{"id":6183,"date":"2022-08-03T16:19:01","date_gmt":"2022-08-03T16:19:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6183"},"modified":"2022-12-05T16:14:23","modified_gmt":"2022-12-05T16:14:23","slug":"rankings-ou-de-que-tipo-de-sociedade-precisa-a-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/08\/03\/rankings-ou-de-que-tipo-de-sociedade-precisa-a-escola\/","title":{"rendered":"Rankings ou De que tipo de sociedade precisa a escola"},"content":{"rendered":"\n<p>Por exemplo, a ideia obscena de que a constru\u00e7\u00e3o de rankings cumpre um prop\u00f3sito de equidade ao permitir que as fam\u00edlias, todas as fam\u00edlias, possam escolher as melhores escolas para os seus filhos. Hoje \u00e9 claro que a esmagadora maioria dos alunos n\u00e3o pode escolher qualquer escola, mas uns poucos podem escolher qualquer uma. E \u00e9 claro tamb\u00e9m que algumas &#8211; poucas &#8211; escolas podem escolher todos os alunos, assumindo assim o papel de intermedi\u00e1rio num sistema de exclus\u00e3o\/privil\u00e9gio. Outro argumento, com um n\u00edvel de interesse semelhante ao anterior, afirma que as escolas menos bem posicionadas nos rankings poderiam retirar boas pr\u00e1ticas das escolas melhores posicionadas. Hoje sabemos que as pr\u00e1ticas profissionais se desenvolvem em contextos espec\u00edficos. S\u00e3o contextuais e fruto de um trabalho cooperativo entre os diferentes atores educativos. Ainda outro argumento de peso \u00e9 o de que os rankings escolares s\u00e3o fundamentais para a melhoria dos sistemas educativos. Desde 2001 que as classifica\u00e7\u00f5es na&nbsp;<em>1\u00aa e 2\u00aa liga<\/em>&nbsp;das escolas t\u00eam sofrido poucas altera\u00e7\u00f5es. Fica ent\u00e3o a quest\u00e3o: o que tem melhorado, e para quem, em aproximadamente 20 anos de rankings escolares? Com efeito, na atualidade \u00e9 cada vez menos compreens\u00edvel a exist\u00eancia de rankings escolares. Poder\u00edamos continuar com v\u00e1rios argumentos que, na ess\u00eancia, s\u00e3o descabidos. Por isso, avancemos!<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da escola moderna est\u00e1 intimamente ligada \u00e0s promessas da constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade verdadeiramente democr\u00e1tica. Nesta estrutura, a escola \u00e9 geralmente vista como parte da solu\u00e7\u00e3o, ou seja, como a institui\u00e7\u00e3o que ir\u00e1 contribuir de forma decisiva para o desenvolvimento individual e coletivo, para a prosperidade e bem-estar em sociedade. Fica dif\u00edcil perceber de que forma \u00e9 que dividir as escolas entre melhores e piores, em alunos e professores de 1\u00aa e alunos e professores de 2\u00aa poder\u00e1 contribuir para este prop\u00f3sito.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois desta pequena introdu\u00e7\u00e3o provocat\u00f3ria, propomo-nos, de forma muito resumida, abordar algumas quest\u00f5es que nos parecem fundamentais serem refletidas. Ou, pelo menos, referidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma primeira quest\u00e3o relaciona-se com a medi\u00e7\u00e3o, a quantifica\u00e7\u00e3o e os n\u00fameros. Vivemos em tempos dominados pelas estat\u00edsticas como se fossem uma radiografia do que acontece. A sedu\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros tem prevalecido sobre as reflex\u00f5es complexas acerca das realidades educativas. Os dados utilizados para a constru\u00e7\u00e3o dos rankings das escolas parecem ser objetivos, irrefut\u00e1veis, neutros e facilmente organiz\u00e1veis em rankings por n\u00edveis de desempenho e de aparente qualidade. Por\u00e9m, sobre vari\u00e1veis decididas, organizadas e interpretadas em fun\u00e7\u00e3o dos interesses das organiza\u00e7\u00f5es que as difundem. Parece que nos esquecemos dos fen\u00f3menos da reprodu\u00e7\u00e3o cultural, das diferen\u00e7as contextuais, das diferentes necessidades, etc. Tudo isto coloca uma press\u00e3o implac\u00e1vel sobre as escolas, professores e alunos, contribuindo progressivamente para uma vis\u00e3o cada vez mais m\u00edope da qualidade das escolas e dos sistemas educativos, tornando a escola, paulatinamente, parte do problema em vez de parte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, \u00e9 fundamental desconstruir a cren\u00e7a de que \u00e9 inevit\u00e1vel que nem todas as escolas tenham bons resultados e de que \u00e9 poss\u00edvel expressar a qualidade das escolas baseada em simples medidas quantitativas. Posto de outra forma: os resultados utilizados para a constru\u00e7\u00e3o dos rankings de escolas traduzem aquilo que enquanto sociedade esperamos da educa\u00e7\u00e3o? Se por um lado \u00e9 certo que a escola tem uma responsabilidade ineg\u00e1vel no desenvolvimento acad\u00e9mico, \u00e9 aqui que se esgotam as suas responsabilidades e possibilidades?