempre um erro, muito menos quando se vive em situa\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias e quando n\u00e3o \u00e9 por haver controlo de pre\u00e7os que vai haver grandes altera\u00e7\u00f5es nas decis\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. A generalidade do setor da energia \u00e9 uma \u00e1rea onde o controlo de pre\u00e7os \u00e9 efetivamente justificado. Depois h\u00e1 controlos de pre\u00e7os que t\u00eam a ver com a racionalidade global da economia, nomeadamente, seria um disparate, neste momento, n\u00f3s deixarmos os pre\u00e7os dos transportes p\u00fablicos aumentarem por press\u00e3o daquilo que s\u00e3o os custos energ\u00e9ticos que as empresas de transportes p\u00fablicos t\u00eam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, tamb\u00e9m na pol\u00edtica de rendimentos me parece que aquilo&nbsp;que se est\u00e1 a fazer em Portugal n\u00e3o faz sentido do ponto de vista econ\u00f3mico. Isto \u00e9, n\u00f3s estamos a fazer uma press\u00e3o brutal sobre os sal\u00e1rios atrav\u00e9s de uma pol\u00edtica de rendimentos que est\u00e1 a conduzir \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o salarial de forma muito generalizada. \u00c9, neste momento, muito maior no setor p\u00fablico do que no setor privado, portanto, no setor privado, em alguns segmentos, est\u00e1 a haver capacidade de negocia\u00e7\u00e3o dos trabalhadores porque h\u00e1 escassez, em alguns segmentos espec\u00edficos, de determinado tipo de m\u00e3o-de-obra que permite que haja uma evolu\u00e7\u00e3o salarial mais positiva do que no setor p\u00fablico. S\u00f3 que o Estado, ao fixar aumentos salariais t\u00e3o baixos para a generalidade do setor p\u00fablico, est\u00e1 a sinalizar, tamb\u00e9m, o tipo de aumentos salariais e padr\u00f5es de negocia\u00e7\u00e3o que h\u00e1 no setor privado. E, portanto, seria necess\u00e1rio que se tomassem medidas para melhorar a capacidade negocial dos trabalhadores no mercado de trabalho e isso passaria, nomeadamente, por ter uma pol\u00edtica salarial, no setor p\u00fablico, de maior preserva\u00e7\u00e3o do poder de compra mas tamb\u00e9m de ter medidas de verdadeiro refor\u00e7o do processo de contrata\u00e7\u00e3o coletiva que, neste momento, est\u00e1 pelas ruas da amargura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Acha que h\u00e1 subidas de pre\u00e7os que n\u00e3o se justificam?<\/p>\n\n\n\n<p>Parece-me mais ou menos evidente. Num momento como este \u00e9 quase inevit\u00e1vel que haja oportunismo e abuso de poder de mercado. A justifica\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes, at\u00e9 parece ser uma justifica\u00e7\u00e3o muito l\u00f3gica que \u00e9 dizer assim \u201cbom, \u00e9 verdade que estes produtos que eu tenho aqui em armaz\u00e9m, que agora estou a vender, quando os comprei custaram-me menos 30% do que o pre\u00e7o que eu estou a pedir por eles agora mas, se os tiver de comprar, eles v\u00e3o-me custar mais 30% do que custavam ent\u00e3o, e, portanto, eu tenho de praticar estes pre\u00e7os mais altos como forma de preservar o meu poder de compra\u201d. Mas a verdade \u00e9 que isso \u00e9, muitas vezes, extremamente especulativo, quer dizer, muitas vezes n\u00e3o h\u00e1 motivo para pensar que, daqui a um ano, vamos estar a pagar os mesmos pre\u00e7os. Portanto, por esta via n\u00f3s estamos, efetivamente, a assistir a um alargamento das margens, de resto as estat\u00edsticas d\u00e3o conta disso, que est\u00e1 a haver um alargamento substancial das margens e, em muitos setores, aumentos de pre\u00e7os que v\u00e3o para l\u00e1 daquilo que \u00e9 estritamente necess\u00e1rio para compensar os aumentos dos custos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Apesar da suspens\u00e3o da regra do d\u00e9fice&nbsp;desde a pandemia, o governo continua a us\u00e1-la como bitola. Que consequ\u00eancias tem esta op\u00e7\u00e3o continuada na atual situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica do pa\u00eds?