{"id":6225,"date":"2022-09-09T12:32:48","date_gmt":"2022-09-09T12:32:48","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6225"},"modified":"2022-10-06T10:54:27","modified_gmt":"2022-10-06T10:54:27","slug":"a-crise-que-comprime-salarios-e-inflaciona-precos-e-lucros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/09\/09\/a-crise-que-comprime-salarios-e-inflaciona-precos-e-lucros\/","title":{"rendered":"A crise que comprime sal\u00e1rios e inflaciona pre\u00e7os e lucros"},"content":{"rendered":"\n<p>A infla\u00e7\u00e3o galopante pode atingir os 8%. J\u00e1 os sal\u00e1rios est\u00e3o longe de acompanhar esta subida, ao contr\u00e1rio das grandes empresas, que veem os lucros aumentar extraordinariamente. No setor p\u00fablico, os aumentos salariais n\u00e3o ultrapassam 1% (0,9% na Fun\u00e7\u00e3o P\u00fablico, banca p\u00fablica 1%) e no setor privado 2,2%, na remunera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia bruta total, segundo o INE.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"333\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52-1024x333.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6246\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52-1024x333.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52-300x98.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52-768x250.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52-220x72.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.52.jpeg 1161w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>As reformas ter\u00e3o aumentos entre 0,24 e 1%. J\u00e1 os lucros das grandes empresas crescem como nunca: na banca, no 1.\u00ba semestre, oscilam entre os&nbsp;505,7% (BCP) e os 8,1% (BPI), com a CGD a registar lucros de 65,1% (485,7 M\u20ac). No setor da energia (GALP 703M\u20ac, EDP 612M\u20ac) entre os 207% e os 23,1% e no setor da distribui\u00e7\u00e3o a SONAE regista lucros no primeiro semestre do ano na ordem dos 144M\u20ac (108,7%) e a Jer\u00f3nimo Martins de 270M\u20ac (39,2%). Segundo o INE, j\u00e1 em 2020, 11,2% dos trabalhadores viviam em condi\u00e7\u00f5es de pobreza, isto \u00e9, o sal\u00e1rio era inferior em 60% \u00e0 mediana dos sal\u00e1rios dos portugueses. Nos pa\u00edses da zona euro, apesar deste cen\u00e1rio, o BCE decidiu subir as taxas de juros e, mais recentemente, a Alemanha insiste em manter as regras or\u00e7amentais europeias, isto \u00e9, o limite do d\u00e9fice nos 3% e a d\u00edvida em 60% do PIB.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53-1024x477.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6245\" width=\"840\" height=\"391\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53-1024x477.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53-300x140.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53-768x358.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53-220x103.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2022\/09\/WhatsApp-Image-2022-09-09-at-13.38.53.jpeg 1161w\" sizes=\"(max-width: 840px) 100vw, 840px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Perante este cen\u00e1rio, coloc\u00e1mos quatro perguntas a tr\u00eas economistas:<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">1. Na atual situa\u00e7\u00e3o de infla\u00e7\u00e3o galopante e lucro extraordin\u00e1rio das grandes empresas, podemos falar de crise?<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">2. Qual \u00e9 a perspetiva para os pr\u00f3ximos tempos?<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">3. A Uni\u00e3o Europeia repete solu\u00e7\u00f5es?<\/h3>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\">4. Qual \u00e9 a porta de sa\u00edda?