{"id":6282,"date":"2022-09-09T13:34:52","date_gmt":"2022-09-09T13:34:52","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6282"},"modified":"2022-09-09T13:34:53","modified_gmt":"2022-09-09T13:34:53","slug":"a-resistencia-de-joseph-losey-em-o-criado-quando-as-relacoes-de-poder-se-invertem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/09\/09\/a-resistencia-de-joseph-losey-em-o-criado-quando-as-relacoes-de-poder-se-invertem\/","title":{"rendered":"A resist\u00eancia de Joseph Losey em \u201cO Criado\u201d: quando as rela\u00e7\u00f5es de poder se invertem"},"content":{"rendered":"\n<p>Exemplo disso \u00e9 \u201cO Criado\u201d, filme de 1963, com argumento de Harold Pinter, centrado na rela\u00e7\u00e3o entre patr\u00e3o e criado. At\u00e9 que ponto aquele que \u00e9 o patr\u00e3o se torna ele no dependente e submisso? O acontece quando temos algu\u00e9m que manda e outro que obedece?\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Barrett, o criado, chega a uma casa que acabou de ser vendida. O novo dono, Tony, dormita numa das divis\u00f5es vazias. O olhar complacente e o sil\u00eancio Barrett convencem&nbsp; Tony. O criado entra ao servi\u00e7o, ajuda nas obras em curso e antecipa problemas. \u00c9 eficiente &#8211; o jovem dandy Tony precisa. Susan, namorada de Tony, n\u00e3o gosto do criado. Parece ser uma quest\u00e3o de estatuto, e ci\u00fames da proximidade que Tony tem com o criado. Susan n\u00e3o quer viver naquela casa, e afasta-se do namorado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As din\u00e2micas de poder adensam-se. O criado faz tudo o que o patr\u00e3o quer, e come\u00e7amos a desconfiar de t\u00e3o s\u00f3lida submiss\u00e3o. \u00c9 ent\u00e3o que o criado vai a uma cabine telef\u00f3nica ligar a Vera. \u00c0 espera para telefonar est\u00e1 um grupo de mulheres impacientes. Quando Barrett sai, insulta uma delas. H\u00e1 nesta cena qualquer coisa de inquietante nos planos escolhidos por Losey: os rostos das mulheres distorcidos pelo vidro da cabine, os planos das pernas e a viol\u00eancia com que o criado as trata. Tony precisava tamb\u00e9m de uma criada e Barrett chama a suposta irm\u00e3 para ajudar. A rela\u00e7\u00e3o dos dois criados-irm\u00e3os \u00e9 estranha. Vera seduz Tony da primeira vez que lhe serve o pequeno-almo\u00e7o. Se o criado seduz pela efici\u00eancia e submiss\u00e3o, a criada seduz pelo desejo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo n\u00e3o conhecendo o passado daqueles dois, percebemos que foram para aquela casa como trabalhadores: servem, limpam e arrumam, fazem o que Tony se recusa a fazer. Por outro lado, Tony \u00e9 consequ\u00eancia do meio em que cresceu: nunca precisou de trabalhar. As posi\u00e7\u00f5es de poder v\u00e3o-se que alternando e alterando, na manh\u00e3 em que Vera passa um limite, e decide tomar banho na casa de banho do patr\u00e3o. Barrett finge que a vai tirar de l\u00e1, espera que Tony saia, e faz o oposto: desforra-se e pede \u00e0 \u201cirm\u00e3\u201d que o banhe com \u00e1gua de col\u00f3nia. Vingam-se da ostenta\u00e7\u00e3o de Tony, gozando daquilo a que n\u00e3o t\u00eam acesso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Os explorados e os exploradores: quem \u00e9 quem?<\/h2>\n\n\n\n<p>A partir daqui \u00e9 clara a inten\u00e7\u00e3o oculta dos criados: cuidar da casa, e aproveitar-se de Tony. Vera passa a dormir com Tony, impulsionada por Barrett. O esquema est\u00e1 montado: Tony fica \u201cenfeiti\u00e7ado\u201d por Vera, os criados come\u00e7am a dispor da casa como bem entendem. A rela\u00e7\u00e3o com o patr\u00e3o \u00e9 agora de igual-para-igual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Susan reaparece, exerce o seu poder de classe sobre Barrett, dando-lhe de ordens, pelo simples prazer de um ver submisso. A cena \u00e9 uma cr\u00edtica ao poder de uns sobre os outros; mas \u00e9 tamb\u00e9m aqui que Susan conclui que existe mesmo alguma coisa estranha: <em>\u201cO que \u00e9 que voc\u00ea quer desta casa?<\/em>, pergunta ao criado, sem obter resposta.