{"id":6074,"date":"2022-07-08T10:58:09","date_gmt":"2022-07-08T10:58:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=6074"},"modified":"2022-09-15T10:55:14","modified_gmt":"2022-09-15T10:55:14","slug":"eleitores-escolhem-petro-e-desafiam-narco-regime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2022\/07\/08\/eleitores-escolhem-petro-e-desafiam-narco-regime\/","title":{"rendered":"Eleitores escolhem Petro e desafiam narco-regime"},"content":{"rendered":"\n<p>Para reciclar o passado, apagou da sua identidade um nome que ainda hoje \u00e9 visto como maldito na hist\u00f3ria de v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina: United Fruit Company. A obra maestra de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Cem Anos de Solid\u00e3o, internacionalizou um dos epis\u00f3dios mais sangrentos da Col\u00f4mbia quando, em 1928, 28 mil trabalhadores das planta\u00e7\u00f5es de bananas desta companhia norte-americana decidiram iniciar a mais longa greve alguma vez feita naquele pa\u00eds at\u00e9 ao momento. No dia 5 de dezembro, o governo de Miguel Abad\u00eda M\u00e9ndez mandou avan\u00e7ar as tropas sobre os grevistas e nos dias seguintes o pr\u00f3prio embaixador dos Estados Unidos admitia haver cerca de mil trabalhadores assassinados.<\/p>\n\n\n\n<p>Este pequeno perfil hist\u00f3rico de uma \u00fanica empresa estrangeira na Col\u00f4mbia mostra o grau de viol\u00eancia num pa\u00eds em que os grandes grupos econ\u00f3micos e financeiros nunca deixaram de recorrer \u00e0 for\u00e7a para defender o seu modelo de sociedade. Em 1958, foi assassinado Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n, candidato presidencial com um programa democr\u00e1tico e popular, e o mais bem posicionado para ganhar as elei\u00e7\u00f5es. Nesse mesmo dia, a popula\u00e7\u00e3o protagonizou uma revolta que levou a uma guerra civil que acabou por forjar a gera\u00e7\u00e3o que fundou hist\u00f3ricas guerrilhas como as For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (FARC) e o Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (ELN).<\/p>\n\n\n\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia pol\u00edtica como resposta s\u00f3 se pode entender se se perceber que na Col\u00f4mbia as oposi\u00e7\u00f5es foram sempre alvo de exterm\u00ednio por parte das elites e que esse facto n\u00e3o \u00e9 uma triste mem\u00f3ria de um passado long\u00ednquo mas uma realidade que todavia persiste. H\u00e1 um ano, durante os protestos que pararam o pa\u00eds e que geraram condi\u00e7\u00f5es para a in\u00e9dita vit\u00f3ria de um candidato progressista, apareceram peda\u00e7os de corpos de opositores em v\u00e1rias partes do pa\u00eds e alguns representantes pol\u00edticos e sindicais anunciaram o ex\u00edlio devido a amea\u00e7as de morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00faltima metade do s\u00e9culo XX e as primeiras d\u00e9cadas deste s\u00e9culo mostram que a viol\u00eancia estatal e paramilitar est\u00e1 absolutamente normalizada. Segundo o El Pa\u00eds, 8 mil colombianos foram assassinados durante os governos de \u00c1lvaro Uribe, entre 2002 e 2010. Os dados s\u00e3o esmagadores se comparados com o n\u00famero de assassinados e desaparecidos durante a ditadura de Pinochet. No Chile, em 17 anos, foram executadas 3200 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a Col\u00f4mbia \u00e9 vista por grande parte dos pa\u00edses do mundo como tendo um regime democr\u00e1tico, entre 1988 e 1990, s\u00f3 do partido Uni\u00e3o Patri\u00f3tica, foram assassinados dois candidatos presidenciais, 5 deputados, 11 deputados regionais, 8 presidentes de c\u00e2mara e 109 vereadores. No total, 4153 militantes dessa organiza\u00e7\u00e3o foram assassinados. Muitos optaram pelo ex\u00edlio e outros por pegar em armas e juntar-se \u00e0s diferentes guerrilhas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Vencer o terror estatal<\/h2>\n\n\n\n<p>A vit\u00f3ria da candidatura presidencial de Gustavo Petro e Francia M\u00e1rquez \u00e9 o resultado do cansa\u00e7o generalizado com as pol\u00edticas conservadoras das \u00faltimas d\u00e9cadas num pa\u00eds considerado como o maior aliado dos Estados Unidos no continente. Com um dos mais elevados \u00edndices de desigualdades sociais, a Col\u00f4mbia enfrentou no \u00faltimo ciclo pol\u00edtico encabe\u00e7ado por Iv\u00e1n Duque, pupilo de \u00c1lvaro Uribe, um recrudescimento da viol\u00eancia. A falta de vontade em cumprir os acordos de paz assinados entre as FARC e o governo foi, desde logo, um sinal do que estava para vir. Em apenas cinco anos, entre 2016 e 2021, pelo menos 904 l\u00edderes sociais e 276 ex-combatentes das FARC foram assassinados, de acordo com um relat\u00f3rio da Jurisdi\u00e7\u00e3o Especial para a Paz (JEP).