{"id":6249,"date":"2022-09-09T13:14:00","date_gmt":"2022-09-09T13:14:00","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6249"},"modified":"2022-10-06T10:32:33","modified_gmt":"2022-10-06T10:32:33","slug":"dificuldades-na-saude-reflectem-falencia-da-politica-do-governo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/09\/09\/dificuldades-na-saude-reflectem-falencia-da-politica-do-governo\/","title":{"rendered":"Dificuldades na sa\u00fade reflectem fal\u00eancia da pol\u00edtica do governo"},"content":{"rendered":"\n<p>Na opini\u00e3o de Andr\u00e9 Gomes, dirigente do Sindicatos do M\u00e9dicos da Zona Sul e de C\u00e9lia Matos, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses, \u00e9 exatamente no conte\u00fado da pol\u00edtica de sa\u00fade que reside a solu\u00e7\u00e3o dos problemas dos servi\u00e7os de urg\u00eancia nos hospitais p\u00fablicos portugueses e do pr\u00f3prio Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Escassez de recursos humanos; degrada\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de trabalho; transfer\u00eancia de recursos financeiros para o privado; desinvestimento e aliena\u00e7\u00e3o para o neg\u00f3cio da sa\u00fade de cada vez mais servi\u00e7os que o SNS poderia cumprir com menos custos s\u00e3o alguns dos problemas apontados pelos dois profissionais &#8211; uma vis\u00e3o de dentro do pr\u00f3prio SNS que, na opini\u00e3o dos dois dirigentes sindicais, parece encaixar num processo premeditado para o comprometer.<\/p>\n\n\n\n<p>A mediatiza\u00e7\u00e3o das dificuldades de funcionamento dos servi\u00e7os, noticiados como situa\u00e7\u00f5es de caos rec\u00e9m-instaladas, nem \u00e9 nova e \u00e9 uma consequ\u00eancia de op\u00e7\u00f5es adotadas nos \u00faltimos anos, referem. \u201cAs situa\u00e7\u00f5es agora noticiadas j\u00e1 existiam, n\u00e3o s\u00e3o de agora as dificuldades em formar escalas. H\u00e1 equipas a funcionar com metade dos efetivos e o que a ministra disse para a televis\u00e3o, associando o problema \u00e0s conting\u00eancias das f\u00e9rias, \u00e9 mentira\u201d, diz o m\u00e9dico de sa\u00fade p\u00fablica. \u201cJ\u00e1 h\u00e1 uma escassez atroz de pessoal. \u00c9 insano manter o tratamento adequado aos utentes quando n\u00e3o h\u00e1 profissionais.\u201d, precisa Andr\u00e9 Gomes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA situa\u00e7\u00e3o atinge os servi\u00e7os de urg\u00eancia\u201d, refere Andr\u00e9 Gomes: \u201cos conselhos de administra\u00e7\u00e3o tentam resolver a falta de m\u00e9dicos do quadro recorrendo a prestadoras de servi\u00e7o e a contrata\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos tarefeiros para completar as escalas de urg\u00eancia ou dos seus servi\u00e7os. Al\u00e9m de muitas vezes se gastar muito mais do que se gastaria a contratar m\u00e9dicos, o tarefeiro s\u00f3 faz aquele turno de urg\u00eancia, n\u00e3o faz consulta, n\u00e3o segue o internamento dos doentes que porventura interna. \u00c9 um servi\u00e7o pago a peso de ouro, que depois n\u00e3o se reflete numa qualidade cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNas coloca\u00e7\u00f5es de especialistas durante os \u00faltimos 4\/5 anos\u201d, exemplifica Andr\u00e9 Gomes, \u201c\u00e9 cada vez maior o n\u00famero de vagas por ocupar. o SNS deixou de ser atrativo para os m\u00e9dicos. Formam-se muitos, mas n\u00e3o se fixam no SNS e optam pelo privado e emigra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados da DGAEP\/SIOE, referidas num estudo recente do economista Eug\u00e9nio Rosa, revelam que a perda do poder de compra da remunera\u00e7\u00e3o mensal l\u00edquida dos m\u00e9dicos do SNS, entre 2011 e 2022, \u00e9 da ordem dos 18,3%, de 10% no caso dos enfermeiros, de 9% no caso dos