{"id":6230,"date":"2022-09-09T13:01:21","date_gmt":"2022-09-09T13:01:21","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6230"},"modified":"2022-10-06T10:27:03","modified_gmt":"2022-10-06T10:27:03","slug":"o-tempo-foi-arrebatado-pelo-mundo-adulto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/09\/09\/o-tempo-foi-arrebatado-pelo-mundo-adulto\/","title":{"rendered":"\u201cO tempo foi arrebatado pelo Mundo adulto!\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"pergunta\">O que \u00e9 brincar?<\/p>\n\n\n\n<p>Brincar \u00e9 um comportamento ancestral que pode ser observado em todas as esp\u00e9cies animais. \u00c9 explorar, compreender, investigar \u00e9, no fundo, encontrar-se e tamb\u00e9m encontrar os outros. \u00c9 um comportamento fundamental e \u00e9 por isso que foi considerado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas como um direito essencial da vida dos seres humanos, art.\u00ba 31\u00ba. da Conven\u00e7\u00e3o Internacional dos Direitos da Crian\u00e7a, pelo qual me tenho batido h\u00e1 longos anos, n\u00e3o s\u00f3 atrav\u00e9s do Instituto de Apoio \u00e0 Crian\u00e7a, mas tamb\u00e9m em todas as minhas interven\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de professores. H\u00e1 40 anos que dizia que as crian\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o brincavam o suficiente e era considerado ut\u00f3pico, irrealista. As crian\u00e7as precisam de saber correr, saber lan\u00e7ar, saber falar, e n\u00e3o quer dizer que uma crian\u00e7a que saiba andar de bicicleta seja um ciclista profissional, ou n\u00e3o quer dizer que saiba pintar e seja um pintor. N\u00e3o, mas todas essas compet\u00eancias nas primeiras idades t\u00eam de ser conquistadas e de forma diversificada. As crian\u00e7as t\u00eam que passar por diversas experi\u00eancias para terem um repert\u00f3rio alargado para se poderem adaptar mais tarde, tal e qual como os animais aprendem com os seus pais para mais tarde serem resilientes e sobreviverem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">J\u00e1 poucas crian\u00e7as brincam na rua?<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as, nas primeiras idades, precisam de ter oportunidades de espa\u00e7o e de tempo para poderem brincar. H\u00e1 uma decad\u00eancia, nos \u00faltimos 40, 50 anos, de tempo e de espa\u00e7o para as crian\u00e7as brincarem. T\u00eam o tempo praticamente ocupado, s\u00e3o crian\u00e7as de agenda, e isso \u00e9 devido tamb\u00e9m a um mundo de trabalho que deixa muito pouco tempo para que isso aconte\u00e7a em casa, na escola e na rua. Na minha gera\u00e7\u00e3o t\u00ednhamos duas escolas, a da rua e a propriamente dita, e muitas das aprendizagens, saberes, compet\u00eancias que adquir\u00edamos eram feitas l\u00e1 fora a brincar com os amigos, em espa\u00e7os desconhecidos, com grandes aventuras, testando os nossos riscos e, a partir da\u00ed, ganh\u00e1vamos uma cultura de resili\u00eancia, e tamb\u00e9m criativa e adaptativa muito grande. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas isso desapareceu. Hoje o brincar no espa\u00e7o p\u00fablico est\u00e1 em vias de extin\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se veem crian\u00e7as nas cidades, nas aldeias, nas vilas. O tempo foi arrebatado pelo mundo adulto e por isso, hoje, temos, em muitas circunst\u00e2ncias, crian\u00e7as sem inf\u00e2ncia, porque n\u00e3o brincam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E \u00e9 muito importante brincar?<\/p>\n\n\n\n<p>Podemos ter v\u00e1rias taxonomias, mas de uma maneira geral podemos dizer que o brincar facilita, acima de tudo um desenvolvimento motor. Brincar significa ser ativo, deslocar o corpo, mexer nos objetos, contemplar o corpo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s oportunidades que a natureza oferece. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um promotor do desenvolvimento sensorial, percetivo, motor e cognitivo, social e emocional, \u00e9 tamb\u00e9m um construtor simb\u00f3lico. Porque, \u00e0 medida que essa maturidade cognitiva, motora, morfol\u00f3gica, org\u00e2nica vai avan\u00e7ando, tamb\u00e9m o brincar se vai tornando mais estruturado e com din\u00e2micas muito mais complexas. O brincar de uma forma simb\u00f3lica \u00e9 poderoso. H\u00e1 narrativas poderosas que, quando as crian\u00e7as est\u00e3o a brincar, fogem \u00e1 compreens\u00e3o dos adultos. O brincar tem esse poder de carater simb\u00f3lico e, por isso, as crian\u00e7as gostam do faz de conta, do chamado jogo socio emocional, construtivo. E tamb\u00e9m o jogo social, a rela\u00e7\u00e3o com os outros, o brincar em grupo, em pares ou em conjunto \u00e9 profundamente estruturante. H\u00e1 tr\u00eas din\u00e2micas que acontecem paralelamente \u00e0 medida que esse brincar vai evoluindo. Em primeiro lugar o brincar \u00e9 autodeterminado, significa que h\u00e1 uma motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca que acompanha o pr\u00f3prio ator, por outro lado h\u00e1 uma compet\u00eancia