{"id":6216,"date":"2022-08-05T14:32:40","date_gmt":"2022-08-05T14:32:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6216"},"modified":"2022-08-05T14:32:42","modified_gmt":"2022-08-05T14:32:42","slug":"os-desequilibrios-economicos-do-turismo-vistos-a-lupa-em-ate-amanha-mario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/08\/05\/os-desequilibrios-economicos-do-turismo-vistos-a-lupa-em-ate-amanha-mario\/","title":{"rendered":"Os desequil\u00edbrios econ\u00f3micos do turismo vistos \u00e0 lupa em \u201cAt\u00e9 amanh\u00e3, M\u00e1rio\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 1992, Portugal tinha acabado de entrar na Comunidade Econ\u00f3mica Europeia. O turismo era uma actividade que se acreditava que promoveria o crescimento econ\u00f3mico e o equil\u00edbrio social.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ano, Solveig Nordlund, realizadora sueca naturalizada portuguesa, filma \u201cAt\u00e9 Amanh\u00e3, M\u00e1rio\u201d. O turismo eclodia na ilha da Madeira. \u00c9 l\u00e1 que se passa a sua terceira longa-metragem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de um dia, e entre as suas fantasias de M\u00e1rio (Jo\u00e3o Silva), vivemos a sua rela\u00e7\u00e3o com outros mi\u00fados de rua, estrangeiros e aut\u00f3ctones. Percebemos as discrep\u00e2ncias entre os que est\u00e3o ali por lazer e os que, t\u00e3o novos, tentam sobreviver &#8211; ter\u00e3o um destino tr\u00e1gico (como Marcelo, o rapaz que entra na prostitui\u00e7\u00e3o).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Indirectamente, podemos comparar M\u00e1rio com os mi\u00fados de \u201cFilhos da Tormenta\u201d, com Bruno de \u201cLadr\u00f5es de Bicicletas\u201d (filmes de Vittorio de Sica), ou Edmund de \u201cAlemanha Ano Zero\u201d (de Roberto Rossellini). A trag\u00e9dia em \u201cAt\u00e9 Amanh\u00e3, M\u00e1rio\u201d vive-se no quotidiano do mi\u00fado que quer ser baleeiro, numa altura em que a ca\u00e7a \u00e0 baleia j\u00e1 n\u00e3o se praticava. Eis a fantasia de M\u00e1rio. M\u00e1rio sonha a dormir ou acordado: imagina que \u00e9 dono de um barco, e \u00e9 recebido, de arp\u00e3o na m\u00e3o, por v\u00e1rios mi\u00fados que lhe acenam da costa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com um pescador (V\u00edtor Norte) que M\u00e1rio estabelece maior intimidade. V\u00e3o juntos de noite \u00e0 lota; na carrinha, cantam; o homem d\u00e1-lhe dinheiro e bebem alguma coisa, depois da venda do peixe. O homem sente carinho por M\u00e1rio, trata-o como um homem, mas ele \u00e9 uma crian\u00e7a. Tudo fica progressivamente mais duro. A m\u00e3e ser\u00e1 operada; os m\u00e9dicos consideram o \u201ccaso perdido\u201d. Por\u00e9m, \u00e9 na noite seguinte, de novo na carrinha e ao lado do pescador, que termina o filme. Entre a amizade de mi\u00fado e gra\u00fado (este garante que no dia seguinte vai buscar a m\u00e3e de M\u00e1rio ao hospital), a dura realidade (precisa de um ajudante na pesca), e com M\u00e1rio imaginando-se na ca\u00e7a \u00e0 baleia. M\u00e1rio \u00e9 obrigado a crescer a cada momento da vida dura para a qual foi lan\u00e7ado. Mas nunca deixa de sonhar: e quem na imagina\u00e7\u00e3o est\u00e1 no barco de pesca a ajud\u00e1-lo na ca\u00e7a \u00e0 baleia s\u00e3o os outros mi\u00fados de rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vis\u00e3o l\u00facida sobre o crescimento do turismo<\/h2>\n\n\n\n<p>Passaram trinta anos sobre a filmagem de \u201cAt\u00e9 Amanh\u00e3, M\u00e1rio\u201d; importa salientar a vis\u00e3o l\u00facida que Nordlund tinha sobre o advento do turismo. Mais do que abonar as estruturas econ\u00f3micas, o turismo revelava a \u201coutra\u201d ilha da Madeira do in\u00edcio dos 90: o isolamento insular; a mis\u00e9ria de popula\u00e7\u00f5es para quem a actividade piscat\u00f3ria era a \u00fanica sa\u00edda; os mi\u00fados que andavam ao \u201cdeus dar\u00e1\u201d pelas ruas, vivendo de esquemas que aprendiam uns com os outros. \u201cOs Cinco\u201d do filme conhecem-se porque t\u00eam o mesmo destino: a sobreviv\u00eancia aventureira nas ruas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Solveig Nordlund articula momentos c\u00f3micos e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas com apontamentos de cr\u00edtica social, ressalvando uma profunda humanidade e empatia pelo que de belo e tr\u00e1gico acontece naquele lugar. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Solveig Nordlund articula momentos c\u00f3micos e situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas com apontamentos de cr\u00edtica social, ressalvando uma profunda humanidade e empatia pelo que de belo e tr\u00e1gico acontece naquele lugar. No Museu da Baleia, o funcion\u00e1rio e amigo de M\u00e1rio, n\u00e3o consegue arranjar um brinquedo em forma de p\u00e1ssaro. V\u00e3o juntos ter com o p\u00e1roco (Canto e Castro), que sai em busca de solu\u00e7\u00e3o. O jovem empregado, a quem o padre pede boleia aprende ingl\u00eas escutando cassetes, diz a um casal que n\u00e3o tem lista em portugu\u00eas: aquele \u00e9 um restaurante <em>\u201cinternacional\u201d<\/em>. As ruas s\u00e3o estreitas, e o tr\u00e2nsito aumenta a cada minuto que o padre permanece na loja. A confus\u00e3o de carros expande-se pela ilha. O padre sai <em>in extremis<\/em>, salva-se da multa que um pol\u00edcia estava prestes a passar com palavras \u201csantas\u201d. O rapaz volta ao restaurante e reitera aos clientes portugueses: aquele restaurante \u00e9 <em>\u201cinternacional\u201d<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">As desigualdades e o \u201cpoder\u201d<em> <\/em>do dinheiro<strong><em>\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O dinheiro comanda a sociedade: o m\u00e9dico d\u00e1 5000 escudos a M\u00e1rio, condescendente com a situa\u00e7\u00e3o d\u00e9bil da sua m\u00e3e; o rapaz do p\u00e9 boto consegue extorquir moedas aos turistas com a ajuda do empregado de um bar. Os mi\u00fados t\u00eam de levar todos os dias certa quantia para casa. Por causa disso, outro dos \u201ccinco\u201d passa frio, atirando-se \u00e0 \u00e1gua para ver se os estrangeiros atiram moedas. Um deles finge atirar um d\u00f3lar; e humilha a crian\u00e7a: <em>\u201celes t\u00eam de aprender\u201d,<\/em> diz. Um turista conta a M\u00e1rio que apanhava baleias, que escuta sem perceber, fascinado com a pequena baleia que o outro traz na camisa. O homem acaba por lha dar de presente. M\u00e1rio foge com a \u201cbaleia\u201d. N\u00e3o est\u00e1 habituado a que lhe d\u00eaem alguma coisa sem quererem algo em troca. M\u00e1rio quer dinheiro por umas flores que roubou; um casal de turistas faz a \u201ctroca\u201d; e quer tamb\u00e9m filmar aquela situa\u00e7\u00e3o. Como se a mis\u00e9ria infantil fosse um exotismo. M\u00e1rio e os outros mi\u00fados tentam apenas sobreviver no mundo cruel dos adultos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O filme foi \u201cmal visto\u201d pelo Governo Regional, que queria promover o id\u00edlio do Arquip\u00e9lago da Madeira. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O filme foi \u201cmal visto\u201d pelo Governo Regional, que queria promover o id\u00edlio do Arquip\u00e9lago da Madeira. Hoje, mais do que nunca, \u00e9 crucial olhar para filmes que, h\u00e1 trinta anos, davam j\u00e1 conta das consequ\u00eancias do crescimento do turismo: desigualdades sociais e econ\u00f3micas, falta de oportunidades iguais, e escamoteamento do fosso entre desfavorecidos e privilegiados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em quem se tornaram os M\u00e1rios que andavam pelas ruas do Funchal? Para onde nos leva o turismo desenfreado em Lisboa e em todo o pa\u00eds? Quest\u00f5es que o terno, atento e mordaz filme de Solveig Nordlund ergue ainda em 2022.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trinta anos da rodagem de \u201cAt\u00e9 amanh\u00e3, M\u00e1rio\u201d, de Solveig Nordlund, relembramos o vislumbre moderno, humano e cr\u00edtico sobre as desigualdades e a massifica\u00e7\u00e3o do turismo. <\/p>\n","protected":false},"author":81,"featured_media":6217,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[177],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6216"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/81"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6216"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6216\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6220,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6216\/revisions\/6220"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6217"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6216"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6216"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6216"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6216"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}