T\u00e9cnicos de Diagn\u00f3stico e Terap\u00eautica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBatemo-nos pela revis\u00e3o das grelhas salariais, pela valoriza\u00e7\u00e3o da carreira, estagnada nos \u00faltimos anos, e pelas condi\u00e7\u00f5es no exerc\u00edcio da profiss\u00e3o, como a sobrecarga e o excessivo trabalho extraordin\u00e1rio. De resto, a ministra nunca aceitou reunir com o nosso sindicato, s\u00f3 recentemente se iniciou o per\u00edodo de negocia\u00e7\u00f5es\u201d, diz C\u00e9lia Matos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, refere o m\u00e9dico, \u201ca Dedica\u00e7\u00e3o Exclusiva, que permitia fixar muitos profissionais no SNS, caiu durante o per\u00edodo da Troika\u201d, com o ministro de Passos Coelho, Paulo Macedo. \u201cEste governo nunca aceitou reverter\u201d a norma respons\u00e1vel pela fixa\u00e7\u00e3o de m\u00e9dicos no SNS.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda no que se refere \u00e0 fixa\u00e7\u00e3o de profissionais no SNS, Andr\u00e9 Gomes d\u00e1 outro exemplo: \u201cO internato m\u00e9dico devia contar como primeiro escal\u00e3o da carreira, pois o novo m\u00e9dico j\u00e1 fez o seu curso, o seu mestrado e est\u00e1 a tirar a sua especialidade m\u00e9dica, a trabalhar ao lado dos seus orientadores. \u00c9 uma forma de garantir que quem finalize o seu curso, fique em Portugal e tire a sua especialidade no SNS\u201d. Muitas das vagas para formar especialistas est\u00e3o a ficar vazias, e muitos rec\u00e9m-formados \u201cest\u00e3o a optar pelo estrangeiro para fazerem a sua especialidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso dos enfermeiros a falta de perspetivas na carreira e os desincentivos \u00e0 perman\u00eancia no SNS parecem igualmente evidentes. Come\u00e7a logo, refere a dirigente sindical, pelo absurdo: \u201cUm enfermeiro para chegar ao topo da carreira necessita de ter 100 anos de profiss\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste momento, sindicato e Minist\u00e9rio est\u00e3o em processo negocial \u201csobre a reposi\u00e7\u00e3o dos pontos que ditam a evolu\u00e7\u00e3o na posi\u00e7\u00e3o na tabela remunerat\u00f3ria da carreira profissional, quest\u00e3o essencial para reter os profissionais no SNS, refere C\u00e9lia Matos. \u201cEm 2011, no tempo de Jos\u00e9 S\u00f3crates, com a ministra Ana Jorge, foram criadas uma nova carreira e uma nova grelha salarial. Havia enfermeiros a ganhar abaixo do sal\u00e1rio m\u00ednimo que foram ent\u00e3o aumentados ligeiramente. Esta subida salarial foi considerada uma progress\u00e3o, que faz perder pontos, e n\u00e3o um ajuste. Com a perda de pontos, apagaram perto de dez anos de exerc\u00edcio profissional. Enfermeiros h\u00e1 mais de 20 anos ganham menos do que um rec\u00e9m-formado\u201d. Outro exemplo, refere, \u00e9 a diferen\u00e7a entre o contrato em fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e o contrato individual de trabalho (CIT). Como a atribui\u00e7\u00e3o de pontos depende da avalia\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3ria para quem tem CIT, n\u00e3o se ganham pontos e n\u00e3o se sobe na carreira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m em mat\u00e9ria de organiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os, a gest\u00e3o dos hospitais peca na \u201cdesregula\u00e7\u00e3o de hor\u00e1rios\u201d. Os hor\u00e1rios, diz C\u00e9lia Matos, \u201csaem logo com turnos extraordin\u00e1rios\u201d e os enfermeiros s\u00e3o \u201ccontinuamente obrigados a seguir no turno, por n\u00e3o haver quem os substitua\u201d. Ora mais de 80% dos enfermeiros s\u00e3o mulheres e \u201cmuitas profissionais em idade de ter filhos, abandonam a profiss\u00e3o\u201d. A situa\u00e7\u00e3o repete-se com os