{"id":6197,"date":"2022-08-03T16:47:40","date_gmt":"2022-08-03T16:47:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6197"},"modified":"2022-08-03T16:47:42","modified_gmt":"2022-08-03T16:47:42","slug":"ha-tempo-no-verao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/08\/03\/ha-tempo-no-verao\/","title":{"rendered":"H\u00e1 tempo, no Ver\u00e3o."},"content":{"rendered":"\n<p>Numa das cartas escritas a Engels, Marx falava do rel\u00f3gio como sendo o primeiro aut\u00f3mato, uma m\u00e1quina que viabiliza o tempo linear, o tempo cronol\u00f3gico, que mesmo medido de forma concreta, se imp\u00f5e no abstracto enquanto propriedade: uma coisa que se tem, ou que n\u00e3o se tem. Isto s\u00e3o coisas dos adultos e tamb\u00e9m terreno de uma das mais importantes disputas entre eles e as crian\u00e7as. Elas habitam o tempo e n\u00f3s fomos aprendendo que, como o resto, esta \u00e9 apenas mais uma unidade acumul\u00e1vel, dependendo do ponto onde nos encontremos em rela\u00e7\u00e3o ao mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquilo que para n\u00f3s, adultos, se perde, se ganha, se poupa, se tem, \u00e9 para as crian\u00e7as um espa\u00e7o sem r\u00e9dea \u2013 trata-se de um privil\u00e9gio de aten\u00e7\u00e3o, este v\u00ednculo especial com o tempo, e dele resulta a percep\u00e7\u00e3o ampla de um mundo feito para brincar. \u00c9 atrav\u00e9s do tempo de brincadeira e da liberdade que este exige que as crian\u00e7as nos recordam da import\u00e2ncia de arredar o rel\u00f3gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, no Ver\u00e3o, mesmo que continuemos a ser adultos constrangidos pelo tiquetaque das coisas que t\u00eam que acontecer, esfor\u00e7amo-nos para dar tempo ao tempo \u2013 usando para isso a brincadeira como engenho.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre a praia, a escola e os espa\u00e7os verdes e de brincadeira na vizinhan\u00e7a, descobrimos novos amigos, propomos jogos maiores e mais pequenos, aprendemos uma can\u00e7\u00e3o pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas semanas passadas na praia, temos oportunidade de aproveitar o calor com os amigos, construir fortalezas de areia (quase maiores que n\u00f3s), de entrar no mar e fingir que somos peixes, \u00e0s vezes baleias, \u00e0s vezes sereias.<br>Mas quando ficamos na escola n\u00e3o nos aborrecemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Gostamos de come\u00e7ar o dia com uma reuni\u00e3o: dizemos \u201cbom dia!\u201d, reflectimos sobre o dia anterior, resolvemos colectivamente qualquer assunto pendente que alguma das crian\u00e7as sinta necessidade de explorar. Mas n\u00e3o se passa muito tempo sem que surja a vontade de irmos brincar para o parque. Ficamos por l\u00e1, perto das \u00e1rvores, de esconderijos e de passagens secretas, algumas n\u00e3o t\u00e3o secretas assim &#8211; mas ser\u00e1 que isso importa?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 tarde organizamo-nos por oficinas. S\u00e3o momentos de trabalho em grupo que permitem \u00e0s crian\u00e7as explorar novos territ\u00f3rios do conhecimento e da experi\u00eancia, mantendo a liberdade de neles se posicionarem num espa\u00e7o entre os seus pr\u00f3prios interesses e aqueles revelados pelo grupo como caminho a ser visto, cheirado, percorrido.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, desde o in\u00edcio do Ver\u00e3o, j\u00e1 pudemos perceber que, se quisermos, existem muitas formas de publicar alguma coisa que tenhamos para dizer. Dividimo-nos por grupos pequenos, explor\u00e1mos o nosso bairro e aquilo que havia pelas paredes, escolhemos um tema e debatemo-lo, dividimos tarefas, ilustr\u00e1mos, escolhemos o t\u00edtulo, fomos at\u00e9 uma oficina de impress\u00e3o manual (O Homem do Saco) para o imprimirmos e depois recort\u00e1mos, col\u00e1mos e constru\u00edmos a publica\u00e7\u00e3o. Trat\u00e1mos de fotocopi\u00e1-la e aprendemos a fazer cola para parede. Voltamos \u00e0s paredes do bairro, desta vez com alguma coisa para dizer nelas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Habitar o tempo \u00e9 tamb\u00e9m empurrar-lhe os limites sobre o que nos dizem que cabe ou n\u00e3o cabe.