{"id":6262,"date":"2022-09-09T13:21:03","date_gmt":"2022-09-09T13:21:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6262"},"modified":"2022-10-06T10:54:31","modified_gmt":"2022-10-06T10:54:31","slug":"chovem-bombas-em-donetsk","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/09\/09\/chovem-bombas-em-donetsk\/","title":{"rendered":"Chovem bombas em Donetsk"},"content":{"rendered":"\n<p>Arrancamos a cerca de 140 quil\u00f3metros por hora em plena cidade. \u201cTem calma contigo, Fittipaldi\u201d, digo em portugu\u00eas. Esbo\u00e7a uma gargalhada. N\u00e3o entende praticamente nada mas percebe que falo do ex-automobilista brasileiro. De nada serve. Deve ter achado que era um elogio. De vez em quando, vamos em contra-m\u00e3o. De bon\u00e9 em riste, faz gincana a tudo o que nos apare\u00e7a \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem tudo para ser um aficionado do tunning. Este rei do asfalto, que rasga tudo \u00e0 sua frente, ultrapassando buracos, carros, motas, tanques, c\u00e3es e idosas, chama-se Stas, abreviatura para Stanislav. A guerra interrompeu-lhe os estudos para piloto da marinha mercante em Mariupol e agora faz do volante um leme para guiar jornalistas aos lugares mais quentes da maior cidade do Donbass.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos a caminho de Petrovsky, um dos bairros mais pr\u00f3ximos da linha da frente. T\u00e3o perigoso que as potentes colunas de Stas n\u00e3o conseguem abafar o som das explos\u00f5es. T\u00e3o perigoso que n\u00e3o h\u00e1 praticamente uma casa que n\u00e3o tenha sido atingida alguma vez desde que a guerra civil come\u00e7ou em 2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Petrovsky \u00e9 um cemit\u00e9rio de edif\u00edcios destru\u00eddos. \u00c9 domingo e n\u00e3o h\u00e1 vivalma nas ruas. Enquanto contornamos uma rotunda, vemos um carro de capot aberto e um casal a tentar p\u00f4r a viatura a funcionar. Estamos a menos de quatro quil\u00f3metros das posi\u00e7\u00f5es ucranianas. \u201cQue raio de s\u00edtio para se ficar empanado\u201d, penso.<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos a caminho de uma escola que foi atingida por um rocket na zona mais pr\u00f3xima da linha da frente. Os dedos das m\u00e3os n\u00e3o chegam para contar a quantidade de estabelecimentos de ensino atingidos pela artilharia ucraniana que visitei desde mar\u00e7o. H\u00e1 alguns dias, Denis Pushilin, presidente da Rep\u00fablica Popular de Donetsk, reconhecida at\u00e9 ao momento somente pela R\u00fassia e alguns pa\u00edses aliados, anunciou que ao contr\u00e1rio da maior parte da regi\u00e3o as escolas de Donetsk n\u00e3o iam abrir no primeiro dia de setembro.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos num bairro de t\u00edpicas vivendas baixas com quintal a dois quil\u00f3metros das for\u00e7as ucranianas. Apesar das explos\u00f5es como som de fundo, pe\u00e7o ao Stas para parar o carro e deixar o motor a trabalhar. \u201cParece que hoje vai chover\u201d, digo-lhe. Nos primeiros meses da guerra, quando ouv\u00edamos rebentamentos era o que diz\u00edamos em tom de piada para amortecer o medo. Do outro lado da rua, h\u00e1 uma casa em chamas. Ajeito o colete, atravesso a estrada e tento perceber o que se passou. Talvez haja algu\u00e9m ferido.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma parte da parede que se desmorona enquanto ou\u00e7o o barulho da madeira a crepitar. O ch\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o quente que, apesar do cal\u00e7ado, sinto calor nos p\u00e9s. Procuro por todas as partes. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m. Passado um pouco, vejo um jovem num caminho de terra batida. Olhamo-nos intrigados. Ele porque eu sou estrangeiro, eu porque o vejo de cerveja na m\u00e3o como se estivesse a dar um passeio de fim de tarde numa cidade em paz. Sigo-o.<br><br>Mais \u00e0 frente, vejo uma d\u00fazia de pessoas em frente a algumas destas casas t\u00e9rreas. Quando percebem que sou jornalista estrangeiro, acusam a Europa de ser respons\u00e1vel pelas armas que caem sobre os civis em Donetsk. Um homem agarra em peda\u00e7os do proj\u00e9til e diz que pertencem \u00e0 NATO. \u201cQuando \u00e9 correm com os ucranianos daqui, porra?\u201d, explode em f\u00faria Natalia Alexandrovna. Est\u00e1 perturbada. Partes da sua casa est\u00e3o destru\u00eddas. Entra pelo port\u00e3o e passado uns segundos regressa com dois soutiens em farrapos. \u201cNem isto me deixaram. N\u00e3o tenho nada\u201d. Em l\u00e1grimas, mais de revolta do que de tristeza, mostra-se impaciente com os fracos avan\u00e7os das tropas russas e da mil\u00edcia local. S\u00e3o muitos anos a viver junto \u00e0 linha da frente.<br><br>Se para muitos a entrada da R\u00fassia na guerra foi vista com esperan\u00e7a, em fevereiro, o cansa\u00e7o come\u00e7a a tomar conta de muita gente que exige mais celeridade em Donetsk. No dia anterior, havia estado numa outra zona do bairro onde Iuri Vladimirovich, de 69 anos, me mostrou uma cratera no tecto da sala que deixava ver a casa do vizinho de cima. O rocket que atingiu esse pr\u00e9dio era militar, mas quem ali vivia era civil. Nesse dia, este idoso n\u00e3o estava em casa. Mas o filho, um amigo e os netos sobreviveram por sorte.<br><br>Durante essa manh\u00e3, visitara outra casa t\u00e9rrea onde vi o corpo de Vyacheslav Gerasimov estendido no quintal depois de ter sido atingido por um estilha\u00e7o de uma granada de morteiro. Os vizinhos apontaram com os dedos para o lado ucraniano e repetiram o que todos dizem: \u201celes bombardeiam-nos desde h\u00e1 oito anos. N\u00e3o h\u00e1 forma disto acabar\u201d.<br><br>Mais tarde, ainda nesse mesmo dia, visitei o hospital mais perto de Petrovsky. Queria entrevistar o diretor porque o edif\u00edcio tinha sido atacado. As janelas estavam destru\u00eddas e duas enfermeiras estavam feridas. Uma vez mais, uma trabalhadora do hospital apontou o dedo para o lado ucraniano e disse que j\u00e1 tinham sido atacados v\u00e1rias vezes. Enquanto esperava pelo respons\u00e1vel hospitalar, assisti \u00e0 chegada de um carro a alta velocidade com um homem com as pernas cravejadas de estilha\u00e7os. O sangue escorria e foi carregado em ombros para cima de uma maca. Indiferentes \u00e0 minha presen\u00e7a, deixaram-me assistir aos cuidados m\u00e9dicos. Tinha os genitais em muito mau estado e as pernas cheias de buracos. Este mec\u00e2nico de autom\u00f3veis estava a trabalhar quando a oficina foi atingida.<br><br>Os olhares s\u00e3o, uma vez mais, de revolta. Depois de deixar a fam\u00edlia de Natalia, caminho, finalmente, para a escola prim\u00e1ria que queria visitar. Vejo cada vez mais pessoas nas ruas a olhar para os destro\u00e7os provocados pelo bombardeamento. Em frente ao estabelecimento de ensino, h\u00e1 v\u00e1rias trabalhadoras em l\u00e1grimas. Um rocket entrou pela parede adentro e abriu uma cratera. A maioria das janelas tem os vidros destru\u00eddos. Sobram algumas enfeitadas com andorinhas de papel.<br><br>Quando regresso, Stas est\u00e1 encostado ao carro. \u201cEles foderam isto tudo. Vamos antes que chova outra vez?\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Petrovsky \u00e9 um dos bairros de Donetsk mais pr\u00f3ximos da linha da frente. N\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico dia em que n\u00e3o haja um bombardeamento sobre esta zona da cidade. 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