m\u00e9dicos: \u201cParte-se do mau princ\u00edpio de que o profissional tem que fazer logo \u00e0 partida horas extraordin\u00e1ria\u201d. E, como os tarefeiros n\u00e3o t\u00eam de declarar as f\u00e9rias, os m\u00e9dicos muitas vezes \u201cs\u00e3o surpreendidos, \u00e0 hora de serem substitu\u00eddos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO setor privado n\u00e3o tem neg\u00f3cio se o SNS responder\u201d, sustenta C\u00e9lia Matos. Na pandemia, a resposta daquele \u201cfoi quase nula\u201d. Os privados, defende, \u201cquerem os exames complementares de diagn\u00f3stico, cirurgias\u201d, por serem lucrativos. Andr\u00e9 refor\u00e7a: \u201cNa fatia do OE aplicada \u00e0 sa\u00fade, 40% \u00e9 injetado em privados. Para resson\u00e2ncias magn\u00e9ticas, exames de TAC. Praticamente toda a hemodi\u00e1lise est\u00e1 na m\u00e3o de cl\u00ednicas privadas\u201d. No per\u00edodo pand\u00e9mico, diz o cl\u00ednico, apesar da resposta dos hospitais privados ser quase nula, \u201ca testagem da covid-19 foi entregue aos laborat\u00f3rios privados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo, salienta o m\u00e9dico, s\u00e3o as cirurgias em atraso: \u201c\u00c9 uma forma de privatiza\u00e7\u00e3o dentro do pr\u00f3prio hospital. H\u00e1 os tempos de cirurgias p\u00fablicas e uma esp\u00e9cie de cheque cirurgia, onde o cirurgi\u00e3o ganha mais, \u00e0 pe\u00e7a, operando utentes fora do tempo do bloco operat\u00f3rio dedicado ao p\u00fablico, mas no tempo dedicado ao privado, utilizando os recursos dos hospitais p\u00fablicos. Este modelo, lembra Andr\u00e9 Gomes, \u201cfoi seguida pelo Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade Ingl\u00eas e levou \u00e0 sua ru\u00edna, ao desvirtuar o sistema, divide os profissionais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e9lia Matos alerta para a tentativa de denegrir o SNS: \u201cOs Hospitais de Loures, Vila Franca e de Braga que tinham gest\u00e3o privada e passaram para a gest\u00e3o p\u00fablica est\u00e3o a tentar, por indica\u00e7\u00e3o da Administra\u00e7\u00e3o Central do Sistema de Sa\u00fade (ACSS), contratar enfermeiros com propostas de 40 horas de trabalho, a 1200 euros, quando nas outras institui\u00e7\u00f5es do SNS o valor \u00e9 o mesmo, mas para as 35 horas. Isto \u00e9 aconselhar os enfermeiros a n\u00e3o aceitarem contratos com estes hospitais. \u00c9 uma tentativa de criar a falsa ideia de que no tempo das PPP \u00e9 que a gest\u00e3o era boa, quando sabemos que que havia um clima de grande intimida\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos profissionais, e sobrecarga de trabalho\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A demora a substituir a ministra da Sa\u00fade Marta Temido, que apresentou a demiss\u00e3o no dia 30 de agosto, tem motivado discursos acesos dos partidos da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 direita do PS. Ant\u00f3nio Costa garantiu que, com a substitui\u00e7\u00e3o de Marta Temido, apenas muda a \u201cpersonalidade\u201d ou poder\u00e1 mudar \u201ca energia ou o estilo\u201d: a pol\u00edtica de sa\u00fade permanecer\u00e1. <\/p>\n","protected":false},"author":153,"featured_media":6251,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[51],"tags":[],"coauthors":[89],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6249"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/153"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6249"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6249\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6351,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6249\/revisions\/6351"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6249"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}