<\/h3>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jo\u00e3o Ferreira do Amaral<\/h2>\n\n\n\n<p><em>\u201cTudo isto pode indiciar uma crise social s\u00e9ria\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Do ponto de vista do crescimento econ\u00f3mico, apesar da press\u00e3o medi\u00e1tica, n\u00e3o podemos falar de crise: o Produto Interno Bruto (ou seja, o total dos rendimentos gerados na economia) cresce a uma taxa elevada e o desemprego tem descido de forma significativa. Fala-se de crise fundamentalmente devido \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que, efectivamente, se tem acelerado para ritmos que j\u00e1 n\u00e3o se verificavam desde h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas. No entanto, a infla\u00e7\u00e3o, s\u00f3 por si, e salvo casos extraordin\u00e1rios em que o crescimento dos pre\u00e7os sai fora de qualquer controlo (a chamada hiperinfla\u00e7\u00e3o) n\u00e3o deve ser considerada uma crise econ\u00f3mica. Desde que, evidentemente, todos os rendimentos acompanhem o crescimento dos pre\u00e7os. Quando rendimentos salariais ou de pensionistas ficam para tr\u00e1s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os, como \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o actual, ent\u00e3o temos uma crise que \u00e9 mais social do que econ\u00f3mica. De uma coisa poderemos estar certos: o peso dos sal\u00e1rios no rendimento nacional neste ano de 2022 ir\u00e1 ter uma forte queda, ao mesmo tempo que o rendimento nacional aumenta, o que significa que os rendimentos n\u00e3o salariais ir\u00e3o ter um grande aumento. Tudo isto pode indiciar uma crise social s\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>\u00c9 tudo muito incerto, porque a situa\u00e7\u00e3o depende em boa parte do que suceder na Ucr\u00e2nia. Em todo o caso, \u00e9 expect\u00e1vel um crescimento das taxas de juro que ir\u00e1 afectar mais as fam\u00edlias e as empresas muito endividadas. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 certo que n\u00e3o poderia manter-se uma diferen\u00e7a t\u00e3o grande entre o crescimento dos pre\u00e7os e, por exemplo, as taxas de juro que remuneram os dep\u00f3sitos banc\u00e1rios. Esta diferen\u00e7a significa que quem tem dep\u00f3sitos na Banca est\u00e1 a perder dinheiro todos os dias, o que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel nem para a economia nem para os aforradores, em particular os pequenos aforradores, que t\u00eam poucas alternativas, para al\u00e9m dos dep\u00f3sitos, para aplica\u00e7\u00e3o das suas poupan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>J\u00e1 tinha ficado mais que evidente na crise come\u00e7ada em 2008 que a zona euro n\u00e3o \u00e9 capaz de reagir convenientemente \u00e0s crises que v\u00e3o surgindo e isso est\u00e1 mais uma vez \u00e0 vista. O que est\u00e1 errado \u00e9 a pr\u00f3pria exist\u00eancia de uma moeda \u00fanica. Cada pa\u00eds \u00e9 afectado de forma diferente por uma crise geral e portanto necessita de pol\u00edticas econ\u00f3micas pr\u00f3prias para reagir \u00e0 crise de forma adequada. Ou seja, necessita de poder accionar, em seu benef\u00edcio, instrumentos de pol\u00edtica econ\u00f3mica, como sejam a moeda e as finan\u00e7as p\u00fablicas. Isso hoje n\u00e3o acontece e a pol\u00edtica da zona euro \u00e9 a que resulta das necessidades da Alemanha, moderadas at\u00e9 certo ponto pelas posi\u00e7\u00f5es francesas e italianas. Pouco ou nenhum voto temos na mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Se o erro base \u00e9, como penso, a centraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f3mica, a sa\u00edda est\u00e1 em descentralizar essa pol\u00edtica sem preju\u00edzo de um refor\u00e7o da coopera\u00e7\u00e3o europeia que permita a um pequeno pa\u00eds ter autonomia de decis\u00e3o sem cair no isolamento. No que respeita \u00e0 moeda, h\u00e1 que substituir a moeda \u00fanica por coopera\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, da qual, ali\u00e1s, existem exemplos hist\u00f3ricos que poder\u00e3o ser inspiradores.