&nbsp; Tony e Susan reaproximam-se, e encontram Vera e Barrett no quarto de Tony como se fossem os donos da casa. Como dois intrusos, ficam na semi-penumbra das escadas, a espiar os criados. Quando Barrett e Vera percebem, revelam que s\u00e3o noivos, e sem pedir desculpa v\u00e3o-se embora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tony perde o controle da situa\u00e7\u00e3o: est\u00e1 demasiado dependente de Barrett. Sozinho, n\u00e3o consegue tratar de si nem da casa. Barrett encontra Tony deprimido num bar, e \u00e9 ele oferece uma bebida ao patr\u00e3o, dizendo que se sente sozinho sem ele. Reconciliam-se. E a rela\u00e7\u00e3o muda: Barrett revolta-se, e pede Tony que o ajude. Quem manda agora \u00e9 o criado, que continua a arrumar &#8211; mas n\u00e3o como antes. Faz o que quer, sente-se livre, e abusa dessa liberdade, perante a apatia e submiss\u00e3o do patr\u00e3o. As nossas as perguntas continuam quando o filme termina: Afinal o que se passa entre Tony e Barrett? Quais as motiva\u00e7\u00f5es do criado? Eram j\u00e1 estas as suas inten\u00e7\u00f5es quando chegou aquela casa?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Losey, cineasta interventivo e resistente<\/h2>\n\n\n\n<p>Joseph Losey, cineasta norte-americano, exilou-se na Europa, devido \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de que foi alvo. Em 1935, tinha j\u00e1 visitado a R\u00fassia, onde estudou encena\u00e7\u00e3o e participou num semin\u00e1rio de cinema com Eisenstein. Foi em Moscovo que conheceu Bertold Brecht e o compositor austr\u00edaco Hanns Eisler. Serviu pelo ex\u00e9rcito americano na II Guerra Mundial, mas dissertou em 1945, e foi trabalhar com Brecht e o actor Charles Laughton em \u201cGalileu\u201d. Brecht voltou para a Europa, e Losey assumiu o seu lugar como encenador na pe\u00e7a. Nestas d\u00e9cadas, manteve contacto com os movimentos de esquerda, aderindo ao Partido Comunista em 1946. Dois anos depois, consegue realizar a sua primeira obra, \u201cO Rapaz do Cabelo Verde\u201d, alegoria pol\u00edtica sobre um \u00f3rf\u00e3o de guerra que acorda um dia com cabelo verde, e \u00e9 ridicularizado pelos outros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Afastado de Hollywood pelas suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, vai para It\u00e1lia, onde trabalha no filme \u201cO homem que o mundo esqueceu\u201d. Em 1952, regressa aos Estados Unidos, n\u00e3o consegue trabalho e volta a emigrar. Fixa-se em Londres, e realiza filmes de v\u00e1rios g\u00e9neros sob pseud\u00f3nimo, at\u00e9 conhecer Harold Pinter. \u00c9 o in\u00edcio de uma longa colabora\u00e7\u00e3o e amizade entre ambos. Pinter escreve \u201cO Criado\u201d, \u201cAcidente\u201d (1967), e \u201cO Mensageiro\u201d, vencedor da Palma de Ouro em 1971. As tr\u00eas obras tra\u00e7am um olhar sobre a luta de classes e a sexualidade em Inglaterra; s\u00e3o marcados pelos di\u00e1logos el\u00edpticos, uma densa constru\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e um inovador trabalho de c\u00e2mara.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um ano antes de morrer, Losey confessa numa entrevista n\u00e3o se sentir triste por ter sido colocado na lista negra do macarthismo: n\u00e3o se podia deixar encurralar pelo dinheiro e pela complac\u00eancia. Morre em 1984, em Londres, sempre na esperan\u00e7a de aparecer o projecto certo que o levasse de regresso ao seu pa\u00eds natal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joseph Losey (1909-1984), realizador pouco conhecido da maioria dos espectadores, possui uma interessante filmogr\u00e1fica, focado quase sempre em quest\u00f5es pol\u00edticas e sociais. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6283,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6282"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6282"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6285,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6282\/revisions\/6285"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6282"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}