<\/p>\n\n\n\n<p>Associada \u00e0 quest\u00e3o da medi\u00e7\u00e3o, surge a quest\u00e3o da compara\u00e7\u00e3o entre escolas organizada em tabelas de melhores e piores. Permitam-me a viol\u00eancia. Em 1986, Primo Levi escrevia em Os afogados e os Salvos<em>&nbsp;\u201cporque Auschwitz aconteceu pode voltar a acontecer\u201d<\/em>. A objetifica\u00e7\u00e3o de outros seres humanos \u00e9 uma possibilidade real e como Levi nos relembra, trazemo-la connosco, dentro de n\u00f3s, em vez de ser o mal que precisamos de manter \u00e0 dist\u00e2ncia. \u00c9 neste contexto que os rankings das escolas, e dos pr\u00f3prios sistemas educativos, parecem veicular a ideia de que algumas escolas e, consequentemente, alguns alunos s\u00e3o melhores do que outros e que aqueles que n\u00e3o t\u00eam o mesmo desempenho que os do topo da tabela est\u00e3o em falta, s\u00e3o menos capazes, est\u00e3o a ficar para tr\u00e1s e a atrasar a sociedade. Para continuarmos audazes na reflex\u00e3o: mesmo que tivesse um impacto negativo em certos resultados acad\u00e9micos, ou nos resultados quantitativos de alguns, n\u00e3o deveria a escola ser um local onde os estudantes pudessem conhecer outros estudantes que&nbsp;<em>normalmente&nbsp;<\/em>n\u00e3o conheceriam nas suas vidas? N\u00e3o deveriam os projetos interculturais ser contabilizados nos rankings das escolas? Como \u00e9 que a inclus\u00e3o \u00e9 contabilizada nos rankings escolares?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\">\n<p>&#8220;A grande quest\u00e3o \u00e9 se estamos a medir o que valorizamos na educa\u00e7\u00e3o, ou seja, se procuramos monitorizar se a educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 de facto a fazer o que desejamos e esperamos dela ou, como Gert Biesta nos alerta, estamos a criar uma situa\u00e7\u00e3o em que passamos a valorizar o que est\u00e1 a ser medido?&#8221; <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por fim, para terminar o in\u00edcio do nosso di\u00e1logo, valorizamos o que medimos ou medimos o que valorizamos? O argumento que temos tentado desenvolver n\u00e3o \u00e9 um argumento contra a avalia\u00e7\u00e3o externa das escolas. No nosso entendimento, esta avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para a regula\u00e7\u00e3o do trabalho que se desenvolve. Contudo, existem quest\u00f5es pertinentes sobre o que se mede, como se mede e para que se mede. A grande quest\u00e3o \u00e9 se estamos a medir o que valorizamos na educa\u00e7\u00e3o, ou seja, se procuramos monitorizar se a educa\u00e7\u00e3o est\u00e1 de facto a fazer o que desejamos e esperamos dela ou, como Gert Biesta nos alerta, estamos a criar uma situa\u00e7\u00e3o em que passamos a valorizar o que est\u00e1 a ser medido?<\/p>\n\n\n\n<p>Se nos socorrermos de Kant, existe um imperativo categ\u00f3rico de uma escola numa sociedade democr\u00e1tica: educar todas as crian\u00e7as para que possam ocupar o seu lugar na vida em democracia. Assim, reconhecendo este objetivo universal partilhado, a escola define-se como um espa\u00e7o p\u00fablico e n\u00e3o como um espa\u00e7o privado. Por outras palavras, todos somos todas as 635 escolas que aparecem nos rankings de 2022 (mesmo que n\u00e3o ordenadas por terem menos de 62 provas). Ser\u00e1 que os rankings escolares promovem a sociedade de que precisamos?<\/p>\n\n\n\n<p>Como Oscar Wild nos diz em Lady Windemere\u2019s Fan, com\u00e9dia de quatro atos sobre as boas maneiras para viver em Londres: nem tudo o que \u00e9 de valor pode ou deve ser medido, pois, conhecer o pre\u00e7o de algo \u00e9 muito diferente de saber o seu valor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem tudo est\u00e1 perdido. Temos avan\u00e7ado na discuss\u00e3o. Por crescimento, reflex\u00e3o ou vergonha, lemos cada vez com menos frequ\u00eancia argumentos que sustentam a constru\u00e7\u00e3o de rankings de escolas.<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6184,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[106],"tags":[],"coauthors":[73],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6183"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6183"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6183\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6493,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6183\/revisions\/6493"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6183"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}