fundamental que \u00e9 desenvolvida, que \u00e9 a regula\u00e7\u00e3o emocional, o autocontrolo. Quanto mais as crian\u00e7as brincam mais controlo conseguem atingir em termos, n\u00e3o s\u00f3 de efici\u00eancia, mas do ponto de vista da autoestima e da autoconfian\u00e7a. E uma terceira componente absolutamente essencial que \u00e9 a suspens\u00e3o da realidade. As crian\u00e7as conseguem ausentar-se da realidade para din\u00e2micas simb\u00f3licas, em que se tornam verdadeiramente poderosas para terem capacidade de compreender, depois, a realidade. Brincar tem essa vantagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Temos uma sociedade muito centrada no \u00eaxito, no produto, no consumismo e muito pouco na qualidade de vida, na cr\u00edtica da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.&nbsp;&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mas hoje em dia a inf\u00e2ncia n\u00e3o se pode queixar da falta de brinquedos?<\/p>\n\n\n\n<p>Brincar n\u00e3o \u00e9 brincar com brinquedos s\u00f3 e n\u00e3o \u00e9 uma categoria que diga s\u00f3 respeito \u00e0 inf\u00e2ncia. \u00c9 uma atitude mental e que se prolonga durante toda a nossa vida. \u00c9 uma componente da nossa exist\u00eancia. Gostava muito que tiv\u00e9ssemos adultos n\u00e3o t\u00e3o s\u00e9rios, mas que conseguissem brincar e tivessem mem\u00f3rias da sua inf\u00e2ncia, que \u00e9 algo que tem vindo a morrer progressivamente ao longo de gera\u00e7\u00f5es. Temos uma sociedade muito centrada no \u00eaxito, no produto, no consumismo e muito pouco na qualidade de vida, na cr\u00edtica da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Brincar d\u00e1-nos essa capacidade cr\u00edtica?<\/p>\n\n\n\n<p>O Brincar tem uma dimens\u00e3o terap\u00eautica absolutamente fundamental, falava Jo\u00e3o dos Santos sobre isso. Tem uma dimens\u00e3o de autoan\u00e1lise, de compreens\u00e3o de si pr\u00f3prio. Da forma como brinco comigo mesmo, com os meus, com os que me rodeiam, com a fam\u00edlia, com os outros, com os amigos e com o mundo. E h\u00e1 hoje uma dimens\u00e3o demasiado s\u00e9ria com que entendemos a exist\u00eancia, e muito pouco l\u00fadica. Como dizia Huizinga \u201cO jogo \u00e9 anterior \u00e0 cultura\u201d, portanto, significa que nasce connosco. Todos os animais brincam na inf\u00e2ncia para se tornarem resilientes, para terem capacidade de adapta\u00e7\u00e3o, como falava Darwin, para terem capacidade de se confrontarem com a adversidade e com o risco. E por isso sobrevivem, porque brincar \u00e9 ganhar sobreviv\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;[Temos] uma realidade em que o trabalho dos pais aniquilou completamente o tempo dispon\u00edvel para que as crian\u00e7as possam brincar.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Uma sociedade que n\u00e3o brinca \u00e9 uma sociedade doente?<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje temos v\u00e1rias doen\u00e7as que se implementaram na sociedade moderna: a superprote\u00e7\u00e3o parental, a superprote\u00e7\u00e3o adulta, a limita\u00e7\u00e3o de tempo n\u00e3o formal, ou tempo dispon\u00edvel. Uma realidade em que o trabalho dos pais aniquilou completamente o tempo dispon\u00edvel para que as crian\u00e7as possam brincar. As crian\u00e7as necessitam de muito tempo. O que era desej\u00e1vel \u00e9 que as crian\u00e7as tivessem tempo, em casa, na escola e na rua. Por isso as institui\u00e7\u00f5es que tratam da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade e do trabalho e a pr\u00f3pria tutela, tendo assinado a Conven\u00e7\u00e3o do Direitos da Crian\u00e7a, est\u00e1 a ser negligente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as. N\u00f3s nunca tivemos t\u00e3o bons pais, t\u00e3o boa escola, t\u00e3o boa democracia, mas h\u00e1 uma viol\u00eancia invis\u00edvel que se apoderou das crian\u00e7as e jovens em Portugal. Sendo n\u00f3s o quarto pa\u00eds mais seguro do Mundo, o mais visitado, as crian\u00e7as n\u00e3o t\u00eam qualidade de vida nem os adultos, porque passam o tempo a trabalhar. As crian\u00e7as s\u00e3o v\u00edtimas do tempo de trabalho dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Os pais n\u00e3o t\u00eam tempo para os filhos?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das quest\u00f5es mais importantes de reflex\u00e3o e debate atual na sociedade portuguesa deveria ser a quest\u00e3o da Lei Laboral. Porque os pais deviam ter mais tempo para a fam\u00edlia, ter mais tempo para os filhos. As crian\u00e7as passam em m\u00e9dia cerca de 50 horas semanais na escola, principalmente no pr\u00e9-escolar e no primeiro ciclo, t\u00eam um modelo organizacional quase terrorista. Esta inven\u00e7\u00e3o da escola a tempo inteiro \u00e9 algo que n\u00e3o tem p\u00e9s nem cabe\u00e7a. As crian\u00e7as deviam ter tempo livre a partir de uma determinada hora. Qual \u00e9 a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as para estarem quietas, sentadas e caladas, em sil\u00eancio, durante o dia, com curr\u00edculos intensos e extensos na escola? Qual \u00e9 o sentido disso? O momento mudou e a escola ficou no mesmo s\u00edtio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E \u00e9 verdade que as crian\u00e7as perdem precocemente o pensamento m\u00e1gico?