{"id":6459,"date":"2022-11-15T13:25:32","date_gmt":"2022-11-15T13:25:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6459"},"modified":"2022-12-05T16:38:19","modified_gmt":"2022-12-05T16:38:19","slug":"quando-o-santo-antonio-puxa-para-baixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/11\/15\/quando-o-santo-antonio-puxa-para-baixo\/","title":{"rendered":"Quando o Santo Ant\u00f3nio\u00a0puxa para baixo\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p>Subindo a rua da Cruz de Santa Apol\u00f3nia, desembocamos num largo que marca o in\u00edcio de uma rua cujo nome \u00e9 o que resta de um Vale. E valha-nos Santo Ant\u00f3nio. \u00c9 um perfeito paradoxo, porque de t\u00e3o \u00edngreme, esta Rua n\u00e3o se sobe, verdadeiramente escala-se. S\u00e3o 550 metros de uma aut\u00eantica parede, que chega a ter 15% de inclina\u00e7\u00e3o. Ora, que o digam os 117 inscritos na prova rainha do ciclismo popular que, mais adiante, fazem fila \u00e0 porta do n\u00ba 33, agora sede do Mirantense Futebol Clube, depois de despejado da sua casa original, em nome da chamada Lei Cristas.<\/p>\n\n\n\n<p>A partida n\u00e3o tarda. O Vale alarga ao fundo, numa encruzilhada de ruas, e l\u00e1 est\u00e1 o ponto de partida para estes corajosos ciclistas. A organiza\u00e7\u00e3o, mobilizada no seio da Mirantense FC e da Associa\u00e7\u00e3o Desportiva e Recreativa O Rel\u00e2mpago, controla os acessos \u00e0 pista. Bom, pista \u00e9 um eufemismo para facilidade dos leitores, mas n\u00e3o dos ciclistas. De Washington o autocarro para, e os passageiros debru\u00e7am-se na janela para ver o que se passa. Mais acima, da Leite de Vasconcelos, o carro respeita o sinal de stop do popular de colete laranja que \u00e9 ali, improvisadamente, a autoridade. J\u00e1 de Santa Engr\u00e1cia n\u00e3o h\u00e1 novidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 vem o primeiro! Mal dada a ordem de partida na encruzilhada de ruas, lan\u00e7a-se o ciclista numa encruzilhada maior. At\u00e9 ao Mercado Pomar do Vale, onde o senhor Cipriano d\u00e1 as boas-vindas aos clientes, tudo vai bem, mas mais adiante, mal a Rua do Vale curvar, junto a Leite Vasconcelos, ent\u00e3o o cen\u00e1rio \u00e9 de esmorecer o mais dos entusiastas atleta. De repente, a rua transforma-se numa escarpa. E, dali \u00e0 Churrasqueira A. Costa, que algu\u00e9m os ajude. De p\u00e9 na bicicleta, gingando entre populares que engrossam as bermas da rua e estreitam o caminho dos ciclistas, a prova encarna a sua mais genu\u00edna origem popular. O bairro, o que ainda resta e muito do que se lhe assomou, salta para a rua abra\u00e7ando o evento, refor\u00e7ando a sua chancela popular e quase transformando esta prova numa subida dos Alpes, do medi\u00e1tico&nbsp;<em>Tour de France<\/em>. E este \u00e9 o momento. A Rua do Vale de Santo Ant\u00f3nio, por teimosia do Mirantense e do Rel\u00e2mpago, mesmo contra a vontade da nova aristocracia do dinheiro, morta por trocar tudo isto por um milion\u00e1rio neg\u00f3cio, ainda n\u00e3o perdeu a alma do bairro, como quando, lembra a D. Maria na esplanada da Leitaria- Caf\u00e9 e Snack-Bar Preto e Branco: \u201cAo fim da tarde, v\u00ednhamos para a porta da rua e pass\u00e1vamos horas a conversar uns com os outros\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas atentemos, j\u00e1 a\u00ed vem mais um, e aqui, no lance da Churrasqueira, os ciclistas parecem apontar a bicicleta \u00e0 Nossa Senhora de F\u00e1tima de Angola, que figura no cartaz afixado na esplanada da Churrasqueira. Na verdade, s\u00f3 se for mesmo a Nossa Senhora de F\u00e1tima que os ajude, porque este Santo Ant\u00f3nio do Vale s\u00f3 empurra \u00e9 para baixo. De resto, a velha Ermida, agora Capela do Vale de Santo Ant\u00f3nio, consta que serviu de descanso ao Santo quando este se dirigia para embarcar no Tejo. E se o Santo se cansava a descer, imaginem l\u00e1 a subir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Manuel Cipriano comprova essa distinta dureza da descida que cansou Santo Ant\u00f3nio: \u201cQuando a rua tinha dois sentidos, num dia mais chuvoso de inverno, era v\u00ea-los, autocarros e carros, baterem neste gaveto a seguir \u00e0 curva\u201d. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de imaginar! Manuel Cipriano s\u00f3 estabeleceu a sua mercearia em 1974, lembra-se da rua do Vale povoada de com\u00e9rcio: \u201cPelo menos tr\u00eas mercearias e muitos caf\u00e9s, um posto de pol\u00edcia aqui mais acima. Muitos dos meus clientes eram estivadores. Viviam aqui uma s\u00e9rie deles\u201d. Percebe-se, afinal o Tejo n\u00e3o est\u00e1 assim t\u00e3o longe. Agora, lamenta, \u201cos mais velhos foram corridos e h\u00e1 muito alojamento local. Os meus clientes s\u00e3o mais novos e estrangeiros.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Do que Manuel Cipriano n\u00e3o se lembra \u00e9 desta velha prova que o famosos Francisco In\u00e1cio venceu nos anos 40, nem sequer da \u00faltima prova, em 1954, \u00faltima antes de um longo interregno que, agora, a agremia\u00e7\u00e3o popular Mirantense FC, juntamente com a Associa\u00e7\u00e3o Desportiva e Recreativa \u201cO Rel\u00e2mpago\u201d, procuram, pelo segundo ano consecutivo, reanimar. Fazer regressar esta velha prova desportiva e popular, a \u201cSubida da Rampa de Santo Ant\u00f3nio\u201d, \u00e9 tamb\u00e9m recordar a hist\u00f3ria do ciclismo dos anos 40 e 50. Por l\u00e1 n\u00e3o correram provavelmente Nicolau e Trindade, nem mesmo o Fa\u00edsca, mas o mesmo j\u00e1 n\u00e3o se diga do tamb\u00e9m famoso Francisco In\u00e1cio que juntou o primeiro e segundo trof\u00e9u desta cicl\u00f3pica prova a muitos outros na Volta a Portugal. Ou at\u00e9 do tamb\u00e9m famoso Jo\u00e3o Tavares Marcelino que, em 1952, foi o mais r\u00e1pido a trepar estes 550 metros, sentado na sua bicicleta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E, nem de prop\u00f3sito, ali, bem ao lado de Eupr\u00e9mio Scarpa, o presidente da dire\u00e7\u00e3o do Rel\u00e2mpago, que galhardamente recolhia e compilava informa\u00e7\u00e3o das subidas dos ciclistas, l\u00e1 estavam os filhos de In\u00e1cio e Marcelino. Amadeu e Sandra, num di\u00e1logo curioso, recordavam velhos trof\u00e9us conquistados pelos pais, e partilhavam as fac\u00e9cias. Ali passava, como num velho ecr\u00e3, a hist\u00f3ria desta manifesta\u00e7\u00e3o desportiva popular, mesmo quando metia a elite do ciclismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, voltemos \u00e0 subida a caminho da meta. Depois da Churrasqueira do A. Costa, se at\u00e9 l\u00e1 os ciclistas, de olhos focados nas rodas pedaleiras, num g\u00e9nero de prece ao esfor\u00e7o, n\u00e3o podiam disfrutar do colorido das varandas engalanadas com ornamentos alusivos \u00e0 prova rainha do ciclismo popular, a partir de ent\u00e3o, podem folgar as costas e voltar a sentar no selim, j\u00e1 que a subida alivia um pouco antes de terminar defronte do Honey\u2019s Minimercados\/Indiano Grocery\u2026 sinais da nova Rua do Vale.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Subindo a rua da Cruz de Santa Apol\u00f3nia, desembocamos num largo que marca o in\u00edcio de uma rua cujo nome \u00e9 o que resta de um Vale. E valha-nos Santo Ant\u00f3nio. \u00c9 um perfeito paradoxo, porque de t\u00e3o \u00edngreme, esta Rua n\u00e3o se sobe, verdadeiramente escala-se. 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