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jo\u00e3o Rodrigues<\/h2>\n\n\n\n<p><em>\u201cAs policrises\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>O atual contexto econ\u00f3mico \u00e9 marcado pelo espetro de crises de novo tipo, por \u201cpolicrises\u201d, pela turbul\u00eancia filha da pandemia, da guerra e da m\u00edope escalada sancionat\u00f3ria ocidental, bem como dos problemas herdados por um regime neoliberal zombie, da desigualdade extrema \u00e0s altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que j\u00e1 s\u00f3 sobrevive num permanente estado de exce\u00e7\u00e3o, com medidas de emerg\u00eancia fora do consenso habitual. A atual situa\u00e7\u00e3o \u00e9 periclitantemente \u201cestagflacion\u00e1ria\u201d. Mas ao contr\u00e1rio do que aconteceu nos anos setenta, o choque sobre os custos, sobretudo na fileira energ\u00e9tica, principal respons\u00e1vel pela press\u00e3o inflacion\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 ainda acompanhado por uma intensifica\u00e7\u00e3o do conflito distributivo, dada a fraqueza dos freios e contrapesos sindicais, depois de d\u00e9cadas de ganhos do capital. As grandes empresas t\u00eam aproveitado a situa\u00e7\u00e3o, perante a complac\u00eancia ativa do poder pol\u00edtico, para aumentar as margens de lucro, assistindo-se a uma quebra dos sal\u00e1rios reais. Dada a diferen\u00e7a entre o crescimento da produtividade e a perda de poder de compra dos sal\u00e1rios, este ano, at\u00e9 ver, teremos uma transfer\u00eancia de 7,5% do rendimento do trabalho para o capital no nosso pa\u00eds. \u00c9 caso para perguntar: \u201cpolicrises\u201d para quem?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>As perspetivas para os pr\u00f3ximos tempos n\u00e3o s\u00e3o nada famosas. Em primeiro lugar, os bancos centrais, incluindo o BCE, est\u00e3o a tentar debelar a infla\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s da recessiva subida das taxas de juro, gerando desemprego para tentar conter a procura, incluindo a putativa procura salarial. Em segundo lugar, privilegiar os credores, atrav\u00e9s do aumento dos custos da d\u00edvida p\u00fablica, dificulta o investimento necess\u00e1rio, por exemplo em transportes e servi\u00e7os p\u00fablicos e em energias renov\u00e1veis, cruciais para enfrentar as policrises. Em terceiro lugar, a escalada sancionat\u00f3ria arrisca-se em si mesma a ter profundos efeitos recessivos, particularmente, nas economias europeias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>A Uni\u00e3o Europeia \u00e9 constitucionalmente incapaz de superar o neoliberalismo de forma duradoura, j\u00e1 que foi criada em Maastricht para o blindar. Basta atentar na revis\u00e3o das suspensas e desacreditadas regras or\u00e7amentais, onde tudo indica que a margem or\u00e7amental permitida ser\u00e1 m\u00ednima e concedida em troca das famosas reformas estruturais, ou seja, do aprofundamento da eros\u00e3o do Estado social e dos direitos laborais, bem como da propriedade p\u00fablica ou do controlo p\u00fablico de margens e de pre\u00e7os cruciais, uma solu\u00e7\u00e3o cada vez mais necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Um pa\u00eds endividado, com n\u00edveis de emprego e de investimento p\u00fablicos muito abaixo da m\u00e9dia dos pa\u00edses desenvolvidos, com uma resposta or\u00e7amental na pandemia igualmente med\u00edocre, tem de se posicionar de forma cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o a um combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o pelo aumento de um pre\u00e7o crucial como a taxa de juro. Ao mesmo tempo, tem de se bater pelo aumento, sem condicionalidade, da margem de manobra or\u00e7amental. A fun\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, como se demonstrou na pandemia, \u00e9 a de garantir as condi\u00e7\u00f5es para uma pol\u00edtica or\u00e7amental independente dos humores dos mercados. Mesmo sem soberania