{"id":6356,"date":"2022-10-06T10:42:51","date_gmt":"2022-10-06T10:42:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6356"},"modified":"2022-10-06T10:42:53","modified_gmt":"2022-10-06T10:42:53","slug":"o-vazio-e-as-relacoes-de-poder-numa-terra-de-ninguem-pinter-nos-artistas-unidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/10\/06\/o-vazio-e-as-relacoes-de-poder-numa-terra-de-ninguem-pinter-nos-artistas-unidos\/","title":{"rendered":"O vazio e as rela\u00e7\u00f5es de poder numa \u201cTerra de Ningu\u00e9m\u201d: Pinter nos Artistas Unidos"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos numa divis\u00e3o ampla, numa tarde que se prolonga at\u00e9 \u00e0 manh\u00e3 seguinte. Hirst (Am\u00e9rico Silva), poeta e dono da casa, est\u00e1 com outro poeta, Spooner (Jo\u00e3o Meireles). Parece que se acabaram de conhecer num bar.<br>Spooner tem alguma venera\u00e7\u00e3o por aquele intelectual de sucesso, que tem dois criados: Briggs (Ant\u00f3nio Sim\u00e3o), nos seus quarenta anos, que deve h\u00e1 muito servir Hirst, e Foster (Jo\u00e3o Pedro Mamede), jovem na casa dos trinta. Ambos estranham o outro homem na casa do patr\u00e3o, e a hostilidade transforma-se em ironia. Este \u00e9 um territ\u00f3rio masculino, onde as mulheres s\u00e3o recordadas, e talvez afastadas do presente destes homens.<br>\u00c0 medida que as conversas decorrem, percebemos que aquela sala \u00e9 uma terra de ningu\u00e9m, no sentido metaf\u00f3rico e espacial. Temos como cen\u00e1rio um bar incrustado na parede, muitas e diversas garrafas de bebida, copos e um telefone; \u00e0 direita, a poltrona do dono e patr\u00e3o, Hirst, e do outro lado, tamb\u00e9m isolada, uma cadeira. O que junta o quarteto \u00e9 o isolamento a que a dramaturgia apela. Estes homens n\u00e3o conversam sobre poesia ou arte e geral \u2013 e todos, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o de Briggs, s\u00e3o poetas. Bebem muito, as mem\u00f3rias adensam-se tanto que as que trazem felicidade s\u00e3o esquecidas com mais \u00e1lcool. Simultaneamente, \u00e9 o estado \u00e9brio que os faz desabafar e ir mais fundo no passado. Para atr\u00e1s, ficaram as rela\u00e7\u00f5es com mulheres e amantes; afinal Spooner e Hirst s\u00e3o velhos conhecidos, e este tinha um relacionamento com a mulher do amigo, que o amigo sabia existir.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A corrida que se esqueceram de correr<\/h2>\n\n\n\n<p><br>Trata-se de uma sala despojada de afectos, em que as palavras s\u00e3o ir\u00f3nicas armas de arremesso para aliviar a falta a esperan\u00e7a. \u00c9 desse limbo em que a humanidade por vezes insiste em permanecer que falam muitos dos trabalhos do pr\u00e9mio Nobel (2005) Harold Pinter.<br>\u201cTerra de Ningu\u00e9m\u201d \u00e9 aquilo que permanece, n\u00e3o muda; o lugar sem tempo porque igualmente despojado de sonho e desejo. Talvez o mais jovem, Foster, que veio de Bali para ser criado de Hirst, deseje e sonhe ainda escrever poesia, apesar da desilus\u00e3o com o intelectual alco\u00f3lico que agora \u00e9 seu patr\u00e3o\u2026 Talvez Spooner se venha a entusiasmar com a revista liter\u00e1ria que come\u00e7ou a dirigir\u2026. Hirst, o que tinha mais raz\u00f5es para continuar a ser dono da sua vida, \u00e9 o mais afastado da exist\u00eancia &#8211; parado e desistente que est\u00e1: \u201cEsta noite\u2026 meu amigo\u2026 encontra-me na \u00faltima volta de uma corrida\u2026 que h\u00e1 muito me esqueci de correr.\u201d A corrida \u00e9 a capacidade de ir al\u00e9m atrav\u00e9s do sonho. Por isso o que lhe resta \u00e9 perguntar ao poeta marginal Spooner se tamb\u00e9m quer ficar ali como criado a servi-lo. A ilus\u00e3o de poder, autoridade sobre os outros, subordinados, que, no fundo, n\u00e3o mais s\u00e3o que aliados de um purgat\u00f3rio. Mas esses, parecem ainda conseguir evadir-se daquela casa, daquela sala. Hirst est\u00e1 esquecido, perdido, sem se conseguir reencontrar. E voltar a correr para viver.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ilus\u00e3o de felicidade atr\u00e1s das rela\u00e7\u00f5es de poder<\/h2>\n\n\n\n<p>Escrita em 1974 e estreada um ano depois, \u201cTerra de Ningu\u00e9m\u201d tem como ponto-de- partida a pergunta que surgiu a Pinter quando viajava sozinho num t\u00e1xi vindo de um jantar solit\u00e1rio: \u201cAs it is?\u201d\/\u201dComo isto \u00e9?\u201d O pr\u00f3prio nunca soube explicar sobre o que \u00e9 o seu texto: como isto \u00e9 a vida, o mundo, a desilus\u00e3o, o amor? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que retrata a densa solid\u00e3o e ang\u00fastia de quatro homens perdidos numa terra onde nada muda pela incapacidade e aprisionamento, que acaba por uni-lo.<br>O tom pessimista \u00e9 trabalhado com a ironia do discurso das personagens, que por vezes toca o absurdo \u2013 uma forma a que recorrem por causa do sofrimento e do peso da exist\u00eancia nas fases da vida em que est\u00e3o. Hirst, j\u00e1 no fim, diz que n\u00e3o vai mudar mais de assunto; Foster logo depois tem de lhe recordar o que acabou de dizer, explicando isso \u00e9 como estar sempre no inverno, num lugar onde a primavera e o ver\u00e3o n\u00e3o mais vir\u00e3o. No fundo, o estado de escurid\u00e3o e semi-morte em os quatro se encontram. A falsa solu\u00e7\u00e3o de ter mais um criado lembra a rela\u00e7\u00e3o de poder estabelecida em \u201cO Criado\u201d (1963), filme que Pinter escreveu para Joseph Losey. A \u00fanica via ilus\u00f3ria para terem afecto e apego m\u00ednimos parece ser dentro das rela\u00e7\u00f5es de poder: entre sublima\u00e7\u00e3o, submiss\u00e3o e uma autoridade despojada de sentido. S\u00f3 porque alguma coisa tem de acontecer. Mesmo que nada mude e permane\u00e7a o vazio, e o mundo l\u00e1 fora continue a acontecer: \u201cEm toda a parte as pessoas est\u00e3o a mudar de roupa para o jantar. E n\u00f3s aconchegados, de persianas corridas, passando a perna ao mundo.\u201d (Hirst).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A encena\u00e7\u00e3o \u00e9 de Pedro Carraca, actor e encenador habituado aos textos do ingl\u00eas Harold Pinter na \u201ccasa\u201d Artistas Unidos. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6357,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6356"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6356"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6356\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6359,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6356\/revisions\/6359"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6356"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6356"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6356"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6356"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}