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim! E a cria\u00e7\u00e3o de uma grande imaturidade. Porque t\u00eam tudo pronto, n\u00e3o t\u00eam t\u00e9dio nem frustra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se confrontam com nada, os pais querem tudo de bom para os filhos, protegem-nos de mais, mas quando h\u00e1 muita prote\u00e7\u00e3o h\u00e1 desprote\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O adulto interfere na liberdade da crian\u00e7a?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso que haja essa consci\u00eancia de ter a capacidade de se controlar, como adulto, e dar espa\u00e7o, dar autonomia, dar liberdade \u00e0s crian\u00e7as para poderem caminhar por si pr\u00f3prias e descobrir o seu pr\u00f3prio talento, a sua pr\u00f3pria motiva\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca, para caminharem. Isto, ali\u00e1s, \u00e9 um dos maiores problemas no meio escolar, no meio familiar e social, a falta de mobilidade com todas as consequ\u00eancias que tem na sa\u00fade p\u00fablica, pelo aumento da obesidade, o excesso de peso, os diabetes e, acima de tudo, um grande sedentarismo. N\u00f3s somos o pa\u00eds, dos 27 da Europa, mais sedent\u00e1rio. N\u00f3s temos apenas uma percentagem muito reduzida de crian\u00e7as e jovens que t\u00eam uma mobilidade ativa minimamente aceit\u00e1vel, cerca de 70 a 75% do povo portugu\u00eas n\u00e3o se mexe, t\u00eam um sedentarismo implementado no seu quotidiano, nas suas rotinas de vida, com todos os problemas que isso tem para a sa\u00fade p\u00fablica, sa\u00fade mental, f\u00edsica, emocional e social.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;A maior doen\u00e7a do s\u00e9culo \u00e9 o n\u00famero de horas que passamos sentados, sem termos consci\u00eancia das consequ\u00eancias que isso tem para o organismo e tamb\u00e9m para a capacidade cr\u00edtica, a capacidade de socializa\u00e7\u00e3o, de perceber a nossa ess\u00eancia.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A pandemia agravou esse cen\u00e1rio?&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos dois anos temos discutido sobretudo a doen\u00e7a. Mas perdemos de vista as indica\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade sobre a preven\u00e7\u00e3o da sa\u00fade. Dever\u00edamos fazer uma discuss\u00e3o e reflex\u00e3o alargada, multidisciplinar, multi-institucional. H\u00e1 cem anos tivemos uma pandemia (a gripe espanhola) antecedida de uma guerra e agora tivemos uma pandemia (Covid-19) seguida de outra guerra. Portanto, isto \u00e9 c\u00edclico. Mas, de facto, o que observamos \u00e9 que ningu\u00e9m est\u00e1 a dar import\u00e2ncia ao corpo que tem necessidade de se mover, de ter autonomia, de poder explorar o espa\u00e7o que o rodeia e ele est\u00e1 convidado a ficar sentado. A maior doen\u00e7a do s\u00e9culo \u00e9 o n\u00famero de horas que passamos sentados, sem termos consci\u00eancia das consequ\u00eancias que isso tem para o organismo e tamb\u00e9m para a capacidade cr\u00edtica, a capacidade de socializa\u00e7\u00e3o, de perceber a nossa ess\u00eancia. Temos um mundo muito virado para a apar\u00eancia, mais centrado na est\u00e9tica do que na \u00e9tica. Todos estes valores permitiam dar mais valoriza\u00e7\u00e3o a pol\u00edticas que desenvolvessem a possibilidade de maior confronto do risco, maior socializa\u00e7\u00e3o, maior solidariedade, uma consci\u00eancia mais ecol\u00f3gica da crise clim\u00e1tica que estamos a viver e desta transi\u00e7\u00e3o digital com a intelig\u00eancia artificial que vai modificar o mundo para uma dimens\u00e3o desconhecida, imprevista e completamente nova. N\u00e3o estamos a pensar nisso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E a escola de hoje tamb\u00e9m n\u00e3o responde?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos a preparar estas crian\u00e7as que est\u00e3o connosco para que Mundo? Se pensarmos nesta perspetiva diria que o que estamos a fazer hoje nas escolas n\u00e3o serve para nada. Porque n\u00e3o estamos a prepar\u00e1-las para terem a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o a um Mundo completamente novo que, dentro de 30 anos, ser\u00e1 completamente irreconhec\u00edvel. Por isso seria importante em vez de estarmos preocupados com os testes, com os rankings, com a entrada na universidade, dev\u00edamos estar preocupados \u00e9 de como estamos a preparar estas crian\u00e7as para serem pessoas, cidad\u00e3os ativos, com uma capacidade cr\u00edtica, com esp\u00edrito democr\u00e1tico, cooperativo e, acima de tudo, participativo. Falta uma cultura de participa\u00e7\u00e3o na sociedade portuguesa. Muitos pa\u00edses da Comunidade Europeia j\u00e1 desenvolveram pol\u00edticas interessantes nesta dimens\u00e3o, quer ao n\u00edvel escolar, familiar, do trabalho, do ponto de vista social, Portugal est\u00e1 muito atrasado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como \u00e9 que o espa\u00e7o escola responde a todos esses desafios?