{"id":6095,"date":"2022-07-08T11:22:43","date_gmt":"2022-07-08T11:22:43","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6095"},"modified":"2022-07-08T11:22:45","modified_gmt":"2022-07-08T11:22:45","slug":"casa-da-malta-de-fernando-namora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/07\/08\/casa-da-malta-de-fernando-namora\/","title":{"rendered":"Casa da Malta, de Fernando Namora"},"content":{"rendered":"\n<p>A sua escrita, quase sempre eficaz, sens\u00edvel, alicer\u00e7ada numa po\u00e9tica do inconformismo e, em termos narrativos, modelar, transfigurava a realidade s\u00f3rdida e abjecta dos anos de sombra do salazarismo, sintonizando uma aguda pecep\u00e7\u00e3o do real, numa linguagem madura, exigente e contempor\u00e2nea, que lhe permite falar nos seus romances e narrativas, como \u00e9 o caso deste\u00a0<em>Casa da Malta.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 na compreens\u00e3o, sem ced\u00eancias nem paternalismos, do mundo dos outros, mormente daqueles que s\u00e3o expurgados da sua humanidade, que o universo tem\u00e1tico de Namora se afirma, reflecte e constr\u00f3i. Com incoer\u00eancias, com contradi\u00e7\u00f5es, mas plena de vida, de sinceridade e de excepcionais qualidades narrativas, que torna a sua escrita apelativa, sedutora e capaz de captar, ainda hoje, a aten\u00e7\u00e3o de um grande n\u00famero de novos leitores. O pa\u00eds de que Namora fala nos seus livros, nomeadamente em&nbsp;<em>Casa da Malta,&nbsp;<\/em>n\u00e3o mudou assim tanto nas suas vertentes essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>No pref\u00e1cio que acompanha esta 19\u00aa. edi\u00e7\u00e3o de&nbsp;<em>Casa da Malta&nbsp;<\/em>(1\u00aa. edi\u00e7\u00e3o na&nbsp;<em>Caminho),&nbsp;<\/em>escreve o autor de&nbsp;<em>Retalhos da Vida de Um M\u00e9dico: Esse casebre de malteseria era uma n\u00f3doa no povoado. Cercavam-no, por contraste, as moradas da gente grada: o visconde, perdido num casar\u00e3o, os que tinham ido amealhar fortunas aos Brasis fabulosos e me davam \u00e0s vezes o ar de negreiros reformados, os lavradores de largos teres que disputavam ao visconde o mando dos que obedeciam para sobreviver e ainda velhas fam\u00edlias cuja \u00faltima cepa seriam aquelas senhoras piedosas, magras, que nenhum forasteiro viera desencaminhar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 deste ferrete, desta dor vi\u00fava que perpassava esse tempo portugu\u00eas, que a escrita de Namora descreve com agudo sentido do real, mesmo quando as mazelas do humano, os desv\u00e3os da vida, percorrem o seu discurso \u2013 as f\u00edstulas que emergem do pesadelo, e os homens comuns, com os seus medos e incoer\u00eancias face ao estupor, que povoam esta narrativa, a v\u00e1rios t\u00edtulos not\u00e1vel, reconduz a nossa fic\u00e7\u00e3o para os territ\u00f3rios da lisura, da an\u00e1lise conjuntiva de uma peculiar atmosfera, das&nbsp;<em>agrura<\/em>&nbsp;dum tempo agrilhoado que, mais do que incidindo apenas nas persecut\u00f3rias investidas sobre um heroico grupo de resistentes, se exercia tentacular, claustrof\u00f3bica, sobre o cidad\u00e3o comum. \u00c9 das veredas do medo e da ignom\u00ednia, tamb\u00e9m da esperan\u00e7a, dos pontos de fuga ao absurdo, que este texto, nos fala de modo irrefut\u00e1vel. Mais uma reedi\u00e7\u00e3o das&nbsp;<em>Obras de Fernando Namora,&nbsp;<\/em>sob a direc\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Manuel Mendes que, obviamente, saudamos.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Namora, por nascimento e viv\u00eancia, possu\u00eda um profundo conhecimento das classes trabalhadoras, e transporta esses saberes, essa feraz experi\u00eancia, para impregnar de verosimilhan\u00e7a as personagens que habitam os seus textos.<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":6096,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6095"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6095"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6095\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6098,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6095\/revisions\/6098"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6096"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6095"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6095"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6095"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6095"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}