monet\u00e1ria, o pa\u00eds pode e deve usar a pol\u00edtica fiscal para taxar os lucros extraordin\u00e1rios das grandes empresas, como fazem outros pa\u00edses do euro, para garantir mais prote\u00e7\u00e3o social e investimento p\u00fablico. A prazo, n\u00e3o h\u00e1 alternativa \u00e0 recupera\u00e7\u00e3o da soberania democr\u00e1tica na economia atrav\u00e9s do controlo nacional da moeda e do cr\u00e9dito. Sem instrumentos decedentes de pol\u00edtica econ\u00f3mica, o pa\u00eds fica demasiado dependente de terceiros. \u00c9 tempo de acabar com a postura de bom aluno de mestres reconhecidamente cada vez mais med\u00edocres.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tiago Cunha<\/h2>\n\n\n\n<p><em>A crise n\u00e3o \u00e9 uma inevitabilidade!<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>1.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>O cen\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 de crise para boa parte da popula\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o \u00e9 de crise econ\u00f3mica. O crescimento da economia deve situar-se nos 6%, mas as pessoas n\u00e3o o sentem porque se prev\u00ea, tamb\u00e9m, uma quebra nos sal\u00e1rios e pens\u00f5es reais. Num quadro de crescimento econ\u00f3mico as pessoas est\u00e3o a empobrecer. Estamos num processo de brutal transfer\u00eancia de rendimentos do trabalho para o capital, plasmado nos indicadores dos lucros das grandes empresas que est\u00e3o a absorver grande parte destes ganhos. E as m\u00e9dias e pequenas empresas, tal como as pessoas, est\u00e3o a passar por grandes dificuldades. Para se evitar essa crise econ\u00f3mica, o elemento incontorn\u00e1vel \u00e9 o aumento geral dos sal\u00e1rios e das pens\u00f5es e j\u00e1 para este ano, evitando a perda de poder de compra. Por outro lado, \u00e9 preciso reequilibrar a desigual distribui\u00e7\u00e3o da riqueza entre trabalho e o capital na economia. E n\u00e3o se diga que pode provocar uma espiral inflacionista, ela est\u00e1 em andamento e tem como motor os lucros das grandes empresas. O problema n\u00e3o se ataca por via da compress\u00e3o dos sal\u00e1rios. O governo tem ainda \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o, mesmo no quadro das apertadas regras da EU, mecanismos para impor pre\u00e7os m\u00e1ximos nos bens e servi\u00e7os essenciais. Uma terceira medida \u00e9 taxar de forma extraordin\u00e1ria as empresas que t\u00eam lucros m\u00e1ximos, \u00e9 um pequeno n\u00famero de grandes empresas que controlam os mercados de forma n\u00e3o concorrencial, e imp\u00f5em a sua pol\u00edtica e as suas medidas em mercados que n\u00e3o est\u00e3o, nem suficientemente regulados, nem funcionam da forma perfeita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>Vivemos num quadro de grande incerteza, com fatores de grande volatilidade e \u00e9 dif\u00edcil fazer previs\u00f5es. Esta infla\u00e7\u00e3o tem origem distinta de fen\u00f3menos inflacionistas que ocorreram entre os anos 70 e o in\u00edcio dos 90. Neste quadro, h\u00e1 fatores especulativos patentes nos lucros do setor do petr\u00f3leo, energ\u00e9tico, da grande distribui\u00e7\u00e3o e da banca. Este aumento n\u00e3o tem subjacente um aumento de custo para estas empresas, mas um aproveitamento da situa\u00e7\u00e3o que lhes possibilitou fixar pre\u00e7os muito acima dos pre\u00e7os de custo ou em mercados concorrenciais. As respostas do Banco Central Europeu (BCE) assemelham-se a respostas a fen\u00f3menos que poderiam ser inflacionistas se tivessem outro tipo de origem. Por exemplo, a subida das taxas de juro tem implica\u00e7\u00e3o direta nas fam\u00edlias e trabalhadores, designadamente na compra de habita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Tem efeitos tamb\u00e9m na retra\u00e7\u00e3o do investimento e cria condi\u00e7\u00f5es para um crescimento menos robusto ou mesmo para situa\u00e7\u00f5es