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Temos verdadeiras obras de arte nas constru\u00e7\u00f5es escolares em Portugal, mas as crian\u00e7as ficaram piores. Temos uma sociedade, do ponto de vista do sistema educativo melhorada do ponto de vista das infraestruturas, mas ficaram mais pobres naquilo que \u00e9 o mais b\u00e1sico e elementar que \u00e9 poder brincar, correr, saltar, jogar, poder subir \u00e0s \u00e1rvores. Retiraram tudo o que era interessante para as crian\u00e7as na escola. Preservou-se a sala de aula, numa dimens\u00e3o tradicional conservadora, replicativa e abandonou-se a necessidade de as crian\u00e7as poderem ir l\u00e1 para fora aprender. N\u00f3s alcatifamos as escolas. Hoje o que existe nas escolas \u00e9 bet\u00e3o e cimento sint\u00e9tico. Os adultos fizeram uma escola \u00e0 sua medida e n\u00e3o respeitaram as necessidades b\u00e1sicas e fundamentais das crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A que se refere quando fala de sala de aula tradicional, conservadora?<\/p>\n\n\n\n<p>Dev\u00edamos desconstruir a sala de aula. N\u00e3o gosto de chamar sala de aula e recreio, porque \u00e9 um disparate esses dois conceitos em pleno s\u00e9culo XXI. Dev\u00edamos falar em espa\u00e7o interior e exterior e as crian\u00e7as aprendem em qualquer espa\u00e7o, com diversas metodologias, diversas perspetivas, desde que n\u00f3s possamos dar-lhes oportunidades para poderem explorar, poderem ser pequenos investigadores, cientistas, artistas, desportistas. Por isso o espa\u00e7o da escola devia ser repensado de modo a melhorar as condi\u00e7\u00f5es de estimula\u00e7\u00e3o exteriores, porque uma das maiores desgra\u00e7as que existe no mundo escolar \u00e9 aus\u00eancia de contacto com a natureza. A natureza \u00e9 a magia da nossa ess\u00eancia e n\u00f3s desprezamo-la praticamente nos \u00faltimos anos. Cortamos os corredores ecol\u00f3gicos, pela industrializa\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m pela constru\u00e7\u00e3o das cidades. Os espa\u00e7os verdes desapareceram, cortaram-se as \u00e1rvores. Os paus, as pedras, a \u00e1gua, os elementos mais naturais dentro da escola foram retirados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Porqu\u00ea?<\/p>\n\n\n\n<p>Por uma quest\u00e3o, para mim uma vari\u00e1vel fundamental para explicar tudo isto, a implementa\u00e7\u00e3o de uma conce\u00e7\u00e3o de medo. O que existe na escola \u00e9 medo. Medo na escola, na rua, em qualquer lugar. Medo ligado \u00e0 superprote\u00e7\u00e3o. E, por isso, n\u00e3o se d\u00e1 a oportunidade \u00e0s crian\u00e7as para serem mais livres, terem mais mobilidade, mas acima de tudo terem mais capacidade de participa\u00e7\u00e3o nos projetos educativos. Porque aprender implica que os adultos, educadores, pais sejam capazes de formular contextos desafiantes para as crian\u00e7as. As crian\u00e7as, quando lhes perguntamos o que \u00e9 a escola, dizem-nos que \u00e9 uma seca. E eles t\u00eam raz\u00e3o, porque n\u00e3o t\u00eam desafios. Est\u00e1 tudo pronto, \u00e9 tudo imposto. As crian\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o convidadas a participar no processo educativo. S\u00e3o escolas desinteressantes que n\u00e3o se atualizaram em rela\u00e7\u00e3o ao tempo que estamos a viver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Os instrumentos digitais s\u00e3o fundamentais para a aprendizagem, como o professor \u00e9, mas dev\u00edamos desconstruir a sala de aula, porque se aprende em qualquer lugar. A cidade \u00e9 a escola.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Quer dizer que a escola deve ser um risco permanente?<\/p>\n\n\n\n<p>Sim. O desafio deve ser esse. A crian\u00e7a deve ser confrontada com o risco. O risco que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsico, tamb\u00e9m \u00e9 cognitivo, social e emocional. Se as crian\u00e7as tivessem desafios no processo de aprendizagem, tivessem envolvimentos interessantes, eram convidadas a gostar de ir \u00e0 escola e a gostar de aprender. V\u00e3o de carro para a escola, sentam-se, praticamente durante todo o dia, n\u00e3o se mexem. As crian\u00e7as s\u00e3o perseguidas na escola, vivem prisioneiras. N\u00e3o podem correr, n\u00e3o podem saltar, n\u00e3o podem subir \u00e0s \u00e1rvores, n\u00e3o podem jogar \u00e0 bola, n\u00e3o podem fazer praticamente nada. Hoje \u00e9 a pr\u00f3pria escola que est\u00e1 a fomentar o sedentarismo. Veja-se que hoje as crian\u00e7as, a partir do 2.