<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de perspectivas dentro de um regime com profundas liga\u00e7\u00f5es ao narcotr\u00e1fico e que serve, como em 1928, de tropa de choque dos grandes grupos econ\u00f3micos e financeiros, espoletou uma onda de protestos e mobiliza\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds. Para al\u00e9m do contexto continental em que estas mobiliza\u00e7\u00f5es se repetiram em v\u00e1rios pa\u00edses, que se traduziram em mudan\u00e7as eleitorais (Chile, Peru e Bol\u00edvia) nalguns deles, h\u00e1 vastos territ\u00f3rios dentro da pr\u00f3pria Col\u00f4mbia onde o Estado n\u00e3o existe. As popula\u00e7\u00f5es vivem abandonadas, desligadas do poder central, muitas vezes amea\u00e7adas por grupos armados, o que explica os n\u00fameros impressionantes de deslocados por causa da guerra. Apesar do acordo de paz, a Col\u00f4mbia continuava a ser, em 2019, o pa\u00eds do mundo com mais deslocados internos. Em 2017, eram 7,7 milh\u00f5es de pessoas, de acordo com um relat\u00f3rio da Ag\u00eancia da ONU para os Refugiados (ACNUR). Mesmo com a violenta guerra na S\u00edria que provocou uma crise de refugiados internos e externos, a Col\u00f4mbia encabe\u00e7ou sempre esta lista. Em 2018, aos 7,7 milh\u00f5es de pessoas somaram-se mais 30.500 deslocados.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O dif\u00edcil repto de governar a Col\u00f4mbia<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 2019, o New York Times revelava que o respons\u00e1vel pelo ex\u00e9rcito da Col\u00f4mbia, Nicacio Mart\u00ednez Espinel, ordenara \u00e0s suas tropas que duplicassem o n\u00famero de guerrilheiros e criminosos mortos e capturados, repetindo a estrat\u00e9gia de meados da d\u00e9cada de 2000 daquilo que ficou conhecido como falsos positivos. Ent\u00e3o, o esc\u00e2ndalo rebentou quando v\u00e1rios familiares denunciaram que militares tinham assassinado civis para apresent\u00e1-los como guerrilheiros ca\u00eddos em combate. Descobriu-se ent\u00e3o que as for\u00e7as armadas premiavam os soldados que mais baixas conseguissem em combate. V\u00e1rios relatos da \u00e9poca na imprensa denunciaram que muitos deles eram jovens de bairros pobres aliciados para supostas entrevistas de emprego das quais n\u00e3o voltavam. Os corpos apareciam noutras zonas da Col\u00f4mbia como sendo guerrilheiros abatidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A conquista eleitoral por parte de Gustavo Petro, com o apoio da esmagadora maioria das for\u00e7as de esquerda, representa um avan\u00e7o in\u00e9dito num pa\u00eds que ainda precisa percorrer um longo caminho para se democratizar. Independente das an\u00e1lises de fundo sobre o programa eleitoral e o menor ou maior grau de compromisso do ex-guerrilheiro e autarca de Bogot\u00e1 com os trabalhadores e a popula\u00e7\u00e3o colombiana, esta vit\u00f3ria n\u00e3o pode ser lida fora deste contexto. Vai ser, ali\u00e1s, um desafio para o bin\u00f3mio Petro-M\u00e1rquez governar com um Estado profundamente infiltrado por for\u00e7as reaccion\u00e1rias e com liga\u00e7\u00f5es ao paramilitarismo e ao narcotr\u00e1fico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2012, o Minist\u00e9rio P\u00fablico colombiano anunciou a reabertura de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o financiamento a grupos paramilitares pela Chiquita International Brands. Em 1990, a empresa norte-americana tinha decidido fazer aquilo a que agora se chama rebranding. <\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":6075,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6074"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6074"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6177,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6074\/revisions\/6177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6075"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6074"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6074"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6074"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=6074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}