<\/p>\n\n\n\n<p>Da forma como eu percebo, a obsess\u00e3o do governo neste momento n\u00e3o \u00e9 com o d\u00e9fice, \u00e9 com a d\u00edvida p\u00fablica. Houve algu\u00e9m que meteu na cabe\u00e7a do primeiro-ministro, e entretanto do novo ministro das finan\u00e7as tamb\u00e9m, de que Portugal estaria numa situa\u00e7\u00e3o radicalmente diferente caso o r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica \u2013 ou seja, o valor da d\u00edvida p\u00fablica a dividir pelo PIB \u2013 descesse abaixo dos valores que se observam para Espanha e para Fran\u00e7a. Existe assim uma teoria que \u00e9 \u201cbom, n\u00f3s at\u00e9 agora fomos o terceiro pa\u00eds mais endividado, a seguir \u00e0 It\u00e1lia e \u00e0 Gr\u00e9cia, se n\u00f3s sairmos do campeonato da It\u00e1lia e da Gr\u00e9cia e passarmos para o campeonato da Fran\u00e7a e de Espanha, e ficarmos ainda abaixo de Fran\u00e7a e de Espanha, Portugal vai sair dos radares dos especuladores internacionais e, quando houver uma nova crise financeira, Portugal vai estar muito mais protegido dessa crise financeira, portanto, aquilo que aconteceu h\u00e1 dez anos n\u00e3o vai voltar a repetir-se\u201d. \u00c9 um bocadinho estranha esta teoria, por uma raz\u00e3o muito simples. Quando olhamos para os pa\u00edses que, na \u00faltima crise do euro de h\u00e1 dez anos, foram sujeitos a resgates, que encontraram uma situa\u00e7\u00e3o de pr\u00e9-incumprimento do pagamento das suas d\u00edvidas, a esmagadora maioria desses pa\u00edses tinham r\u00e1cios de d\u00edvida p\u00fablica muito inferiores \u00e0 m\u00e9dia europeia. Portanto, a Espanha, a Irlanda, o Chipre, Malta e outros pa\u00edses, todos eles tinham r\u00e1cios de d\u00edvida p\u00fablica muit\u00edssimo inferiores \u00e0quilo que Portugal hoje tem e muit\u00edssimo inferiores \u00e0 m\u00e9dia da UE. E isso n\u00e3o impediu que eles ficassem numa situa\u00e7\u00e3o financeira extremamente inst\u00e1vel, vulner\u00e1vel. Porqu\u00ea? Porque n\u00e3o \u00e9 o r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica que determina a instabilidade, o que determina a instabilidade, no fundo, \u00e9 a robustez do sistema financeiro e a robustez da estrutura da economia nacional. Portanto, de repente, toda a pol\u00edtica or\u00e7amental vai no sentido de acelerar ao m\u00e1ximo a redu\u00e7\u00e3o do r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica. Isto n\u00e3o seria um problema, a n\u00e3o ser pelo facto disto representar um enorme risco de recess\u00e3o e representar perda de qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o porque quando n\u00f3s estamos a querer acelerar muito a&nbsp;redu\u00e7\u00e3o da d\u00edvida, o que n\u00f3s estamos a fazer \u00e9 a retirar muito dinheiro \u00e0 economia sob a forma de ou impostos mais altos, ou impostos que poderiam descer e que n\u00e3o descem, ou apoios sociais que s\u00e3o inferiores \u00e0quilo que seria necess\u00e1rio. Os problemas de sal\u00e1rios em Portugal tamb\u00e9m est\u00e3o relacionados com isto, porqu\u00ea? A forma mais f\u00e1cil de poder em Portugal poupar, reduzir a despesa para acelerar a quebra do r\u00e1cio de d\u00edvida \u00e9 n\u00e3o aumentar muito os sal\u00e1rios \u00e0 fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, portanto, o objetivo \u00e9 esse, n\u00e3o tem nada a ver com a espiral inflacionista. S\u00f3 que ao fazer isso, n\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 a prejudicar brutalmente os funcion\u00e1rios p\u00fablicos, alguns dos quais v\u00e3o ter perdas de poder de compra de 6 ou 7%, mas est\u00e1 tamb\u00e9m, pelos motivos que eu j\u00e1 referi, a prejudicar a pr\u00f3pria capacidade negocial dos trabalhadores do setor privado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O que \u00e9 que lhe parece esta op\u00e7\u00e3o do governo&nbsp;em apostar, por exemplo, nos n\u00f3madas digitais? Numa situa\u00e7\u00e3o em que temos um setor da habita\u00e7\u00e3o liberalizado, n\u00e3o pode criar uma situa\u00e7\u00e3o ainda mais dram\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>O governo teve uma posi\u00e7\u00e3o muito contradit\u00f3ria. Por um lado, anunciou o fim dos vistos gold e a sua associa\u00e7\u00e3o ao investimento imobili\u00e1rio e, ao mesmo tempo, promove os n\u00f3madas digitais. Sejamos claros, nenhum deste tipo de atividades econ\u00f3micas traz grandes vantagens do ponto de vista do desenvolvimento das capacidades produtivas portuguesas. No caso dos vistos gold, trazem grande liquidez financeira para o setor imobili\u00e1rio e, no caso dos n\u00f3madas digitais, poderia trazer eventualmente alguma sinaliza\u00e7\u00e3o para o mundo de que Portugal era um pa\u00eds onde este tipo de atividades, incentivos e conhecimento teriam muita sa\u00edda. A verdade \u00e9 que, do que sabemos at\u00e9 hoje, os n\u00f3madas digitais t\u00eam pouca liga\u00e7\u00e3o \u00e0s economias onde est\u00e3o a operar, onde vivem, deixam muito pouco do ponto de vista do conhecimento \u00e0s economias onde operam, deixam relativamente pouco do ponto de vista de rendimentos. S\u00e3o pessoas que vivem a\u00ed, t\u00eam as suas despesas, mas n\u00e3o s\u00e3o pessoas que fa\u00e7am grandes investimentos na capacidade produtiva do pa\u00eds e t\u00eam esse