\u00ba ciclo, saem da sala de aula e ficam nos corredores agarradas aos telem\u00f3veis a jogarem jogos diversos, principalmente os ecr\u00e3s l\u00fadicos. A maior trag\u00e9dia que est\u00e1 a acontecer na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia \u00e9 o n\u00famero de horas que as crian\u00e7as ficam agarradas aos ecr\u00e3s l\u00fadicos. N\u00e3o direi que os instrumentos digitais n\u00e3o sejam importantes para a aprendizagem, s\u00e3o ali\u00e1s fundamentais, mas n\u00e3o devemos digitalizar a escola. Os instrumentos digitais s\u00e3o fundamentais para a aprendizagem, como o professor \u00e9, mas dev\u00edamos desconstruir a sala de aula, porque se aprende em qualquer lugar. A cidade \u00e9 a escola. O espa\u00e7o exterior \u00e0 escola deveria ser a continuidade do projeto educativo e devia-se ter metodologias muito mais robustas no sentido de seduzir as crian\u00e7as a terem gosto em aprender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Sei que n\u00e3o gosta do conceito de recreio, mas pergunto-lhe como os adultos se devem comportar no recreio?<\/p>\n\n\n\n<p>Os adultos deviam brincar com as crian\u00e7as e n\u00e3o sabem brincar. N\u00f3s temos auxiliares de educa\u00e7\u00e3o que, apesar da sua forma\u00e7\u00e3o, e s\u00e3o pessoas exemplares porque s\u00e3o os que melhor conhecem as crian\u00e7as, mas tamb\u00e9m est\u00e3o pressionados pelo medo. T\u00eam medo dos pais, da superestrutura que os rege, e perseguem as crian\u00e7as. H\u00e1 espa\u00e7os proibidos na escola, h\u00e1 crian\u00e7as que s\u00e3o perseguidas, andam em fila, n\u00e3o podem fazer determinado tipo de brincadeiras, nem fazer certo tipo de experi\u00eancias. A Escola tem esta contrariedade de querer educar as crian\u00e7as, mas ao mesmo tempo maltrata-as. H\u00e1 uma esp\u00e9cie de cultura penalizante do ponto de vista da liberdade de express\u00e3o. Nas matrizes curriculares d\u00e1-se pouca import\u00e2ncia \u00e0s atividades de natureza motora, l\u00fadica, f\u00edsica, desportiva e at\u00e9 art\u00edstica. Valoriza-se uma conce\u00e7\u00e3o de escolariza\u00e7\u00e3o absoluta. A Escola \u00e9 s\u00f3 escolariza\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a espectativa dos pais, dos professores, do modelo, da tutela, no sentido de ter crian\u00e7as a saberem responder aos testes para entrarem na universidade. Ali\u00e1s, diria que uma das prioridades deste sistema educativo \u00e9 discutir pol\u00edticas de acesso ao Ensino Superior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Fala em desconstruir a sala de aula. Como se faz?<\/p>\n\n\n\n<p>Desconstruir a sala e aula como local de aprendizagem e procurar outros espa\u00e7os que tamb\u00e9m s\u00e3o fundamentais. N\u00e3o dev\u00edamos escravizar a avalia\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 aprendizagem. \u00c9 outro erro enorme, \u00e9 uma assimetria enorme. Vejam aquelas crian\u00e7as que t\u00eam explica\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o de estratos sociais mais altos, que andam nos col\u00e9gios privados e aquelas que, eventualmente, n\u00e3o t\u00eam essa possibilidade. Portanto, n\u00e3o temos uma verdadeira dimens\u00e3o democr\u00e1tica na atribui\u00e7\u00e3o dos mesmos valores e das mesmas condi\u00e7\u00f5es para todos. A escola devia ser, por si, intrinsecamente democr\u00e1tica, cooperativa, participativa e tamb\u00e9m inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;O professor n\u00e3o tem que impor, \u00e9 um criador inteligente de contextos para as crian\u00e7as aprenderem.&#8221;  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E como se constr\u00f3i essa escola?<\/p>\n\n\n\n<p>Se libert\u00e1ssemos a escola para que os professores e os alunos tivessem mais liberdade para aprender, andar na escola n\u00e3o \u00e9 aprender tudo \u00e0 pressa. N\u00f3s somos o \u00fanico animal que tem uma inf\u00e2ncia longa. Temos muito tempo para aprender. Mata-se a curiosidade, o entusiasmo, s\u00f3 se aprende se houver curiosidade e entusiasmo. As crian\u00e7as t\u00eam uma capacidade de autoaprendizagem. N\u00e3o \u00e9 preciso termos esta vis\u00e3o mais ou menos t\u00f3xica, patol\u00f3gica de queremos que as crian\u00e7as aprendam tudo rapidamente. As crian\u00e7as t\u00eam o seu tempo para aprender. Na escola n\u00e3o podemos ensinar todos ao mesmo tempo, no mesmo lugar da mesma forma. Por isso dev\u00edamos fazer uma grande revis\u00e3o do que \u00e9 a escola no S\u00e9culo XXI. O professor n\u00e3o tem que impor, \u00e9 um criador inteligente de contextos para as crian\u00e7as aprenderem. Aprendemos isso com Montessori, Freinet, Vygotsky aprendemos isso com tantos outros pedagogos, e parece que n\u00e3o aprendemos nada. A escola precisa de trabalhar em rede, precisa de ter uma governan\u00e7a coletiva, de forma transversal, acabar com esse imp\u00e9rio de disciplinas em que os alunos s\u00e3o v\u00edtimas do saber espec\u00edfico de cada professor, e passar a trabalhar por projetos. A escola \u00e9 feita de perguntas e n\u00e3o de respostas, \u00e9 feita de v\u00edrgulas, n\u00e3o de pontos finais. O que conhe\u00e7o hoje amanh\u00e3 ponho em causa. A pr\u00f3pria investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tem de se reorganizar e repensar os seus