de potencial crise econ\u00f3mica. A isto junta-se a compress\u00e3o dos sal\u00e1rios, o principal motor da economia, atrav\u00e9s do consumo interno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>A forma como estes fen\u00f3menos incidem em cada um dos pa\u00edses da UE \u00e9 muito distinta e precisava de respostas distintas, de regras que se adaptassem a cada um dos pa\u00edses. Num quadro de coopera\u00e7\u00e3o europeia, que cada pa\u00eds visse respeitado seu direito soberano a decidir consoante aquilo que s\u00e3o as suas necessidades. Num pa\u00eds como o nosso, muito dependente do exterior, com uma pol\u00edtica monet\u00e1ria que foi delegada, subordinada, alienada no quadro da pol\u00edtica econ\u00f3mica e monet\u00e1ria e da perten\u00e7a ao euro estes efeitos s\u00e3o bastantes mais not\u00f3rios. O que comanda as diretrizes e as op\u00e7\u00f5es do BCE n\u00e3o \u00e9 o problema da economia nacional, \u00e9 o problema da economia alem\u00e3. Temos um BCE que funciona para os 15 pa\u00edses da Uni\u00e3o Econ\u00f3mica e Monet\u00e1ria, mas as regras que o regem s\u00e3o as de um \u00fanico pa\u00eds, a Alemanha. Isso tem efeitos negativos, de estagna\u00e7\u00e3o da nossa economia desde 2000.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong>A soberania \u00e9 fundamental. Em situa\u00e7\u00e3o de crise a resposta da UE \u00e9 o passo em frente em dire\u00e7\u00e3o ao abismo: mais federalismo, mais regras \u00fanicas, mais imposi\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds n\u00e3o pode continuar ref\u00e9m das imposi\u00e7\u00f5es de Bruxelas pelo d\u00e9fice e pela d\u00edvida. O pa\u00eds precisa de investir no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade (SNS), na Escola P\u00fablica, numa maior prote\u00e7\u00e3o social, na Cultura, na Justi\u00e7a e neste momento a riqueza que \u00e9 gerada no nosso pa\u00eds permitia-nos isso. Mais uma vez estamos no plano das redu\u00e7\u00f5es da forma como essa riqueza \u00e9 repartida, num quadro de grande desigualdade. E s\u00e3o necess\u00e1rias medidas imediatas combinadas com outras que, podendo ser imediatas, t\u00eam um efeito estrutural. \u00c9 o caso dos sal\u00e1rios e pens\u00f5es. Para inverter um rumo das duas \u00faltimas d\u00e9cadas, marcadas pela estagna\u00e7\u00e3o e um crescimento econ\u00f3mico de zero ou pr\u00f3ximo disso, \u00e9 necess\u00e1ria a devolu\u00e7\u00e3o dos direitos e dos sal\u00e1rios que, como se provou no per\u00edodo iniciado em 2015, resultou no crescimento da nossa economia, limitado, porque limitado foi esse aumento. A crise, a perda do de compra, a redu\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e dos servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o s\u00e3o uma inevitabilidade, resulta de op\u00e7\u00f5es que t\u00eam de ser invertidas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A infla\u00e7\u00e3o galopante pode atingir os 8% mas os sal\u00e1rios est\u00e3o longe de acompanhar esta subida, ao contr\u00e1rio das grandes empresas, que veem os seus lucros aumentar extraordinariamente. No setor p\u00fablico, os aumentos salariais n\u00e3o ultrapassam 1% e, no setor privado, 2,2%. As reformas ter\u00e3o aumentos apenas entre 0,24 e 1% e, j\u00e1 em 2020, 11,2% dos trabalhadores viviam em condi\u00e7\u00f5es de pobreza<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":6226,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[55],"tags":[],"coauthors":[186],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6225"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6225"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6385,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6225\/revisions\/6385"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6226"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6225"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}