efeito que referia, que \u00e9 um efeito extremamente negativo na din\u00e2mica da habita\u00e7\u00e3o. E, portanto, \u00e9 dif\u00edcil perceber que o governo insista em promover padr\u00f5es de atividades econ\u00f3micas que t\u00eam um efeito marcadamente adverso nos pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o, que se fa\u00e7a t\u00e3o pouco para controlar essas din\u00e2micas especulativas desse setor da habita\u00e7\u00e3o, quando continuamos a assistir a uma sa\u00edda em massa da popula\u00e7\u00e3o portuguesa dos centros das maiores cidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A secret\u00e1ria de Estado, quando falava dos n\u00f3madas digitais, dizia que Portugal era um pa\u00eds sexy. Que futuro pode ter um pa\u00eds que cada vez aposta mais em tudo menos em setores produtivos?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A acumula\u00e7\u00e3o de capacidades produtivas \u00e9, em qualquer circunst\u00e2ncia, algo que demora muito tempo a ser feito. Ora, Portugal est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 delicada a todos estes n\u00edveis, isto \u00e9, n\u00f3s partimos de n\u00edveis de capacidades produtivas muito fr\u00e1geis, Portugal chegou muito atrasado \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, industrializou-se num contexto de prote\u00e7\u00e3o do regime fascista a grandes grupos econ\u00f3micos que tinham muito pouca press\u00e3o para fazerem coisas verdadeiramente novas, tem um atraso enorme do ponto de vista da educa\u00e7\u00e3o e, portanto, o ponto de partida \u00e9, \u00e0 partida, fr\u00e1gil. Em segundo lugar, os instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f3mica que foram utilizados por outros pa\u00edses foram relativamente bem sucedidos numa acumula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o digo rapid\u00edssima porque ela n\u00e3o existe mas, apesar de tudo, bastante veloz de capacidades produtivas. E podemos pensar em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, inclusive Inglaterra ou EUA, passando pelo Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Taiwan e tantos outros\u2026 S\u00e3o pa\u00edses que utilizaram instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f3mica que, neste momento, n\u00e3o est\u00e3o, simplesmente, ao nosso alcance. Tinham moeda pr\u00f3pria, controlavam taxas de juros, controlavam taxas de c\u00e2mbio, controlavam as tabelas alfandeg\u00e1rias, as rela\u00e7\u00f5es comerciais com outros pa\u00edses, controlavam o tipo de investimento direto estrangeiro que atra\u00edam, apoiavam as empresas nacionais, recorriam muito a empresas p\u00fablicas\u2026 E como se isto n\u00e3o bastasse, os poucos instrumentos, o pouco espa\u00e7o de manobra que a pol\u00edtica econ\u00f3mica ainda permite para termos uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento nacional, \u00e9 sistematicamente posto em causa pelo facto de haver muito pouca clarivid\u00eancia e muito pouca persist\u00eancia dos governos em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento de capacidades produtivas, aquilo que refer\u00edamos h\u00e1 pouco, como a aposta no turismo, a aposta no imobili\u00e1rio como estrat\u00e9gias de capta\u00e7\u00e3o de capital, com impactos tremendos no desvio de recursos em rela\u00e7\u00e3o ao setor produtivo revelam alta divis\u00e3o estrat\u00e9gica sob o caminho que o pa\u00eds deve trilhar, portanto, as coisas assim ficam mais dif\u00edceis. N\u00e3o quer dizer que fiquem paradas mas ficam mais dif\u00edceis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Perante a forte queda no poder de compra dos trabalhadores, Ricardo Paes Mamede n\u00e3o concorda com a pol\u00edtica salarial do governo e afirma que um maior investimento nos trabalhadores n\u00e3o implica uma espiral inflacionista. O controlo de pre\u00e7os na energia \u00e9 outra op\u00e7\u00e3o que o economista considera eficaz no combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6508,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6506"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6506"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6506\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6603,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6506\/revisions\/6603"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6508"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6506"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6506"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6506"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6506"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}