pr\u00f3prios modelos de funcionamento. A ci\u00eancia \u00e9 mesmo isso, \u00e9 contestar, \u00e9 p\u00f4r em hip\u00f3tese aquilo que se desconhece. N\u00e3o se pode ter uma cultura fechada, tem que se ter uma vis\u00e3o aberta, do ponto de vista filos\u00f3fico, pol\u00edtico, social, enfrentar o conhecimento como algo desconhecido, como uma brincadeira, algo l\u00fadico, desafiante. Hoje as pessoas n\u00e3o t\u00eam fome pelo conhecimento. A escola n\u00e3o lhes d\u00e1 [aos alunos] coisas para pensar, para se interrogarem, para eles se autoconhecerem, seduzirem pelo que \u00e9 novo, diferente. \u00c9 preciso criar seres humanos ativos preocupados e acima de tudo interrogativos. A curiosidade \u00e9 a base do conhecimento e quando se mata a curiosidade mata-se tudo. E depois exigem-se coisas que n\u00e3o t\u00eam p\u00e9s nem cabe\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O tempo, nas suas diversas dimens\u00f5es, tem uma import\u00e2ncia grande na escola.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 fundamental compreender o tempo em diversas dimens\u00f5es. O tempo como viv\u00eancia de experi\u00eancias, o tempo biol\u00f3gico que implica etapas maturativas e crescimento do pr\u00f3prio sujeito. O perceber de uma crian\u00e7a de cinco anos \u00e9 completamente diferente do perceber aos 10 ou aos 15. H\u00e1 um progressivo desenvolvimento a todos os n\u00edveis. Em muitos casos se faz um ensino precoce. N\u00e3o se d\u00e1 tempo \u00e0 crian\u00e7a de expressar os seus talentos. Esta coisa da Escola a tempo inteiro \u00e9 o maior crime, porque as crian\u00e7as a partir de determinada altura do dia, deviam ter tempo livre para brincar. Dev\u00edamos ter um novo modelo de organiza\u00e7\u00e3o nas atividades de enriquecimento curricular, das CAF (Centros de Apoio \u00e0 Fam\u00edlia) e dos ATL e de outras atividades de que os adultos se encarregam para manter as crian\u00e7as entretidas at\u00e9 \u00e0 noite.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como \u00e9 que a escola deve lidar com o mundo virtual?<\/p>\n\n\n\n<p>Tem de haver equil\u00edbrio. Saiu agora um relat\u00f3rio da UNESCO que projeta as perspetivas evolutivas da educa\u00e7\u00e3o para 2030 e de facto, esse relat\u00f3rio foi discutido a n\u00edvel mundial, d\u00e1 algumas linhas de orienta\u00e7\u00e3o. Claro que o futuro \u00e9 imprevis\u00edvel, daqui a 30 anos ningu\u00e9m sabe como \u00e9 que isto vai estar, mas h\u00e1 algumas linhas. Em primeiro lugar devemos criar um novo contrato social com uma express\u00e3o fundamental que \u00e9 a de trabalharmos juntos. \u00c9 tempo de acabar com o egocentrismo e passar a trabalhar numa dimens\u00e3o ecoc\u00eantrica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E o que \u00e9 a dimens\u00e3o ecoc\u00eantrica?<\/p>\n\n\n\n<p>Termos mais consci\u00eancia ecol\u00f3gica dos valores da educa\u00e7\u00e3o; formar cidad\u00e3os em vez de alunos; formar pessoas em vez de atletas ou m\u00fasicos. Primeiro est\u00e3o pessoas antes de produtos. Valorizar os cidad\u00e3os enquanto pessoas. Em segundo lugar, melhorar essa capacidade cr\u00edtica das crian\u00e7as. H\u00e1 muitas metodologias que introduziram din\u00e2micas de trabalho, a regular dentro da escola, do ponto de vista de introduzir a Filosofia, para ajudar as crian\u00e7as a saberem pensar, mas tamb\u00e9m a saberem resolver problemas e, ao mesmo tempo trabalharem em grupo. N\u00e3o \u00e9 preciso sent\u00e1-los lado a lado, para n\u00e3o copiarem, isso \u00e9 um disparate. E tamb\u00e9m saberem comunicar que \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental. Portanto h\u00e1 saberes e compet\u00eancias que s\u00e3o fundamentais e que as novas tecnologias podem ser extremamente \u00fateis. O professor tem aqui um papel de tutor, de moderador, criador de novas dimens\u00f5es, criando contextos aliciantes para que as crian\u00e7as aprendam de forma inteligente. S\u00f3 se pode aprender se se participar, se se for o ator no pr\u00f3prio processo de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Muitos [professores] estar\u00e3o cansados, exaustos, em <em>burnaut<\/em>,<em> <\/em>com a sua sa\u00fade mental afetada, mas h\u00e1 muitos professores extraordin\u00e1rios, que continuam a desenvolver o seu papel e a reinventar o seu dia a dia independentemente da burocracia que os assolou e da falta de tempo para o ato pedag\u00f3gico.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Fala de um novo papel para o professor. O que est\u00e1 mais ligado \u00e0 escola tradicional, conservadora n\u00e3o recear\u00e1 perder alguma import\u00e2ncia no processo educativo?