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Numa outra semana, tom\u00e1mos tempo para pensar de onde v\u00eam os nossos pensamentos, e procur\u00e1mos fazer sil\u00eancio suficiente para distinguir a voz que eles t\u00eam. Com a preciosa ajuda do Miguel Cardoso (poeta) pass\u00e1mos os olhos por Fernando Pessoa, a quem, pelos vistos, os poemas aconteciam, pela Sophia de Mello Breyner, a quem uma voz dentro da cabe\u00e7a lhos costumava ditar, pelo Matsuo Bash\u00f4, que de um dia no qual nada aconteceu fez um poema. E pela Ad\u00edlia Lopes que, no escuro do cinema, descal\u00e7a os sapatos.<\/p>\n\n\n\n<p>Fomos para o jardim, para ouvir e para ver. Atribu\u00edmos novas fun\u00e7\u00f5es \u00e0 cara, \u00e0 electricidade, aos trov\u00f5es, ao escuro. Depois baralh\u00e1mos e volt\u00e1mos a dar, como uma constru\u00e7\u00e3o com lego:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA pele \u00e9 para arrancar e construir uma casa<br>Um bolso \u00e9 para guardar a alegria para o dia a seguir<br>(\u2026)<br>Uma coisa que n\u00e3o serve para nada \u00e9 para deitar ao lixo<br>Ir \u00e0 lua \u00e9 para ver o mundo todo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A esta oficina ainda se juntou Susana Matos (ilustradora), que nos ajudou com a forma visual como podemos comunicar. Com t\u00e9cnicas de pop-up constru\u00edmos a capa de um livro, o nosso livro de poemas. Cham\u00e1mos as fam\u00edlias \u00e0 escola, prepar\u00e1mos limonada e lemos em conjunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Habitar o tempo \u00e9 tamb\u00e9m empurrar-lhe os limites sobre o que nos dizem que cabe ou n\u00e3o cabe.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 ao fim do Ver\u00e3o ainda haver\u00e1 tempo para passar pelos direitos humanos, a astronomia, o xadrez espalhado pelo bairro e a culin\u00e1ria, mais concretamente pela autonomia das crian\u00e7as na prepara\u00e7\u00e3o da sua comida.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabemos, como disse Baudelaire, que a crian\u00e7a se constr\u00f3i pela \u201cfaculdade de se interessar vivamente pelas coisas, mesmo pelas mais triviais em apar\u00eancia\u201d e que a experi\u00eancia infantil se realiza como reconhecimento e imers\u00e3o em tudo o que est\u00e1 ao nosso redor. O esfor\u00e7o e o compromisso, como adultos que as acompanham enquanto, com tempo, desdobram essa faculdade, \u00e9 o de lhes desimpedir caminho, afastar obst\u00e1culos, contrariar o rel\u00f3gio, sempre que poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA inf\u00e2ncia mede-se pelos sons, cheiros e olhares, antes da hora negra da raz\u00e3o crescer.\u201d \u2013 John Betjeman<\/p>\n","protected":false},"author":89,"featured_media":6198,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[185],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6197"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/89"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6197"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6197\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6202,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6197\/revisions\/6202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6198"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6197"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}