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil sair da sua zona de conforto. H\u00e1 uma tend\u00eancia para se ensinar da forma como se aprendeu e muitas vezes a forma\u00e7\u00e3o inicial ficou ao lado. Mas obviamente que h\u00e1 muitos professores com coragem e muitos professores que t\u00eam capacidade de mudar. Muitos estar\u00e3o cansados, exaustos, em <em>burnaut<\/em>,<em> <\/em>com a sua sa\u00fade mental afetada, mas h\u00e1 muitos professores extraordin\u00e1rios, que continuam a desenvolver o seu papel e a reinventar o seu dia a dia independentemente da burocracia que os assolou e da falta de tempo para o ato pedag\u00f3gico. Os professores est\u00e3o encharcados em tarefas que n\u00e3o lhes compete. Esse \u00e9 mais um dos dramas do sistema educativo em Portugal, do pr\u00e9-escolar ao ensino secund\u00e1rio. Os professores sentem essa m\u00e1goa de n\u00e3o poderem fazer experi\u00eancias inovadoras ou porque o sistema n\u00e3o permite, ou porque h\u00e1 falta de trabalho de grupo, falta de dinamismo das equipas nas escolas, nos agrupamentos escolares. Professor mal pagos, carreiras desvalorizadas, n\u00e3o t\u00eam uma valoriza\u00e7\u00e3o social, e a\u00ed estamos numa crise onde ningu\u00e9m quer ser professor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Como encara a delega\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias para as autarquias?<\/p>\n\n\n\n<p>Espero, vivamente, que seja poss\u00edvel trabalhar em projetos educativos locais de acordo com a sua cultura, a sua paisagem, de acordo com o seu patrim\u00f3nio art\u00edstico, cultural, f\u00edsico, desportivo, etc. Os munic\u00edpios podem vir aqui a ter aqui um papel essencial nessa rela\u00e7\u00e3o com a escola e com os pais. E fazerem de facto projetos que tenham a ver com a cultura local. Por exemplo, projetos para conhecer a cidade, os museus, pode-se aprender em tudo. Porque a escola tem que se abrir, tem que acabar com os muros, tem que sair l\u00e1 para fora. Acabar com esse sentido de estar preso. Ali\u00e1s, num estudo que fizemos em 2015 em todo o Mundo verificamos que os presos t\u00eam mais liberdade nas duas horas de tempo de lazer, que as crian\u00e7as do nosso tempo que t\u00eam menos de 1h30 de jogo livre, de brincadeira livre, porque t\u00eam tudo organizado. Libertem as crian\u00e7as! Est\u00e3o os pais presos, est\u00e3o as crian\u00e7as presas, os professores\u2026 o sistema tem de rebentar e reinventar um novo modelo, um novo paradigma. \u00c9 preciso fazer um <em>reset<\/em> (reinicializar), come\u00e7ar tudo de novo para reinventar a escola em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A escola em Portugal, e no resto do mundo?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando fazemos uma compara\u00e7\u00e3o do que se est\u00e1 a passar nos pa\u00edses dos 27, que comp\u00f5em a Comunidade Europeia, que n\u00f3s estamos um pouco atrasados nos pa\u00edses do sul. Fizemos uma compara\u00e7\u00e3o entre norte e sul da Europa e, de facto, a escola do norte da Europa j\u00e1 tem um outro ar fresco. J\u00e1 tem um trabalho muito mais desenvolvido numa vis\u00e3o participativa, numa dimens\u00e3o de respeitar os direitos das crian\u00e7as, enquanto a sul da Europa temos outro tipo de problemas que n\u00e3o resolvemos: Ordenamento do territ\u00f3rio, planeamento urbano, a rela\u00e7\u00e3o entre a escola, a fam\u00edlia e o trabalho, como \u00e9 a gest\u00e3o do tempo familiar e do tempo escolar. Vemos as crian\u00e7as a levantarem-se \u00e0 sete da manh\u00e3 e aparecerem \u00e0 sete da noite em casa. Vemos os pais desesperados com tarefas, a levarem muito tempo para chegarem ao trabalho, a terem muitas horas de trabalho para sobreviver, portanto h\u00e1 aqui problemas que n\u00e3o permite analisar a escola como uma unidade, temos que ter uma vis\u00e3o ecol\u00f3gica para perceber este fen\u00f3meno. Com certeza que este problema \u00e9 diferente desde a creche \u00e0 universidade, agora toda esta dimens\u00e3o temporal devia ser analisada criteriosamente de um ponto de vista pol\u00edtico. A Assembleia da Rep\u00fablica e os partidos pol\u00edticos devem cooperar no sentido de olharem para a qualidade de vida dos cidad\u00e3os portugueses e principalmente das crian\u00e7as e das fam\u00edlias e tamb\u00e9m alterarem no que seja poss\u00edvel uma escola nova num Mundo novo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E numa escola multicultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro. N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil a um professor trabalhar no mesmo espa\u00e7o com v\u00e1rias culturas, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Agora precisamos de mudar o nosso foco para uma escola que deve arquitetar com outros instrumentos mais poderosos e robustos, principalmente uma escola democr\u00e1tica, participativa, cooperativa e acima de tudo dando oportunidades de aprendizagem mais ativa. \u00c9 fundamental as crian\u00e7as participarem no processo de aprendizagem. Dev\u00edamos ter uma escola que se baseia na cria\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos, n\u00e3o r\u00edgidos, de respeitar a exist\u00eancia do nosso corpo, do ponto de vista das suas estruturas mais b\u00e1sicas, do ponto de vista da mobilidade corporal, mas tamb\u00e9m da complexidade cognitiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Em crian\u00e7a brinca-se \u00e0s escondidas para ganhar amigos. Posso estar em oposi\u00e7\u00e3o ao meu companheiro, mas fico amigo dele.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E brincar cura essa crise na escola?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vivemos num momento de crise, de falta de identidade, de uma certa cultura neur\u00f3tica na escola, que tem que ser curada pelos pr\u00f3prios atores. A melhor maneira de curar \u00e9 brincar com a situa\u00e7\u00e3o. Provavelmente a melhor cura para a escola atual era todos brincarem \u00e0s escondidas. Vamos todos brincar \u00e0s escondidas para nos reinventarmos. Porque o brincar \u00e0s escondidas \u00e9 algo fascinante. Vou \u00e0 procura do outro, n\u00e3o sei aonde ele est\u00e1. Tenho de procurar estrat\u00e9gias, tomar decis\u00f5es para encontrar formas de o agarrar, de o identificar. Da mesma forma ele tem de se esconder, e o saber esconder-se \u00e9 absolutamente essencial. Hoje as pessoas n\u00e3o sabem esconder-se, nem sabem perseguir. Perseguir e ser perseguido \u00e9 algo que faz parte da humanidade, n\u00f3s somos animais ca\u00e7adores, coletores, isso ficou dentro de n\u00f3s, s\u00e3o esses muitos mil anos de hist\u00f3ria que est\u00e3o no nosso c\u00e9rebro. Relegamos para segundo plano essa agressividade latente que temos que educar para uma dimens\u00e3o de valores, de cidadania, de <em>fair-play<\/em>. Como \u00e9 poss\u00edvel no s\u00e9culo XXI termos a guerra que temos, como \u00e9 que os pol\u00edticos n\u00e3o se entendem \u00e0 mesa. Em crian\u00e7a brinca-se \u00e0s escondidas para ganhar amigos. Posso estar em oposi\u00e7\u00e3o ao meu companheiro, mas fico amigo dele. A minha melhor recorda\u00e7\u00e3o de inf\u00e2ncia era jogar \u00e0 pedrada com os meus amigos e ainda hoje continuam meus amigos. Porque n\u00f3s desafi\u00e1vamo-nos. E quando nos desafiamos como seres humanos n\u00f3s matamo-nos simbolicamente e ficamos amigos. E \u00e9 isso que era preciso hoje fazer nas escolas, matarem-se uns aos outros simbolicamente para terem mais consci\u00eancia de si e trabalharem em conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">E \u00e9 assim que devemos educar as nossas crian\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p>Educar \u00e9 dar os instrumentos para que a crian\u00e7a saiba sobreviver e para que a crian\u00e7a saiba reorganizar-se e reaprender e n\u00e3o repetir mecanicamente, mnemonicamente. \u00c9 dar-lhe instrumentos que s\u00e3o assimilados de uma forma inteligente para os saberem utilizar de uma forma poderosa, inteligente perante a situa\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel e inesperada. Educar \u00e9 educar para o inesperado, \u00e9 educar para o incerto. Brincar \u00e9 isso. Quando a crian\u00e7a brinca n\u00e3o sabe o fim, tudo vai sendo uma constru\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se v\u00ea pelo produto, v\u00ea-se pelo processo. E \u00e9 como a educa\u00e7\u00e3o devia ser. N\u00f3s s\u00f3 aprendemos se houver envolvimento emocional e sentimental. Corpos ativos d\u00e3o c\u00e9rebros ativos atrav\u00e9s de emo\u00e7\u00f5es e pensamentos, como diz Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio.&nbsp; A escola portuguesa ainda vive um modelo demasiadamente tradicional, um modelo em que separa o corpo e o c\u00e9rebro. Na escola portuguesa em grande parte dos casos o c\u00e9rebro entra na Escola, mas o corpo fica \u00e0 porta. As crian\u00e7as n\u00e3o se podem mexer. T\u00eam que estar sentadas, quietas e caladas e obedientes. Quando a Escola n\u00e3o pode ser esta vers\u00e3o cartesiana de um corpo para o lado e o c\u00e9rebro para o outro. O corpo \u00e9 s\u00f3 um, aprende-se com o corpo todo, n\u00e3o se aprende por partes. Aprende-se em aulas separadas, conhecimentos separados, o que \u00e9 isso?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O Mundo n\u00e3o \u00e9 assim.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, o Mundo m\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 que conquistar uma vis\u00e3o hol\u00edstica do ensino, n\u00e3o \u00e9 o <em>laisser fair<\/em>, essa vis\u00e3o hol\u00edstica \u00e9 a mais dif\u00edcil de todas. \u00c9 conseguir estar com os meus alunos, com as minhas crian\u00e7as, com os meus adolescentes, interessados, em conjunto a construir, a saber responder a perguntas, a saber pesquisar, a saber investigar fen\u00f3menos, e fazer projetos para que eu possa ir aprendendo as coisas em conjunto e de forma integrada. Lamento dizer, mas a escola tradicional n\u00e3o ensina as crian\u00e7as a ter uma compreens\u00e3o do Mundo.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na sua cerim\u00f3nia de jubila\u00e7\u00e3o, o Professor Carlos Neto subiu ao palco sentado num carrinho de rolamentos, puxado pelo neto. Jogo e Desenvolvimento Motor da Crian\u00e7a: um Percurso\/uma Causa foi a sua \u00faltima li\u00e7\u00e3o. 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